sábado, 5 de abril de 2008

Parte 2 - A Rosa do Povo - Carlos Drummond de Andrade

NOITE NA REPARTIÇÃO
O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Papel,
respiro-te na noite de meu quarto,
no sabão passas a meu corpo, na água te bebo.
Até quando, sim, até quando
te provarei por única ambrosia?
Eu te amo e tu me destróis,
abraço-te e me rasgas,
beijo-te, amo-te, detesto-te, preciso de ti, papel, papel, papel!
Ingrato, lês em mim sem me decifrares.
O corpo de meu filho estava amortalhado em
papel,
em papel dormiam as roupas e brinquedos, em papel os doces
do casamento. Em grandes pastas os rios, os caminhos
se deixam viajar, e a diligência roda
num chão fofo, azul e branco, de papel escrito.
Basta!
Quero carne, frutas, vida acesa,
quero rolar em fêmeas, ir ao mercado, ao Araguaia, ao amor.
Quero pegar em mão de gente, ver corpo de gente,
falar língua de gente, obliviar os códigos,
quero matar o DASP, quero incinerar os arquivos de amianto.
Sou um homem, ou pelo menos quero ser um deles!
O PAPEL:
Tu te queixas...
Distrais-te na queixa e a mágoa que exalasé perfume que te unge, flor que te acarinha.Dissolves-te na queixa, e tornado incenso, halo, pazte sentes bem feliz enquanto eu sem consoloespero tua brutalidadesem a qual não vivo nem sou.Teu escravo, isto sim, tua coisa calada,teu servo branco, tapete onde passeias e compões.Tu me fazes sofrer, bicho implacável mais que a onçao é para o galho que pisa.
Por que não sou sem ti? Por que não existo, como as árvores,
[por conta própria?Sou apenas papel, e teu misterioso poderme oprime e suja.E te revoltas...
Quisera dizer-te nomes feios independente de tua mão.Que as palavras brotassem em mim, formigas no tronco,moscas no ar; viessem para fora em caracteres ásperos,crescessem, casas e exércitos, e te esmagassem.Homenzinho porco, vilão amarelo e cardíaco!(Avança para o burocrata, que se protege atrás da porta.)
A PORTA:
De tanto abrir e fechar perdi a vergonha.
Estou exausta, cética, arruinada.
Discussões não adiantam, porta é porta.
Perdi também a fé, e por economia
irão, quem sabe, me transformar em janela
de onde a virgem
enfrenta a noite
e suspira.
Seu ai de dentifrício americano cortará o céu
e me salvará.
Talvez me tornem ainda gaveta de segredos,
bolsa, calça de mulher, carteira de identidade,
simples alecrim, alga ou pedra.
Sim: é melhor pedra.
Dói nos outros, em si não.
Uma pedra no coração.
A ARANHA:
Chega!
Espero que não me queiras nascer um simples vaga-lume.
Fica quieta, me deixa subir
e fazer no teto um lustre, uma rosa.
Sou aranha-tatanha, preciso viver.
A vida é dura, os corvos não esperam,
ouço os sinos da noite, vejo os funerais,
me sinto viúva, regresso à Inglaterra,
a aranha é o mais triste dos seres vivos.
O OFICIAL ADMINISTRATIVO.
Depois de mim, é óbvio.
Sou o número um — o triste dos tristíssimos.
A outros o privilégio
de embriagar-se. Non possumus.
A GARRAFA DE UÍSQUE:
Mão pode?
O GARRAFÃO DE CACHAÇA:Mao pode por quê?
O COQUETEL.
Experimenta. Sou doce. Sou seco.
TODOS OS ÁLCOOIS:
— Me prova! me prova!É a festa do rei!É de graça! de graça!Me bebe! me bebe!
O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Mas se eu não sei beber. Nunca aprendi.
O PAPEL:
Ele não sabe que o artigo 14faculta pileques de gim e conhaque;mal sabe ele que o artigo 18autoriza porres até de absinto;como ignora que o artigo 40manda beber fogo, cicuta, querosene;Que por motivo de força maiorcobre derretido se pode sorver;se pode chegar ébrio na repartição,se pode insultar o ícone da parede,encher de vermute o tinteiro pálido,ensopar em genebra velhos decretose nos casos tais e em certas condições...Ele não sabe.
ATRACA:
Que burro.
OS ÁLCOOIS:
Sua alma sua palma
seu tédio seu epicédio
sua fraqueza sua condenação.
Somos o cristal, o mito, a estrela,
em nós o mundo recomeça,
as contradições beijam-se a boca,
o espesso conduz ao sutil.
Somos a essência, o logos, o poema.
Brandy anisette kümmel nuvens-azuis
cascata de palavras...
A ARANHA:
Não me interessa.
O OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Para beber é preciso amar.Sinto-me tarde para aprender.
o papel
Ele não sabe que a paixão amor
segundo reza o artigo 90...
ATRACA
Ê uma zebra.
O TELEFONE
Amor?
Através de mim os corpos se amam,
alguns se falam em silêncio,
outros chamam e não agüentamo peso e o amargor da voz.Inventaram-me para negócios,casos de doença e talvez de guerra.Mas fui derivando para o amor.Como sofro! Todas as doresescorrem pelo bocal,deixam apenas saliva...Cuspo de amor fingindo lágrimas.
A TRAÇA:
Namorar na hora do expediente!
0 OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Não resolve. Nada resolve.O mesmo revólver resolverá?Amor e morte são certidões,fichas...
A TRAÇA:
Despachos interlocutórios.
A ARANHA:
Lavrados na minha teia.
A VASSOURA ELÉTRICA:
Senhores deputados, desculpem. Sinto que é hora de varrer.(Põe-se a varrer furiosamente, aporta cai com um gemido, asgarrafas partem-se, escorrem líquidos de oitenta cores. OOficial administrativo tira os processos da mesa da direita,Jogando fora o processo de cima e colocando os demais na"tesa da esquerda. Em seguida, retira-os desta última e volta a
depositá-los na mesa da direita, sempre atirando fora o volumeque estiver por cima. E assim infinitamente. Do garrafão decachaça desprende-se uma pomba, e paira no meio da sala,banhada em luz macia.)
A POMBA:
Papel, homem, bichos, coisas, calai-vos.Trago uma palavra quase de amor, palavra de perdão.Quero que vos junteis e compreendais a vida.Por que sofrerás sempre, homem, pelo papel que adoras?A carta, o ofício, o telegrama têm suas secretas consolações.Confissões difíceis pedem folha branca.Não grites, não suspires, não te mates: escreve.Escreve romances, relatórios, cartas de suicídio, exposições de
[motivos,mas escreve. Não te rendas ao inimigo. Escreve memórias,
[faturas.E por que desprezas o homem, papel, se ele te fecunda com
dedos sujos mas dolorosos?Pensa na doçura das palavras. Pensa na dureza das palavras.Pensa no mundo das palavras. Que febre te comunicam. Que
[riqueza.Mancha de tinta ou gordura, em todo caso mancha de vida.Passar os dedos no rosto branco... não, na superfície branca.Certos papéis são sensíveis, certos livros nos possuem.Mas só o homem te compreende. Acostuma-te, beija-o.Porta decaída, ergue-te, serve aos que passam.Teu destino é o arco, são as bênçãos e consolações para todos.
Pequena aranha pessimista, sei que também tens direito ao
[idílio.
Vassoura, traça, regressai ao vosso comportamento essencial.
Telefone, já és poesia.
Preto e patético, fica entre as coisas.
Que cada coisa seja uma coisa bela.
O PAPEL. A VASSOURA. OS PROCESSOS. A PORTA.OS CACOS DE GARRAFA.
surpresos:
Uma coisa bela?...
A pomba, no auge do entusiasmo, tornando-se, de branca,
rosada:
Uma coisa bela! uma coisa justa!
ATRACA:
Precisarei adaptar-me...Só roerei belas caligrafias.
CORO EM TORNO DO OFICIAL ADMINISTRATIVO:
Uma coisa bela. Uma coisa justa.
O oficial administrativo soergue o busto, suas vestes cinzentastombam, aparece de branco, luminoso, ganha subitamente acondição humana:Uma coisa bela?!...





MORTE NO AVIÃO
Acordo para a morte.Barbeio-me, visto-me, calço-me.É meu último dia: um diacortado de nenhum pressentimento.Tudo funciona como sempre.Saio para a rua. Vou morrer.
Não morrerei agora. Um diainteiro se desata à minha frente.Um dia como é longo. Quantos passosna rua, que atravesso. E quantas coisasno tempo, acumuladas. Sem reparar,sigo meu caminho. Muitas facescomprimem-se no caderno de notas.
Visito o banco. Para que
esse dinheiro azul se algumas horas
mais, vem a policia retirá-lo
do que foi meu peito e está aberto?
Mas não me vejo cortado e ensangüentado.
Estou limpo, claro, nítido, estivai.
Não obstante caminho para a morte.
Passo nos escritórios. Nos espelhos,
nas mãos que apertam, nos olhos míopes, nas bocas
que sorriem ou simplesmente falam eu desfilo.
Não me despeço, de nada sei, não temo:
a morte dissimula
seu bafo e sua tática.
Almoço. Para quê? Almoço um peixe em ouro e creme.
É meu último peixe em meu último
garfo. A boca distingue, escolhe, julga,
absorve. Passa música no doce, um arrepio
de violino ou vento, não sei. Não é a morte.
É o sol. Os bondes cheios. O trabalho.
Estou na cidade grande e sou um homemna engrenagem. Tenho pressa. Vou morrer.Peço passagem aos lentos. Não olho os cafésque retinem xícaras e anedotas,como não olho o muro do velho hospital em sombra.Nem os cartazes. Tenho pressa. Compro um jornal. É pressa,embora vá morrer.
O dia na sua metade já rota não me avisa
que começo também a acabar. Estou cansado.
Queria dormir, mas os preparativos. O telefone.
A fatura. A carta. Faço mil coisas
que criarão outras mil, aqui, além, nos Estados Unidos.
Comprometo-me ao extremo, combino encontrosa que nunca irei, pronuncio palavras vãs,minto dizendo: até amanhã. Pois não haverá.
Declino com a tarde, minha cabeça dói, defendo-me,
a mão estende um comprimido: a água
afoga a menos que dor, a mosca,
o zumbido... Disso não morrerei: a morte engana,
como um jogador de futebol a morte engana,
como os caixeiros escolhe
meticulosa, entre doenças e desastres.
Ainda não é a morte, é a sombra
sobre edifícios fatigados, pausa
entre duas corridas. Desfalece o comércio de atacado,
vão repousar os engenheiros, os funcionários, os pedreiros.
Mas continuam vigilantes os motoristas, os garçons,
mil outras profissões noturnas. A cidade
muda de mão, num golpe.
Volto à casa. De novo me limpo.
Que os cabelos se apresentem ordenados
e as unhas não lembrem a antiga criança rebelde.
A roupa sem pó. A mala sintética.
Fecho meu quarto. Fecho minha vida.
O elevador me fecha. Estou sereno.
Pela última vez miro a cidade.Ainda posso desistir, adiar a morte,não tomar esse carro. Não seguir para.Posso voltar, dizer: amigos,esqueci um papel, não há viagem,ir ao cassino, ler um livro.
Mas tomo o carro. Indico o lugaronde algo espera. O campo. RefletoresPasso entre mármores, vidro, aço cromado.Subo uma escada. Curvo-me. Penetrono interior da morte.
A morte dispôs poltronas para o conforto
da espera. Aqui se encontram
os que vão morrer e não sabem.
Jornais, café, chicletes, algodão para o ouvido,
pequenos serviços cercam de delicadeza
nossos corpos amarrados.
Vamos morrer, já não é apenas
meu fim particular e limitado,
somos vinte a ser destruídos.
morreremos vinte,
vinte nos espatifaremos, é agora.
Ou quase. Primeiro a morte particular,
restrita, silenciosa, do indivíduo.
Morro secretamente e sem dor,
para viver apenas como pedaço de vinte,
e me incorporo todos os pedaços
dos que igualmente vão perecendo calados.
Somos um em vinte, ramalhete
de sopros robustos prestes a desfazer-se.
E pairamos,
frigidamente pairamos sobre os negóciose os amores da região.Ruas de brinquedo se desmancham,luzes abafam; apenascolchão de nuvens, morros se dissolvem,apenas
um tubo de frio roça meus ouvidos,um tubo que se obtura: e dentroda caixa iluminada e tépida vivemosem conforto e solidão e calma e nada.
Vivo
meu instante final e é como
se vivesse há muitos anos
antes e depois de hoje,
uma continua vida irrefreável,
onde não houvesse pausas, sincopes, sonos,
tão macia na noite é esta máquina e tao facilmente ela corta
blocos cada vez maiores de ar.
Sou vinte na máquina
que suavemente respira,
entre placas estelares e remotos sopros de terra,
sinto-me natural a milhares de metros de altura,
nem ave nem mito,
guardo consciência de meus poderes,
e sem mistificação eu vôo,
sou um corpo voante e conservo bolsos, relógios, unhas,
ligado à terra pela memória e pelo costume dos músculos,
carne em breve explodindo.
Ó brancura, serenidade sob a violênciada morte sem aviso prévio,
cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo
[atmosférico,golpe vibrado no ar, lamina de ventono pescoço, raiochoque estrondo fulguraçãorolamos pulverizadoscaio verticalmente e me transformo em noticia.






