sábado, 5 de janeiro de 2008

Vinícius de Moraes XII

Derradeira primavera

Põe a mão na minha mão
Só nos resta uma canção
Vamos, volta, o mais é dor
Ouve só uma vez mais
A última vez, a última voz
A voz de um trovador

Fecha os olhos devagar
Vem e chora comigo
O tempo que o amor não nos deu
Toda a infinita espera
O que não foi só teu e meu
Nessa derradeira primavera


Desalento

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim
Vai e diz

Diz assim
Como sou infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim

Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos


Deve ser amor

Sim, sinceramente, amor
Eu não sei o que se passa em mim
É assim como uma dor
Mas que dói sem ser ruim
Sim, é ter no coração
Sempre uma canção
É tão embriagador
Deve ser, sim
Deve ser amor

Samba, samba diferente
Isto é estar contente
Gosto de chorar, de chorar, de chorar
Samba, ritmo envolvente
Como o amor da gente
Samba em chá-chá-chá
Chá-chá-chá
Chá-chá-chá



Dobrado de amor a São Paulo

São Paulo, quatrocentos anos
E eu, coitada
Quatrocentos desenganos de amor

Eu daqui não saio mais, de São Paulo
Isto aqui era bom demais, em São Paulo
Ai
, que bem isto me faz

Se o frio aperta eu pego o cobertor
Abraço mais o meu amor
E vou até de manhã, em São Paulo

Isto
aqui está bom demais, em São Paulo
Eu
daqui não saio mais, de São Paulo
Ai, que bem isto me faz

Chuva, garoa, ventania
Troca a noite pelo dia
O tempo passa devagar
Sinto um bem-estar no coração
Vem o dia
E o sol me encontra
Na avenida São João


Doce ilusão

Quando fitei sobre você
Meu tristonho olhar
Sob a luz plangente e suave deste luar
Julguei sonhar, querida
Por toda a minha vida
Lá no céu a lua brilhava cheia de amor
Soluçava ao longe a viola de um trovador
E eu jurei sempre amar e sempre viver
Só por você
Por você, por você, querida

Jamais hei de me esquecer, meu amor
O ardor daquele beijo
Quando sentindo na mão doce langor
Que teve esse primeiro ensejo
Guardei bem no fundo do coração
Essa doce ilusão
Que foi para mim, querida
Não só um sonho lindo
Mas a própria vida


Dor de uma saudade

Por que não vens acalmar
Minha imensa dor?
Pois tu és o meu sonhar
Todo o meu amor

Ai, a solidão do mar
A magia de um luar
Que de ti
Me faz lembrar

E quando o teu lindo olhar
Muito longe a me fitar
Conjugando o verbo amar

Só ficou felicidade
Só tristezas e uma saudade

Nada mais que uma ilusão
Dentro do meu coração
Em toda velha paixão

Hoje na alma vazia
Tem uma imensa nostalgia
De quem não tem alegria


É hoje só

É hoje quem sabe lá
Nem depois
E além do mais nunca fez mal
A ninguém
Nós não somos mesmo pó?
Quem é pó não entra bem?
E depois quem sabe mais
Que a paixão?
Fique certa de que o amanhã
Não tem coração


É preciso dizer adeus

É inútil fingir
Não te quero enganar
E preciso dizer adeus
É melhor esquecer
Sei que devo partir
Só me resta dizer adeus

Ah, eu te peço perdão
Mas te quero lembrar
Como foi lindo
O que morreu

E essa beleza do amor
Que foi tão nossa
E me deixa tão só
Eu não quero perder
Eu não quero chorar
Eu não quero trair
Porque tu foste pra mim
Meu amor
Como um dia de sol



Ela é carioca

Ela é carioca, ela é carioca
Basta o jeitinho dela andar
Nem ninguém tem carinho assim para dar
Eu vejo na cor dos seus olhos
As noites do Rio ao luar
Vejo a mesma luz, vejo o mesmo céu
Vejo o mesmo mar

Ela é meu amor, só me vê a mim
A mim que vivi para encontrar
Na luz do seu olhar
A paz que sonhei
Só sei que sou louco por ela
E pra mim ela é linda demais
E além do mais
Ela é carioca, ela é carioca




Em algum lugar

Deve existir
Eu sei que deve existir
Algum lugar onde o amor
Possa viver a sua vida em paz
E
esquecido de que existe o amor
Ser feliz, ser feliz, bem feliz


Em noite de luar

Vai, vai
Samba meu
E diz a ela
Que hoje na rua
Tinha aquela mesma antiga lua

Vai, diz
Diz que eu
Fiquei tão triste
Tão infeliz
Saudade que me deu

Desaparece um amor, e parece
Que a gente esquece
Pode viver
Mas basta apenas uma lua na rua
E já não se pode esquecer

