sábado, 5 de abril de 2008

Parte 1 - A ROSA DO POVO - Carlos Drummond de Andrade

A ROSA DO POVO



"Uma poesia marcada pelo momento histórico." É assimque o crítico Antônio Houaiss qualifica a poesia de Carlos Drummond de Andrade reunida em A Rosa do Povo, livro escrito durante a II Guerra Mundial, publicado em 1945 e jamais reeditadoisoladamente. Se a sua repercussão na época foi imensa, quasequarenta anos depois podemos dizer que ele não perdeu o vigorda emoção poética e a atualidade nervosa.
Saindo de novo a público, A Rosa do Povo propõe o mesmo debate inesgotável sobre a situação do artista no mundo e sua posição em face dos problemas políticos e sociais do seu tempo. Drummond tomou posição e manteve-se fiel a seu ideário, embora reconhecendo a falácia de ilusões que se misturavam a perenes interesses de justiça, liberdade e paz. Ao lado disso, o livro é de intenso lirismo existencial.





Carlos Drummondde Andrade

ÍNDICE




Consideração do Poema 9
Procura da Poesia 12
A Flor e a Náusea 15
Carrego Comigo 18
Anoitecer 23
O Medo 25
Nosso Tempo 29
Passagem do Ano 38
Passagem da Noite 41
Uma Hora e Mais Outra 43
Nos Áureos Tempos 48
Rola Mundo 52
Áporo 56
Ontem 58
Fragilidade 60
O Poeta Escolhe Seu Túmulo 61
Vida Menor 63
Campo, Chinês e Sono 65
Episódio 67
Nova Canção do Exílio 69
Economia dos Mares Terrestres 71
Equívoco 73
Movimento da Espada 74
Assalto 76
Anúncio da Rosa 78
Edifício São Borja 80
O Mito 84
Resíduo 92
Caso do Vestido 96
O Elefante 104
Morte do Leiteiro 108
Noite na Repartição 112
Morte no Avião 120
Desfile 125
Consolo na Praia 128
Retrato de Família 130
Interpretação de Dezembro 133
Como um Presente 137
Rua da Madrugada 141
Idade Madura 144
Versos à Boca da Noite 148
No País dos Andrades 151
Notícias 153
América 155
Cidade Prevista 161
Carta a Stalingrado 163
Telegrama de Moscou 166
Mas Viveremos 167
Visão 1944 171
Com o Russo em Berlim 176
Indicações 179
Onde Há Pouco Falávamos 182
Os Últimos Dias 186
Mário de Andrade Desce aos Infernos 191
Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin 196



CONSIDERAÇÃO DO POEMA
Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convém.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.
Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporaram
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.
Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
— Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes
[rugas.O beijo ainda é um sinal, perdido embora,da ausência de comércio,boiando em tempos sujos.
Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começá-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis ai meu canto.
Ele é tão baixo que sequer o escutaouvido rente ao chão. Mas é tão altoque as pedras o absorvem. Está na mesaaberta em livros, cartas e remédios.Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,o uniforme de colégio se transformam,são ondas de carinho te envolvendo.
Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.
Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel... Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.




PROCURA DA POESIA
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à
[efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das
[casas.Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas
[junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.Lá estão os poemas que esperam ser escritos.Estão paralisados, mas não há desespero,há calma e frescura na superfície intata.Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutrae te pergunta, sem interesse pela resposta,pobre ou terrível, que lhe deres:Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.




A FLOR E A NÁUSEA
Preso à minha classe e a algumas roupas,vou de branco pela rua cinzenta.Melancolias, mercadorias espreitam-me.Devo seguir até o enjôo?Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.Quarenta anos e nenhum problemaresolvido, sequer colocado.Nenhuma carta escrita nem recebida.Todos os homens voltam para casa.Estão menos livres mas levam jornaise soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?Tomei parte em muitos, outros escondi.Alguns achei belos, foram publicados.Crimes suaves, que ajudam a viver.Ração diária de erro, distribuída em casa.Os ferozes padeiros do mal.Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.Ao menino de 1918 chamavam anarquista.Porém meu ódio é o melhor de mim.Com ele me salvoe dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.Suas pétalas não se abrem.Seu nome não está nos livros.É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tardee lentamente passo a mão nessa forma insegura.Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânicoÉ feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


CARREGO COMIGO
Carrego comigohá dezenas de anoshá centenas de anoso pequeno embrulho.
Serão duas cartas?será uma flor?será um retrato?um lenço talvez?
Já não me recordoonde o encontrei.Se foi um presenteou se foi furtado.
Se os anjos desceramtrazendo-o nas mãos,se boiava no rio,se pairava no ar.
Não ouso entreabri-lo.Que coisa contém,ou se algo contém,nunca saberei.
Como poderiatentar esse gesto?O embrulho é tão frioe também tão quente.
Ele arde nas mãos,é doce ao meu tato.Pronto me fascinae me deixa triste.
Guardar um segredoem si e consigo,não querer sabê-loou querer demais.
Guardar um segredode seus próprios olhos,por baixo do sono,atrás da lembrança.
A boca experientesaúda os amigos.Mão aperta mão,peito se dilata.
Vem do mar o apelo,vêm das coisas gritos.O mundo te chama:Carlos! Não respondes?
Quero responder.A rua infinitavai além do mar.Quero caminhar.
Mas o embrulho pesa.Vem a tentaçãode jogá-lo ao fundoda primeira vala.
Ou talvez queimá-lo:cinzas se dispersame não fica sombrasequer, nem remorso.
Ai, fardo sutilque antes me carregasdo que és carregado,para onde me levas?
Por que não me dizesa palavra duraoculta em teu seio,carga intolerável?
Seguir-te submissopor tanto caminhosem saber de tisenão que te sigo.
Se agora te abrissese te revelassesmesmo em forma de erro,que alivio seria!
Mas ficas fechado.Carrego-te à noitese vou para o baile.De manhã te levo
para a escura fábricade negro subúrbio.És, de fato, amigosecreto e evidente.
Perder-te seriaperder-me a mim próprio.Sou um homem livrenas levo uma coisa.
Não sei o que seja.Eu não a escolhi.Jamais a fitei.Mas levo uma coisa.
Não estou vazio,não estou sozinho,pois anda comigoalgo indescritível.