DESFILE






O rosto no travesseiro,escuto o tempo fluindono mais completo silêncio.Como remédio entornadoem camisa de doente;como na penugemde braço de namorada;como vento no cabelo,fluindo: fiquei mais moço.Já não tenho cicatriz.Vejo-me noutra cidade.Sem mar nem derivativo,o corpo era bem pequenopara tanta insubmissão.E tento fazer poesia,queimar casas, me esbaldar,
nada resolve: mas tudose resolveu em dez anos(memórias do smoking preto)O tempo fluindo: passosde borracha no tapete,lamber de língua de cãona face: o tempo fluindo.Tão frágil me sinto agora.A montanha do colégio.Colunas de ar fugiamdas bocas, na cerração.Estou perdido na névoa,na ausência, no ardor contidoO mundo me chega em cartas.A guerra, a gripe espanhola,descoberta do dinheiro,primeira calça comprida,sulco de prata de Halley,despenhadeiro da infância.Mais longe, mais baixo, vejouma estátua de meninoou um menino afogado.Mais nada: o tempo fluiu.No quarto em forma de túnela luz veio sub-reptícia.Passo a mão na minha barba.Cresceu. Tenho cicatriz.E tenho mãos experientes.Tenho calças experientes.Tenho sinais combinados.Se eu morrer, morre comigoum certo modo de ver.Tudo foi prêmio do tempoe no tempo se converte.Pressinto que ele ainda flui.Como sangue; talvez água
de rio sem correnteza.Como planta que se alongaenquanto estamos dormindo.Vinte anos ou pouco mais,tudo estará terminado.O tempo fluiu sem dor.O rosto no travesseiro,fecho os olhos, para ensaio.




CONSOLO NA PRAIA
Vamos, não chores...A infância está perdida.A. mocidade esta perdida.Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.O segundo amor passou.O terceiro amor passou.Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.Não tentaste qualquer viagem.Não possuis casa, navio, terra.Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,em voz mansa, te golpearam.Nunca, nunca cicatrizam.Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.A sombra do mundo erradomurmuraste um protesto tímido.Mas virão outros.
Tudo somado, deviasprecipitar-te, de vez, nas águas.Estás nu na areia, no vento...Dorme, meu filho.






RETRATO DE FAMÍLIA
Este retrato de famíliaestá um tanto empoeirado.Já não se vê no rosto do paiquanto dinheiro ele ganhou.
Nas mãos dos tios não se percebemas viagens que ambos fizeram.A avó ficou lisa, amarela,sem memórias da monarquia.
Os meninos, como estão mudados.O rosto de Pedro é tranqüilo,usou os melhores sonhos.E João não é mais mentiroso.
O jardim tornou-se fantástico.As flores são placas cinzentas.E a areia, sob pés extintos,é um oceano de nevoa.
No semicírculo das cadeirasnota-se certo movimento.As crianças trocam de lugar,mas sem barulho: é um retrato.
Vinte anos é um grande tempo.Modela qualquer imagem.Se uma figura vai murchando,outra, sorrindo, se propõe.
Esses estranhos assentados,meus parentes? Não acredito.São visitas se divertindonuma sala que se abre pouco.
Ficaram traços da famíliaperdidos no jeito dos corpos.Bastante para sugerirque um corpo é cheio de surpresas.
A moldura deste retratoem vão prende suas personagens.Estão ali voluntariamente,saberiam — se preciso — voar.
Poderiam sutilizar-seno claro-escuro do salão,ir morar no fundo dos móveisou no bolso de velhos coletes.
A casa tem muitas gavetase papéis, escadas compridas.Quem sabe a malícia das coisas,quando a matéria se aborrece?
O retrato não me responde,ele me fita e se contemplanos meus olhos empoeirados.E no cristal se multiplicam
os parentes mortos e vivos.Já não distingo os que se foramdos que restaram. Percebo apenasa estranha idéia de família
viajando através da carne.

INTERPRETAÇÃO DE DEZEMBRO
É talvez o meninosuspenso na memória.Duas velas acesasno fundo do quarto.E o rosto judaicona estampa, talvez.
O cheiro do fogãovário a cada panela.São pés caminhandona neve, no sertãoou na imaginação.
A boneca partidaantes de brincada,também uma rodarodando no jardim,e o trem de ferropassando sobre mimtão leve: não me esmaga,antes me recorda.
É a carta escritacom letras difíceis,posta num correiosem selo e censura.A janela abertaonde se debruçamolhos caminhantes,olhos que te pedeme não sabes dar.
O velho dormindona cadeira imprópria.O jornal rasgado.O cão farejando.A barba andando.O bolo cheirando.O vento soprando.E o relógio inerte.
O cântico de missamais do que abafado,numa rua brancao vestido brancorevoando ao frio.
O doce escondido,o livro proibido,o banho frustrado,o sonho do bailesobre chão de águaou aquela viagemao sem-fim do tempolá onde não chegaa lei dos mais velhos.
É o isolamentoem frente às castanhas,a zona de pasmona bola de som,a mancha de vinhona toalha bêbeda,desgosto de quinhentasbocas engolindofalsos caramelosainda orvalhadosdo pranto das ruas.
A cabana ocana terra sem música.O silêncio interessadono país das formigas.Sono de lagartosque não ouvem o sino.Conversa de peixessobre coisas líquidas.São casos de aranhaem luta com mosquitos.Manchas na madeiracoitada e apodrecida.
Usura da pedraem lento solilóquio.A mina de micae esse caramujo.A noite naturale não encantada.Algo irredutívelao sopro das lendasmas incorporadoao coração do mito.
É o menino em nósou fora de nósrecolhendo o mito.





COMO UM PRESENTE
Teu aniversário, no escuro,não se comemora.
Escusa de levar-te esta gravata.
Já não tens roupa, nem precisas.
Numa toalha no espaço há o jantar,
mas teu jantar é silêncio, tua fome não come.
Não mais te peço a mão enrugadaPara beijar-lhe as veias grossas.Nem procuro nos olhos estriadosaquela interrogação: está chegando?
Em verdade paraste de fazer anos.Não envelheces. O último retratovale para sempre. És um homem cansadomas fiel: carteira de identidade.
Tua imobilidade é perfeita. Embora a chuva,o desconforto deste chão. Mas sempre amasteo duro, o relento, a falta. O frio sente-seem mim, que te visito. Em ti, a calma.
Como compraste calma? Não a tinhas.Como aceitaste a noite? Madrugavas.Teu cavalo corta o ar, guardo uma esporade tua bota, um grito de teus lábios,sinto em mim teu copo cheio, tua faca,tua pressa, teu estrondo... encadeados.
Mas teu segredo não descubro.
Não está nos papéis
do cofre. Nem nas casas que habitaste.
No casarão azul
vejo a fieira de quartos sem chave, ouço teu passo
noturno, teu pigarro, e sinto os bois
e sinto as tropas que levavas pela Mata
e sinto as eleições (teu desprezo) e sinto a Câmara
e passos na escada, que sobem,
e soldados que sobem, vermelhos,
e armas que te vão talvez matar,
mas que não ousam.
Vejo, no rio, uma canoa,
nela três homens.
"Inda que mal pergunte, o Coronel sabe nadar?
Porque esta canoa, louvado Deus, pode virar,
e sua criação nunca mais que o senhor há de encontrar."
Tua mão saca do bolso uma coisa. Tua voz vai à frente.
"Coronel, me desculpe, não se pode caçoar?"
Vejo-te mais longe. Ficaste pequeno.
impossível reconhecer teu rosto, mas sei que és tu.
Vem da névoa, das memórias, dos baús atulhados,
da monarquia, da escravidão, da tirania familiar.
És bem frágil e a escola te engole.
Faria de ti talvez um farmacêutico ranzinza, um doutor
[confuso.Para começar: uma dúzia de bolos!Quem disse?
Entraste pela porta, saíste pela janela— conheceu, seu mestre? — quem quiser que conte outra,mas tu ganhavas o mundo e nele aprenderias tua sucinta
[gramática,a mão do mundo pegaria de tua mão e desenharia tua letra
[firme,o livro do mundo te entraria pelos olhos e te imprimiria sua
[completa e clara ciência,mas não descubro teu segredo.
É talvez um erro amarmos assim nossos parentes.
A identidade do sangue age como cadeia,
fora melhor rompê-la. Procurar meus parentes na Ásia,
onde o pão seja outro e não haja bens de família a preservar.
Por que ficar neste município, neste sobrenome?
Taras, doenças, dívidas; mal se respira no sótão.
Quisera abrir um buraco, varar o túnel, largar minha terra,
passando por baixo de seus problemas e lavouras, da eterna
[agência do correio,[e inaugurar novos antepassados em uma nova cidade.Quisera abandonar-te, negar-te, fugir-te,mas curioso:já não estás, e te sinto,E tanto me falas, e te converso.E tanto nos entendemos, no escuro,no pó, no sono.
E pergunto teu segredo.
Não respondes. Não o tinhas.
Realmente não o tinhas, me enganavas?
Então aquele maravilhoso poder de abrir garrafas sem
[saca-rolha,de desatar nós, atravessar rios a cavalo, assistir, sem chorar,
[morte de filho,expulsar assombrações apenas com teu passo duro,o gado que sumia e voltava, embora a peste varresse as
[fazendas,o domínio total sobre irmãos, tios, primos, camaradas»
[caixeiros,[fiscais do governo, beatas, padres, médicos,[mendigos, loucos mansos, loucos agitados,[animais, coisas:então não era segredo?
E tu que me dizes tantodisso não me contas nada.
Perdoa a longa conversa.Palavras tão poucas, antes!É certo que intimidavas.
Guardavas talvez o amorem tripla cerca de espinhos.
Já não precisas guardá-lo.No escuro em que fazes anos,no escuro,é permitido sorrir.





RUA DA MADRUGADA
A chuva pingando
desenterrou meu pai.
Nunca o imaginara
assim sepultado
ao peso dos bondes
em rua de asfalto,
Palmeiras gigantes balouçando na praia
e uma voz de sono
a alisar-me o cabelo
de onde escorrem músicas,
dinheiro perdido,
confissões exaustas,
fichas, copos, pérolas
Sabê-lo exposto
a esse bafo úmido
que vem dos recifes
e bate na cara,
desejar amá-lo
sem qualquer disfarce,
cobri-lo de beijos, flores, passarinhos,
corrigir o tempo,
passar-lhe o calor
de um lento carinho
maduro e recluso,
confissões exaustas
e uma paz de lã.
Sentir-me tão pobre
de bens naturais,
querer transportá-lo
ao velho sofá
da antiga fazenda,
mas pingos de chuva
mas placas de lama sob luzes vermelhas
mas tudo que existe
madrugada e vento
entre um peito e outro,
brutos trapiches,
confissões exaustas
e ingratidão.
Que pode um homem
ao alvorecer
— gosto de derrota
na boca e no ar —
ou a qualquer momento
em qualquer país?
Tudo que falou, mentiu ou bebeu
e o mais que se oculta
nas pregas do sono,
pontas de cigarro,
a chuva nas luzes,
confissões exaustas,
náusea matinal.
Vagas montanhas,
ondas esverdeando,
jornais já brancos,
música indecisa
tentando criar
condições de espera,
dia pálido, canção balbuciada:
já nada me lembra
o asfalto perfeito.
Alçapões desertos,
o corpo se move,
confissões exaustas,
rudemente, caminho de casa.






