sábado, 5 de janeiro de 2008

Vinícius de Moraes XIV

Praia branca

Vida bela

Praia branca, tristeza
Mar sem fim
Lua nova
Mulher
Pobre de mim
Vento sul que o seu corpo acarinhou
Céu azul
De manhã me despertou

Barco a vela
Choupana verde cor
Eu e ele, o menino pescador
Vida bela
A maré, peixe do mar
Morte longe
Tem tempo pra pensar

Pregão da saudade

Quem quer minha tristeza
Quem quer minha aflição
Se quiser, vendo barato
Fiado não vendo, não

Também tenho uma saudade
Uma saudade de um bem-querer
Todos dois dou até dado
Pois não quero mais sofrer


Primavera

O meu amor sozinho
É assim como um jardim sem flor
Só queria poder ir dizer a ela
Como é triste se sentir saudade

É que eu gosto tanto dela
Que é capaz dela gostar de mim
E acontece que eu estou mais longe dela
Que da estrela a reluzir na tarde

Estrela, eu lhe diria
Desce à terra, o amor existe
E a poesia só espera ver
Nascer a primavera
Para não morrer

Não há amor sozinho
É juntinho que ele fica bom
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho
Eu queria ter felicidade

É que o meu amor é tanto
Um encanto que não tem mais fim
E no entanto ele nem sabe que isso existe
É tão triste se sentir saudade

Amor, eu lhe direi
Amor que eu tanto procurei
Ah, quem me dera eu pudesse ser
A tua primavera
E depois morrer



Quando a noite me entende

Quando, no fim de uma tarde
Não há quem me aguarde
Que melancolia
Sou uma coisa infeliz
Que num copo de whisky
Disfarça a alegria

E quando a noite me entende
E a mão que se estende
É amiga da minha
Mesmo que seja ilusão
Bate mais em meu peito
Esse meu coração, coração

Coração, toma jeito
Bate mais devagar em meu peito
Deixa a mania do amor
Se sou feliz ou infeliz
Pouco importa, o que conforta
É ter vivo esse meu coração



Quando tu passas por mim

Quando tu passas por mim
Por mim passam saudades cruéis
Passam saudades de um tempo
Em que a vida eu vivia a teus pés

Quando tu passas por mim
Passam coisas que eu quero esquecer
Beijos de amor infiéis
Juras que fazem sofrer

Quando tu passas por mim
Passa o tempo e me leva pra trás
Leva-me a um tempo sem fim
A um amor onde o amor foi demais

E eu que só fiz te adorar
E de tanto te amar penei mágoas sem fim
Hoje nem olho pra trás
Quando tu passas por mim




Queixa

Cavaco, pandeiro, cuíca
Ganzá, tamborim, violão
E o samba, que coisa mais rica
E o surdo batendo no coração

Deixa
Porque hoje é tudo natural
Deixa
Que essa queixa, sim, é sempre igual

Quando a cidade amanhecer
É carnaval

Cavaco, pandeiro, cuíca...

Deixa
Tomo um trago e lavo o coração
Deixa
Que essa queixa não tem solução

Deixa
Porque quem quer saber
Não sabe não

Deixa
Porque hoje é tudo natural...

Quando a cidade amanhacer
É carnaval

Deixa
Tomo um trago...

Deixa porque hoje é tudo natural
Deixa porque hoje é tudo igual
Dizer ao meu poeta
Vai aí meu coração

Quando a cidade amanhecer
É carnaval


Quem és?

Quem és tu
Quem és
Serás a sombra que me espera
Ou és a breve primavera
A mariposa que se pousa
E que se vai

Quem és, amor
Que me surgiste como a cor no mundo triste
Ou como o verso imprescindível que revela
E que se vai

Me deixaste provar de uma alegria
Que eu não sabia mais
A súbita poesia de um único verão

Me deixaste saber que ainda existe o som
De uma canção
A paz sem nostalgia
O amor sem solidão

Amor, quem és
Que penetraste o meu silêncio
Com teus pés tão frágeis
Ah, pudesse eu saber
Um dia finalmente
Quem és


Quem for mulher que me siga

Quem for mulher que me siga
Quem for mulher que me siga
Quem for mulher que me siga
Quem for mulher que me siga

O frevo disse pra marcha
Sem qualquer preliminar:
Menina, você não acha que a gente deve juntar?
E a marcha virou pro frevo
Com muito enlevo no olhar
E disse: moço, não devo
Só se primeiro casar
E o frevo pro coco pa ra pá
Não fica maluco pa ra pá
Falou que faltava caráter no mundo
Pra não se lembrar

Até que a marchinha pa ra pã
Teve peninha pa ra pã
E logo foi com ele se enturmar laiá laiá

O bom frevinho baiano
E a marchinha carioca
Vão fazer muita fofoca
No melhor dos carnavais
Cantando essa melodia
Que o Vinicius de Moraes
Fez para o bloco do ano
Os internacionais
E o frevo pro coco pa ra pã
Não fica maluco pa ra pã
Falou que faltava caráter no mundo
Pra não se lembrar

Até que a marchinha pa ra pã
Teve peninha pa ra pã
E logo foi com ele se enturmar laiá laiá

Quem for mulher que me siga
Quem for mulher que me siga
Quem for mulher que me siga
Quem for mulher que me siga


Rancho das flores

Entre as prendas com que a natureza
Alegrou este mundo onde há tanta tristeza
A beleza das flores realça em primeiro lugar
É um milagre
De aroma florido
Mais lindo que toda as graças do céu
E até mesmo do mar

Olhem bem para a rosa
Não há mais formosa
É a flor dos amantes
É a rosa-mulher
Que em perfume e nobreza
Vem antes do cravo
E do lírio e da hortênsia
E da dália e do bom crisântemo
E até mesmo do puro e gentil malmequer