ANOITECER
É a hora em que o sino toca,mas aqui não há sinos;há somente buzinas,sirenes roucas, apitosaflitos, pungentes, trágicos,uivando escuro segredo;desta hora tenho medo.
É a hora em que o pássaro volta,mas de há muito não há pássaros;só multidões compactasescorrendo exaustascomo espesso óleoque impregna o lajedo;desta hora tenho medo.

A Dolores
É a hora do descanso,mas o descanso vem tarde,o corpo não pede sono,depois de tanto rodar;pede paz — morte — mergulhono poço mais ermo e quedo;desta hora tenho medo.
Hora de delicadeza,gasalho, sombra, silêncio.Haverá disso no mundo?Ê antes a hora dos corvos,bicando em mim, meu passado,meu futuro, meu degredo;desta hora, sim, tenho medo.





O MEDO
A Antônio Cândido
"Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é o do medo."
antonio cândido, Plataforma de uma geração.
Em verdade temos medo.Nascemos escuro.As existências são poucas:Carteiro, ditador, soldado.Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.Cheiramos flores de medo.Vestimos panos de medo.De medo, vermelhos rio»vadeamos.
Somos apenas uns homense a natureza traiu-nos.Há as árvores, as fábricas,doenças galopantes, fomes.
Refugiamo-nos no amor,este célebre sentimento,e o amor faltou: chovia,ventava, fazia frio em São Paulo,
Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,meu companheiro moreno.De nós, de vós; e de tudo.Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.Nosso caminho: traçado.Por que morrer em conjunto?E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,vem, ó terror das estradas,susto na noite, receiode águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,lentos poderes do láudano.Até a canção medrosate parte, se transe e cala-se
Faremos casas de medo,duros tijolos de medo,medrosos caules, repuxos,ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,com resplendores covardes,atingiremos o cimode nossa cauta subida.
O medo, com sua física,tanto produz: carcereiros,edifícios, escritores,este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.Os mais velhos compreendem.O medo cristalizou-os.Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,recuando de olhos acesos.Nossos filhos tão felizes...Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.Depois da cidade, o mundo.Depois do mundo, as estrelas,dançando o baile do medo.




NOSSO TEMPO
A Oswaldo Alves
I
Este é tempo de partido,tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.
Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.
Calo-me, espero, decifro.As coisas talvez melhorem.São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.
II
Este é tempo de divisas,tempo de gente cortada.De mãos viajando sem braços,obscenos gestos avulsos.
Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.
Símbolos obscuros se multiplicam.Guerra, verdade, flores?Dos laboratórios platônicos mobilizadosvem um sopro que cresta as facesç dissipa, na praia, as palavras.
A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
a pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.
///
E continuamos. É tempo de muletas.Tempo de mortos faladorese velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,mas ainda é tempo de viver e contar.Certas histórias não se perderam.Conheço bem esta casa,pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,a sala grande conduz a quartos terríveis,como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na
[mesa.
conduz à copa de frutas ácidas,ao claro jardim central, á águaque goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?
ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiador
[urbano,ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e
[conta,moça presa, na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos,
[portas rangentes, solidão e asco,pessoas e coisas enigmáticas, contai,capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos,
[contai;ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
[costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, [animais caçados, contai.Tudo tão difícil depois que vos calastes...E muitos de vós nunca se abriram.
IV
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.
É tempo de cortinas pardas,de céu neutro, políticana maçã. no santo, no gozo,amor e desamor, cólerabranda, gim com água tônica,olhos pintados,dentes de vidro,grotesca língua torcida.A isso chamamos: balanço.
No beco,
apenas um muro,
sobre ele a policia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.
V
Escuta a hora formidável do almoçona cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,olhos líquidos de câo através do vidro devoram teu osso.Come, braço mecânico, alimenta-te, mao de papel, é tempo de
[comida,mais tarde será o de amor.
Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma
[indecisa, evoluem.O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.
Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade,
[imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras,
[apelo ao cassino, passeio na praia,o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,com as calças despido-o incômodo pensamento de escravo,escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,errar em objetos remotos e, sob eles soterrado sem dor,confiar-se ao que-bem-me-importado sono.
Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo
[com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usuários,
a ma poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.
VI
Nos porões da família,orquídeas e opçõesde compra e desquite.A gravidez elétricajá não traz delíquios.Crianças alérgicastrocam-se; reformam-se.Há uma implacávelguerra às baratas.Contam-se históriaspor correspondência.A mesa reúneum copo, uma faca,e a cama devoratua solidão.Salva-se a honrae a herança do gado.
VII
Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamospara cada hora e dor. Há fortes bálsamos,dores de classe, de sangrenta fúriae plácido rosto. E há mínimosbálsamos, recalcadas dores ignóbeis,lesões que nenhum governo autoriza,não obstante doem,melancolias insubornáveis,ira, reprovação, desgostodesse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.Há o pranto no teatro,no palco? no público? nas poltronas?há sobretudo o pranto no teatro,já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam
[ratos noturnos,vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,e secar ao sol, em poça amarga.E dentro do pranto minha face trocista,meu olho que ri e despreza»
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,que polui a essência mesma dos diamantes.
VII
O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
8 destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme.