Sai, sai
Vai chorar
Amor tão triste
Que só existe
Em noite de luar


Essa menina

Você não tem mesmo o que fazer, essa menina
Como é que você já fica toda feminina
Como é que você olha pra mim
Com essa falta de respeito
Olhe que isso assim não está direito, essa menina

Como é que você novinha assim toda se empina
Como é que você quando me vê
Sai requebrando desse jeito
Tudo nesta vida tem a sua hora, viu?
Pois você me diga agora onde é que já se viu
Querer ser colhida assim tão fora de estação?
Olhe, essa menina, suma, vá-se embora, tenha compaixão

Eu já nem sei mais o que fazer com essa menina
Sem desmerecer sua beleza tão divina
Bem, ela vai ver, então vai ser
Tal como manda a natureza, viu?


Estamos aí

Estamos aí
Gente amiga que muito se quer
Estamos aí
Pro que der e vier
Estamos aí
Pro amor e pra desilusão
Mas como é bom cantar
Musiplicar
A magia de cada canção

Música
Como é bom cantar
Música
Deixa pensar que pra amar é preciso fingir
Deixa dizer que é preciso mentir
Deixa falar que a poesia não pode existir

Deixa pra lá
Estamos aí




Estes teus olhos

Eu gosto tanto
Eu tenho encanto
Por teu sorriso
Porque a coisa
Que eu acho louca
É a maravilha
Do teu olhar

Há nos teus olhos
Ilhas distantes e serenas
Há nos teus olhos
Tantos caminhos e trilhas
Há nos teus olhos
Muitas estrelas
Muito, muito silêncio
Muito luar

Teus olhos grandes
Teus olhos tristes
Cuja tristeza
Me fez te amar


Estrada branca

Estrada branca
Lua branca
Noite alta
Tua falta caminhando
Caminhando, caminhando
Ao lado meu
Uma saudade
Uma vontade
Tão doída
De uma vida
Vida que morreu

Estrada passarada
Noite clara
Meu caminho é tão sozinho
Tão sozinho
A percorrer
Que mesmo andando
Para a frente
Olhando a lua tristemente
Quanto mais ando
Mais estou perto
De você

Se em vez de noite
Fosse dia
Se o sol brilhasse
E a poesia
Em vez de triste
Fosse alegre
De partir
Se em vez de eu ver
Só minha sombra
Nessa estrada
Eu visse ao longo
Dessa estrada
Uma outra sombra
A me seguir

Mas a verdade
É que a cidade
Ficou longe, ficou longe
Na cidade
Se deixou meu bem-querer
Eu vou sozinho sem carinho
Vou caminhando meu caminho
Vou caminhando com vontade de morrer


Eterno retorno

Corram em praça pública
Um proclama
Atirem pedra joguem lama
Até me verem transpassar de dor
Gritem que eu traí, que sou culpado
Que sou réu de ter matado
Mais um grande amor

Eu mesmo sangrando
Amor desfeito
Hei de arrancar dentro do peito
As rubras rosas da separação
Com que acarpetar a caminhada
Dessa nova grande amada
Do meu coração

Vai, triste mulher, trágica mulher
Sai do meu caminho
Deixa-me sozinho
Eu já não te quero mais
Deixa-me sofrer em paz
Vejo
outra mulher
Surgir da bruma
Enquanto a noite se desfaz



Eu agradeço

Eu agradeço
Eu agradeço a você
Muito obrigado por toda a beleza que você nos deu
Sua presença, eu reconheço
Foi a melhor recompensa
Que a vida nos ofereceu

Foi muito lindo
Você ter vindo
Sempre ajudando, sorrindo, dizendo
Que não tem de quê

Eu agradeço, eu agradeço
Você ter me virado do avesso
E ensinado a viver
Eu reconheço que não tem preço
Gente que gosta de gente assim feito você




Eu e o meu amor

Eu e o meu amor
E o meu amor
Que foi-se embora
Me deixando tanta dor
Tanta tristeza
No meu pobre coração
Que até jurou
Não me deixar
E foi-se embora
Para nunca mais voltar



Eu não existo sem você

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver

Não há você sem mim
E eu não existo sem você



Eu não tenho nada a ver com isso

Eu não tenho nada a ver com isso
Nem sequer nasci em Niterói
Não
me chamo João
E não tenho, não
Qualquer vocação pra ser herói
Venho de três raças muito tristes
E eis por que o viver tanto me dói

Deito em minha rede
Mato a minha sede
Quanta mulher nua na Playboy!
Porém daqui a uns anos mais
Vão ser cem milhões
Cem milhões só de Pelés
E de violões
Que país mais tão feliz!