IDADE MADURA
As lições da infância
desaprendidas na idade madura.
Já não quero palavras
nem delas careço.
Tenho todos os elementos
ao alcance do braço.
Todas as frutas
e consentimentos.
Nenhum desejo débil.
Nem mesmo sinto falta
do que me completa e é quase sempre melancólico.
Estou solto no mundo largo.
Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim.
Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,
absorvo epopéia e carne,
bebo tudo,
desfaço tudo,
torno a criar, a esquecer-me:
durmo agora, recomeço ontem.
De longe vieram chamar-me.
Havia fogo na mata.
Nada pude fazer,
nem tinha vontade.
Toda a água que possuía
irrigava jardins particulares
de atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos.
Nisso vieram os pássaros,
rubros, sufocados, sem canto,
e pousaram a esmo.
Todos se transformaram em pedra.
Já não sinto piedade.
Antes de mim outros poetas,
depois de mim outros e outros
estão cantando a morte e a prisão.
Moças fatigadas se entregam, soldados se matam
no centro da cidade vencida.
Resisto e penso
numa terra enfim despojada de plantas inúteis,
num pais extraordinário, nu e terno,
Qualquer coisa de melodioso,
não obstante mudo,
além dos desertos onde passam tropas, dos morrosonde alguém colocou bandeiras com enigmas,e resolvo embriagar-me.
Já não dirão que estou resignado
e perdi os melhores dias.
Dentro de mim, bem no fundo,
há reservas colossais de tempo,
futuro, pós-futuro, pretérito,
há domingos, regatas, procissões,
há mitos proletários, condutos subterrâneos,
janelas em febre, massas de água salgada, meditação e
[sarcasmo.
Ninguém me fará calar, gritarei sempre
que se abafe um prazer, apontarei os desanimados,
negociarei em voz baixa com os conspiradores,
transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,
serei, no circo, o palhaço,
serei médico, faca de pão, remédio, toalha,
serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,
serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as
[excepcionais:tudo depende da horae de certa inclinação feérica,viva em mim qual um inseto.
Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade
com sua maré de ciências afinal superadas.
Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,
descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via.
Eles dizem o caminho,
embora também se acovardem
em face a tanta claridade roubada ao tempo.
Mas eu sigo, cada vez menos solitário,
em ruas extremamente dispersas,
transito no canto do homem ou da máquina que roda,
aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número de
[casa,e ganho.





VERSOS À BOCA DA NOITE
Sinto que o tempo sobre mim abatesua mão pesada. Rugas, dentes, calva...Uma aceitação maior de tudo,e o medo de novas descobertas.
Escreverei sonetos de madureza?Darei aos outros a ilusão de calma?Serei sempre louco? sempre mentiroso?Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?
Há muito suspeitei o velho em mim.Ainda criança, já me atormentava.Hoje estou só. Nenhum menino saltade minha vida, para restaurá-la.
Mas se eu pudesse recomeçar o dia!Usar de novo minha adoração,meu grito, minha fome... Vejo tudoimpossível e nítido, no espaço.
Lá onde não chegou minha ironia,entre ídolos de rosto carregado,ficaste, explicação de minha vida,como os objetos perdidos na rua.
As experiências se multiplicaram:viagens, furtos, altas solidões,o desespero, agora cristal frio,a melancolia, amada e repelida,
e tanta indecisão entre dois mares,entre duas mulheres, duas roupas.Toda essa mão para fazer um gestoque de tão frágil nunca se modela,
e fica inerte, zona de desejoselada por arbustos agressivos.(Um homem se contempla sem amor,se despe sem qualquer curiosidade.)
Mas vêm o tempo t a idéia de passadovisitar-te na curva de um jardim.Vem a recordação, e te penetradentro de um cinema, subitamente.
E as memórias escorrem do pescoço,do paletó, da guerra, do arco-íris;enroscam-se no sono e te perseguem,A busca de pupila que as reflita
E depois das memórias vem o tempotrazer novo sortimento de memórias,até que, fatigado, te recusese não saibas se a vida é ou foi.
Esta casa, que miras de passagem,estará no Acre? na Argentina? em ti?que palavra escutaste, e onde, quando?seria indiferente ou solidária?
Um pedaço de ti rompe a neblina,voa talvez para a Bahia e deixaoutros pedaços, dissolvidos no atlas,em País-do-riso e em tua ama preta.
Que confusão de coisas ao crepúsculo!Que riqueza! sem préstimo, é verdade.Bom seria captá-las e compô-lasnum todo sábio, posto que sensível:
uma ordem, uma luz, uma alegriabaixando sobre o peito despojado.E já não era o furor dos vinte anosnem a renúncia às coisas que elegeu,
mas a penetração do lenho dócil,um mergulho em piscina, sem esforço,um achado sem dor, uma fusão,tal uma inteligência do universo
comprada em sal, em rugas e cabelo.





NO PAIS DOS ANDRADES
No país dos Andrades, onde o chãoé forrado pelo cobertor vermelho de meu pai,indago um objeto desaparecido há trinta anos,que não sei se furtaram, mas só acho formigas.
No país dos Andrades, lá onde não há cartazese as ordens são peremptórias, sem embargo tácitas,já não distingo porteiras, divisas, certas rudes pastagensplantadas no ano zero e transmitidas no sangue.
No país dos Andrades, somem agora os sinaisQue fixavam a fazenda, a guerra e o mercado,bem como outros distritos; solidão das vertentes.Eis que me vejo tonto, agudo e suspeitoso.
Será outro país? O governo o pilhou? O tempo o corrompeu?No país dos Andrades, secreto latifúndio,a tudo pergunto e invoco; mas o escuro soprou; e ninguém me
[secunda.
Adeus, vermelho
(viajarei) cobertor de meu pai.






NOTICIAS
Entre mim e os mortos há o mare os telegramas.
Há anos que nenhum navio partenem chega. Mas sempre os telegramasfrios, duros, sem conforto.
Na Praia, e sem poder sair.Volto, os telegramas vêm comigo.Não se calam, a casa é pequenapara um homem e tantas notícias.
Vejo-te no escuro, cidade enigmática.Chamas com urgência, estou paralisado.De ti para mim, apelos,de mim para ti, silêncio.Mas no escuro nos visitamos.
Escuto vocês todos, irmãos sombrios.No pão, no couro, na superfíciemacia das coisas sem raiva,sinto vozes amigas, recadosfurtivos, mensagens em código.
Os telegramas vieram no vento.Quanto sertão, quanta renúncia atravessaram!Todo homem sozinho devia fazer uma canoae remar para onde os telegramas estão chamando
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AMÉRICA
Sou apenas um homem.
Um homem pequenino à beira de um rio.
Vejo as águas que passam e não as compreendo.
Sei apenas que é noite porque me chamam de casa.
Vi que amanheceu porque os gaios cantaram.
Como poderia compreender-te, América?
É muito difícil.
Passo a mão na cabeça que vai embranquecer.
O rosto denuncia certa experiência.
A mão escreveu tanto, e não sabe contar!
A boca também não sabe.
Os olhos sabem — e calam-se.
Ai, América, só suspirando.
Suspiro brando, que pelos ares vai se exalando.
Lembro alguns homens que me acompanhavam e hoje não
[acompanham.Inútil chamá-los: o vento, as doenças, o simples tempodispersaram esses velhos amigos em pequenos cemitérios do
[interior,por trás de cordilheiras ou dentro do mar.Eles me ajudariam, América, neste momentode tímida conversa de amor.
Ah, por que tocar em cordilheiras e oceanos!
Sou tão pequeno (sou apenas um homem)
e verdadeiramente só conheço minha terra natal,
dois ou três bois, o caminho da roça,
alguns versos que li há tempos, alguns rostos que contemplei.
Nada conto do ar e da água, do mineral e da folha,
ignoro profundamente a natureza humana
e acho que não devia falar nessas coisas.
Uma rua começa em Itabira, que vai dar no meu coração.Nessa rua passam meus pais, meus tios, a preta que me criou.Passa também uma escola — o mapa —, o mundo de todas as
[cores.Sei que há países roxos, ilhas brancas, promontórios azuis.A terra é mais colorida do que redonda, os nomes gravam-seem amarelo, em vermelho, em preto, no fundo cinza da
[infância.América, muitas vezes viajei nas tuas tintas.Sempre me perdia, não era fácil voltar.O navio estava na sala.Como rodava!
As cores foram murchando, ficou apenas o tom escuro, no
[mundo escuro.
Uma ma começa em Itabira, que vai dar em qualquer ponto da
[terra.Nessa rua passam chineses, índios, negros, mexicanos, turcos,
[uruguaios.Seus passos urgentes ressoam na pedra,ressoam em mim.
Pisado por todos, como sorrir, pedir que sejam felizes?Sou apenas uma ruana cidadezinha de Minas,humilde caminho da América.
Ainda bem que a noite baixou: é mais simples conversar
[á noite
Muitas palavras já nem precisam ser ditas.
Há o indistinto mover de lábios no galpão, há sobretudo
[silencio,
certo cheiro de erva, menos dureza nas coisas,
violas sobem até á lua, e elas cantam melhor do que eu.
Canta uma cançãode viola ou banjo,dentes cerrados,alma entreaberta,descanta a memóriado tempo mais fundoquando não havianem casa nem rêse tudo era rio,era cobra e onça,não havia lanternae nem diamante,não havia nada.Só o primeiro cão,em frente do homem
cheirando o futuro.Os dois se reparam,se julgam, se pesam,e o carinho mudocorta a solidão.Canta uma cançãono ermo continente,baixo, não te exaltes.Olho ao pé do fogohomens agachadosesperando comida.Como a barba cresce,como as mãos são duras,negras de cansaço.Canta a esteia maia,reza ao deus do milho,mergulha no sonhoanterior às artes,quando a forma hesitaem consubstanciar-se.Canta os elementosem busca de forma.Entretanto a vidaelege semblante.Olha: uma cidade.Quem a viu nascer?O sono dos homensapós tanto esforçotem frio de morte.Não vás acordá-los,se é que estão dormindo.
Tantas cidades no mapa... Nenhuma, porém, tem mil anos.E as mais novas, que pena: nem sempre são as mais lindas.
Como fazer uma cidade? Com que elementos tecê-la? Quantos
[fogos terá?Nunca se sabe, as cidades crescem,mergulham no campo, tornam a aparecer.O ouro as forma e dissolve; restam navetas de ouro.Ver tudo isso do alto: a ponte onde passam soldados(que vão esmagar a última revolução);o pouso onde trocar de animal; a cruz marcando o encontro
[dos valentes;a pequena fábrica de chapéus; a professora que tinha sardas...Esses pedaços de ti, América, partiram-se na minha mão.A criança espantadanão sabe juntá-los.
Contaram-me que também há desertos.
E plantas tristes, animais confusos ainda não completamente
[ determinados.Certos homens vão de pais em pais procurando um metal raro
[ou distribuindo palavras.Certas mulheres são tão desesperadamente formosas que é
[impossível não comer-lhes os retratos e não proclamá-las
[demônios
Há vozes no rádio e no interior das árvores,cabogramas, vitrolas e tiros.Que barulho na noite,que solidão!
Esta solidão da América... Ermo e cidade grande se
[espreitando.Vozes do tempo colonial irrompem -as modernas canções,e o barranqueiro do Rio São Francisco
— esse homem silencioso, na última luz da tarde,junto à cabeça majestosa do cavalo de proa imobilizadocontempla num pedaço de jornal a iara vulcânica da
[Broadway.O sentimento da mata e da ilha
perdura em meus filhos que ainda não amanheceram de todoe têm medo da noite, do espaço e da morte.Solidão de milhões de corpos nas casas, nas minas, no ar.Mas de cada peito nasce um vacilante, pálido amor,procura desajeitada de mão, desejo de ajudar,carta posta no correio, sono que custa a chegarporque na cadeira elétrica um homem (que não conhecemos)
[morreu.
Portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio
[de conhecimento.Portanto, solidão é palavra de amor.Não é mais um crime, um vicio, o desencanto das coisas.Ela fixa no tempo a memóriaou o pressentimento ou a ânsiade outros homens que a pé, a cavalo, de avião ou barco,
[percorrem teus caminhos, América.
Esses homens estão silenciosos mas sorriem de tanto
[sofrimento dominado.Sou apenas o sorrisona face de um homem calado.