PASSAGEM DO ANO
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com
[sinfonia e coral,que o tempo ficará repleto e não ouviras o clamor,os irreparáveis uivosdo lobo, na solidão.
O último dia do temponão é o último dia de tudo.Fica sempre uma franja de vidaonde se sentam dois homens.Um homem e seu contrário,uma mulher e seu pé,um corpo e sua memória,um olho e seu brilho,uma voz e seu eco,e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.O recurso da dança e do grito,o recurso da bola colorida,o recurso de Kant e da poesia,todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.O corpo gasto renova-se em espuma.Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.




PASSAGEM DA NOITE
É noite. Sinto que é noitenão porque a sombra descesse(bem me importa a face negra)mas porque dentro de mim,no fundo de mim, o gritose calou, fez-se desânimo.Sinto que nós somos noite,que palpitamos no escuroe em noite nos dissolvemos.Sinto que é noite no vento,noite nas águas, na pedra.E que adianta uma lâmpada?E que adianta uma voz?E noite no meu amigo.É noite no submarino.
É noite na roça grande.É noite, não é morte, é noitede sono espesso e sem praia.Não é dor, nem paz, é noite,é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!E salve, dia que surge!Os corpos saltam do sono,o mundo se recompõe.Que gozo na bicicleta!Existir: seja como for.A fraterna entrega do pão.Amar: mesmo nas canções.De novo andar: as distâncias,as cores, posse das ruas.Tudo que à noite perdemosse nos confia outra vez.Obrigado, coisas fiéis!Saber que ainda há florestas,sinos, palavras; que a terraprossegue seu giro, e o temponão murchou; não nos diluímos.Chupar o gosto do dia!Clara manhã, obrigado,o essencial é viver!



UMA HORA E MAIS OUTRA
Há uma hora tristeque tu não conheces.Não é a da tardequando se diriabaixar meio gramana dura balança;não é a da noiteem que já sem luza cabeça cobrescom frio lençolantecipando outromais gelado pano;e também não é ado nascer do solenquanto enfastiado
assistes ao diaperseverar no câncer,no pó, no costume,no mal divididotrabalho de muitos;não a da comidahora mais grotescaem que dente de ouromastiga pedaçosde besta caçada;nem a da conversacom indiferentesou com burros de óculos,gelatina humana,vontades corruptas,palavras sem fogo,lixo tão burguês,lesmas de blackoutfugindo à verdadecomo de um incêndio;não a do cinemahora vagabundaonde se compensa,rosa em tecnicólor,a falta de amor,a falta de amor,
A FALTA DE AMOR;
nem essa hora flácidaapós o desgastedo corpo entrançadoem outro, tristezade ser exauridoe peito deserto,nem a pobre horada evacuação:um pouco de ti
desce pelos canos,oh! adulterado,assim decomposto,tanto te repugna,recusas olhá-lo:é o pior de ti?Torna-se a matérianobre ou vil conformese retém ou passa?Pois hora mais tristeainda se afigura;ei-la, a hora pequenaque desprevenidote colhe sozinhona rua ou no catreem qualquer república;já não te revoltase nem te lamentas,tampouco procurassolução benignade cristo ou arsênico,sem nenhum apoiono chão ou no espaço,roídos os livros,cortadas as pontes,furados os olhos,a língua enrolada,os dedos sem tato,a mente sem ordem,sem qualquer motivode qualquer ação,tu vives: apenas,sem saber por que,como, para que,tu vives: cadáver,malogro, tu vives,
rotina, tu vivestu vives, mas tristeduma tal tristezatão sem água ou carme,tão ausente, vago,que pegar quiserana mão e dizer-te:Amigo, não sabesque existe amanhã?Então um sorrisonascera no fundode tua misériae te destinaraa melhor sentido.Exato, amanhãserá outro dia.Para ele viajas.Vamos para ele.Venceste o desgosto,calcaste o indivíduo,já teu passo avançaem terra diversa.Teu passo: outros passosao lado do teu.O pisar de botas,outros nem calçados,mas todos pisando,pés no barro, pésn'água, na folhagem,pés que marcham muitos,alguns se desviam,mas tudo é caminho.Tantos: grossos, brancos,negros, rubros pés,tortos ou lanhados,fracos, retumbantes,
gravam no chão molemarcas para sempre:pois a hora mais belasurge da mais triste.




NOS ÁUREOS TEMPOS
Nos áureos temposa rua era tanta.O lado direitoretinha os jardins.Neles penetrávamosindo aparecerjá no esquerdo ladoque em ferros jazia.Nisto se passavaum tempo dez mil.
A viagem do quartorequeria apenasa chama da vela.
Que longa, se o rostofechado no livro.E dos subterrâneosa chave era nossa,como na cascataa moça indelévelse banhava em nós,espaço e miragemse multiplicandonos áureos tempos.
Nos áureos temposque eram de cobremuita noite haviacom chuva soando.Farto da cidadeum atroz coqueiroia para o mato.E vinha o assassinono pó do correio.A riqueza da Áfricase perdia em vento.E era bem difícilcontinuar menino.
Chegando ao limitedos tempos atuais,eis-nos interditosenquanto prosperamos jardins da gripe,os bondes do tédio,as lojas do pranto.O espaço é pequeno.Aqui amontoados,
e de mao em mãoum papel circulaem branco e sigilotalvez o prospectodos áureos tempos
Nos áureos temposque dormem no chão,prestes a acordar,tento descobrircaminhos de longe,os rios primeirose certa confiançae extrema poesia.Não me sinto forteo quanto se pedepara interpretá-los.O jeito é esperar.
Nos áureos temposcoração-sorrisomeus olhos diamantemeus lábios batendoa alvura de um cântico.Do arraial trocadosinto roupas novase escuto as bandeiraspelo ar, que se entornam.
Nos áureos temposdevolve-se a infânciaa troco de nadae o espaço reaberto
deixará passar
os menores homens,
as coisas mais frágeis,
uma agulha, a viagem,
a tinta da boca,
deixará passar
o óleo das coisas,
deixará passar
a relva dos sábados,
deixará passar
minha namorada,
deixará passar
o cão paralítico,
deixará passar
o círculo de água
refletindo o rosto...
Deixará passar
a matéria fosca,
mesmo assim prendendo-a
nos áureos tempos.