Deixa o Brasil andar
As estatísticas revelam:
No ano dois mil
Todo mundo vai ser jovem
No meu Brasil

Reparou como é que eu
Ando sutil demais?


Eu sei que vou te amar

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida, eu vou te amar
Em cada despedida, eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será
Pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua, eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta tua ausência me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida



Felicidade

Felicidade
É o meu carnaval
Quanto toda essa luz e cor
E o amor é natural

Felicidade
É o samba que eu fiz
E que ouço feliz a cantar
Esse povo infeliz

Abre os teus braços
Vem brincar nos braços meus
Hoje é só no faz-de-conta
No carnaval não existe adeus


Fogo sobre terra

A gente às vezes tem vontade de ser
Um rio cheio pra poder transbordar
Uma explosão capaz de tudo romper
Um vendaval capaz de tudo arrasar

Mas outras vezes tem vontade de ter
Um canto escuro onde poder se ocultar
Um labirinto onde poder se perder
E onde poder fazer o tempo parar

Oh, dor de saber que na vida
É melhor de saída
Ser um bom perdedor
Amor, minha fonte perdida
Vem curar a ferida
De mais um sonhador



Formosa

Formosa, não faz assim
Carinho não é ruim
Mulher que nega
Não sabe, não
Tem uma coisa de menos
No seu coração

A gente nasce, a gente cresce
A gente quer amar
Mulher que nega
Nega o que não é para negar
A gente pega, a gente entrega
A gente quer morrer
Ninguém tem nada de bom
Sem sofrer
Formosa mulher!


Frevo de Orfeu

Vem
Vamos dançar ao sol
Vem
Que a banda vai passar
Vem
Ouvir o toque dos clarins
Anunciando o carnaval
E vão brilhando os seus metais
Por entre cores mil
Verde mar, céu de anil
Nunca se viu tanta beleza
Ai, meu Deus
Que lindo o meu Brasil


Fuga e antifuga

(Marcha-rancho em forma de fuga)

A viver o que existe
E que é só tristeza
É melhor já ser triste
E não ter o que esperar

A esperança resiste – É uma ilusão
A qualquer incerteza – Desilusão
A suprema pobreza – Oh, solidão
E não ter o que esperar

É melhor desesperar
É melhor desconhecer
É melhor desenganar
O coração que vai sofrer

Só o amor nos eleva – É um adeus que nunca finda
Só o amor nos exalta – Ai, quem me dera o esquecimento
Sempre que ele nos falta – É tão grande o sofrimento
É a treva e a solidão

Oh, tristeza infinita – Deixa em mim teu desespero
Que não há quem conforte – Um dia chega a primavera
O amor e a morte – Sou a vida que te espera
É a treva e a solidão

Vem sem mágoa e sem adeus
Vem banhar-te em minha luz
Vem plantar a tua cruz – Minha cruz
Dentro da cruz dos braços meus
Oh, vem amar!

E quando eu quiser partir
Quando a noite me chamar
Quando o sonho me vier?
Saberei te compreender
Sou mulher, sou mulher, sou mulher, sou mulher
Sou mulher pra te servir

Orquestra

Sou mulher pra te encontrar
Sou mulher pra te perder
Sou mulher pra te ofertar
Tudo o que é lindo no meu ser
Pra te amar até morrer

Oh, amor infinito – Oh, vem, meu amado senhor
Oh, divina certeza – Matar minha sede de amor
Nunca mais a tristeza – Amor, vem plantar tua cruz
Quero amar sem mais adeus – Vem amar sem mais adeus
Nos braços teus – Nos braços meus

Meu amor infinito
Vamos juntos embora
Na esperança da aurora
Que da noite vai raiar
Meu amor infinito! – Meu amor!
Meu amor, vem amar! – Vem amar!
Vem amar! – Meu amor!
Meu amor! – Vem amar!
Meu amor vai raiar no infinito
Seu tempo de adeus

– Meu amor, vem aos braços meus!



Garota de Ipanema

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço
A caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de lpanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, por que estou tão sozinho?
Ah, por que tudo é tão triste?
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor


Garota porongondon

Vê só como ela dança bem
Vê só que samba bom
Eu acho que ela tem – tem
Muito porongondon
Ela não é de nhem-nhem-nhem
Ela requebra bem
Eu nunca vi ninguém – heim?
Com mais porongondon

Ela dança o hully-gully
Ninguém faz o que ela faz
Mas – au-au-ziriguidau-au
Como ela sabe sambar!
Nunca vi ninguém capaz
De fazer o que ela faz
Au-au-au-ziriguidau-au
Ela é demais!