CIDADE PREVISTA
Guardei-me para a epopéiaque jamais escreverei.Poetas de Minas Geraise bardos do Alto Araguaia,vagos cantores tupis,recolhei meu pobre acervo,alongai meu sentimento.O que eu escrevi não conta.O que desejei é tudo.Retomai minhas palavras,meus bens, minha inquietação,fazei o canto ardoroso,cheio de antigo mistériomas límpido e resplendente.Cantai esse verso puro,
que se ouvirá no Amazonas,na choça do sertanejoe no subúrbio carioca,no mato, na vila X,no colégio, na oficina,território de homens livresque será nosso paíse será pátria de todos.Irmãos, cantai esse mundoque não verei, mas viráum dia, dentro em mil anos,talvez mais... não tenho pressa.Um mundo enfim ordenado,uma pátria sem fronteiras,sem leis e regulamentos,uma terra sem bandeiras,sem igrejas nem quartéis,sem dor, sem febre, sem ouro,um jeito só de viver,mas nesse jeito a variedade,a multiplicidade todaque há dentro de cada um.Uma cidade sem portas,de casas sem armadilha,um país de riso e glóriacomo nunca houve nenhum.Este país não é meunem vosso ainda, poetas.Mas ele será um diao país de todo homem.








CARTA A STALINGRADO
Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades.
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem
enquanto outros, vingadores, se elevam.
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas.
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.
Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.Que quando abrirmos o jornal pela manhã teu nome (em ouro[oculto) estará firme no alto da página.Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu
[a pena.Saber que vigias, Stalingrado,sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos
[pensamentos distantesdá um enorme alento à alma desesperadae ao coração que duvida.
Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto
[resplandecente!As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e
[silêncio.Débeis em face do teu pavoroso poder,mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não
[profanados,as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues
[sem luta,aprendem contigo o gesto de fogo.Também elas podem esperar.
Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem
[trabalho nas fábricas,todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços
[negros de parede,mas a vida em ti e prodigiosa e pulula como insetos ao sol,6 minha louca Stalingrado!
A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços
[sangrentos,apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e
[relógios partidos,sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado,
[senão isto?Uma criatura que não quer morrer e combate,contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura
[combate,contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura
[combate,e vence.
As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma
[fumaça subindo do VolgaPenso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão
[contra tudoEm teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.







TELEGRAMA DE MOSCOU
Pedra por pedra reconstruiremos a cidade.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que peneirará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
— Stalingrado: o tempo responde.







MAS VIVEREMOS
Já não há mãos dadas no mundo.Elas agora viajarão sozinhas.Sem o fogo dos velhos contatos,que ardia por dentro e dava coragem.
Desfeito o abraço que me permitia,homem da roça, percorrer a estepe,sentir o negro, dormir a teu lado,irmãos chinês, mexicano ou báltico.
Já não olharei sobre o oceanopara decifrar no céu noturnouma estrela vermelha, pura e trágica,e seus raios de glória e de esperança.
Já não distinguirei na voz do vento(Trabalhadores, uni-vos...) a mensagemque ensinava a esperar, a combater,a calar, desprezar e ter amor.
Há mais de vinte anos caminhávamossem nos vermos, de longe, disfarçadosmas a um grito, no escuro, respondiaoutro grito, outro homem, outra certeza.
Muitas vezes julgamos ver a aurorae sua rosa de fogo à nossa frente.Era apenas, na noite, uma fogueira.Voltava a noite, mais noite, mais completa.
E que dificuldade de falar!Nem palavras nem códigos: apenasmontanhas e montanhas e montanhas,oceanos e oceanos e oceanos.
Mas um livro, por baixo do colchão,era súbito um beijo, uma cadeia,uma paz sobre o corpo se alastrando,e teu retrato, amigo, consolava.
Pois às vezes nem isso. Nada tínhamosa não ser estas chagas pelas pernas,este frio, esta ilha, este presídio,este insulto, este cuspo, esta confiança.
No mar estava escrita uma cidade,no campo ela crescia, na lagoa,no pátio negro, em tudo onde pisassealguém, se desenhava tua imagem,
teu brilho, tuas pontas, teu impérioe teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,estrela: cada um te possuía.Era inútil queimar-te, cintilavas.
Hoje quedamos sós. Em toda parte,somos muitos e sós. Eu, como os outros.Já não sei vossos nomes nem vos olhona boca, onde a palavra se calou.
Voltamos a viver na solidão,temos de agir na linha do gasômetro,do bar, da nossa rua: prisioneirosde uma cidade estreita e sem ventanas.
Mas viveremos. A dor foi esquecidanos combates de rua, entre destroços.Toda melancolia dissipou-seem sol, em sangue, em vozes de protesto.
Já não cultivamos amarguranem sabemos sofrer. Já dominamosessa matéria escura, já nos vemosem plena força de homens libertados.
Pouco importa que dedos se desligueme não se escrevam cartas nem se façamsinais da praia ao rubro couraçado.Ele chegará, ele viaja o mundo.
E ganhará enfim todos os portos,avião sem bombas entre Natal e China,petróleo, flores, crianças estudando,beijo de moça, trigo e sol nascendo.
Ele caminhará nas avenidas,entrará nas casas, abolirá os mortos.Ele viaja sempre, esse navio,essa rosa, esse canto, essa palavra.





VISÃO 1944
Meus olhos são pequenos para vera massa de silêncio concentradapor sobre a onda severa, piso oceânicoesperando a passagem dos soldados.
Meus olhos são pequenos para verluzir na sombra a foice da invasãoe os olhos no relógio, fascinados,ou as unhas brotando em dedos frios.
Meus olhos são pequenos para vero general com seu capote cinzaescolhendo no mapa uma cidadeque amanhã será pó e pus no arame.
Meus olhos são pequenos para vera bateria de rádio prevenindovultos a rastejar na praia obscuraaonde chegam pedaços de navios.
Meus olhos são pequenos para vero transporte de caixas de comida,de roupas, de remédios, de bandagenspara um porto da Itália onde se morre.
Meus olhos são pequenos para vero corpo pegajento das mulheresque foram lindas, beijo canceladona produção de tanques e granadas.
Meus olhos são pequenos para vera distância da casa na Alemanhaa uma ponte na Rússia, onde retratos,cartas, dedos de pé bóiam em sangue.
Meus olhos são pequenos para veruma casa sem fogo e sem janelasem meninos em roda, sem talher,sem cadeira, lampião, catre, assoalho.
Meus olhos são pequenos para veros milhares de casas invisíveisna planície de neve onde se erguiauma cidade, o amor e uma canção.
Meus olhos são pequenos para veras fábricas tiradas do lugar,levadas para longe, num tapete,funcionando com fúria e com carinho.
Meus olhos são pequenos para verna blusa do aviador esse botãoque balança no corpo, fita o espelhoe se desfolhará no céu de outono.
Meus olhos são pequenos para ver
o deslizar do peixe sob as minas,
e sua convivência silenciosa
com os que afundam, corpos repartidos.
Meus olhos são pequenos para veros coqueiros rasgados e tombadosentre latas, na areia, entre formigasincompreensivas, feias e vorazes.
Meus olhos são pequenos para ver
a fila de judeus de roupa negra,
de barba negra, prontos a seguir
para perto do muro — e o muro é branco.
Meus olhos são pequenos para veressa fila de carne em qualquer parte,de querosene, sal ou de esperançaque fugiu dos mercados deste tempo.
Meus olhos são pequenos para vera gente do Pará e de Quebecsem noticia dos seus e perguntandoao sonho, aos passarinhos, às ciganas.
Meus olhos são pequenos para vertodos os mortos, todos os feridos,e este sinal no queixo de uma velhaQue não pôde esperar a voz dos sinos.
Meus olhos são pequenos para verpaíses mutilados como troncos,proibidos de viver, mas em que a vidalateja subterrânea e vingadora.
Meus olhos são pequenos para ver
as mãos que se hão de erguer, os gritos roucos,
os rios desatados, e os poderes
ilimitados mais que todo exército.
Meus olhos são pequenos para vertoda essa força aguda e martelante,a rebentar do chão e das vidraças,ou do ar, das ruas cheias e dos becos.
Meus olhos são pequenos para vertudo que uma hora tem, quando madura,tudo que cabe em ti, na tua palma,ó povo! que no mundo te dispersas.
Meus olhos são pequenos para veratrás da guerra, atrás de outras derrotas,essa imagem calada, que se aviva,que ganha em cor, em forma e profusão.
Meus olhos são pequenos para vertuas sonhadas ruas, teus objetos,e uma ordem consentida (puro canto,vai pastoreando sonos e trabalhos).
Meus olhos são pequenos para veressa mensagem franca pelos mares,entre coisas outrora envilecidase agora a todos, todas ofertadas.
Meus olhos são pequenos para ver
o mundo que se esvai em sujo e sangue,
outro mundo que brota, qual nelumbo
— mas vêem, pasmam, baixam deslumbrados.






COM O RUSSO EM BERLIM
Esperei (tanta espera), mas agora,nem cansaço nem dor. Estou tranqüilo.Um dia chegarei, ponta de lança,
com o russo em Berlim.
O tempo que esperei não foi em vão.Na rua, no telhado. Espera em casa.No curral; na oficina: um dia entrar
com o russo em Berlim.
Minha boca fechada se crispava.
Ai tempo de ódio e mãos descompassadas.
Como lutar, sem armas, penetrando
com o russo em Berlim?
Só palavras a dar, só pensamentosou nem isso: calados num café,graves, lendo o jornal. Oh, tão melhor
com o russo em Berlim.
pois também a palavra era proibida.As bocas não diziam. Só os olhosno retrato, no mapa. Só os olhos
com o russo em Berlim.
Eu esperei com esperança fria,calei meu sentimento e ele ressurgepisado de cavalos e de rádios
com o russo em Berlim.
Eu esperei na China e em todo cantoem Paris, em Tobruk e nas Ardenaspara chegar, de um ponto em Stalingrado,com o russo em Berlim.
Cidades que perdi, horas queimandona pele e na visão: meus homens mortos,colheita devastada, que ressurge
com o russo em Berlim.
O campo, o campo, sobretudo o campoespalhado no mundo: prisioneirosentre cordas e moscas; desfazendo-se
com o russo em Berlim.
Nas camadas marítimas, os peixesme devorando; e a carga se perdendo,a carga mais preciosa: para entrar
com o russo em Berlim.
Essa batalha no ar, que me traspassa(mas estou no cinema, e tão pequenoe volto triste à casa: por que não
com o russo em Berlim?)
Muitos de mim saíram pelo mar.Em mim o que é melhor está lutando.Possa também chegar, recompensado,
com o russo em Berlim.
Mas que não pare aí. Não chega o termo.Um vento varre o mundo, varre a vida.Este vento que passa, irretratável,
com o russo em Berlim.
Olha a esperança à frente dos exércitos,olha a certeza. Nunca assim tão forte.Nós que tanto esperamos, nós a temos
com o russo em Berlim.
Uma cidade existe poderosa
a conquistar. E não cairá tão cedo.
Colar de chamas forma-se a enlaçá-la,
com o russo em Berlim.
Uma cidade atroz, ventre metálico,pernas de escravos, boca de negócio,ajuntamento estúpido, já treme
com o russo em Berlim.
Essa cidade oculta em mil cidades,trabalhadores do mundo, reuni-vospara esmagá-la, vós que penetrais
com o russo em Berlim.