ROLA MUNDO
Vi moças gritando
numa tempestade.
O que elas diziam
o vento largava,
logo devolvia.
Pávido escutava,
não compreendia.
Talvez avisassem:
mocidade é morta.
Mas a chuva, mas o choro,
mas a cascata caindo,
tudo me atormentava
sob a escureza do dia,
e vendo,
eu pobre de mim não via.
Vi moças dançandonum baile de ar.Vi os corpos brandostornarem-se violentose o vento os tangia.Eu corria ao vento,era só umidade,era só passageme gosto de sal.A brisa na bocame entristeciacomo poucos idíliosjamais o lograram;e passando,por dentro me desfazia.
Vi o sapo saltandouma altura de morro;consigo levavao que mais me valia.Era algo hediondoe meigo: veludo,na mole algidezparecia roubarpara devolver-mejá tarde e corrupta,de tão babujada,uma velha medalhaem que dorme teu eco.
Vi outros enigmasà feição de floresabertas no vácuo.Vi saias errantes
demandando corpos
que em gás se perdiam,
e assim desprovidas
mais esvoaçavam,
tornando-se roxo,
azul de longa espera,
negro de mar negro.
Ainda se dispersam.
Em calma, longo tempo,
nenhum tempo, não me lembra.
Vi o coração de mocaesquecido numa jaula.Excremento de leão,apenas. E o circo distante.Vi os tempos defendidos.Eram de ontem e de sempre,e em cada pais haviaum muro de pedra e espanto,e nesse muro pousadaum pomba cega.
Como pois interpretaro que os heróis não contam?Como vencer o oceanose é livre a navegaçãomas proibido fazer barcos?Fazer muros, fazer versos,cunhar moedas de chuva,inspecionar os faróispara evitar que se acendam,e devolver os cadáveresao mar, se acaso protestam,eu vi; já não quero ver.
E vi minha vida todacontrair-se num inseto.Seu complicado instrumentode vôo e de hibernação,sua cólera zumbidora,seu frágil bater de élitros,seu brilho de pôr de tardee suas imundas patas...Joguei tudo no bueiro.Fragmentos de borracha
e
cheiro de rolha queimada:eis quanto me liga ao mundo.Outras riquezas ocultas,adeus, se despedaçaram.
Depois de tantas visões
já não vale concluir
se o melhor é deitar fora
a um tempo os olhos e os óculos.
E se a vontade de ver
também cabe ser extinta,
se as visões, interceptadas,
e tudo mais abolido.
Pois deixa o mundo existir!
Irredutível ao canto,
superior à poesia,
rola, mundo, rola, mundo,
rola o drama, rola o corpo,
rola o milhão de palavras
na extrema velocidade,
rola-me, rola meu peito,
rola os deuses, os países,
desintegra-te, explode, acaba!

Um inseto cavacava sem alarmeperfurando a terrasem achar escape.
Que fazer, exausto,em país bloqueado,enlace de noiteraiz e minério?
Eis que o labirinto(oh razão, mistério)presto se desata:












ÁPORO


em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.














Até hoje perplexoante o que murchoue não eram pétalas.
De como este banconão reteve forma,cor ou lembrança.
Nem esta árvorebalança o galhoque balançava




ONTEM
Tudo foi brevee definitivo.Eis está gravado
não no ar, em mim,que por minha vezescrevo, dissipo.


FRAGILIDADE
Este verso, apenas um arabescoem torno do elemento essencial — inatingível.Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidadesde sono se depositam sobre a terra esfacelada.Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixesubindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a músicafeita de depurações e depurações, a delicada modelagemde um cristal de mil suspiros límpidos e frigidos: não maisque um arabesco, apenas um arabescoabraça as coisas, sem reduzi-las.





O POETA ESCOLHE SEU TÚMULO
Onde foi Tróia,onde foi Helena,onde a erva cresce,onde te despi,
onde pastam coelhos» roer o tempo,e um rio molharoupas largadas,
onde houve, nãona mais agorao ramo inclinado,
eu me sinto bem
e aí me sepulto
para sempre e um dia.





VIDA MENOR
A fuga do real,
ainda mais longe a fuga do feérico,
mais longe de tudo, a fuga de si mesmo,
a fuga da fuga, o exílio
sem água e palavra, a perda
voluntária de amor e memória,
o eco
já não correspondendo ao apelo, e este fundindo-se,
a mao tornando-se enorme e desaparecendo
desfigurada, todos os gestos afinal impossíveis,
senão inúteis,
a desnecessidade do canto, a limpeza
da cor, nem braço a mover-se nem unha crescendo.
Não a morte, contudo.
Mas a vida: captada em sua forma irredutível,
já sem ornato ou comentário melódico,
vida a que aspiramos como paz no cansaço
(não a morte),
vida mínima, essencial; um início-, um sono;
menos que terra, sem calor; sem ciência nem ironia;
o que se possa desejar de menos cruel: vida
em que o ar, não respirado, mas me envolva;
nenhum gasto de tecidos; ausência deles;
confusão entre manhã e tarde, já sem dor,
porque o tempo não mais se divide em seções; o tempo
elidido, domado.
Não o morto nem o eterno ou o divino,
apenas o vivo, o pequenino, calado, indiferente
e solitário vivo.
Isso eu procuro.