Gente do morro

Gente que nasce no morro
Só desce do morro
Quando em seu coração morreu
A paixão mais linda

Quando a ilusão de vencer
Faz até esquecer
Do chão onde nasceu a dor
De esperar a vinda de um grande amor

Quem desceu para a cidade nessa ilusão
Não vai ter felicidade, não vai ter, não
Porque quando olhar para o morro
Implorando socorro, a ingratidão
Vai deixar o seu coração
Chorando e pedindo perdão


Gente humilde

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Como um desejo de eu viver sem me notar
Igual a como quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem vindo de trem de algum lugar
E aí me dá uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com que contar

São casas simples, com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda, flores tristes e baldias
Como a alegria que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio peço a Deus por minha gente
É gente humilde, que vontade de chorar


Gilda

Nos abismos do infinito
Uma estrela apareceu
E da terra ouviu-se um grito:
Gilda, Gilda

Era eu, maravilhado
Ante a sua aparição
Que aos poucos fui levado
Nos véus de um bailado
Pela imensidão
Aos caprichos de seu rastro
Como um pobre astro
Morto de paixão

Gilda, Gilda
Gilda e eu

E depois nós dois unidos
Como Eurídice e Orfeu
Fomos sendo conduzidos
Gilda e eu
Pelas mágicas esferas
Que se perdem pelo céu
Em demanda de outras eras
Velhas primaveras
Que o tempo esqueceu
Pelo espaço que nos leva
Pela imensa treva
Para as mãos de Deus

Gilda, Gilda
Gilda e eu


Golpe errado

Ouça, malandragem não convence
Uma vez a gente vence
Outra vez bota a perder

Pense, há um ditado muito certo:
Tem sempre um que é mais esperto
Tem sempre um que vai sofrer

Lembre que você, mesmo malandro
Tem que ter de vez em quando
Um
tempinho pra viver

Olha que não é nada engraçado
Você dar um golpe errado
E ver o sol nascer quadrado


Grande paixão

Sofro por ti meu amor
Grande paixão
Grande paixão
Longe de ti tudo é só
Desilusão

Ai quem me dera
Ai quem me dera
O teu langor
A primavera
A primavera
É toda em flor

Retorna
a mim esquecida
Que existe o adeus
E vem jazer
Morta enfim
Nos braços meus

Ah, minha amada
Sem fim
Na solidão
Volta que dói
Tanto em mim
Grande
paixão


Hino da UNE

União Nacional dos Estudantes
Mocidade brasileira
Nosso hino é nossa bandeira

De pé a jovem guarda
A classe estudantil
Sempre na vanguarda
Trabalha pelo Brasil

A nossa mensagem de coragem
É que traz um canto de esperança
Num Brasil em paz

A UNE
reúne futuro e tradição
A UNE, a UNE, a UNE é união
A UNE, a UNE, a UNE somos nós
A UNE, a UNE, a UNE é nossa voz



História antiga

Tempo distante
Uma história antiga
Tinha aquela rua
Aquela lua tão amiga
Tinha a nossa casa
E o jardim tão lindo
E você sempre sorrindo
Você cuidando tanto
Do nosso amor

Um velho muro
Uma sebe antiga
Tinha uma cantiga
Tão amiga no silêncio
E no silêncio
Tua voz antiga
Tua voz que foi embora
E agora chora a morte
Do nosso amor


Insensatez

Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado

Ah, por que você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração, quem nunca amou
Não merece ser amado

Vai, meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade

Vai, meu coração, pede perdão
Perdão apaixonado
Vai, porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado


Já era tempo

Já era tempo de você voltar
Me beijar, esquecer
Já era mais que tempo de você
Refletir que as palavras
Muitas vezes
Não provêm do coração

Há muitos meses que você, meu bem
Disse adeus e partiu
Já era tempo de você chegar
Como eu, com os olhos rasos d'água
Mas sem mágoa

Triste de quem tem e vive à toa
Triste de quem ama e não perdoa
Ai de quem não cede
E de quem sempre tem razão
Ninguém sabe mais que o coração

Por isso eu peço: volta aos braços meus
Sem adeus, só perdão
Porque na hora em que você chegar
Como eu, com os olhos rasos d'água
Mas sem mágoa
Primeiro eu vou fingir espanto
Depois sorrir banhada em pranto


Janelas abertas

Sim
Eu poderia fugir, meu amor
Eu poderia partir
Sem dizer pra onde vou
Nem se devo voltar

Sim
Eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer
E me serenizar

Ah
Eu poderia ficar sempre assim
Como uma casa sombria
Uma casa vazia
Sem luz nem calor

Mas
Quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir iluminar nosso amor



Jardim noturno

Se, meu amor distante
Eu sou como um jardim noturno
Meu silêncio é o seu perfume
A se exalar em vão dentro da noite