INDICAÇÕES
Talvez uma sensibilidade maior ao frio,
desejo de voltar mais cedo para casa.
Certa demora em abrir o pacote de livros
esperado, que trouxe o correio.
Indecisão: irei ao cinema?
Dos três empregos de tua noite escolherás: nenhum.
Talvez certo olhar, mais sério, não ardente,
que pousas nas coisas, e elas compreendem.
Ou pelo menos supões que sim. São fiéis, as coisasdo teu escritório. A caneta velha. Recusas-te a trocá-lapela que encerra o último segredo químico, a tinta imortal.Certas manchas na mesa, que não sabes se o tempo,se a madeira, se o pó trouxeram consigo.
Bem a conheces, tua mesa. Cartas, artigos, poemas
saíram dela, de ti. Da dura substância,
do calmo, da floresta partida elas vieram,
as palavras que achaste e juntaste, distribuindo-as.
A mão passa
na aspereza. O verniz que se foi. Não. É a árvore
que regressa. A estrada voltando. Minas que espreita,
e espera, longamente espera tua volta sem som.
A mesa se torna leve, e nela viajas
em ares de paciência, acordo, resignação.
Olhai a mesa que foge, não a toqueis. É a mesa volante,
de suas gavetas saltam papéis escuros, enfim os libertados
[segredossobre a terra metálica se espalham, se amortalham e calam-se.
De novo aqui, miúdo território
civil, sem sonhos. Como pressentindo
que um dia se esvaziam os quartos, se limpam as paredes,
e pára um caminhão e descem carregadores,
e no livro municipal se cancela um registro,
olhas fundamente o risco de cada
coisa, a cor
de cada face dos objetos familiares.
A família é pois uma arrumação de móveis, soma
de linhas, volumes, superfícies. E são portas,
chaves, pratos, camas, embrulhos esquecidos,
também um corredor, e o espaço
entre o armário e a parede
onde se deposita certa porção de silêncio, traças e poeira
que de longe em longe se remove... e insiste.
Certamente faltam muitas explicações, seria difícilcompreender, mesmo ao cabo de longo tempo, por que
[um gesto
se abriu, outro se frustrou, tantos esboçados,
como seria impossível guardar todas as vozes
ouvidas ao almoço, ao jantar, na pausa da noite,
um ano, depois outro, e outros e outros,
todas as vozes ouvidas na casa durante quinze anos.
Entretanto, devem estar em alguma parte: acumularam-se,
embeberam degraus, invadiram canos,
informaram velhos papéis, perderam a força, o calor,
existem hoje em subterrâneos, umas na memória, outras na
[argila do sono.
Como saber? A princípio parece deserto,
como se nada ficasse, e um rio corresse
por tua casa, tudo absorvendo.
Lençóis amarelecem, gravatas puem,
a barba cresce, cai, os dentes caem,
os braços caem,
caem partículas de comida de um garfo hesitante,
as coisas caem, caem, caem,
e o chão está limpo, é liso.
Pessoas deitam-se, são transportadas, desaparecem,
e tudo é liso, salvo teu rosto
sobre a mesa curvado; e tudo imóvel.
ONDE HÁ POUCO FALÁVAMOS
É um antigopiano, foi
de alguma avó, mortaem outro século.
E ele toca e ele chora e ele canta
sozinho,
mas recusa raivoso filtrar o mínimo
acorde, se o fere
mão de moça presente.

Ai piano enguiçado, Jesus!
Sua gente está morta,
seu prazer sepultado,
seu destino cumprido,
e uma tecla
põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
É um rato?
O vento?
Descemos a escada, olhamos apavorados
a forma escura, e cessa o seu lamento.
Mas esquecemos. O dia perdoa.
Nossa vontade é amar, o piano cabe
em nosso amor. Pobre piano, o tempo
aqui passou, dedos se acumularam
no verniz roído. Floresta de dedos,
montes de música e valsas e murmúrios
e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
ele estronda. A poeira profusa salta,
e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
Assim nosso carinho
encontra nele o fel, e se resigna.
Uma parede marca a rua
e a casa. É toda proteção,
docilidade, afago. Uma parede
se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
o medo imemorial, os inspetores
da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
Uma cadeira se renova ao meu desejo.
A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
e confiantes. A casa vive.
Confio em cada tábua. Ora, sucede
que um incubo perturba
nossa modesta, profunda confidencia.
É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
busto e humour. Uma dolência rígida,
o reumatismo de noites imperiais, irritação
de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
e tudo que deixam mudanças,
viagens, afinadores,
experimento de jovens,
brilho fácil de rapsódia,
outra vez mudanças,
golpes de ar, madeira bichada,
tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
meio grotesco também, nada piedoso.
Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
objetos, modo de dobrar o Unho, gosto
de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
a coleção de retratos, também alguns livros,
cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
bem sei, mas e esse piano?
Está no fundoda casa, por baixoda zona sensível, muitopor baixo do sangue.
Está por cima do teto, mais altoque a palmeira, mais altoque o terraço, mais altoque a cólera, a astúcia, o alarme.
Cortaremos o piano
em mil fragmentos de unha?
Sepultaremos o piano
no jardim?
Como Aníbal o jogaremos
ao mar?
Piano, piano, deixa de amofinar!
No mundo, tamanho peso
de angústia
e você, girafa, tentando.
Resta-nos a esperança
(como na insônia temos a de amanhecer)
que um dia se mude, sem noticia,
clandestino, escarninho, vingativo,
pesado,
que nos abandone
e deserto fique esse lugar de sombra
onde hoje impera. Sempre imperará?
(É um antigo piano, foi
de alguma dona, hoje
sem dedos, sem queixo, sem
música na fria mansão.
Um pedaço de velha, um resto
de cova, meu Deus, nesta sala
onde ainda há pouco falávamos.)







OS ÚLTIMOS DIAS
Que a terra há de comer.Mas não coma já.
Ainda se mova,
para o oficio e a posse.
E veja alguns sítiosantigos, outros inéditos.
Sinta frio, calor, cansaço;pare um momento; continue.
Descubra em seu movimentoforças não sabidas, contatos.
O prazer de estender-se; o deenrolar-se, ficar inerte.
Prazer de balanço, prazer de vôo.
Prazer de ouvir música;
sobre papel deixar que a mão deslize.
Irredutível prazer dos olhos;
certas cores: como se desfazem, como aderem;
certos objetos, diferentes a uma luz nova.
Que ainda sinta cheiro de fruta,de terra na chuva, que pegue,que imagine e grave, que lembre.
O tempo de conhecer mais algumas pessoas,de aprender como vivem, de ajudá-las.
De ver passar este conto: o ventobalançando a folha; a sombrada árvore, parada um instante,alongando-se com o sol, e desfazendo-senuma sombra maior, de estrada sem trânsito.
E de olhar esta folha, se cai.
Na queda retê-la. Tão seca, tão morna.
Tem na certa um cheiro, particular entre mil.Um desenho, que se produzirá ao infinito,e cada folha é uma diferente.
E cada instante é diferente, e cada
homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
o silêncio global, mas não seja logo.
Antes dele outros silêncios penetrem,
outras solidões derrubem ou acalentem
meu peito; ficar parado em frente desta estátua: é um torso
de mil anos, recebe minha visita, prolonga
para trás meu sopro, igual a mim
na calma, não importa o mármore, completa-me.
O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
da vida ficou mais forte e os naufrágios
não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas:
que os objetos continuam, e a trepidação incessante
não desfigurou o rosto dos homens;
que somos todos irmãos, insisto.
Em minha falta de recursos para dominar o fim,entretanto me sinta grande, tamanho de criança, tamanho de
[torre.
tamanho da hora, que se vai acumulando século após século e
[causa vertigemtamanho de qualquer João, pois somos todos irmãos.
E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejarpartida menos imediata. Ah, podeis rir também,não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe,de outros virem depois, de todos sermos irmãos,no ódio, no amor, na incompreensão e no sublimecotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão.
O tempo de despedir-me e contar
que não espero outra luz além da que nos envolveu
dia após dia, noite em seguida a noite, fraco pavio,
pequena ampola fulgurante, facho, lanterna, faísca,
estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar,
mas que essa luz basta, a vida é bastante, que o tempo
é boa medida, irmãos, vivamos o tempo.
A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?
A tristeza não me liquide, mas venha também
na noite de chuva, na estrada lamacenta, no bar fechando-se,
que lute lealmente com sua presa,
e reconheça o dia entrando em explosões de confiança,
esquecimento, amor,
ao fim da batalha perdida.

Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente
[clarão.E todo o mel dos domingos se tire;o diamante dos sábados, a rosade terça, a luz de quinta, a mágicade horas matinais, que nós mesmos elegemospara nossa pessoal despesa, essa parte secretade cada um de nós, no tempo.
E que a hora esperada não seja vil, manchada de medo,
submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor
rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,
mas não a quero negando as outras horas nem as palavras
ditas antes com voz firme, os pensamentos
maduramente pensados, os atos
que atrás de si deixaram situações.
Que o riso sem boca não a aterrorize,
e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas,
dedos torcidos, lívido
suor de remorso.
E a matéria se veja acabar: adeus, composiçãoque um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.Adeus, minha presença, meu olhar e minhas veias grossas,meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal,
[idéia de justiça, revolta e sono, adeus,vida aos outros legada.







MARIO DE ANDRADEDESCE AOS INFERNOS
I
Daqui a vinte anos farei teu poemae te cantarei com tal suspiroque as flores pasmarão, e as abelhas,confundidas, esvairão seu mel.
Daqui a vinte anos: poderei
tanto esperar o preço da poesia?
É preciso tirar da boca urgente
o canto rápido, ziguezagueante, rouco,
feito da impureza do minuto
e de vozes em febre, que golpeiam
esta viola desatinada
no chão, no chão.
II
No chão me deito à maneira dos desesperados.
Estou escuro, estou rigorosamente noturno, estou vazio,esqueço que sou um poeta, que não estou sozinho,preciso aceitar e compor, minhas medidas partiram-se,mas preciso, preciso, preciso.
Rastejando, entre cacos, me aproximo.Não quero, mas preciso tocar pele de homem,avaliar o frio, ver a cor, ver o silêncio,conhecer um novo amigo e nele me derramar.
Porque é outro amigo. A explosiva descoberta
ainda me atordoa. Estou cego e vejo. Arranco os olhos e
[vejo.Furo as paredes e vejo. Através do mar sangüíneo vejo.Minucioso, implacável, sereno, pulverizado,é outro amigo. São outros dentes. Outro sorriso.Outra palavra, que goteja.
III
O meu amigo era tãode tal modo extraordinário,cabia numa só carta,esperava-me na esquina,e já um poste depois
ia descendo o Amazonas,tinha coletes de música,entre cantares de amigopairava na renda finados Sete Saltos,na serrania mineira,no mangue, no seringal,nos mais diversos brasis,e para além dos brasis,nas regiões inventadas,países a que aspiramos,fantásticos,
mas certos, inelutáveis,terra de João invencível,a rosa do povo aberta...
IV
A rosa do povo despetala-se,
ou ainda conserva o pudor da alva?
É um anúncio, um chamado, uma esperança embora frágil,
[pranto infantil no berço?Talvez apenas um ai de seresta, quem sabe.Mas há um ouvido mais fino que escuta, um peito de artista
[que incha,e uma rosa se abre, um segredo comunica-se, o poeta anunciou,o poeta, nas trevas, anunciou.
Mais perto, e uma lâmpada. Mais perto, e quadros,
quadros. Portinari aqui esteve, deixou
sua garra. Aqui Cézanne e Picasso,
os primitivos, os cantadores, a gente de pé-no-chão,
a voz que vem do Nordeste, os fetiches, as religiões,
os bichos... Aqui tudo se acumulou,
esta é a Rua Lopes Chaves, 546,
outrora 108. Para aqui muitas vezes voou
meu pensamento. Daqui vinha a palavra
esperada na dúvida e no cacto.
Aqui nunca pisei. Mas como o chão
sabe a forma dos pés e é liso e beija!
Todas as brisas da saudade balançam a casa,
empurram a casa,
navio de São Paulo no céu nacional
vai colhendo amigos de Minas e Rio Grande do Sul,
gente de Pernambuco e Pará, todos os apertos de mão,
todas as confidencias a casa recolhe,
embala, pastoreia.
Os que entram e os que saem se cruzam na imensidão
[dos corredores,paz nas escadas,calma nos vidros,e ela viaja como um lento pássaro, uma notícia postal, uma
[nuvem pejada.Casas ancoradas saúdam-na fraternas:Vai, amiga!Não te vás, amiga...
(Um homem se dá no Brasil mas conserva-se intato,preso a uma casa e dócil a seus companheirosesparsos.)
Súbito a barba deixou de crescer. Telegramasirrompem. Telefonesretinem. Silêncioem Lopes Chaves.
Agora percebo que estamos amputados e frios.
Não tenho voz de queixa pessoal, não sou
um homem destroçado vagueando na praia.
Muitos procuram São Paulo no ar e se concentram,
aura secreta na respiração da cidade.
É um retrato, somente um retrato,
algo nos jornais, na lembrança,
o dia estragado como uma fruta,
um véu baixando, um rictus
o desejo de não conversar. É sobretudo uma pausa oca
e além de todo vinagre.
Mas tua sombra robusta desprende-se e avança.
Desce o rio, penetra os túneis seculares
onde o amigo marcou seus traços funerários,
desliza na água salobra, e ficam tuas palavras
(superamos a morte, e a palma triunfa)
tuas palavras carbúnculo e carinhosos diamantes.