CAMPO, CHINÊS E SONO
A João Cabral de Melo Neto
O chinês deitado
no campo. O campo é azul,
roxo também. O campo,
o mundo e todas as coisas
têm ar de um chinês
deitado e que dorme.
Como saber se está sonhando?
O sono é perfeito. Formigas
crescem, estrelas latejam,
Peixes são fluidos.
E árvores dizem qualquer coisa
que não entendes. Há um chinês
dormindo no campo. Há um campo
cheio de sono e antigas confidencias.
Debruça-te no ouvido, ouve o murmúriodo sono em marcha. Ouve a terra, as nuvens.O campo está dormindo e forma um chinêsde suave rosto inclinadono vão do tempo.





EPISÓDIO
Manhã cedo passaà minha porta um boi.De onde vem elese não há fazendas?
Vem cheirando o tempoentre noite e rosa.Para à minha portasua lenta máquina.
Alheio à políciaanterior ao tráfegoó boi, me conquistaspara outro, teu reino.
Seguro teus chifres:eis-me transportadosonho e compromissoao País Profundo.






NOVA CANÇÃO DO EXÍLIO
A Josué Montello
Um sabiá
na palmeira, longe.Estas aves cantamum outro canto.
O céu cintilasobre flores úmidas.Vozes na mata,e o maior amor.
Só, na noite,
seria feliz:
um sabiá,
na palmeira, longe.
Onde é tudo belo
e fantástico,
só, na noite,
seria feliz.
(Um sabiá,
na palmeira, longe.)
Ainda um grito de vida e
voltar
para onde é tudo belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.





ECONOMIA DOS MARES TERRESTRES
A queixa
comprimida na garrafa
quer escapar
reunir os povos
dizer a Matilde que lhe perdoa
organizar a vida dos índios,
a queixa
no vácuo
lembra uma queixa menor.
Dir-se-ia, na chama, uma sombra,
não arde, também se destrói.
A queixa mínima
já não pede ao vento que se cale,
aos estudantes que estudem, a Elza
que deposite flores sobre o retrato enterrado.
Limita-se
à contemplação metódica da mosca
fora da garrafa
(mas já são outros problemas).






EQUÍVOCO
Na noite sem lua perdi o chapéu.
O chapéu era branco e dele passarinhos
saiam para a glória, transportando-me ao céu.
A neblina gelou-me até os nervos e as tias.
Fiquei na praça oval aguardando a galera
com fiscais que me perdoassem e me abrissem os rios.
Um jardim sempre meu, de funcho e de coral,ergueu-se pouco a pouco, e eram flores de velho,murchando sem abrir, indecisas no mal.
Ressurgi para a escola, e de novo adquiria ciência de deslizar, tao própria de meus netos:Sou apenas um peixe, mas que fuma e que ri,e que ri e detesta.






MOVIMENTO DA ESPADA
Estamos quites, irmão vingador.
Desceu a espada
e cortou o braço.
Cá está ele, molhado em rubro.
Dói o ombro, mas sobre o ombro
tua justiça resplandece.
Já podes sorrir, tua bocamoldar-se em beijo de amor.Beijo-te, irmão, minha dividaestá paga.Fizemos as contas, estamos alegres.
Tua lâmina corta, mas é doce,a carne sente, mas limpa-se.O sol eterno brilha de novoe seca a ferida.
Mutilado, mas quanto movimento
em mim procura ordem.
O que perdi se multiplica
e uma pobreza feita de pérolas
salva o tempo, resgata a noite.
Irmão, saber que és irmão,
na carne como nos domingos.
Rolaremos juntos pelo mar...
Agasalhado em tua vingança,
puro e imparcial como um cadáver que o ar embalsamasse,
serei carga jogada às ondas,
mas as ondas, também elas, secam,
e o sol brilha sempre.
Sobre minha mesa, sobre minha cova, como brilha o sol!
Obrigado, irmão, pelo sol que me deste,
na aparência roubando-o.
Já não posso classificar os bens preciosos.
Tudo é precioso...
e tranqüilo
como olhos guardados nas pálpebras.




ASSALTO
No quarto de hotela mala se abre: o tempodá-se em fragmentos.
Aqui habiteimas traças conspiramuma idade de homemcheia de vertentes.
Roupas mudam tanto.Éramos cinco ou seisque hoje não me encontro,clima revogado.
Uma doença graveesse amor sem braçose toda a carga leveque súbito me arde.
No quarto de hotelfuncionam botõeschamando mocidadefogo, canto, livro.
Vem a quarteiradepositar a brancatoalha do olvidoinsinuar o branco
sabão da calma.A perna que pensaoutrora voavasobre telhados.
Em copo de uísquelesmas baratasacres lembrançasenjôo de vida.
Ponho no chapéurestos desse homemencontrado mortoe do nono andar
jogo tudo fora.
A mala se fecha: o tempo
se retrai, ó concha.