Oh, volta, minha amada
A morte ronda em teu jardim
As rosas tremem
E a lua nem parece
Mais lembrar de mim


Je suis une guitarre

Je suis une guitarre
Très comme il faut
Prévue pour les concerts
À Pleyel ou à Gaveau
Je suis faite en palissandre
Pour Ia musique de chambre
Sous les doigts d’Andrès ou Narciso

Pourquoi faut-il
Que le Brésil
Vienne en secret
Me murmurer
Des mots pleins de fantaisie
Sur une étrange mélodie
Qui tout d'un coup insinue le samba...
Et voici Vivaldi qui se déhanche
Cherchant sa cadence à Ipanema
Parbleu! Mes airs anciens n'ont plus de sens
Loin de la vieille France à Bahia


João não-tem-de-quê

Se eu me chamo assim
É porque sempre fui educado
A quem me diz "obrigado"
Eu digo "não tem de quê"
Sou um mendingo mais cortês
Que qualquer diplomado
Sou um aristocrata
E só bebo escocês
E o que eu retiro da féria
Na arte de mendigar
É pra sair da miséria
Curtindo um bom caviar

Nossa nobre profissão
Tem por obrigação nos dar muito lazer
Basta estender a mão

Por isso eu digo a você
Que me pergunta a razão
Por que o amigo João
Se chama "Não tem de quê"
Se assim me chamo é porque
Eu sempre fui educado
A quem me diz "obrigado"
Eu digo "não tem de quê"


Labareda

Oh, labareda te encostou
Lá vai, lá vai, labareda

Oh, labareda te queimou
Lá vai, lá vai, labareda

Oh, labareda te matou
Lá vai, lá vai, labareda

Te matou de tanto amor
Lá vai, lá vai, labareda

Oh, labareda te encostou
Lá vai, lá vai, labareda

Oh, labareda te matou
Lá vai, lá vai, labareda

Te matou de tanto amor
Lá vai, lá vai, labareda

Labareda
O teu nome é mulher
Quem te quer
Quer perder o coração
Rosa ardente
Bailarina da ilusão
Mata a gente
Mata de paixão

Labareda
Fogo que parece amor
Tua dança
É a chama de uma flor
Labareda
Quem te vê assim dançar
Em teus braços
Logo quer queimar


Labirinto

Não me lembro de onde vim
E já nem sei mesmo para onde é que eu vou
Não conheço o meu caminho
Estou começando a nem saber se estou
Sou um manequim, eu sou em sem mim
Sou um manequim que a vida já despiu
Que o vento já levou

Dentro deste labirinto
Sinto crescer a minha solidão
Passam braços que me enlaçam
Mãos que roçam pela escuridão
Que será de mim?
Eu sou eu sem mim
Sou um manequim que vai sem direção
Em busca de seu fim

Ah, quem me dera coragem
Ah, quem me dera a esperança
Ah, se eu pudesse encontrar o amor
E dizer-lhe que estou ao seu inteiro dispor
De onde surgem estas luzes?
Cruzes! Que medo, são assombrações
Sombras que se arrastam lentas
E, pelos espaços, mais estranhos sons
Estou chegando ao fim, eu sou eu sem mim
Sou um manequim sozinho e sem canções
Estou chegando ao fim


Lamento

Morena, tem pena
Mas ouve o meu lamento
Tento em vão
Te
esquecer
Mas, olhe, o meu tormento é tanto
Que eu vivo em pranto e sou todo infeliz
Não há coisa mais triste, meu benzinho
Que esse chorinho que eu te fiz

Sozinha, morena
Você nem tem mais pena
Ai, meu bem
Fiquei tão só
Tem dó, tem dó de mim
Porque estou triste assim por amor de você
Não há coisa mais linda neste mundo
Que meu carinho por você


Lamento de João

Meu ofício é vir de longe
Chegar tarde, sem tostão
Trabalhar sem fazer força
Ir-me embora sem razão

Vem pensar o meu caminho
Joga encargos onde eu for
Que eu prefiro andar sozinho
Que criar um falso amor

Eu gosto muito de moça
Porém sem misturação
Dez pra ter perto dos olhos
E uma só junto da mão

Queira Deus que ele me desse
Como gratificação
Uma terra brasileira
Pra eu plantar meu coração