CANTO AO HOMEM DO POVOCHARLIE CHAPLIN
I
Era preciso que um poeta brasileiro,não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a vivercomo na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,
era preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente
[polidose a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em
[ironia,
era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso
[dispersos no tempo,viesse recompô-los e, homem maduro, te visitassepara dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.
Para dizer-te como os brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
com qualquer gente do mundo — inclusive os pequenos judeusde bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos
[melancólicos,
vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivemnos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro,
[Polícia,e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amorcomo um segredo dito no ouvido de um homem do povo
[caído na rua.
Bem sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,e costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,só as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.
Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em
[torno de ticomo um ramo de flores absurdas mandado por via postal ao
[inventor dos jardins.
Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz
[desgosto de tudo,que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.
Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de
[coração,os párias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os
[recalcados,os oprimidos, os solitários, os indecisos, os líricos, os
[cismaremos,os irresponsáveis, os pueris, os caridosos, os loucos e os
[patéticos.
E falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam
[a mesa, os botões,os instrumentos do oficio e as mil coisas aparentemente
[fechadas,cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais
[falam.
II
A noite banha tua roupa.
Mal a disfarças no colete mosqueado,
no gelado peitilho de baile,
de um impossível baile sem orquídeas.
És condenado ao negro. Tuas calçasconfundem-se com a treva. Teus sapatosinchados, no escuro do beco,são cogumelos noturnos. A quase cartola,sol negro, cobre tudo isto, sem raios.Assim, noturno cidadão de uma repúblicaenlutada, surges a nossos olhospessimistas, que te inspecionam e meditam:Eis o tenebroso, o viúvo, o inconsolado,o corvo, o nunca-mais, o chegado muito tardea um mundo muito velho.
E a lua pousa
em teu rosto. Branco, de morte caiado,
que sepulcros evoca mas que hastes
submarinas e álgidas e espelhos
e lírios que o tirano decepou, e faces
amortalhadas em farinha. O bigode
negro cresce em ti como um aviso
e logo se interrompe. É negro, curto,
espesso. O rosto branco, de lunar matéria,
face cortada em lençol, risco na parede,
caderno de infância, apenas imagem
entretanto os olhos são profundos e a boca vem de longe,
sozinha, experiente, calada vem a boca
sorrir, aurora, para todos.
E já não sentimos a noite,
e a morte nos evita, e diminuímos
como se ao contato de tua bengala mágica voltássemos
ao pais secreto onde dormem meninos.
Já não é o escritório de mil fichas,
nem a garagem, a universidade, o alarme,
é realmente a rua abolida, lojas repletas,
e vamos contigo arrebentar vidraças,
e vamos jogar o guarda no chão,
e na pessoa humana vamos redescobrir
aquele lugar — cuidado! — que atrai os pontapés: sentenças
de uma justiça não oficial.
III
Cheio de sugestões alimentícias, matas a fomedos que não foram chamados à ceia celesteou industrial. Há ossos, há pudinsde gelatina e cereja e chocolate e nuvensnas dobras de teu casaco. Estão guardadospara uma criança ou um cão. Pois bem conhecesa importância da comida, o gosto da carne,o cheiro da sopa, a maciez amarela da batata,e sabes a arte sutil de transformar em macarrãoo humilde cordão de teus sapatos.Mais uma vez jantaste: a vida é boa.Cabe um cigarro: e o tirasda lata de sardinhas.
Não há muitos jantares no mundo, já sabias,
e os mais belos frangos
são protegidos em pratos chineses por vidros espessos.
Há sempre o vidro, e não se quebra,
há o aço, o amianto, a lei,
há milícias inteiras protegendo o frango,
e há uma fome que vem do Canadá, um vento,
uma voz glacial, um sopro de inverno, uma folha
baila indecisa e pousa em teu ombro: mensagem pálida
que mal decifras. Entre o frango e a fome,
o cristal infrangível. Entre a mão e a fome,os valos da lei, as léguas. Então te transformastu mesmo no grande frango assado que flutuasobre todas as fomes, no ar; frango de ouroe chama, comida geralpara o dia geral, que tarda.
IV
O próprio ano novo tarda. E com ele as amadas.No festim solitário teus dons se aguçam.És espiritual e dançarino e fluido,mas ninguém virá aqui saber como amascom fervor de diamante e delicadeza de alva,como, por tua mão, a cabana se faz lua.Mundo de neve e sal, de gramofones roucosurrando longe o gozo de que não participas.Mundo fechado, que aprisiona as amadase todo desejo, na noite, de comunicação.Teu palácio se esvai, lambe-te o sono,ninguém te quis, todos possuem,tudo buscaste dar, não te tomaram.
Então caminhas no gelo e rondas o grito
Mas não tens gula de festa, nem orgulho
nem ferida nem raiva nem malícia.
És o próprio ano-bom, que te deténs. A casa passa
correndo, os copos voam,
os corpos saltam rápido, as amadas
te procuram na noite... e não te vêem,
tu pequeno, tu simples, tu qualquer.
Ser tão sozinho em meio a tantos ombros,
andar aos mil num corpo só, franzino,
e ter braços enormes sobre as casas,
ter um pé em Guerrero e outro no Texas,
falar assim a chinês, a maranhense,
a russo, a negro: ser um só, de todos,
sem palavra, sem filtro,
sem opala:
há uma cidade em ti, que não sabemos.
V
Uma cega te ama. Os olhos abrem-se.
Não, não te ama. Um rico, em álcool,
é teu amigo e lúcido repele
tua riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos
o que há de água, de sopro e de inocência
no fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos
que cultuamos, falsos: flores pardas,
anjos desleais, cofres redondos, arquejos
poéticos acadêmicos; convenções
do branco, azul e roxo; maquinismos,
telegramas em série, e fábricas e fábricas
e fábricas de lâmpadas, proibições, auroras.
Ficaste apenas um operário
comandado pela voz colérica do megafone.
És parafuso, gesto, esgar.
Recolho teus pedaços: ainda vibram,
lagarto mutilado.
Colo teus pedaços. Unidade
estranha é a tua, em mundo assim pulverizado.
E nós, que a cada passo nos cobrimose nos despimos e nos mascaramos,mal retemos em ti o mesmo homem,
aprendiz
bombeiro
caixeiro
doceiro
emigrante
forçado
maquinista
noivo
patinador
soldado
músico
peregrino
artista de circo
marquês
marinheiro
carregador de pianoapenas sempre entretanto tu mesmo,o que não está de acordo e é meigo,o incapaz de propriedade, o péerrante, a estradafugindo, o amigoque desejaríamos reterna chuva, no espelho, na memóriae todavia perdemos.
VI
Já não penso em ti. Penso no oficioa que te entregas. Estranho relojoeiro,cheiras a peça desmontada: as molas unem-se,
o tempo anda. És vidraceiro.
Varres a rua. Não importa
que o desejo de partir te roa; e a esquina
faça de ti outro homem; e a lógica
te afaste de seus frios privilégios.
Há o trabalho em ti, mas caprichoso,
mas benigno,
e dele surgem artes não burguesas,
produtos de ar e lágrimas, indumentos
que nos dão asa ou pétalas, e trens
e navios sem aço, onde os amigos
fazendo roda viajam pelo tempo,
livros se animam, quadros se conversam,
e tudo libertado se resolve
numa efusão de amor sem paga, e riso, e sol.
O oficio, é o oficio
que assim te põe no meio de nós todos,
vagabundo entre dois horários; mão sabida
no bater, no cortar, no fiar, no rebocar,
o pé insiste em levar-te pelo mundo,
a mão pega a ferramenta: é uma navalha,
e ao compasso de Brahms fazes a barba
neste salão desmemoriado no centro do mundo oprimido
onde ao fim de tanto silêncio e oco te recobramos.
Foi bom que te calasses.
Meditavas na sombra das chaves,
das correntes, das roupas riscadas, das cercas de arame,
juntavas palavras duras, pedras, cimento, bombas, invectivas,
anotavas com lápis secreto a morte de mil, a boca sangrenta
de mil, os braços cruzados de mil.
E nada dizias. E um bolo, um engulho
formando-se. E as palavras subindo.
ó palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.
Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando
[sopro aos exaustos.Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,crispacão do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e a
[fúria dos ditadores,ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
[caminham numa estrada de pó e esperança.




DRUMMOND
VIDA E OBRA

Bibliografia

I — POESIA
1930 Alguma poesia — Belo Horizonte, Edições Pindorama.
1934 Brejo das almas — Belo Horizonte, Os Amigos do Livro.
1940 Sentimento do mundo — Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti.
1942 José — Publicada em Poesias (1942) e em José & outros (1967).
1945 A rosa do povo — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. Record, 1984.
1948 Novos poemas — Publicada em Poesia até agora e em José & outros.
1951 A mesa — Niterói, Edições Hipocampo (incluído em Claro enigma).
1951 Claro enigma — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. Record, 1991.
1952 Viola de bolso — Rio de Janeiro, Serviço de Documentação do MEC; 2a ed., Violade bolso novamente encordoada — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora,1955.

1954 Fazendeiro do ar — Publicado em Fazendeiro do ar & poesia até agora (e demaisvolumes de Poesia Reunida) e em José & outros.
1955 Soneto da buquinagem — Rio de Janeiro, Philobiblion (incluído em Viola de bolsonovamente encordoada).
1957 Ciclo — Recife, O Gráfico Amador (incluído em A vida passada a limpo e em José & outros).1955 A vida passada a limpo— Publicado em Poemas (e demais volumes de Poesia Reunida e em José & outros).1962 Lição de coisas — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora.1964 Viola de bolso II — Publicado em Obra completa (1964 com suplemento inédito) e em José & outros, 1967.1967 Versiprosa (Crônicas em verso) — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora
(incluído, em seleção, em Nova reunião).
1967 José & outros (Contendo José, Novos poemas. Fazendeiro do ar, A vidapassada a limpo,4 poemas, Viola de bolso II) — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora.
1968 Boitempo & A falta que ama — Rio de Janeiro, Sabiá.

1968 Nudez— Recife, Escola de Belas-Artes.
1969 Reunião — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora.
1973 As impurezas do branco — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. Record,
1990.1973 Menino antigo (Boitempo II) — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. 3a
ed., 1978.1977 A visita (Fotos de Maureen Bisilliat) — São Paulo, ed. José E. Mindlin (incluído em
A paixão medida).
1977 Discurso de primavera e algumas sombras — Rio de Janeiro, Record. 2a ed.aumentada, 1978 — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. 3a ed., 1979.Record, 1994.
1978 O marginal Clorindo Gato — Rio de Janeiro, Avenir (incluído em A paixão medida).
1979 Esquecer para lembrar (Boitempo III) — Rio de Janeiro, Livraria José OlympioEditora. 2a ed., 1980.
1980 A paixão medida (Desenhos de Emeric Marcier, edição de 643 exs. parabibliófilos) — Rio de Janeiro, Edições Alumbramento. Nova ediçãoaumentada, 1980 — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. 3a ed.,
desenhos de LuizTrimano, 1981 — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora —1993 — Rio de Janeiro, Record.
1983 Nova reunião — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora.
1984 Corpo — Rio de Janeiro, Record.
1985 Amar se aprende amando — Rio de Janeiro, Record.1988 Poesia errante — Rio de Janeiro, Record.
1992 O amor natural — Rio de Janeiro, Record.