ANUNCIO DA ROSA
Imenso trabalho nos custa a flor.Por menos de oito contos vendê-la? Nunca.Primavera não há mais doce, rosa tão meigaonde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis
Uma só pétala resume auroras e pontilhismos,sugere estâncias, diz que te amam, beijai a rosa,ela é sete flores, qual mais fragrante, todas exóticas,todas históricas, todas catárticas, todas patéticas.
Vede o caule,traço indeciso.
Autor da rosa, não me revelo, sou eu, quem sou?Deus me ajudara, mas ele é neutro, e mesmo duvidoque em outro mundo alguém se curve, filtre a paisagem,pense uma rosa na pura ausência, no amplo vazio
Vinde, vinde,olhai o cálice.
Por preço tão vil mas peça, como direi, aurilavrada,não, é cruel existir em tempo assim filaucioso.Injusto padecer exílio, pequenas eólicas cotidianas,oferecer-vos alta mercancia estelar e sofrer vossa irrisão.
Rosa na roda,rosa na máquina,apenas rósea.
Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,
pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs
[na noite,e não há oito contos. Já não vejo amadores de rosa.Ó fim do parnasiano, começo da era difícil, a burguesia apodrece.
Aproveitem. A últimarosa desfolha-se.






EDIFÍCIO SÃO BORJA
Cólica premonitóriacaminho do suicídiofome de gaia-ciênciaSão Borja
Esqueléticos desajustadosbrigando com a vida nussurgindo à noite em fragmentosSão Borja
Ritmo de poeta mais fortenesta mão se inoculandoprojeto de fuga ao Chileà tua casa de infânciaao adro da igreja tombadaSão Borja
Cerveja em copo de pedrasonhos os mais obscurosna palma da mãona reumaSão Borja
Santo da mais pura estimanunca jamais invocadosem estrelas se desfazendoou navios se cruzandoe se saudando: boa viagemno caos
na peste
no espasmoSilo Borja
São Borja São Borja São
quatro mãos quatro facadas
num peito só todo aberto
e nele cabe a cidade
o vento na roupa
uma outra longa amazônia
São Borja
Edifício poço luznome assobio no vácuoesperança de emergênciaSão BorjaSão Borja
Imolação das venezasas terras distribuídaso mar limpoa cabeça louraem ativa deleitaçãoviajando sozinhaSão Borja
Palavras de muita força
embalsamadas
explodindo na alva
futuras verdades ainda sangrentas
cofre a saquear, jardim
de chaves fluidas
São Borja
Trompa de caça trombeta
de final juízo improvável
sinusite
raiva
São Borja
Canoa sem fado e peixes
canções jandaias madréporas
anêmonas
sorrimos
São Borja
outra vez sorrimos



O tempo se despencando
por trás das guerras púnicas
na face dos gregos
num dedo de estátua
posse de anel
segredo
São Borja
A vida povoada
a morte sem aproveitadores
a eternidade afinal expelida
estamos todos presentes
felizes calados
completos
Santo São Borja.
J




OMITO
Sequer conheço Fulana,vejo Fulana tão curto,Fulana jamais me vê,mas como eu amo Fulana.
Amarei mesmo Fulana?ou ê ilusão de sexo?Talvez a linha do busto,da perna, talvez do ombro.
Amo Fulana tão forte,amo Fulana tão dor,que todo me despedaçoe choro, menino, choro.
Mas Fulana vai se rindo...Vejam Fulana dançando.No esporte ela está sozinha.No bar, quão acompanhada.
E Fulana diz mistérios,diz marxismo, rimmel, gás.Fulana me bombardeia,no entanto sequer me vê.
E sequer nos compreendemos.É dama de alta fidúcia,tem latifúndios, iates,sustenta cinco mil pobres.
Menos eu... que de orgulhosome basto pensando nela.Pensando com unha, plasma,fúria, gilete, desânimo.
Amor tão disparatado.Desbaratado é que é...Nunca a sentei no meu colonem vi pela fechadura.
Mas eu sei quanto me custamanter esse gelo digno,essa indiferença gaiae não gritar: Vem, Fulana!
Como deixar de invadirsua casa de mil fechose sua veste arrancandoMostrá-la depois ao povo
tal como é eu deve ser:branca, intata, neutra, rara,feita de pedra translúcida,de ausência e ruivos ornatos.
Mas como será Fulana,digamos, no seu banheiro?Só de pensar em seu corpoo meu se punge... Pois sim.
Porque preciso do corpopara mendigar Fulana,rogar-lhe que pise em mim,que me maltrate... Assim não.
Mas Fulana será gente?Estará somente em ópera?Será figura de livro?Será bicho? Saberei?
Não saberei? Só pegando,pedindo: Dona, desculpe...O seu vestido esconde algo?tem coxas reais? cintura?
Fulana às vezes existedemais; até me apavora.Vou sozinho pela rua,eis que Fulana me roça.
Olho: não tem mais Fulana.Povo se rindo de mim.(Na curva do seu sapatoo calcanhar rosa e puro.)
E eu insonte, pervagandoem ruas de peixe e lágrimaAos operários: a vistes?Não, dizem os operários.
Aos boiadeiros: A vistes?Dizem não os boiadeiros.Acaso a vistes, doutores?Mas eles respondem: Não
Pois é possível? perguntoaos jornais: todos calados.Não sabemos se Fulanapassou. De nada sabemos.
E são onze horas da noite,são onze rodas de chope,onze vezes dei a voltade minha sede; e Fulana
talvez dance no cassinoou, e será mais provável,talvez beije no Leblon,talvez se banhe na Cólquida;
talvez se pinte no espelhodo taxi; talvez aplaudacerta peça miserávelnum teatro barroco e louco;
talvez cruze a perna e beba,talvez corte figurinhas,talvez fume de piteira,talvez ria, talvez minta.
Esse insuportável risode Fulana de mil dentes(anúncio de dentifrício)é faca me escavacando.
Me ponho a correr na praia.Venha o mar! Venham cações!Que o farol me denuncie!Que a fortaleza me ataque!
Quero morrer sufocado,quero das mortes a hedionda,quero voltar repelidopela salsugem do largo,
já sem cabeça e sem perna,à porta do apartamento,para feder: de propósito,somente para Fulana.
E Fulana apelarápara os frascos de perfume.Abre-os todos: mas de todoseu salto, e ofendo, e sujo.
E Fulana correrá(nem se cobriu: vai chispando)talvez se atire lá do alto.Seu grito é: socorro! e deus.
Mas não quero nada disso.Para que chatear Fulana?Pancada na sua nucana minha é que vai doer.
E daí não sou criança,Fulana estuda meu rosto.Coitado: de raça branca.Tadinho: tinha gravata.
Já morto, me quererá?Esconjuro, se é necrófila...Fulana é vida, ama as flores,as artérias e as debêntures.
Sei que jamais me perdoaramatar-me para servi-la.Fulana quer homens fortes,couraçados, invasores.
Fulana é toda dinâmica,tem um motor na barriga.Suas unhas são elétricas,teus beijos refrigerados,
desinfetados, gravadosem máquina multilite.Fulana, como é sadia!Os enfermos somos nós.
Sou eu, o poeta precárioque fez de Fulana um mito,nutrindo-me de Petrarca,Ronsard, Camões e Capim;
que a sei embebida em leite,carne, tomate, ginástica,e lhe colo metafísicas,enigmas, causas primeiras.
Mas, se tentasse construiroutra Fulana que nãoessa de burguês sorrisoe de tão burro esplendor?
Mudo-lhe o nome; recorto-lheum traje de transparência;já perde a carência humana;e bato-a; de tirar sangue.
E lhe dou todas as facesde meu sonho que especula;e abolimos a cidadejá sem peso e nitidez.
E vadeamos a ciência,mar de hipóteses. A luafica sendo nosso esquemade um território mais justo.
E colocamos os dados
de um mundo sem classe e imposto;
e nesse mundo instalamos
os nossos irmãos vingados.
E nessa fase gloriosa,de contradições extintas,eu e Fulana, abrasados,queremos... que mais queremos?
E digo a Fulana: Amiga,afinal nos compreendemos.Já não sofro, já não brilhas,mas somos a mesma coisa.
(Uma coisa tão diversa
da que pensava que fôssemos.)






RESÍDUO
De tudo ficou um pouco.Do meu medo. Do teu asco.Dos gritos gagos. Da rosaficou um pouco.
Ficou um pouco de luzcaptada no chapéu.Nos olhos do rufiãode ternura ficou um pouco(muito pouco).
pouco ficou deste póde que teu branco sapatose cobriu. Ficaram poucasroupas, poucos véus rotospouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
— vazio — de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,mas por que não ficariaum pouco de mim? no tremque leva ao norte, no barco,nos anúncios de jornal,um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?na consoante?no poço?
Um pouco fica oscilandona embocadura dos riose os peixes não o evitam,um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.Não muito: de uma torneirapinga esta gota absurda,meio sal e meio álcool,salta esta perna de rã,este vidro de relógiopartido em mil esperanças,este pescoço de cisne,este segredo infantil...De tudo ficou um pouco:de mim; de ti; de Abelardo.Cabelo na minha manga,de tudo ficou um pouco;vento nas orelhas minhas,simplório arroto, gemidode víscera inconformada,e minúsculos artefatos:campânula, alvéolo, cápsulade revólver... de aspirina.De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.






CASO DO VESTIDO
Nossa mie, o que é aquelevestido, naquele prego?
Minhas filhas, é o vestidode uma dona que passou.
Passou quando, nossa mãe?Era nossa conhecida?
Minhas filhas, boca presa.Vosso pai evém chegando.
Nossa mãe, dizei depressaque vestido é esse vestido.
Minhas filhas, mas o corpoficou frio e não o veste.
O vestido, nesse prego,está morto, sossegado.
Nossa m&e, esse vestidotanta renda, esse segredo!
Minhas filhas, escutaipalavras de minha boca.
Era uma dona de longe,vosso pai enamorou-se.
E ficou tão transtornado,se perdeu tanto de nós,
M afastou de toda vida,se fechou, se devorou,
chorou no prato de carne,bebeu, brigou, me bateu,
me deixou com vosso berço,foi para a dona de longe,
mas a dona não ligou.Em vão o pai implorou.
Dava apólice, fazenda,dava carro, dava ouro,
beberia seu sobejo,lamberia seu sapato.
Mas a dona nem ligou.Então vosso pai, irado,
me pediu que lhe pedisse,a essa dona tão perversa,
que tivesse paciênciae fosse dormir com ele...
Nossa mãe, por que chorais?Nosso lenço vos cedemos.
Minhas filhas, vosso paichega ao pátio. Disfarcemos.
Nossa mãe, não escutamospisar de pé no degrau.
Minhas filhas, procureiaquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacassede meu marido a vontade.
Eu não amo teu marido,me falou ela se rindo.
Mas posso ficar com elese a senhora fizer gosto,
só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.
Olhei para vosso pai,os olhos dele pediam.
Olhei para a dona ruim,os olhos dela gozavam
O seu vestido de renda,de colo mui devassado,
mais mostrava que escondiaas partes da pecadora.
Eu fiz meu pelo-sinal,me curvei... disse que sim.
Sai pensando na morte,mas a morte não chegava.
Andei pelas cinco ruas,passei ponte, passei rio,
visitei vossos parentes,não comia, não falava,
tive uma febre terça,Was a morte não chegava.
Fiquei fora de perigo,fiquei de cabeça branca,
perdi meus dentes, meus olhos,costurei, lavei, fiz doce,
minhas mãos se escalavraram,meus anéis se dispersaram,
minha corrente de ouropagou conta de farmácia.
Vosso pai sumiu no mundo.O mundo é grande e pequeno.
Um dia a dona soberbame aparece já sem nada,
pobre, desfeita, mofina,com sua trouxa na mão.
Dona, me disse baixinho,não te dou vosso marido,
que não sei onde ele anda.Mas te dou este vestido,
última peça de luxo
que guardei como lembrança
daquele dia de cobra,da maior humilhação.
Eu não tinha amor por ele,ao depois amor pegou.
Mas então ele enjoadoconfessou que só gostava
de mim como eu era dantesMe joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,no chão rocei minha cara,
me puxei pelos cabelos,me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:vosso marido sumiu.
Aqui trago minha roupaque recorda meu malfeito
de ofender dona casadapisando no seu orgulho.
Recebei esse vestidoe me dai vosso perdão.
Olhei para a cara dela,quede os olhos cintilantes?
quede graça de sorriso,quede colo de camélia?
quede aquela cinturinhadelgada como jeitosa?
quede pezinhos calçadoscom sandálias de cetim?
Olhei muito para ela,boca não disse palavra.
Peguei o vestido, pusnesse prego da parede.
Ela se foi de mansinhoe já na ponta da estrada
vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,
mal reparou no vestidoe disse apenas: Mulher,
põe mais um prato na mesa.Eu fiz, ele se assentou,
comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,
comia meio de ladoe nem estava mais velho.
O barulho da comidana boca me acalentava.
me dava uma grande paz,um sentimento esquisito
de que tudo foi um sonho,vestido não há... nem nada.
Minhas filhas, eis que ouçovosso pai subindo a escada.





O ELEFANTE
Fabrico um elefantede meus poucos recursos.Um tanto de madeiratirado a velhos móveistalvez lhe dê apoio.E o encho de algodão,de paina, de doçura.A cola vai fixarsuas orelhas pensas.A tromba se enovela,é a parte mais felizde sua arquitetura.Mas há também as presas,dessa matéria puraque não sei figurar.
Tão alva essa riquezaa espojar-se nos circossem perda ou corrupçãoE há por fim os olhos,onde se depositaa parte do elefantemais fluida e permanente,alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefantepronto para sairà procura de amigosnum mundo enfastiadoque já não crê nos bichoe duvida das coisas.Ei-lo, massa imponentee frágil, que se abanae move lentamentea pele costuradaonde há flores de panoe nuvens, alusõesa um mundo mais poéticoonde o amor reagrupaas formas naturais.
Vai o meu elefantepela rua povoada,mas não o querem vernem mesmo para rirda cauda que ameaçadeixá-lo ir sozinho.E todo graça, emboraas pernas não ajudeme seu ventre balofo
se arrisque a desabarao mais leve empurrão.Mostra com elegânciasua mínima vida,e não hà na cidadealma que se disponhaa recolher em sidesse corpo sensívela fugitiva imagem,o passo desastradomas faminto e tocante.
Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos,
esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.
E já tarde da noitevolta meu elefante,mas volta fatigado,as patas vacilantesse desmancham no pó.Ele não encontrouo de que carecia,o de que carecemos,eu e meu elefante,em que amo disfarçar-me.Exausto de pesquisa,caiu-lhe o vasto engenhocomo simples papel.A cola se dissolvee todo seu conteúdode perdão, de caricia,de pluma, de algodão,jorra sobre o tapete,qual mito desmontado.Amanhã recomeço.




MORTE DO LEITEIRO


A Cyro Novaes

Há pouco leite no país,é preciso entregá-lo cedo.Há muita sede no pais,é preciso entregá-lo cedo.Há no país uma legenda,que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteirode madrugada com sua latasai correndo e distribuindoleite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas,e seus sapatos de borrachayão dizendo aos homens no sonoque alguém acordou cedinhoe veio do último subúrbiotrazer o leite mais frioe mais alvo da melhor vacapara todos criarem forçana luta brava da cidade.
Na mão a garrafa brancanão tem tempo de dizeras coisas que lhe atribuonem o moço leiteiro ignaro,morador na Rua Namur,empregado no entreposto,com 21 anos de idade,sabe lá o que seja impulsode humana compreensão.E já que tem pressa, o corpovai deixando à beira das casasuna apenas mercadoria.
E como a porta dos fundostambém escondesse genteSue aspira ao pouco de leitedisponível em nosso tempo,avancemos por esse beco,peguemos o corredor,depositemos o litro...Sem fazer barulho, é claro,que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil,
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este acordou em pânico(ladrões infestam o bairro),não quis saber de mais nada.O revólver da gavetasaltou para sua mão.Ladrão? se pega com tiro.Os tiros na madrugadaliquidaram meu leiteiro.Se era noivo, se era virgem,se era alegre, se era bom,não sei,é tarde para saber.
Mas o homem perdeu o sonode todo, e foge pra rua.Meu Deus, matei um inocente.Bala que mata gatunotambém serve pra furtara vida de nosso irmão.Quem quiser que chame médico,policia não bota a mão
neste filho de meu pai.Está salva a propriedade.A noite geral prossegue,a manhã custa a chegar,mas o leiteiroestatelado, ao relento,perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada,no ladrilho já serenoescorre uma coisa espessaque é leite, sangue... não sei.Por entre objetos confusos,mal redimidos da noite,duas cores se procuram,suavemente se tocam,amorosamente se enlaçam,formando um terceiro toma que chamamos aurora.

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