Falado

Eu saí cedo de casa. O pai mandava brasa sem parar, e as crianças nasciam, cresciam e morriam, tudo ao mesmo tempo. Saí e fui andando. Às vezes pegava um leito, um mutirão, mas não era o que meu coração pedia. Meu coração pedia sombra, água fresca e colo de moça bonita. Um dia, eu estava tão esmulambado que um cara, sei lá, devia ser louco, meteu a mão no bolso e me passou um Deodoro. Rapaz! Eu não sei como minha mão foi caminhando pra frente, sem me pedir licença.Foi, e de repente ficou assim, parada no ar, de palma pra cima, numa aceitação tão linda que cheguei a ficar com lágrimas nos olhos. Intentei bem naquela mão, naquele gesto, sentindo que ele dava tudo o que eu queria da vida. E foi aí que comecei a trabalhar de mendigo. Verdade que levantei uma "ervinha fofa". Não sei como eu agradava. Isto é, eu sei: por causa do meu modo de pedir, de minha bossa de esmolar, para tornar o doador responsável pela esmola que dava. Aí, veio a mania de viagens, eu me engajava em qualquer navio e partia. Assim, corri o mundo e aprendi a mendigar em muitas línguas. Fui mendigo em Singapura, em Túnis, no Cairo, em Adis Abeba, e por aí. Mas aí deu a saudade do tutu com torresmo, da galinha ao molho pardo, da empadinha de camarão, e eu me mandei de volta. Vim ser um mendigo inserido no meu contexto. Vim ser um mendigo subdesenvolvido, ou melhor, em fase de desenvolvimento, como querem os economistas, e estou contente.


Lamento no morro

Não posso esquecer
O teu olhar
Longe dos olhos meus

Ai, o meu viver
É de esperar
Pra te dizer adeus

Mulher amada
Destino meu
É madrugada
Sereno dos meus olhos já correu



Linda baiana

Eu vou me mudar
Pra São Salvador
Lá tem mais amor
Tem uma linda baiana por lá
Tem, tem
Tem, eu sei que tem
Porque eu vi como essa baiana
Samba muito bem
Balangandã de lá pra cá
Torso de renda a remexer
E o que está dentro
Juro que nem é bom dizer

Tem, tem, a baianinha tem
Com mais calor
Mais "Sim-Sinhô"
Mais querer-bem
A pele cor-de-mel assim
O olhar cheio de céu assim
Aqui eu paro, que essa baiana
É só pra mim!


Loura ou morena

Se por acaso o amor me agarrar
Quero uma loira pra namorar
Corpo bem feito, magro e perfeito
E o azul do céu no olhar
Quero também que saiba dançar
Que seja clara como o luar
Se isso se der
Posso dizer que amo uma mulher

Mas se uma loura eu não encontrar
Uma morena é o tom
Uma pequena, linda morena
Meu Deus, que bom
Uma morena era o ideal
Mas a loirinha não era mau
Cabelo louro vale um tesouro
É um tipo fenomenal
Cabelos negros têm seu lugar
Pele morena convida a amar
Que vou fazer?

Ah, eu não sei como é que vai ser
Olho as mulheres, que desespero
Que desespero de amor
É a loirinha, é a moreninha
Meu Deus, que horror!
Se da morena vou me lembrar
Logo na loura fico a pensar
Louras, morenas
Eu quero apenas a todas glorificar
Sou bem constante no amor leal
Louras, morenas, sois o ideal
Haja o que houver
Eu amo em todas somente a mulher


Luar do meu bem

O meu amor mora longe
Tão longe
Que já nem sei mais
A lua no céu também mora longe
Mas brilha no mar
Assim o meu bem
Que quanto mais além
Mais me faz pensar

Saudade, meu desespero
É minha consolação
Diz ao meu bem
Que eu não quero
Sentir mais saudade, não



Luciana

Olha que o amor, Luciana
É como a flor, Luciana
Olhos que vivem sorrindo
Riso tão lindo
Canção de paz

Olha que o amor, Luciana
É como a flor que não dura demais
Embriagador
Mas também traz muita dor, Luciana


Lugar que não tem

Ai, meu amor, que saudade
De um lugar que não tem
Onde o amor é verdade
E a saudade não vem

Morro de amor
Por um lugar distante, meu bem
E uma voz que cante
Uma só balada sem fim
Um lugar assim
Onde tudo encante, meu bem

Eu só por você
E você também
Só por mim

Ilha perdida
A estrela de Vênus
São para mim
Mais ou menos iguais
Tanto me faz

Desde que seja você
A vir comigo morar
Pra me namorar

E me dar
Um mundo de paz


Mais um adeus

Mais um adeus
Uma separação
Outra vez, solidão
Outra vez, sofrimento
Mais um adeus
Que não pode esperar

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia
É uma alegria
E de repente
Uma vontade de chorar

Contraponto

Olha, benzinho, cuidado
Com o seu resfriado
Não pegue sereno
Não tome gelado
O gim é um veneno
Cuidado, benzinho
Não beba demais
Se guarde para mim
A ausência é um sofrimento
E se tiver um momento
Me escreva um carinho
E mande o dinheiro
Pro apartamento
Porque o vencimento
Não é como eu:
Não pode esperar