Antologias Poéticas
1956 50 poemas escolhidos pelo autor — Rio de Janeiro, Serviço de Documentação do
MEC.1962 Antologia poética — Rio de Janeiro, Editora do Autor. 15a ed.,1982 — Rio de Janeiro,
Livraria José Olympio Editora. Record, 1989.1965 Antologia poética (Seleção e prefácio de Massaud Moisés) — Lisboa, Portugália
Editora.1971 Seleta em prosa e verso (Textos de CDA escolhidos por ele mesmo, com notas do
Prof. Gilberto Mendonça Teles) — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. 5a
ed., 1978. Record, 1985.1975 Amor, amores (Desenhos de Carlos Leão) — Rio de Janeiro, Editora Alumbramento.1982 Carmina drummondiana. Tradução para o latim de Silva Bélkior — Rio de Janeiro,
Salamandra.1987 Boitempo I e Boitempo II — Rio de Janeiro, Record.

Infantis
1983 O elefante (Coleção Abre-te, Sésamo) — Rio de Janeiro, Record.1985 História de dois amores — Rio de Janeiro, Record.

Edições de Poesia Reunida
1942 Poesias (Contendo: Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José).1948 Poesia até agora (Contendo: Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo,
José, A rosa do povo, Novos poemas).1954 Fazendeiro do ar & poesia até agora (Contendo: Alguma poesia, Brejo das almas,
Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Claro enigma, Fazendeiro
doar).2*ed., 1955.1959 Poemas (Contendo: Alguma poesia, Brejo das almas. Sentimento do mundo,
José, A rosa do povo, Novos poemas, Claro enigma, Fazendeiro do ar, A vida
passada a limpo).1969 Reunião (10 livros de poesia). Introdução de Antônio Houaiss (Contendo:
Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos
poemas, Claro enigma, Fazendeiro do ar, A vida passada a limpo, Lição de coisas).
10a ed., 1981.1983 Nova reunião (19 livros de poesia) (Contendo: Alguma pões ia, Brejo das almas,
Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Claro enigma,
Fazendeiro do ar, A vida passada a limpo, Lição de coisas, A falta que ama, As
impurezas do branco, Boitempo I, Boitempo II, Boitempo III, A paixão medida,
seleção de Viola de bolso, Versiprosa, Discurso de primavera, Algumas sombras) —
co-edição com o INL-MEC.1985 Nova reunião — 2a edição.


II — PROSA
1944 Confissões de Minas (Artigos e crônicas) — Rio de Janeiro, Americ-Edit.
1945 O gerente (Conto) — Rio de Janeiro, Edições Horizonte (incluído em Contos deaprendiz).

1951 Contos de aprendiz — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. 2a ed.aumentada, 1958. 19a ed., 1982 — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora.Record, 1984.
1952 Passeios na ilha (Artigos e crônicas) — Rio de Janeiro, Organização Simões. 2a ed.revista, 1975 — Rjo de Janeiro, Livraria José Olympio Editora.
1957 Fala, amendoeira (Crônicas) — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. 8a ed.,
1978. Record, 1985.1962 A bolsa & a vida (Crônicas em prosa e verso) — Rio de Janeiro, Editora do Autor. 8a
ed., 1982 — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. Record, 1986.1966 Cadeira de balanço (Crônicas) — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. 13a
ed., com estudo da Profa Angela Vaz Leão, 1981. Record, 1992.1970 Caminhos de João Brandão (Crônicas em prosa e verso) — Rio de Janeiro, Livraria
José Olympio Editora. 2a ed., 1976. Record, 1985.1972 O poder ultrajovem e mais 79 textos em prosa e verso — Rio de Janeiro, Livraria
José Olympio Editora. 6a ed., 1978. Record, 1985.1974 De notícias & não-notícias faz-se a crônica (Crônicas) —Rio de Janeiro, Livraria
José Olympio Editora. 4a ed., 1979. Record, 1987.
1977 Os dias lindos (Crônicas) — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. 2a ed.,1978. Record, 1987.
1978 70 historinhas — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. 2a ed., 1979.Record, 1994.
1981 Contos plausíveis (Ilustrações de Irene Peixoto e Mareia Cabral) — Rio de Janeiro,Livraria José Olympio Editora. Editora JB. Record, 1992.
1984 Boca de luar — Rio de Janeiro, Record.
1985 O observador no escritório (Diário) — Rio de Janeiro, Record.
1986 Tempo vida poesia — Rio de Janeiro, Record.
1987 Moça deitada na grama (Crônicas) — Rio de Janeiro, Record.
1988 O avesso das coisas (Aforismos) — Rio de Janeiro, Record.
1989 Auto-retrato e outras crônicas (Crônicas) — Rio de Janeiro, Record.



III — CONJUNTO DE OBRA
1964 Obra completa (com estudo de Emanuel de Moraes) — Rio de Janeiro, Aguilar. 5aed., 1979 — Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar.


IV — ANTOLOGIAS DIVERSAS
1965 Rio de Janeiro em prosa & verso (Em colaboração com Manuel Bandeira) — Rio deJaneiro, Livraria José Olympio Editora.
1966 Andorinha, andorinha (prosa), de Manuel Bandeira (Seleção e coordenação de textospor CDA) — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora.
1967 Uma pedra no meio do caminho (Biografia de um poema. Com estudo de ArnaldoSaraiva) — Rio de Janeiro, Editora do Autor.
1967 Minas Gerais — Rio de Janeiro, Editora do Autor.

V — OBRAS EM COLABORAÇÃO
1962 Quadrante (Crônicas — com Cecília Meireilles, Dinah Silveira de Queiroz, FernandoSabino, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga) — Rio de Janeiro,Editora do Autor.
1963 Quadrante II (Crônicas — com os mesmos autores) — Rio de Janeiro, Editora do Autor.1965 Vozes da cidade (Crônicas — com Cecillia Meirelles, Genolino Amado, Henrique
Pongetti, Maluh de Ouro Preto, Manuel Bandeira e Rachel de Queiroz) — Rio deJaneiro, Distribuidora Record.
1971 Elenco de cronistas modernos (com Clarice Lispector, Fenando Sabino, ManuelBandeira, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Rubem Braga) — Rio deJaneiro, Editora Sabiá, 7a ed., 1979 — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora.
1972 Don Quixote (Poemas-glosas a 21 desenhos de Cândido Portinari) — Rio de Janeiro,Diagraphis, 4a ed., 1978 — Rio de Janeiro, Fontana.
1977 Para gostar de ler (com Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga —
Vol. 1), vols. 2, 3 e 4,1978-1979 — São Paulo, Editora Ática.1979 O melhor da poesia brasileira I (com João Cabral de Mello Neto, Manuel Bandeira
e Vinicius de Moraes) — Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora.
1981 O pipoqueiro da esquina (Texto de CDA, desenhos de Ziraldo) — Rio de Janeiro,Codecri.
1982 A lição do amigo (Cartas de Mário de Andrade a CDA, anotadas pelo destinatário)— Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora; 1989, Record.
1984 Quatro vozes (com Rachel de Queiroz, Cecilia Meirelles e Manuel Bandeira) — Riode Janeiro, Record.
Mata Atlântica (Poesia de CDA, fotos de Luis Cláudio Màrigo) — Rio de Janeiro,A&M.

Cronologia da Vida e da Obra
1902. Nasce em Itabira do Mato Dentro, Estado de Minas Gerais; nono filho do fazendeiroCarlos de Paula Andrade e de D. Julieta Augusta Drummond de Andrade.1910. Inicia o curso primário no Grupo Escolar Dr. Carvalho Brito.
1915. Trabalha alguns meses como caixeiro na casa comercial de Randolfo Martins da Costa,que, em retribuição a seus serviços, lhe oferece um corte de casimira.
1916. Aluno interno do Colégio Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino, em BeloHorizonte, onde conhece Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco. Interrompeos estudos no segundo período escolar, por problemas de saúde.
1917. Aulas particulares com o professor Emílio Magalhães, em Itabira.
1918. Aluno interno do Colégio Anchieta, da Companhia de Jesus, em Nova Friburgo,colabora na Aurora Colegial e alcança, em provas parciais denominadas "certames literários",os postos de "coronel" e "general".
— No número único do jornalzinho Maio..., aparecido em Itabira, seu irmão Altivo, que oestimula na inclinação literária, publica o seu poema em prosa "Onda".
1919. Expulso do colégio ao findar o ano letivo, em conseqüência de incidente com oprofessor de Português.
1920. Passa a residir em Belo Horizonte, para onde se transferiu sua família.
1921. Procura José Oswaldo de Araújo, diretor do Diário de Minas, e obtém a publicação,na seção "Sociais", de seus primeiros trabalhos.
Torna-se amigo de Milton Campos, Abgar Renault, Emílio Moura, Alberto Campos, MárioCasassanta, João Alphonsus, Batista Santiago, Aníbal Machado, Pedro Nava, Gabriel Passos,Heitor de Sousa e João Pinheiro Filho, freqüentadores da Livraria Alves e do Café Estrela.
1922. Em concurso da Novela Mineira, obtém o prêmio de 50 mil-réis pelo conto "Joaquimdo Telhado".
— Escreve a Álvaro Moreyra, diretor de Para Todos e Ilustração Brasileira, no Rio de Janeiro,que publica seus trabalhos.
1923. Presta exame vestibular e matricula-se na Escola de Odontologia e Farmácia deBelo Horizonte.
1924. Carta a Manuel Bandeira, enviando-lhe recortes de artigos e manifestandocerimoniosamente sua admiração ao poeta.
— Conhece, no Grande Hotel de Belo Horizonte, Blaise Cendrars, Mário de Andrade,Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, que regressam de excursão às cidades históricas deMinas Gerais, e inicia, algum tempo depois, longa correspondência com Mário de Andrade,de que tirará grande proveito para sua orientação literária.
1925. Casa-se com a senhorita Dolores Dutra de Morais.
— Com Martins de Almeida, Emílio Moura e Gregoriano Canedo, fundai Revista, órgãomodernista do qual saem três números.
— Conclui o curso de Farmácia e é designado à última hora orador da turma, noimpedimento de um colega.
1926. Sem interesse pela profissão de farmacêutico, e não se adaptando à vida de fazendeiro,leciona Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano de Itabira.
— Por iniciativa de Alberto Campos, volta para Belo Horizonte como redator e depoisredator-chefe do Diário de Minas.
— Villa-Lobos, sem conhecê-lo, compõe uma seresta sobre o poema "Cantiga de viúvo".

1927. Nasce e vive alguns instantes seu filho Carlos Flávio.
1928. Publica na Revista de Antropofagia, de São Paulo, o poema "No meio do caminho",que se torna pedra de escândalo literário.

— Nasce sua filha Maria Julieta.
— Por sugestão de seu amigo Rodrigo M. F. de Andrade, é convidado por Francisco Camposa trabalhar na Secretaria de Educação, mas, sem mesa e cadeira para ocupar, por sugestão deMário Casassanta torna-se auxiliar de redação da Revista do Ensino, na mesma Secretaria.

1929. Deixa o Diário de Minas para trabalhar no Minas Gerais, órgão oficial do estado, comoauxiliar de redação e, pouco depois, redator, sob a direção de Abílio Machado e José MariaAlkmim.
1930. VubYicz Alguma poesia (500 exemplares), sob o selo imaginário de Edições Pindorama,criado por Eduardo Frieiro. A edição é facilitada pela Imprensa Oficial do Estado, mediantedesconto na folha de vencimentos do funcionário. Amigos oferecem-lhe um jantarcomemorativo, em que é saudado por Milton Campos.
— Auxiliar de gabinete de Cristiano Machado, secretário do Interior, ao irromper aRevolução de Outubro, que transforma aquela paragem burocrática em centro de operaçõesmilitares, passa a oficial de gabinete, quando seu amigo Gustavo Capanema substituiCristiano Machado.
1931. Falece seu pai aos 70 anos.
1933. Redator de A Tribuna, diário de vida curta.
— Acompanha Gustavo Capanema, nos três meses em que este foi interventor federalem Minas.
1934. Volta às bancas de redação, Minas Gerais, O Estado de Minas, Diário da Tarde,simultaneamente.
— Publica Brejo das almas (200 exemplares) pela cooperativa Os Amigos do Livro.
— Transfere-se para o Rio, como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, novo ministroda Educação e Saúde Pública.
1935. Responde pelo expediente da Diretoria-Geral de Educação e é membro da Comissãode Eficiência do Ministério da Educação.
1937. Colabora na Revista Acadêmica, de Murilo Miranda.
1940. Publica Sentimento do mundo, distribuindo entre amigos e escritores os 150
exemplares da tiragem.
1941. Mantém na revista Euclides, de Simões dos Reis, a seção "Conversa de Livraria",Issinada por "O Observador Literário".
— Colabora no suplemente literário de A Manhã, dirigido por Múcio Leão e mais tarde por1 irge Lacerda.
lv)42. Aparecimento de Poesias, na Editora José Olympio, a primeira a custear a publicaçãode seus livros.
1943. É publicada a sua tradução de Thérése Desqueyroux, de François Mauriac, sob o títuloUma gota de veneno.
1944. Publica Confissões de Minas, por iniciativa de Álvaro Lins.
1945. Publicai rosa do povo e O gerente.

— Colabora no suplemento literário do Correio da Manhã e na Folha Carioca.
— Deixa a chefia do gabinete de Capanema, sem qualquer atrito com este, e, a convite deLuís Carlos Prestes, figura como diretor do^ diário comunista, então fundado, TribunaPopular, juntamente com Pedro Mota Lima, Álvaro Moreyra, Aydano do Couto Ferraz eDalcídio Jurandir. Afasta-se do jornal, meses depois, por discordar de sua orientação.
— Rodrigo M.F. de Andrade chama-o para trabalhar na Diretoria do Patrimônio Históricoe Artístico Nacional, onde mais tarde se tornará chefe da Seção de História, na Divisão deEstudos e Tombamento.
— A convite de Américo Facó, e em companhia de Gastão Cruls e Prudente de Moraes Neto,trabalha na frustrada remodelação do Departamento Nacional de Informações, antigo DIP

1946. Recebe da Sociedade Felipe d'Oliveira o Prêmio de Conjunto de Obra.
1947. É publicada a sua tradução de Les Liaisons Dangereuses, de Choderlos de Laclos.
1948. Publica Poesia até agora.

— Colabora em Política e Letras, de Odylo Costa, Filho.
— Acompanha o enterro de sua mãe, em Itabira, à hora em que, no Teatro Municipal doRio de Janeiro, é executado o Poema de Itabira, de Villa-Lobos, composto sobre o seu poema"Viagem na família".
1949. Volta a escrever no Minas Gerais.
— Sua filha Maria Julieta casa-se com o escritor e advogado argentino Manuel GranaEtcheverry e passa a residir em Buenos Aires.
— Participa do movimento pela escolha de uma diretoria apolítica na Associação Brasileirade Escritores. Vitoriosa a chapa de que fazia parte, desliga-se da sociedade, com os demaiscompanheiros, pela impossibilidade de entendimento com o grupo esquerdista.

1950. Vai a Buenos Aires ao nascer seu primeiro neto, Carlos Manuel.
1951. Publica Claro Enigma, Contos de aprendiz eA mesa.
— Aparece em Madri o volume Poemas.
1952. Publica Passeios na ilha e Viola de bolso.
1953. Exonera-se do cargo de redator do Minas Gerais, ao ser estabilizada sua situação defuncionário da DPHAN.

— Vai a Buenos Aires ao nascer o seu neto Luis Mauricio.
— Aparece em Buenos Aires o volume Dos poemas.
1954. Publica Fazendeiro do ar & poesia até agora.
— Aparece a sua tradução de Les Paysans, de Balzac.
— Realiza na Rádio Ministério da Educação, em diálogo com Lya Cavalcanti, a série depalestras "Quase Memórias".
— Inicia no Correio da Manhã a série de crônicas "Imagens", mantida até 1969.
1955. Publica Viola de bolso novamente encordoada.
— O "mercador de livros" Carlos Ribeiro faz publicar Soneto da buquinagem como presenteaos amigos.
1956. Publica 50 Poemas escolhidos pelo autor.
— Aparece a sua tradução àeAlbertine Disparue, ou La Fugitive, de Proust.
1957. Publica Fala, amendoeira e Ciclo.
1958. Publica-se em Buenos Aires pequena seleção de seus poemas, na coleção Poetas dei siglo veinte.
1959. Publica Poemas.
— E levada à cena e publicada a sua tradução de Dona Rosita Ia soltera, de Garcia Lorca, pelaqual recebe o Prêmio Padre Ventura, do Círculo Independente de Críticos Teatrais.
1960. A Biblioteca Nacional publica a sua tradução de Oiseaux-Mouches Ormthorynques duBrèsil, de Descourtilz.
— Colabora em Mundo Ilustrado.
— Nascimento de seu neto Pedro Augusto, em Buenos Aires.
1961. Colabora no programa Quadrante, da Rádio Ministério da Educação, instituído porMurilo Miranda.
— Por ato do presidente Jânio Quadros, é nomeado membro da Comissão de Literatura doConselho Nacional de Cultura, mas afasta-se do órgão nas primeiras reuniões.
— Falece seu irmão Altivo.
1962. Publica Lição de coisas, Antologia poética, A bolsa & a vida.
— Aparecem as traduções de LOiseau Bleu, de Maeterlinck, e Les Fourberies, de Scapin; poresta segunda, que o Tablado leva à cena, recebe novamente o Prêmio Padre Ventura.
— Aposenta-se como Chefe de Seção da DPHAN, após 35 anos de serviço público,recebendo carta de louvor do ministro da Educação Oliveira Brito.
— Demolida a casa onde viveu vinte e um anos, na Rua Joaquim Nabuco, 81. Passa a residirem apartamento.
1963. Aparece a sua tradução de Sult (Fome), de Knut Hamsun.
— Recebe os prêmios Fernando Chinaglia, da União Brasileira de Escritores, e LuísaCláudio de Souza, do PEN Clube do Brasil, pelo livro Lição de coisas.
— Colabora no programa Vozes da Cidade, instituído por Murilo Miranda, na RádioRoquette Pinto, e inicia o programa Cadeira de Balanço, na Rádio Ministério da Educação.

1964. Aparecimento de Obra Completa, em edição Aguilar.
1965. Publicação de Antologia poética (Portugal); In the middle ofthe road (Estados Unidos);Poesie (Alemanha). No Brasil: Rio de Janeiro em prosa & verso, em colaboração com ManuelBandeira.
— Colabora em Pulso.
1966. Publicação de Cadeira de balanço e de Natten och Rosen (Suécia).
1967. Publica Versiprosajosé & outros, Umapedra no meio do caminho, Minas Gerais (Brasil,Terra & Alma), Mundo, vasto mundo (Buenos Aires) e Fyzika Strachu (Praga).
1968. Publica Boitempo & A falta que ama.
1969. Deixa o Correio da Manhã e passa a colaborar no Jornal do Brasil.
— Publica Reunião (10 livros de poesia num volume).
1970. Publica Caminhos de João Brandão.
1971. Publica Seleta em prosa e verso.
— Edição de Poemas em Cuba.
1972. Publica O poder ultrajovem.
— O Jornal do Brasil (Rio), O Estado de S. Paulo, O Estado de Minas (Belo Horizonte) eO Correio do Povo (Porto Alegre) publicam suplementos comemorativos do 70° aniversáriode seu nascimento.
1973. Publica As impurezas do branco, Menino antigo, La bolsa y Ia vida (Buenos Aires) eRéunion (Paris).
1974. Recebe o Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos Literários.
1975. Publica Amor, amores (Edições Alumbramento).
— Recebe o Prêmio Nacional Walmap de Literatura e recusa, por motivo de consciência,o Prêmio Brasília de Literatura, da Fundação Cultural do Distrito Federal.
1977. Publicai visita, Discurso de primavera e Os dias lindos.
— Edição búlgara de Sentimento do mundo (antologia).
1978. A Livraria José Olympio Editora publica a 2a edição (corrigida e aumentada) deDiscurso de primavera e Algumas sombras.
— Publica 70 historinhas e O marginal Clorindo Gato.
— Edições argentinas: Amar-amargo e El poder ultrajoven.
1979. Publica Poesia eprosa, 5a edição revista e atualizada, pela Editora Nova Aguilar. PublicaEsquecer para lembrar.
1980. Recebe os prêmios Estácio de Sá, de jornalismo, e Morgado Mateus (Portugal), de poesia.Publicação de A paixão medida (Edições Alumbramento), En RostatFolket (Suécia), The minassign (EUA) e Poemas (Holanda).
1981. Publica Contos plausíveis (edição não-comercial) e O pipoqueiro da esquina (comZiraldo). Edição inglesa de The minus sign.
1982. Completa 80 anos. São realizadas exposições comemorativas na Biblioteca Nacionale na Casa de Rui Barbosa. Recebe o título de doutor honoris causa pela Universidade Federaldo Rio Grande do Norte. Publicai lição do amigo. Edição mexicana de Poemas.
1983. Declina do troféu Jucá Pato. Publica Nova reunião e O elefante (infantil).
1984. Assina contrato com a Editora Record após 41 anos na José Olympio. Estréia na novaEditora com Boca de luar e Corpo. Encerra sua carreira de cronista regular após 64 anosdedicados ao jornalismo.

1985. Publica Amar se aprende amando, O observador no escritório, História de doisamores (infantil) eAmor, sinal estranho (edição de arte). Lançamento comercial de Contosplausíveis. Publicação de Fran Oxen Tide (Suécia).
1986. Publica Tempo vida poesia. Fica internado durante 14 dias no hospital cominsuficiência cardíaca. Edição inglesa de Travelling in thefamily. Escreve 21 poemas paraa edição do centenário de Manuel Bandeira, organizada e publicada por EdiçõesAlumbramento com o título Bandeira, a vida inteira.
1987. É homenageado, com o samba-enredo O reino das palavras, pela escola de sambacarioca Estação Primeira de Mangueira, campeã do carnaval de 87. No dia 5 de agosto morresua filha Maria Julieta, vítima de câncer; 12 dias depois, a 17 de agosto, falece o poeta,deixando cinco obras inéditas: O avesso das coisas, Moça deitada na grama, Poesia errante(1988), O amor natural (ainda publicadas neste mesmo ano) e Farewell.

1987. Publicados na Itália os livros "Un chiaro enigma"pe\z Lusitânia Libri e "Sentimento,dei mondo", pela Giulio Einaudi Editore.
1988. Reedição do livro "D. Quixote, Cervantes, Portinari, Drummond", publicado pelaFundação Raimundo Ottoni de Castro Maya.
1989. Publicação de "Drummond Frente e Verso", fotobiografia do autor, e "Álbum paraMaria Julieta" pela Edições Alumbramento.
1990. Comemorados os 60 anos da publicação do livro "Alguma Poesia"cm homenagem noCentro Cultural Banco do Brasil. Publicação de "Arte em exposição" pela Editora Salamandra.Publicação, na França, da antologia "Poésie pela Editora Gallimard. ,

1992. Publicação de "O amor natural", pela Editora Record. Edição holandesa de "O amornatural", publicado pela AP Uitgeverij Arbeiderspers. Publicação mexicana de "Historia dedos amores" pela editora Libros dei Rincón.
1993. Prêmio Jabuti de Poesia pelo livro "O amor natural".
1994. No dia 2 de julho, falece D. Dolores Morais Drummond de Andrade, viúva do poeta,aos 94 anos.
1995. Lançamento da home page "Carlos Drummond de Andrade—Alguma Poesia" na Internet.
1996. Primeiro prêmio para a home page "Carlos Drummond de Andrade—Alguma Poesia”no concurso WWW Brasil — Best 95.
1997. Prêmio Jabuti pelo livro "Farewell".



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE ALGUMA POESIA

(http://www./ibase.org.br/~ondaalta/carlos.htm)

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