E reparem no cravo
O escravo da rosa
Que flor mais cheirosa
De enfeite sutil
E no lírio que causa o delírio da rosa
O martírio da alma da rosa
Que é a flor mais vaidosa e mais prosa
Entre as flores do nosso Brasil

Abram alas pra dália garbosa
Da cor mais vistosa
Do grande jardim da existência das flores
Tão cheio de cores gentis
E também para a hortênsia inocente
A flor mais contente
No azul do seu corpo macio e feliz

Satisfeita da vida
Vem a margarida
Dos que têm paixão
E agora é a vez
Da papoula vermelha
A que dá tanto mel pras abelhas
E alegra este mundo tão triste
Com a cor que é a do meu coração

E agora aqui temos o bom crisântemo
Seu nome cantemos em verso e em prosa
Porém
que não tem a beleza da rosa

Que uma rosa não é só uma flor
Uma rosa é uma rosa é uma rosa
É a mulher rescendendo de amor


Rancho das namoradas

Já vem raiando a madrugada
Acorda, que lindo!
Mesmo a tristeza está sorrindo
Entre as flores da manhã
Se abrindo nas cores do céu

O véu das nuvens que esvoaçam
Que passam pela estrela a morrer
Parecem nos dizer
Que não existe beleza maior
Do que o amanhecer

E no entanto maior
Bem maior que a do céu
Bem maior que a do mar
Maior que toda a natureza
É a beleza que tem a mulher namorada

Seu corpo é assim como a aurora ardente
Sua alma é uma estrela inocente
Seu corpo é uma rosa fechada
Em seu seio, os pudores
Renascem das dores de antigos amores
Que vieram, mas não eram o amor que se espera
O amor primavera

São tantos seus encantos
Que para os comparar
Nem mesmo a beleza que têm
As auroras do mar


Regra três

Tantas você fez que ela cansou
Porque você, rapaz
Abusou da regra três
Onde menos vale mais

Da primeira vez ela chorou
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa de perdoar

Tem sempre o dia em que a casa cai
Pois vai curtir seu deserto, vai.
Mas deixe a lâmpada acesa
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto
Porque você pode estar certo que vai chorar



A rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada




Sabe você

Você é muito mais que eu sou
Está bem mais rico do que eu estou
Mas o que eu sei você não sabe
E antes que o seu poder acabe
Eu vou mostrar como e por quê
Eu sei, eu sei mais que você

Sabe você o que é o amor?
Não sabe, eu sei
Sabe o que é um trovador?
Não sabe, eu sei
Sabe andar de madrugada
Tendo a amada pela mão?
Sabe gostar? Qual sabe nada
Sabe? Não
Você sabe o que é uma flor?
Não sabe, eu sei
Você já chorou de dor?
Pois eu chorei
Já chorei de mal de amor
Já chorei de compaixão
Quanto a você, meu camarada
Qual o quê, não sabe, não

E é por isso que eu lhe digo
E com razão
Que mais vale ser mendigo
Que ladrão
Sei que um dia há de chegar
Isso seja como for
Em que você pra mendigar
Só mesmo amor
Você pode ser ladrão
Quanto quiser

Mas não rouba o coração
De uma mulher
Você não tem alegria
Nunca fez uma canção
Por isso a minha poesia
Ha! Ha! Você não rouba, não


Samba da bênção

Cantado

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Falado

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Cantado

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Falado

Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Cartola, a benção, Sinhô
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pinheiro
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus

Cantado

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Samba da rosa

Rosa pra se ver
Pra se admirar
Rosa pra crescer
Rosa pra brotar
Rosa pra viver
Rosa pra se amar
Rosa pra colher
E despetalar

Rosa pra dormir
Rosa pra acordar
Rosa pra sorrir
Rosa pra chorar
Rosa pra partir
Rosa pra ficar
E se ter mais uma rosa mulher

É primavera
É a rosa em botão
Ai
, quem me dera
Uma rosa no coração




Samba da volta

Você voltou, meu amor
A alegria que me deu
Quando a porta abriu
Você me olhou
Você sorriu
Ah, você se derreteu
E se atirou
Me envolveu
Me brincou
Conferiu o que era seu
É verdade, eu reconheço
Eu tantas fiz
Mas agora tanto faz
O perdão pediu seu preço
Meu amor
Eu te amo e Deus é mais



Samba de Gésse

Até parece
Que eu conhecia sempre você
Que me aparece
Quando eu não via jeito de ser
A gente esquece
Que a gente muda de bem-querer
Ah, se eu pudesse
Tinha esperado só por você
Quando amanhece
Eu ao meu lado vejo você
Eu digo em prece
Que
a vida é linda como você
Eu que era louco
Eu que era triste
Deixei de ser
Até parece
Que só existe eu e você




Samba de Orly

Vai, meu irmão
Pega esse avião
Você tem razão
De correr assim desse frio
Mas beija
O meu Rio de janeiro
Antes que um aventureiro lance mão

Pede perdão pela duração
Dessa temporada
Mas não diga nada
Que me viu chorando
E pros da pesada
Diz que eu vou levando
Vê como é que anda
Aquela vida à-toa
E se puder me manda
Uma notícia boa


Samba do café

Para fazer um bom café, meu bem
Como se faz, lá no Brasil
Precisa pôr tudo a ferver, meu bem
Como se põe, lá no Brasil

Uma frutinha vermelha
Que as moças colhem no pé
E quando é bem torradinho
Fica pretinho e cheiroso
Como ele é, lá no Brasil
Como ele é, lá no Brasil

Para fazer um bom café, meu bem
Como se faz, lá no Brasil
Precisa ter um bom café, também
Como se tem, lá no Brasil

Tem de ser forte, como o bem
Que a gente tem pelo Brasil
Tem de ser doce, como o amor
Que a gente tem pelo Brasil
Você, seu moço estrangeiro
Só põe açúcar se quer

Mas sendo um bom brasileiro
O seu café vai ser doce
Como se fosse um carinho
O seu café vai ser doce
Como se fosse um beijinho
De uma mulher
Que faz um bom café
Lá no Brasil! Lá no Brasil!


Samba do carioca

Vamos, carioca
Sai do teu sono devagar
O dia já vem vindo aí
O sol já vai raiar
São Jorge, teu padrinho
Te dê cana pra tomar
Xangô, teu pai, te dê
Muitas mulheres para amar
Vai o teu caminho
É tanto carinho para dar
Cuidando do teu benzinho
Que também vai te cuidar
Mas sempre morandinho
Em quem não tem com quem morar
Na base do sozinho não dá pé
Nunca vai dar

Vamos, minha gente
É hora da gente trabalhar
O dia já vem vindo aí
O sol já vai raiar
E a vida está contente
De poder continuar
E o tempo vai passando
Sem vontade de passar
Ê, vida tão boa
Só coisa boa pra pensar
Sem ter que pagar nada
Céu e terra, sol e mar
E ainda ter mulher
De ter o samba pra cantar
O samba que é o balanço
Da mulher que sabe amar


Samba do jato

Um galo cantou
Meu sonho acordou
O jogo acabou, calado
E eu madruguei
Chutando pedras pelo chão
Com a solidão do lado

Um cão me seguiu
Um jato partiu
E tudo ficou parado
E eu acabei naquele bar
Onde nós dois
Vivemos nosso passado
Fui beber
Meu "traçado" de paixão e dor
Com o copo a suar
Minha ilusão de amor


Samba do Veloso

(Tempo de amor)

Ah, bem melhor seria
Poder viver em paz
Sem
ter que sofrer
Sem ter que chorar
Sem ter que querer
Sem ter que se dar

Mas tem que sofrer
Mas tem que chorar
Mas tem que querer
Pra poder amar

Ah, mundo enganador
Ah, não quer mais dizer amor
Ah, não existe coisa mais triste que ter paz
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais

O tempo de amor
É tempo de dor
O tempo de paz
Não faz nem desfaz

Ah, que não seja meu
O mundo onde o amor morreu


Samba em prelúdio

Eu sem você
Não tenho porquê
Porque sem você
Não sei nem chorar
Sou chama sem luz
Jardim sem luar
Luar sem amor
Amor sem se dar

Eu sem você
Sou só desamor
Um barco sem mar
Um campo sem flor
Tristeza que vai
Tristeza que vem
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém

Ah, que saudade
Que vontade de ver renascer nossa vida
Volta, querida
Os meus braços precisam dos teus
Teus abraços precisam dos meus
Estou tão sozinho
Tenho os olhos cansados de olhar para o além
Vem ver a vida
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém


Samba em serenata

A mesma antiga rua
O mesmo antigo bar
A mesma velha lua
O mesmo velho mar

E eu lembro a imagem tua
Indo embora, acenando
Tristeza que me deu
Saudade que me dá

É sempre a velha história
Que um dia ouvi contar
Alguém que vai embora
Alguém que vai ficar
E a paisagem resta só uma para lembrar
Alguma velha lua
Num mesmo antigo mar



Samba fúnebre

Triste de quem
Sem ninguém na hora da partida
Mas quando um homem de bem
Morreu por ser um líder
Nasce uma estrela no céu
É mais uma estrela no céu
Porque um homem morreu
Clamando a beleza da vida
Não morre o homem
Sua morte em paz
Se
não amou
Se não sofreu
Pelos demais
Descanse em paz
Quem
na vida foi um lutador
Descanse em paz
Quem
morreu
Por paz e amor




Samba para Endrigo

Quando eu chego ao Rio
Eu me arrepio
De ver tanta coisa linda
Solta no ar.
Eu que vim do frio,
Me delicio
A ponto de ter vontade
De não voltar.

Cada um na rua
É um rei na sua
Maneira tão popular.
Sou tão batuqueiro
Quanto qualquer
Tocador de pandeiro é.
Sou tão mandingueiro,
Tão brasileiro
Quanto um cidadão qualquer.

Mas afinal
Até que eu não sou mau de bola,
Mas não sei sambar na escola,
Nem sou bom de ginga, não.
Mas a questão para mim
É que ser sambista
É mais do que um bom passista
Bem mais do que um folião.


Samblues do dinheiro

Nunca vi muito dinheiro
Trazer felicidade pra ninguém

Dinheiro vai!
Dinheiro vai!

Dinheiro pela frente
Dinheiro por de trás
Me diga qual o bem que isto faz
Dinheiro pelo sim
Dinheiro pelo não
No fim são sete palmos de chão

Dinheiro vai!

Dinheiro com dinheiro
Querem se juntar
É só multiplicar e somar
Guerreiro com guerreiro
Só querem guerrear
Só fazem zig zig zig zá

Dinheiro vai!

As coisas são mais fáceis
Pra quem se chama Onassis
Dinheiro pelo sim
Dinheiro pelo não

Dinheiro vai!


São demais os perigos desta vida

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua


São Francisco

Lá vai São Francisco
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho.

Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
Bom-dia, amigo
Dizendo ao fogo
Saúde, irmão.

Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos.


São só três dias

Cada vez que eu considero
Como é triste se viver
Meu desejo mais sincero
É brincar pra esquecer
É mostrar a toda gente
Que a alegria não faz mal
É dizer vamos em frente
Porque
tudo é natural
Deixa andar

Bate o bumbo, oi
Toca o pandeiro
A cuíca, oi
E o tamborim

Vamos sair pela cidade
Cada um com cada qual
São só três dias
De felicidade
Vamos, porque hoje
É carnaval


Saudade de amar

Deixa eu te dizer, amor
Que não deves partir
Partir nunca mais
Pois o tempo sem amor
É uma dura ilusão
E não volta mais

Se tu pudesses compreender
A solidão que é
Te buscar por aí
Andando devagar
A vagar por aí
Chorando a tua ausência

Vence a tua solidão
Abre os braços e vem
Meus dias são teus
É tão triste se perder
Tanto tempo de amor
Sem hora de adeus

Oh, volta
Que nos braços meus
Não haverá adeus
Nem saudade de amar
E os dois, sorrindo a soluçar
Partiremos depois


Saudade que dá

Quando a noite vem descendo
E a lua aparecendo
Diz baixinho uma oração
Não há coisa mais bonita
Que o luar do meu sertão

Terra seca mais danada
Não dá nada, dá saudade
Saudade, saudade que dá
Não dá nada, dá vontade
Vontade de voltar pra lá

Vou mandar rezar um terço
Para ver se de Deus mereço
Uma última bênção
E morrer junto ao meu berço
No luar do meu sertão



Saudades do Brasil em Portugal

O sal das minhas lágrimas de amor
Criou o mar que existe entre nós dois
Para nos unir e separar
Pudesse eu te dizer
A dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração nesta paixão
Que não tem fim
Ausência tão cruel
Saudade tão fatal
Saudades do Brasil em Portugal

Meu
bem, sempre que ouvires um lamento
Crescer desolador na voz do vento
Sou eu em solidão pensando em ti
Chorando
todo o tempo que perdi



Se ela chamar eu vou

Ela me maltratou
Ela não era assim
Saiu e não voltou
Falou que era o fim
Eu estou danado da vida
Ah, isso lá eu estou
Mas ela é minha querida
Se ela chamar eu vou

Sem ela eu fico triste
Sozinho e sem amor
Sem ela nada existe
Se ela chamar eu vou



Se ela quisesse

Se ela tivesse
A coragem de morrer de amor
Se não soubesse
Que a paixão traz sempre muita dor
Se ela me desse
Toda devoção da vida
Num só instante
Sem momento de partida

Pudesse ela me dizer
O que eu preciso ouvir
Que o tempo insiste
Porque existe um tempo que há de vir
Se ela quisesse, se tivesse essa certeza
De repente, que beleza
Ter a vida assim ao seu dispor
Ela veria, saberia que doçura
Que delícia, que loucura
Como é lindo se morrer de amor


Se o amor quiser voltar

Se o amor quiser voltar
Que terei pra lhe contar
A tristeza das noites perdidas
Do tempo vivido em silêncio
Qualquer
olhar lhe vai dizer
Que o adeus me faz morrer
E eu morri tantas vezes na vida
Mas se ele insistir
Mas se ele voltar
Aqui estou sempre a esperar



Se todos fossem iguais a você

Vai tua vida
Teu caminho é de paz e amor
A tua vida
É uma linda canção de amor
Abre teus braços e canta a última esperança
A esperança divina de amar em paz

Se
todos fossem iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar
A sorrir, a cantar, a pedir
A beleza de amar
Como o sol, como a flor, como a luz
Amar sem mentir, nem sofrer

Existiria a verdade
Verdade que ninguém vê
Se todos fossem no mundo iguais a você


Sei lá... a vida tem sempre razão

Tem dias que eu fico
Pensando na vida
E sinceramente
Não vejo saída
Como é, por exemplo
Que dá pra entender
A gente mal nasce
Começa a morrer
Depois da chegada
Vem sempre a partida
Porque não há nada
Sem separação

Sei lá, sei lá
A vida é uma grande ilusão
Sei lá, sei lá
Só sei que ela está com a razão

A gente nem sabe
Que males se apronta
Fazendo de conta
Fingindo esquecer
Que nada renasce
Antes que se acabe
E o sol que desponta
Tem que anoitecer
De nada adianta
Ficar-se de fora
A hora do sim
É um descuido do não

Sei lá, sei lá
Só sei que é preciso paixão
Sei lá, sei lá
A vida tem sempre razão


Seja feliz

Foi, fico como todo amor se vai
Sem nem dizer aonde vai
Foi e eu fiquei sem ninguém
À espera do que não vem
Que melancolia

Foi, foi só porque eu nada fiz
Como um adeus que nem se deu
Pois seja muito feliz
Infeliz já sou eu
Pra sofrer sofro eu



Sem mais adeus

Vim, cheio de saudade
Cheio de coisas lindas pra dizer
Vim porque sentia
Que nada existia fora de você
Nem a poesia, amor
Na sua ausência quis me receber
Vim banhado em pranto
Eu
te amo tanto
Vem
Vem aos traços meus
Sem mais adeus
Oh, vem


Sem medo

Como é que pode, a gente ser menino
Ter sua coragem, traçar seu destino
Sem pular o muro, trepar no coqueiro
Ir no quarto escuro, mãe
Me mete medo, mãe
Me mete medo, mãe
Me mete medo
O bicho te pega, boi da cara preta
Deus te castiga, medo de careta
Boi da cara preta, mãe
Me mete medo, mãe
Me mete medo, mãe
Me mete medo

Mas atravesse o escuro sem medo
Atravesse o escuro sem medo
Atravesse o escuro sem medo
De repente a gente começa a crescer
Quer uma mulher que não pode ser
O pai quer matar, a mãe quer morrer
Não dá pra ganhar, não dá pra perder
Não dá
A mulher se joga do alto do edificio
Porque o mais fácil fica o mais dificil
Fica o mais dificil
Mas atravesse a vida sem medo
Atravesse a vida sem medo
Atravesse a vida sem medo

O perigo existe, faz parte do jogo
Mas não fique triste, que viver é fogo
Veja se resiste, comece de novo
Comece de novo, comece de novo
Ao cruzar a rua você está arriscando
Pode estar na lua, pode estar amando
Passa um caminhão, cruza uma perua
O cara tá na dele, você tá na sua
Você tá na sua, você tá na sua
Mas atravesse a rua sem medo
Atravesse a rua sem medo
Atravesse a rua sem medo

Chega um belo dia de qualquer semana
Alguém bate na porta, é um telegrama
Ela está chamando, é um telegrama
Ela está chamando, pra uns ela vem cedo
Pra outros vem tarde
É que cedo ou tarde, ela vem de repente
Chega pro covarde, chega pro valente
Só tem que ninguém gosta de ir na frente
Gosta de ir na frente
Gosta de ir na frente
Gosta de ir na frente
Mas atravesse a morte sem medo
Atravesse a morte sem medo
Atravesse a morte sem medo



Sem você

Sem você, sem amor
É tudo sofrimento
Pois você é o amor
Que eu sempre procurei em vão

Você
é o que resiste
Ao desespero e à solidão
Nada existe
E o mundo é triste sem você

Meu amor, meu amor
Nunca te ausentes de mim
Para que eu viva em paz
Para
que eu não sofra mais

Tanta mágoa assim, no mundo
Sem você


Sempre a esperar

Meu querido amor, joje
Logo que cheguei e encontrei
A sua carta e uma flor
Juro, meu bem
Pelo nosso amor
Eu nunca mais poderei amar ninguém

Mas quero só pedir
Me perdoe eu lhe dizer, meu amor
Você não precisa mais mentir

Pode ir se quiser
Volte quando saudades tiver
Eu estarei aqui
Sempre a lhe esperar
Aqui, meu bem,
Neste lugar, a esperar
Não precisa bater

Seule

Seule, seule
Seule même dans tes bras
Seule le jour
Seule la nuit
Rêvant toujours
L’amour qui ne vient pas

Chante une chanson pour me bercer
Fais-moi, je t'en prie, tout oublier
Enlace-moi
Embrasse-moi

Prends, mon chéri, tout ce que tu veux
O si tu savais me faire sourire
Je pourrais t'aimer jusqu'au delire
Mais, mon amour
O mon amour
Tu n'estpas l'amour rêvé


Serenata do adeus

Ai, a lua que no céu surgiu
Não é a mesma que te viu
Nascer dos braços meus
Cai a noite sobre o nosso amor
E agora só restou do amor
Uma palavra: adeus

Ai, vontade de ficar
Mas tendo de ir embora
Ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora
É refletir na lágrima
Um momento breve
De uma estrela pura, cuja luz morreu

Ah, mulher, estrela a refulgir
Parte, mas antes de partir
Rasga o meu coração
Crava as garras no meu peito em dor
E
esvai em sangue todo amor
Toda a desilusão

Ai, vontade de ficar
Mas tendo de ir embora
Ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora
É refletir na lágrima
Um momento breve de uma estrela pura
Cuja luz morreu
Numa noite escura
Triste como eu


Só danço samba

Só danço samba
Só danço samba
Vai, vai, vai, vai, vai
Só danço samba
Só danço samba
Vai

Já dancei o twist até demais
Mas não sei
Me cansei
Do calipso
Ao chá-chá-chá



Só me fez bem

Não sei se foi um mal
Não sei se foi um bem
Só sei que me fez bem ao coração
Sofri, você também
Chorei, mas não faz mal
Melhor que ter ninguém
No coração
Foi a vida
Foi o amor quem quis
É melhor viver
Do que ser feliz
Foi tudo natural
Ninguém foi de ninguém
Mas me fez tanto bem
Ao coração


Só por amor

Só por amor
Só por paixão
Só por você
Você que nunca disse não
Só por saber
Que o coração
Sabe demais
Que a razão não tem razão

Por você que foi só minha
Sem jamais pensar por quê
Por você que apenas tinha
Razões e mais razões para não ser

Só por amor
Só por amado
Só por amar
Meu amor, muito obrigado
Meu amor, muito obrigado


Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Estoril - Portugal, 10.1939


Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot,

a caminho da Inglaterra, 09.1938

Sonho de amor e paz

Deve haver
Num canto qualquer
Uma ilha
Ao abrigo da dor
Onde um homem e uma mulher
Possam ter seu amor
Um lugar para ser feliz
Sem ninguém
Feito para dois
Onde nunca se fale jamais
E o tempo fugaz
Não diga depois
E o amor seja sempre paz


Tá difícil

Que língua é essa?
Deve ser língua de "estranja"
Essa língua ninguém manja
Que será desses

Tá me pintando que é linguagem de francês
Isso é língua de inglês ou de doido lá do hospício

É tão difícil
Tá difícil, tá difícil
Pode ser, mas tá difícil
Tá difícil de entender
Prá falar isso só mudando de ofício
Porque só quem fala isso é João
"Não-tem-de-quê"

Se eu bem me lembro
Pra ganhar a minha esmola
Tirei curso em muito escola
De Beirute a Bombaim

Já no meu caso
Eu não quis entrar na fila
Fiz meu curso na Socila
Lá na porta do Bonfim


Também quem mandou

Já não sei mais viver sem ela
Mas também quem mandou
Quando estou longe dela
É uma dor, é uma dor
Que saudade

Sim
Eu já estou achando
Que esta saudade assim
Só pode ser amor

Eu queria brincar de amor com ela
Mas também quem mandou
Também quem mandou




Taquicardia

Quando ela vem
Cheia de onda
Pela praia
Numa minissaia
Que fica bem pra cima
Do conveniente
Eu fico só
Tibum, tibum, tibum
Meu coração parou
Meu bem, não faça assim
Porque senão eu vou
Morrer de amor
Ela prefere o iê-iê-iê
À bossa nova
E ainda prova
Quando ela dança
No Zum-Zum
Até o dia amanhecer
Tudo que eu sei dizer
É a taquicardia
Que a menina me traz
Fica na cabeça
Um tremendo zum, zum
Fica o coração
Paratibum, bum
Isso não se faz
Isso não se faz
Isso não se faz


Tarde em Itapoã

Um velho calção de banho
O dia pra vadiar
Um mar que não tem tamanho
E um arco-íris no ar
Depois na praça Caymmi
Sentir preguiça no corpo
E numa esteira de vime
Beber uma água de coco

É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao
sol que arde em Itapuã
Ouvindo
o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã

Enquanto
o mar inaugura
Um verde novinho em folha
Argumentar
com doçura
Com uma cachaça de rolha
E com o olhar esquecido
No encontro de céu e mar
Bem devagar ir sentindo
A terra toda a rodar

É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao
sol que arde em Itapuã
Ouvindo
o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã

Depois
sentir o arrepio
Do vento que a noite traz
E o diz-que-diz-que macio
Que brota dos coqueirais
E nos espaços serenos
Sem ontem nem amanhã
Dormir nos braços morenos
Da lua de Itapuã

É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao
sol que arde em Itapuã
Ouvindo
o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã


Tatamirô (Em louvor de Mãe Menininha)

Apanha folha por folha, Tatamirô
Apanha maracanã, Tatamirô
Eu sou filha de Oxalá, Tatamirô
Menininha me apanhou, Tatamirô!

Xangô me leva, Oxalá me traz
Xangô me dá guerra, Oxalá me dá paz

Apanha folha por folha, Tatamirô
Apanha maracanã Tatamirô
Eu sou filho de Ossain, Tatamirô
Menininha me adotou, Tatamirô!

Oxalá de frente, Xangô de trás
Xangô me dá guerra, Oxalá me dá paz

Apanha folha por folha, Tatamirô
Apanha maracanã, Tatamirô
Eu sou filho de Ogun, Tatamirô
Menininha me ganhou, Tatamirô!

Apanha folha por folha, Tatamirô
Apanha maracanã, Tatamirô
Eu sou filha de Inhansã, Tatamirô
Menininha me batizou, Tatamirô!

Apanha folha por folha, Tatamirô
Apanha maracanã, Tatamirô
Ela é a Mãe Menininha do Gantois
Que Oxum abençoou, Tatamirô!

Oxalá me vem, todo mal me vai
Xangô é meu Rei, Oxalá é meu pai


Tem dó

Ai, tem dó
Quem viveu junto não pode nunca viver só
Ai, tem dó
Mesmo porque você não vai ter coisa melhor

Não me venha achar ruim
Porque você me conheceu assim
Me diga agora, e agora?
Não foi assim que você gamou?

Você sabe muito bem
Que mesmo louco assim gamei também
Me diga agora, ora, ora
Será que alguém não foi quem mudou?


Tempo de solidão

Há o tempo e o contratempo
A felicidade e a dor
Eu por mim não tenho tempo
O meu tempo é só de amor

Sei que existe muita gente
Que não tem mais tempo a perder
Já comigo é diferente
Só o amor me faz viver
Eu não sei viver
Sem sofrer por alguém
Hoje, por exemplo
Eu não tenho ninguém

E é por isso que estou triste
Triste como esta canção
Hoje eu sei que o tempo existe
Hoje é tudo solidão


Tempo feliz

Feliz o tempo que passou, passou
Tempo tão cheio de recordações
Tantas canções ele deixou, deixou
Trazendo paz a tantos corações

Que sons mais lindos tinha pelo ar
Que alegria de viver
Ah, meu amor, que tristeza me dá
Vendo o dia querendo amanhecer
E ninguém cantar

Mas, meu bem
Deixa estar, tempo vai
Tempo vem
E quando um dia esse tempo voltar
Eu nem quero pensar no que vai ser
Até o sol raiar


Testamento

Você que só ganha pra juntar
O que é que há, diz pra mim, o que é que há?
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar

Por cima uma laje
Embaixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irrnão!

Falado

Pois é, amigo, como se dizia antigamente, o buraco é mais embaixo... E você com todo o seu baú, vai ficar por lá na mais total solidão, pensando à beça que não levou nada do que juntou: só seu terno de cerimônia. Que fossa, hein, meu chapa, que fossa...

Cantado

Você que não pára pra pensar
Que o tempo é curto e não pára de passar
Você vai ver um dia, que remorso!

Como é bom parar
Ver um sol se pôr
Ou ver um sol raiar
E desligar, e desligar

Falado

Mas você, que esperança... Bolsa, títulos, capital de giro, public relations (e tome gravata!), protocolos, comendas, caviar, champanhe (e tome gravata!), o amor sem paixão, o corpo sem alma, o pensamento sem espírito
(e tome gravata!) e lá um belo dia, o enfarte; ou, pior ainda, o psiquiatra

Cantado

Você que só faz usufruir
E tem mulher pra usar ou pra exibir
Você vai ver um dia
Em que toca você foi bulir!
A mulher foi feita
Pro amor e pro perdão
Cai nessa não, cai nessa não

Falado

Você, por exemplo, está aí com a boneca do seu lado, linda e chiquérrima, crente que é o amo e senhor do material. É, amigo, mas ela anda longe, perdida num mundo lírico e confuso, cheio de canções, aventura e magia. E você nem sequer toca a sua alma. É, as mulheres são muito estranhas, muito estranhas

Cantado

Você que não gosta de gostar
Pra não sofrer, não sorrir e não chorar
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar!

Por cima uma laje
Embaixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!



Tomara

Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz

E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais


Triste sertão

Juriti é passáro triste
Canta em muita solidão
Nem sequer sabe que existe
Amigo, mulher e violão
Canta para xique-xique
Cascavel, camaleão
Só responde a siriema
Que grita de chegar a fazer pena
Na velha catinga do sertão

Quéu-quéu chorou
Mata branca em desesperação
Credo
cruz, espia que pavor
Caipora mora na escuridão

Não se ouve nem um pio
Cadê Zé, cadê João
Cadê água, cadê rio
É ano de seca no sertão
Lá onde a vida se acaba
Vive só quem tem razão
Vive o bode, vive a cabra
E o maracujá e a cana-brava
E o mandacaru e a assombração

Quéu-quéu chorou
Mata branca em desesperação
Credo
cruz, espia que pavor
Caipora mora na escuridão



Tristeza e solidão

Sou da linha de umbanda
Vou no babalaô
Para pedir pra ela voltar pra mim
Porque assim eu sei que vou morrer de dor

Ela não sabe
Quanta tristeza cabe numa solidão
Eu sei que ela não pensa
Quanto a indiferença
Dói num coração
Se ela soubesse
O que acontece quando estou sozinho assim
Mas ela me condena
Ela não tem pena
Não tem dó de mim


Tudo na mais santa paz

Tranca bem a porta, amor
Fecha a janela e passa a tramela, por favor
E se não se importa, amor
Defuma a casa em nome de Nosso Senhor

Acabou a festa, amor
Ainda tem uma cerveja no congelador
Vamos ao que resta, amor
Dia de festa é véspera de muita dor

E se o fantasma ficar e se o cachorro latir
E se o silêncio gritar e se o pavor assumir
E se a mulher não topar e se o amigo sumir
E se o relógio parar e se amanhã não surgir

Tudo na mais perfeita ordem
Tudo na mais santa paz


Tudo o que é meu

Só há razão para chorar
Quando não se tem um grande amor
E não se pode chorar de amor
Como hoje choro eu

Só há razão de sofrer
Pra quem a vida esqueceu
Quero ser tua até morrer
Toma, amor, tudo o que é meu



Um amor em cada coração

Flor que um dia eu vi nascer
O amor voltou a acontecer
Voltou para vencer
Sem mágoa e separação
Teve a maior consagração

Eu é que sou rei (eu sou rei)
Eu é que farei a união
Desfraldarei a cor azul
Do meu pavilhão
Um amor em cada coração

Deixa aí, deixa andar, deixa vir, deixa estar
Pode ser, e se for, é o amor
Deixa aí, deixa andar

O que é preciso é viver
Morrendo de amor
Porque o amor é o nosso rei
O nosso rei porque é de lei
O nosso rei imperador


Um amor que é só meu

Amiga
Nem sei como lhe diga
Essa ternura antiga
De repente doeu
Perdoe
Eu sei que não devia
Mas da noite para o dia
O amor aconteceu

E embora doa
De uma dor dilacerante
É um amor tão amante
Tão sozinho se deu, sou eu

Quem sabe
Que mesmo contra tudo
Que forçado a ser mudo
Foi o amor que nasceu
E me deu tanto
Fez as coisas tão mais belas
Abriu tantas janelas
Tudo reverdeceu, e eu, amiga
Lhe sou tão obrigado
Mas não tenha cuidado (mas não há de ser nada)
É um amor que é só meu




Um homem chamado Alfredo

O meu vizinho do lado
Se matou de solidão
Abriu o gás, o coitado
O último gás do bujão
Porque ninguém o queria
Ninguém lhe dava atenção
Porque ninguém mais lhe abria
As portas do coração
Levou com ele seu louro
E um gato de estimação

Há tanta gente sozinha
Que a gente mal adivinha
Gente sem vez para amar
Gente sem mão para dar
Gente que basta um olhar
Quase nada
Gente com os olhos no chão
Sempre pedindo perdão
Gente que a gente não vê
Porque é quase nada

Eu sempre o cumprimentava
Porque parecia bom
Um homem por trás dos óculos
Como diria Drummond
Num velho papel de embrulho
Deixou um bilhete seu
Dizendo que se matava
De cansado de viver
Embaixo assinado Alfredo
Mas ninguém sabe de quê


Um nome de mulher

Um nome de mulher
Um nome só e nada mais
E um homem que se preza
Em prantos se desfaz
E faz o que não quer
E perde a paz

Eu, por exemplo, não sabia, ai,
O que era amar
Depois você me apareceu
E lá fui eu
E ainda vou mais


Um pouco mais de consideração

Porque você é tão ruim
Não me diz não nem me diz sim
Sofre demais o meu coração
Pois nunca sabe quando é sim ou não
Que foi que eu fiz que não se faz
Não tenho paz, não sou feliz
Assim é muita ingratidão
Um pouco mais de consideração
Já que você foi quem me fez contente
Já que você me cativou assim
Você não podia, muito francamente
Entrar a sério nessa história de gostar de mim
Independente de qualquer motivo
Que você tenha pra gostar assim
Já que você foi quem me fez cativo
A obrigação agora é sua de cuidar de mim


Uma rosa em minha mão

Procurei um lugar
Com meu céu e meu mar
Não achei
Procurei o meu par
Só desgosto e pensar, encontrei

Onde anda o meu rei
Que me deixa tão só por aí
A quem tanto busquei
E de tanto que andei me perdi
Quem me dera encontrar
Ter meu céu, ter meu mar
Ter meu chão
Ver meu campo florir
E uma rosa se abrir na minha mão



Valsa de Eurídice

(Eurídice)

Tantas vezes já partiste
Que chego a desesperar
Chorei tanto, estou tão triste
Que já nem sei mais chorar

Oh, meu amado, não parta
Não parta de mim
Oh, uma partida que não tem fim

Não há nada que conforte
A falta dos olhos teus

Pensa que a saudade
Mais do que a própria morte
Pode matar-me
De Adeus


Valsa do amor de nós dois

Vem ver o mar
Vem que Copacabana é linda
Vamos ser só nós dois
E o que vai ser depois
É melhor, é melhor nem pensar

Ah, namorar!
Os casais nem parecem saber
Nos seus beijos de amor
E o que resta depois
É a valsa do amor de nós dois

Pelas linhas sinuosas
Do passeio à beira-mar
Todo o Rio de Janeiro
Vai querer dançar

E nós, depois
Partiremos num beijo de luz
Pelo céu ao luar
A dançar, a dançar
Esta valsa do amor
De nós dois


Valsa do bordel

Longas piteiras
Perfumes no ar
Roxas olheiras
Em torno do olhar

Que brincadeira
Fazer profissão
Da mais antiga e
Mais sem solução

Discos franceses
Tão sentimentais
Velhos fregueses
Com taras iguais

Ah, quem me dera voltar para trás
Sem sentir mais tanta solidão
E, de repente, entre tanto cliente
Lá chega o gostosão
E, incontinênti, abre conta corrente
Em nosso coração

A gente apanha
Mas sente prazer
Dá o que ganha

E o que se vai fazer?
Ele é a paixão, todo resto é saber
Vender um pouco de ilusão

E um dia assim
Como quem faz porque acontece
Num abraço ela me desse
A esperança de poder dizer-lhe adeus


Valsa dos músicos

Nós somos uma só família
Uma ilha feita de amor
Feita de dor
Mas vejam bem que maravilha
Esta ilha está na trilha do seu lar
Na sala de jantar
Na vida escolar de sua filha
Que quer crescer e amar
Ao som daquele rádio
Que só com quatro pilhas
Vive a embalar o sono do bebê
E da babá

Nós somos uma só tristeza
E a beleza é a nossa eterna namorada
A nossa casa é a madrugada
Por aí, sempre à procura de um lugar
Sem hora de partir
Um lugar qualquer de onde subir
Para o infinito astral
Pelos degraus de um som
De onde se jogar
Voar, sumir
Quem sabe até morrer
Sonhar, dormir

Sempre à procura de um lugar
Sem hora de partir
Um lugar qualquer de onde subir
Para o infinito astral
Pelos degraus de um som
De onde se jogar
Voar, sumir
Quem sabe até morrer
Sonhar, dormir


Valsa dueto

Onde meu amor escuta a voz
Que vem da solidão
Tudo silenciou
E a noite em nós
É quente de paixão

Vem, a noite é linda
E eu quero ver no teu olhar
Nascer a estrela da manhã
No céu do amor

Vem, vamos olhar
O grande céu do adeus
Nesse luar cheio de dor
Cheio de paz
E quando tu não quiseres mais
Amor, vem aos braços meus


Valsa sem nome

Nada poderia contar-te um dia
O que é sofrer por teu amor
Mas na poesia não saberia
Contar-te nunca o meu amor
Eu te amo tanto
Que o meu pranto corre
E corre apenas em lembrar
O
teu encanto
O teu silêncio e
Essa magia de te amar

Oh, meu amado
A vida é nada
E o tempo é só uma ilusão
Mas eu amo tanto
Pois tu existes
E eu tenho um templo no coração
Mas as palavras não têm som e nem cor
Para dizer do grande desespero
De te amar em prantos
E
te amando em prantos
Cantar
novos cantos
Proclamando o amor


Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vízinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz


Veja você

Veja você, eu que tanto cuidei da minha paz
Tenho o peito doendo, sangrando de amor
Por demais
Na dor eu sei a extensão da loucura que fiz
Eu que acordo cantando
Sem medo de ser infeliz

Quem te viu, quem te vê, hein rapaz?
Você tinha era manias demais
Mas aí o amor chegou
Desabou a sua paz
Despediu seu desamor pra nunca mais
Algum dia você vai compreender
A extensão de todo bem que eu lhe fiz
E você há de dizer: meu amor, eu sou feliz

Quem te viu e quem te vê, hein rapaz?


Viva o amor

É tempo, amor
É hora
Não demora, por favor
Tristeza a gente chora
Mas, agora,
Viva o amor!
Agora é o carnaval
É hora de mandar ver
Por que resistir?
Pra que duvidar?
Veja lá!
Quem resolve é você
Meu amor


Zambi

É Zambi no açoite, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi
É Zambi na noite, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi

Chega de sofrer, ei!
Zambi gritou
Sangue a correr
É a mesma cor
É o mesmo adeus
É a mesma dor

É Zambi se armando, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi
É Zambi lutando, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi

Chega de viver, ê
Na escravidão
É o mesmo céu
O mesmo chão
O mesmo amor
Mesma paixão

Ganga-zumba, ei, ei, ei, vai fugir
Vai lutar, tui, tui, tui, tui, com Zambi
E Zambi, gritou ei, ei, meu irmão
Mesmo céu, tui, tui, tui, tui
Mesmo chão

Vem filho meu
Meu capitão
Ganga-zumba
Liberdade
Liberdade
Liberdade
Vem meu filho

É Zambi morrendo, ei, ei, é Zambi
É Zambi, tui, tui, tui, tui, é Zambi
Ganga Zumba, ei, ei, ei, vem aí
Ganga Zumba, tui, tui, tui, é Zambi

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