O amor é uma agonia
Vem de noite, vai de dia
É uma alegria
E de repente
Uma vontade de chorar


Malandro de araque

Mosquito que sabe não voa rasante
Em água de rio que tem jacaré
Embrulho bem feito não leva barbante
Bandido não briga com homem de fé

Não jogue esse charme nem use esse jogo
Fazendo passinho pra ver se dá pé
Escute um conselho: não brinque com fogo
Malandro não pega no pé de mulher

Zuzu
Zazá
Zizi
Zezé

Ninguém lhe dá asa, ninguém lhe dá bola
Já esteve na casa, já viu como é
Pois vê se se manda porque nesta escola
Malandro não pega no pé de mulher!


Marcha de quarta-feira de cinzas

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz


Maria

Hoje, amada minha
Hoje no céu a lua
Parecia a imagem tua
Toda nua
Toda nua, ai, Maria
Coisa pura, coisa impura
Coisa cheia de doçura e mais linda
Coisa linda, linda, linda, linda
Deixa eu te dizer, amor
Como é linda a tua cor
Linda é a poesia que tem o nome de Maria
Carregadinha de flor
Lindo é teu langor
Ah, como eu queria
Ouvir só Maria
É tudo lindo
É tudo amor


Maria da Graça

Não é inutilmente
Que existe tanta gente
Que é louca por você, Maria

Você tem tanta graça
Que depois que você passa
O povo diz assim: Maria!

Contando alguma coisa
Ou cantando alguma coisa
Seu nome rima sempre com alegria

Por isso é que eu conto
Que sempre que eu te encontro
Eu acho que não há outra Maria

Não é inutilmente
Que existe tanta gente
Que é louca por você, Maria

Por isso é que sempre que eu conto
Que sempre que eu te encontro
Eu acho que não há outra Maria


Maria moita

Nasci lá na Babia
De mucama com feitor
Meu pai dormia em cama
Minha
mãe no pisador

Meu pai só dizia assim:
Venha cá!
Minha mãe dizia: sim
Sem falar

Mulher que fala muito
Perde logo o seu amor

Deus fez primeiro o homem
A mulher nasceu depois
E é por isso é que a mulher
Trabalha sempre pelos dois

Homem acaba de chegar
Tá com fome
A mulher tem que olhar
Pelo homem
E é deitada, em pé
Mulher
tem é que trabalhar

O rico acorda tarde
Já começa a rezingar
O pobre acorda cedo
E já começa a trabalhar

Vou pedir pro meu babalorixá
Pra fazer uma oração pra Xangô
Pra pôr pra trabalhar
Gente que nunca trabalhou


Maria vai com as outras

Maria era uma boa moça
Pra turma lá do Gantois
Era a Maria vai com as outras
Maria de coser, Maria de casar

Porém o que ninguém sabia
É que tinha um particular
Além de coser, além de rezar
Também era Maria de pecar

Tumba-ê, caboclo, tumba lá e cá
Tumba-ê, guerreiro, tumba lá e cá
Tumba-ê, meu pai, tumba lá e cá
Não me deixe só, tumba lá e cá

Maria que não foi com as outras
Maria que não foi pro mar
No dia dois de fevereiro
Maria não brincou na festa de lemanjá
Não foi jogar água-de-cheiro
Nem flores pra sua Orixá
Aí, Iemanjá pegou e levou
O moço de Maria para o mar

Tumba-ê, caboclo, tumba lá e cá
Tumba-ê, guerreiro, tumba lá e cá
Tumba-ê, meu pai, tumba lá e cá
Não me deixe só, tumba lá e cá



Medo de amar

Vire essa folha do livro e se esqueça de mim
Finja que o amor acabou e se esqueça de mim
Você não compreendeu que o ciúme é um mal de raiz
E que ter medo de amar não faz ninguém feliz

Agora vá sua vida como você quer
Porém, não se surpreenda se uma outra mulher
Nascer de mim, como do deserto uma flor
E compreender que o ciúme é o perfume do amor


Melancia e coco verde

Melancia é fruta verde e dá botão
Coco verde é fruta dura e cai no chão
Menina, case comigo
Que eu sou bom trabalhador
De dia durmo consigo
De noite morro de amor

Para consigo morar
Eu vou querer a enfeitar
Com os cardumes do céu
Com as estrelas do mar

Menina venha comigo
Consigo eu juro que vou
Me siga para onde eu sigo
Me siga para onde eu for

Para consigo morar
Eu vou querer lhe ofertar
A minha vida no céu
A minha morte no mar

Menina, minha senhora
É hora de se mudar
A vida me faz voltar

Eu na sua companhia
Sigo pr'onde for
Corpo cheio de vontade
Coração em flor
Quero
ser minha senhora
Para meu senhor

Coco verde e melancia
Para sempre amor


Menina das duas tranças

Menina das duas tranças
Deixe o meu filhinho em paz
Que
ele ainda é muito criança
Pras coisas que você faz

Baixe seu olhar escuro
Cubra esse peitinho em flor
Que
ele ainda não está maduro
Pra essa escuridão de amor

Vá-se embora, t'esconjuro!
Deixe o filho meu
Basta neste negro mundo
O que o pai sofreu

Menina das duas tranças
Deixe o meu paizinho em paz
Que
ele não é mais criança
Pras coisas que você faz

Pare de deitar quebranto
Chega dessa mostração
Que meu pai já sofreu tanto
Só viveu desilusão

Vá-se embora t'esconjuro!
Deixe em paz meu pai
Mais que o seu olhar escuro
É pra onde ele vai


Menininha

Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha, não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção
Senhorinha levada
Batendo palminha
Fingindo assustada
Do bicho-papão

Menininha, que graça é você
Uma coisinha assim
Começando a viver
Fique assim, meu amor
Sem crescer
Porque o mundo é ruim, é ruim
E você vai sofrer de repente
Uma desilusão
Porque a vida é somente
Teu bicho-papão

Fique assim, fique assim
Sempre assim
E se lembre de mim
Pelas coisas que eu dei
E também não se esqueça de mim
Quando você souber enfim
De tudo o que eu amei


Meu pai Oxalá

Atotô Abaluayê
Atotô babá
Atotô Abaluayê
Atotô babá

Vem das águas de Oxalá
Essa mágoa que me dá
Ela parecia o dia
A romper da escuridão
Linda no seu manto todo branco
Em meio à procissão
E eu, que ela nem via
Ao Deus pedia amor e proteção

Meu pai Oxalá é o rei
Venha me valer
O velho Omulu
Atotô Abaluayê

Que vontade de chorar
No terreiro de Oxalá
Quando eu dei com a minha ingrata
Que era filha de Inhansã
Com a sua espada cor-de-prata
Em meio à multidão
Cercando Xangô num balanceio
Cheio de paixão

Atotô Abaluayê
Atotô babá
Atotô Abaluayê
Atotô babá


Minha desventura

Ah, doce sentimento lindo e desesperador
Ah, meu tormento infinito que me vais matar de dor
Onde estão teus olhos
Cheios de ternura
Tua face pura
Cheia de esperança
Minha desventura é ter perdido teu amor

Ah, se eu pudesse nunca ter magoado teu amor
Teu amor tão mais que o meu
Teu amor tão só pra mim
Meu amor tem dó de mim
Minh'alma te jura
Minha desventura é ter perdido o teu amor

Ah, doloroso instante de adeus e de dor
Oh, espera sem piedade
Amor dilacerante
Mata-me também de amor
Ah, se ela não voltar
Eu sei que vou morrer de amor


Minha namorada

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber por quê

Porém, se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer

Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois


Modinha n° 1

Não!
Não pode mais meu coração
Viver assim dilacerado
Escravizado a uma ilusão
Que é só desilusão

Ah, não seja a vida sempre assim
Como um luar desesperado
A derramar melancolia em mim
Poesia
em mim
Vai, triste canção, sai do meu peito
E semeia emoção
Que chora dentro do meu coração
Coração



Morena flor

Morena flor
Me dê um cheirinho
Cheinho de amor
Depois também
Me dê todo esse denguinho
Que só você tem

Sem você
O que ia ser de mim
Eu ia ficar tão triste
Tudo ia ser tão ruim
Acontece que a Bahia
Fez você todinha assim
Só pra mim


Mulata no sapateado

Quem tem mais balanço no sapateado
Tem mais molejo, tem mais requebrado, oi
Do que a mulata tem?

Quem é mais faceira, mais apaixonada
Faz mais miséria quando está gamada
Tem mais feitiço que a mulata tem?

Quem é que se mostra pro estrangeiro ver, por favor
Imperador, ou presidente ou qualquer todo crente que vem ?
Quem? É a mulata só porque ela samba bem
Se samba! Oi, se samba!

Sim, é a mulata seja lá de onde ela for
Pra mexer assim precisa ter aquela cor

Tanto faz num samba de partido-alto
Ou no puladinho na ponta do salto
Desenvolvendo seu sapateado

Que prazer quando
Ela gira o mostrador
Mulata, meu amor
Mexe que remexe, torna a mexer
Só pra eu ver


Nenhum comentário: