As cores de abril
As cores de abril
Os ares de anil
O mundo se abriu
E
Nas flores de abril
Voando e fazendo amor
O canto gentil
De quem bem te viu
Num pranto desolador
Não chora, me ouviu
Que as cores de abril
Não querem saber de dor
Olha quanta beleza
Tudo é pura visão
E a natureza transforma a vida
Sou
Vai e canta, meu irmão
Ser feliz é viver morto de paixão
Até rolar pelo chão
Não quero entrar
Para não ter que sair
Porque se eu der de sambar
Ninguém me tira daqui
Vou balançar
Até meu corpo cair
Meu pé vai dar o que falar
Não vejo ninguém pra ir
Nada de par
Pra me empatar, não
Hoje eu só quero
É me espalhar no salão
Mas deixa estar
Não vou fazer confusão
Tudo que eu quero é sambar
Até rolar pelo chão
Aula de piano
Depois do almoço na sala vazia
A mãe subia pra se recostar
E no passado que a sala escondia
A menininha ficava a esperar
O professor de piano chegava
E começava uma nova lição
E a menininha, tão bonitinha
Enchia a casa feito um clarim
Abria o peito, mandava brasa
E solfejava assim:
Ai, ai, ai
Lá, sol, fá, mi, ré
Tira a não daí
Dó, dó, ré, dó, si
Aqui não dá pé
Mi, mi, fá, mi, ré
E agora o sol, fá
Pra lição acabar
Diz o refrão quem não chora não mama
Veio o sucesso e a consagração
Que finalmente deitaram na fama
Tendo atingido a total perfeição
Nunca se viu tanta variedade
A quatro mãos em concertos de amor
Mas na verdade tinham saudade
De quando ele era seu professor
E quando ela, menina e bela
Abria o berrador
Ai, ai, ai,
Lá, sol, fá, mi, ré
Ausência
Deixa secar no meu rosto
Esse pranto de amor que a presença desatou
Deixa passar o desgosto
Esse gosto da ausência que me restou
Eu tinha feito da saudade
A minha amiga mais constante
E ela a cada instante
Me pedia pra esperar
E foi tudo o que eu fiz, te esperei tanto
Tão sozinha no meu canto
Tendo apenas o meu canto pra cantar
Por isso deixa que o meu pensamento
Ainda lembre um momento a saudade que eu vivi
A tua imagem fiel
Que hoje volta ao meu lado
E que eu sinto que perdi
Balada da flor da terra
Nem a luz da lua na tarde
Nem a onda do mar quando ela vem
Nem a flor do céu quando se abre
Têm a graça de você
Meu amor
É bonita
É bonita
Ai, que aroma o corpo do meu bem
Ai, que negros são os seus cabelos
Meu bem, não vá mais embora
Não me deixe por favor
Sem meu bem eu me morro
Eu me morro de amor
De amor
De amor
Balanço do Tom
Amigo, olhe
Morou no som?
Balanço só lhe parece bom
Se der descanso
Olhe o balanço do Tom
O som é manso
Morou no som?
Quem tem balanço
Mesmo que é bom?
Amigo, é manso
Olhe o balanço do Tom
Gente que bate
Gente que briga
Não sabe como fazer paz é bom
Olhe o Tonzinho
Só faz carinho no som
Balanço bole
Balanço é bom
Amigo, olhe
Que lindo som!
Amigo, é mole
É o pianinho do Tom
Bem pior que a morte
Bem pior que a morte
É deixar só o amor
Oh, minha amada
Na hora em que eu me for
Sozinho na treva
Oh, vem comigo
Oh, vem comigo
Lá onde existe a grande paz
O amor em paz
Berimbau
Quem é homem de bem, não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
E assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem
Capoeira que é bom, não cai
E se um dia ele cai, cai bem!
Capoeira me mandou
Dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou
Vai ter briga de amor
Tristeza, camará
Blues para Emmet
Os assassinos de Emmet
Chegaram sem avisar
Mascando cacos de vidro
Com suas caras de cal
Os assassinos de Emmet
Entraram sem dizer nada
Com seu hálito de couro
E seus olhos de punhal
Os assassinos de Emmet
Quando o viram ajoelhado
Descarregaram-lhe
O
Enquanto justificada
A mulher faz um guisado
Para esperar o marido
Que a mando seu foi vingá-la
Nota:
Blues para Emmet
Esta canção apresenta uma versão ligeiramente modificada do poema "Blues para Emmet Louis Till", do livro Para viver um grande amor.
Bocochê
Menina bonita, pra onde é "qu'ocê" vai
Menina bonita, pra onde é "qu'ocê" vai
Vou procurar o meu lindo amor
No fundo do mar
Vou procurar o meu lindo amor
No fundo do mar
Nhem, nhem, nhem
É onda que vai
Nhem, nhem, nhem
É onda que vem
Nhem, nhem, nhem
Tristeza que vai
Nhem, nhem, nhem
Tristeza que vem
Foi e nunca mais voltou
Nunca mais! Nunca mais
Triste, triste me deixou
Nhem, nhem, nhem
É onda que vai
Nhem, nhem, nhem
É a vida que vem
Nhem, nhem, nhem
É a vida que vai
Nhem, nhem, nhem
Não volta ninguém
Menina bonita, não vá para o mar
Menina bonita, não vá para o mar
Vou me casar com o meu lindo amor
No fundo do mar
Vou me casar com o meu lindo amor
No fundo do mar
Nhem, nhem, nhem
É onda que vai
Nhem, nhem, nhem
É onda que vem
Nhem, nhem, nhem
É a vida que vai
Nhem, nhem, nhem
Não volta ninguém
Menina bonita que foi para o mar
Menina bonita que foi para o mar
Dorme, meu bem
Que você também é Iemanjá
Dorme, meu bem
Que você também é Iemanjá
Bom dia, amigo
Bom dia, amigo
Que a paz seja contigo
Eu vim somente dizer
Que eu te amo tanto
Que vou morrer
Amigo... adeus
Bom dia, tristeza
Bom dia, tristeza
Que tarde, tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você
Se chegue, tristeza
Se sente comigo
Aqui, nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar
Brasília, sinfonia da alvorada
I
O Planalto deserto
No príncipio era o ermo
Eram antigas solidões sem mágoa.
O altiplano, o infinito descampado
No princípio era o agreste:
O céu azul, a terra vermelho-pungente
E o verde triste do cerrado.
Eram antigas solidões banhadas
De mansos rios inocentes
Por entre as matas recortadas.
Não havia ninguém. A solidão
Mais parecia um povo inexistente
Dizendo coisas sobre nada.
Sim, os campos sem alma
Pareciam falar, e a voz que vinha
Das grandes extensões, dos fundões crepusculares
Nem parecia mais ouvir os passos
Dos velhos bandeirantes, os rudes pioneiros
Que, em busca de ouro e diamantes,
Ecoando as quebradas com o tiro de suas armas,
A tristeza de seus gritos e o tropel
De sua violência contra o índio, estendiam
As fronteiras da pátria muito além do limite dos tratados.
– Fernão Dias, Anhanguera, Borba Gato,
Vós fostes os heróis das primeiras marchas para o oeste,
Da conquista do agreste
E da grande planície ensimesmada!
Mas passastes. E da confluência
Das três grandes bacias
Dos três gigantes milenares:
Amazonas, São Francisco, Rio da Prata ;
Do novo teto do mundo, do planalto iluminado
Partiram também as velhas tribos malferidas
E as feras aterradas.
E só ficaram as solidões sem mágoa
O sem-termo, o infinito descampado
Onde, nos campos gerais do fim do dia
Se ouvia o grito da perdiz
A que respondia nos estirões de mata à beira dos rios
O pio melancólico do jaó.
E vinha a noite. Nas campinas celestes
Rebrilhavam mais próximas as estrelas
E o Cruzeiro do Sul resplandecente
Parecia destinado
A ser plantado em terra brasileira:
A Grande Cruz alçada
Sobre a noturna mata do cerrado
Para abençoar o novo bandeirante
O desbravador ousado
O ser de conquista
O Homem!
II
O Homem
Sim, era o Homem,
Era finalmente, e definitivamente, o Homem.
Viera para ficar. Tinha nos olhos
A força de um propósito: permanecer, vencer as solidões
E os horizontes, desbravar e criar, fundar
E erguer. Suas mãos
Já não traziam outras armas
Que as do trabalho em paz. Sim,
Era finalmente o Homem: o Fundador. Trazia no rosto
A antiga determinação dos bandeirantes,
Mas já não eram o ouro e os diamantes o objeto
De sua cobiça. Olhou tranqüilo o sol
Crepuscular, a iluminar em sua fuga para a noite
Os soturnos monstros e feras do poente.
Depois mirou as estrelas, a luzirem
Na imensa abóbada suspensa
Pelas invisíveis colunas da treva.
Sim, era o Homem...
Vinha de longe, através de muitas solidões,
Lenta, penosamente. Sofria ainda da penúria
Dos caminhos, da dolência dos desertos,
Do cansaço das matas enredadas
A se entredevorarem na luta subterrânea
De suas raízes gigantescas e no abraço uníssono
De seus ramos. Mas agora
Viera para ficar. Seus pés plantaram-se
Na terra vermelha do altiplano. Seu olhar
Descortinou as grandes extensões sem mágoa
No círculo infinito do horizonte. Seu peito
Encheu-se do ar puro do cerrado. Sim, ele plantaria
No deserto uma cidade muita branca e muito pura...
Citação de Oscar Niemeyer
– “... como uma flor naquela terra agreste e solitária…"
– Uma cidade erguida em plena solidão do descampado.
Niemeyer
– “ ... como uma mensagem permanente de graça e poesia...”
– Uma cidade que ao sol vestisse um vestido de noivado
Niemeyer
– “ ... em que a arquitetura se destacasse branca, como que flutuando na imensa escuridão do planalto..."
– Uma cidade que de dia trabalhasse alegremente
Niemeyer
– “…numa atmosfera de digna monumentalidade..."
– E à noite, nas horas do langor e da saudade
Niemeyer
– “ ... numa luminação feérica e dramática..."
– Dormisse num Palácio de Alvorada!
Niemeyer
– “ ... uma cidade de homens felizes, homens que sintam a vida ern toda sua plenitude, em toda a sua fragilidade; homens que compreendam o valor das coisas puras..."
– E que fosse como a imagem do Cruzeiro
No coração da pátria derramada.
Citação de Lucio Costa
– “…nascida do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos que se cruzam em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz."
III
A chegada dos Candangos
Tratava-se agora de construir: e construir um ritmo novo.
Para tanto, era necessário convocar todas as forças vivas da Nação, todos os homens que, com vontade de trabalhar e confiança no futuro, pudessem erguer, num tempo novo, um novo Tempo.
E, à grande convocação que conclamava o povo para a gigantesca tarefa começaram a chegar de todos os cantos da imensa pátria os trabalhadores: os homens simples e quietos, com pés de raiz, rostos de couro e mãos de pedra, e que, no calcanho, em carro de boi, em lombo de burro, em paus-de-arara, por todas as formas possíveis e imagináveis, começaram a chegar de todos os lados da imensa pátria, sobretudo do Norte; forarn chegando do Grande Norte, do Meio Norte e do Nordeste, em sua simples e áspera doçura; foram chegando em grandes levas do Grande Leste, da Zona da Mata, do Centro-Oeste e do Grande Sul; foram chegando em sua mudez cheia de esperança, muitas vezes deixando para trás mulheres e filhos a aguardar suas promessas de melhores dias; foram chegando de tantos povoados, tantas cidades cujos nomes pareciam cantar saudades aos seus ouvidos, dentro dos antigos ritmos da imensa pátria...
Dois locutores alternados
– Boa Viagem! Boca do Acre! Água Branca! Vargem Alta! Amargosa! Xique-Xique! Cruz das Almas! Areia Branca! Limoeiro! Afogados! Morenos! Angelim! Tamboril! Palmares! Taperoá! Triunfo! Aurora! Campanário! Águas Belas! Passagem Franca! Bom Conselho! Brumado! Pedra Azul! Diamantina! Capelinha! Capão Bonito! Campinas! Canoinhas! Porto Belo! Passo Fundo!
Locutor n. 1
– Cruz Alta...
Locutor n. 2
– Que foram chegando de todos os lados da imensa pátria...
Locutor n. 1
– Para construir uma cidade branca e pura...
Locutor n.2
– Uma cidade de homens felizes...
IV
O trabalho e a construção
– Foi necessário muito mais que engenho, tenacidade e invenção. Foi necessário 1 milhão de metros cúbicos de concreto, e foram necessárias 100 mil toneladas de ferro redondo, e foram necessários milhares e milhares de sacos de cimento, e 500 mil metros cúbicos de areia, e 2 mil quilômetros de fios.
– E 1 milhão de metros cúbicos de brita foi necessário, e quatrocentos quilômetros de laminados, e toneladas e toneladas de madeira foram necessárias. E 60 mil operários! Foram necessários 60 mil trabalhadores vindos de todos os cantos da imensa pátria, sobretudo do Norte! 60 mil candangos foram necessários para desbastar, cavar, estaquear, cortar, serrar, pregar, soldar, empurrar, cimentar, aplainar, polir, erguer as brancas empenas...
– Ah, as empenas brancas! -
– Como penas brancas...
– Ah, as grandes estruturas!
– Tão leves, tão puras...
Como se tivessem sido depositadas de manso por mãos de anjo na terra vermelho-pungente do planalto, em meio à música inflexível, à música lancinante, à música matemática do trabalho humano em progressão ...
O trabalho humano que anuncia que a sorte está lançada e a ação é irreversível.
Cantochão
E ao crespúsculo, findo o labor do dia, as rudes mãos vazias de trabalho e os olhos cheios de horizontes que não têm fim, partem os trabalhadores para o descanso, na saudade de seus lares tão distantes e de suas mulheres tão ausentes. O canto com que entristecem ainda mais o sol-das-almas a morrer nas antigas solidões parece chamar as companheiras que se deixaram ficar para trás, à espera de melhores dias; que se deixaram ficar na moldura de uma porta, onde devem permanecer ainda, as mãos cheias de amor e os olhos cheios de horizontes que não têm fim. Que se deixaram ficar muitas terras além, muitas serras além, na esperança de um dia, ao lado de seus homens, poderem participar também da vida da cidade nascendo em comunhão com as estrelas. Que viram, uma manhã, partir os companheiros em busca do trabalho com que lhes dar uma pequena felicidade que não possuem, um pequeno nada com que poder sentir brilhar o futuro no olhar de seus filhos. Esse mesmo trabalho que agora, findo o labor do dia, encaminha os trabalhadores em bando para a grande e fundamental solidão da noite que cai sobre o planalto…
“Deste planalto central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantávele uma confiança sem limites no seu grande destino."
(Brasília, 2 de outubro de 1956)
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira
V
Coral
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VI
Terra de sol
Terra de luz
Terra que guarda no céu
A brilhar o sinal de uma cruz
Terra de luz
Terra-esperança, promessa
De um mundo de paz e de amor
Terra de irmãos
Ó alma brasileira ...
... Alma brasileira ...
Terra-poesia de canções e de perdão
Terra que um dia encontrou seu coração
Brasil! Brasil!
Ah... Ah... Ah...
B r a s í 1 i a!
Dlem! Dlem!
Ô ... ô... ô... ô
Brigas nunca mais
Chegou, sorriu, venceu, depois chorou
Então fui eu quem consolou sua tristeza
Na certeza de que o amor tem dessas fases más
E é bom para fazer as pazes, mas
Depois fui eu quem dela precisou
E ela então me socorreu
E o nosso amor mostrou que veio pra ficar
Mais uma vez por toda vida
Bom é mesmo amar
Brigas
Broto maroto
Olha que graça de moça
Vê que balanço ela tem
E aqui, que ninguém nos ouça
Se eu insistir ela vem
Se não me engano esse broto
Quer se mudar numa flor
Isso é um negócio maroto
Pronto requer muito amor
Embora eu lhe tenha carinho
E ela só cuide de mim
Eu já tenho muito brotinho
Plantado no meu jardim,
Por isso é que eu fico cabreiro
É muito brotinho demais
Pra um brasileiro
Broto triste
Menininha bonita, cheia de mania
Que faz tanta fita e se acha a maior
E diz que não topa quem lê poesia
Que tudo na Europa é muito
Mas muito melhor
Menininha, cabeça de vento
Sem um pensamento, senão namorar
Cuidado menina, namora direito
Senão não dá jeito
Não está nada fácil casar
Seu biquini tão "biquinininho"
Não dá chance, pois quem quer
Não tem mais nada para achar
Menininha, eu te juro
Você me dá pena
Você tão pequena querendo voar
Menininha, que coisa mais triste
Se você pensa que existe
Vai ter muito o que pensar
Menininha, vem cá – pra quê?
Menininha, olhe lá – você?
Cala, meu amor
Entra, meu amor
Bom você voltar
De onde vem você
Cansado assim?
Vejo tanta dor
No teu triste olhar
Este olhar que, outrora
Se acendia só pra mim
Cala, meu amor
Fala, meu amor
É melhor você nada contar
Venha aos braços meus
Que os abraços meus
Vão finalmente te fazer c
Calmaria e vendaval
Choro e canto, mato e morro
Corro entre o bem e o mal
Sem querer faço da vida
Calmaria e vendaval
Passarinho e águia brava
Brisa mansa e temporal
Vendo o dia se apagando
Vejo a noite amanhecer
Passo o tempo procurando
Quem me possa responder
Como é que tem quem vive
Sem ninguém por quem morrer
Um caminho a gente encontra
Só questão de procurar
Se uma reta está no céu
Uma curva está no mar
Só não se acha saída
Quando a morte vem levar
Caminho de pedra
Velho caminho por onde passou
Carro de boi, boiadeiro gritando ô ô
Velho caminho por onde passou
O meu carinho chamando por mim ô ô
Caminho perdido na serra
Caminho de pedra onde não vai ninguém
Só sei que hoje tenho
Um
Hoje sozinho não sei pra onde vou
É o caminho que vai me levando ô ô
Canção da canção que nasceu
Eu não via nada senão teu olhar
Só havia o nosso amor pra cuidar
Parecia uma infinita canção
Até que um dia
Houve uma separação
Foi aí, amor
Que em mim a vida renasceu
E a luz do nosso grande amor
Foi indo e desapareceu
Foi aí, amor
Que uma outra luz transpareceu
E eu vi o mundo todo
E
E uma canção
De mim nasceu
Canção da noite
Dorme
Que estou a teu lado
Dorme sem cuidado
Nã nã nã nã nã
Dorme
Oh, meu anjo lindo
Vai calma dormindo
Nã nã nã nã nã
Sonha
Com noites de lua
Que minh'alma é tua
Quem vela sou eu!
Dorme
Com riso na boca
Que a noite é bem pouca
Nã nã nã nã nã
Dorme
E sonha comigo
Com teu doce amigo
Nã nã nã nã nã
Canção de enganar tristeza
Se a tristeza um dia
Te encontrar triste sozinho
Trata dela bem
Porque a tristeza quer carinho
E fala sobre a beleza
Com tanta delicadeza
Por não ter nenhum carinho
Que ela só existe
Por não ter nenhum carinho
E dá-lhe um amor tão lindo
Que quando ela se for indo
Ela vá contente
De ter tido o teu carinho
Canção de ninar meu bem
Hoje a lua despiu seu véu
E flutua a dormir no céu
Na canção que de mim nasceu
Meu amado adormeceu
Meu amado adormeceu
Dorme, meu amor
Como no céu a lua
Tu serás sempre meu
E eu só tua
Dorme, amigo, que a poesia
É um mistério que não tem fim
Dorme
Que
Dormirás para sempre
Dormirás
Canção de nós dois
Tudo quanto na vida eu tiver
Tudo quanto de bom eu fizer
Será de nós dois
Será de nós dois
Uma casa num alto qualquer
Com um jardim e um pomar se couber
Será de nós dois
Será de nós dois
E depois, quando a gente quiser
Passear, ir pra onde entender
Não importa onde a gente estiver
Estaremos a sós
E depois, quando a gente voltar
O menino que a gente encontrar
Será de nós dois
Será de nós dois
E de noite quando ele dormir
O silêncio do tempo a fugir
Será de nós dois
Será de nós dois
E por fim, quando o tempo fugir
E a saudade nos der de nós dois
E a vontade vier de dormir
Sem ter mais depois
Dormiremos sem medo nenhum
Pois aonde puder dormir um
Podem dormir dois
Podem dormir dois
Podem dormir dois
Canção do amanhecer
Ouve
Fecha os olhos, meu amor
É noite ainda
Que silêncio
E nós dois
Na tristeza de depois
A contemplar
O grande céu do adeus
Ah, não existe paz
Quando o adeus existe
E é tão triste
O nosso amor
Oh, vem comigo
Vem
Esta noite amanhecer
Iluminar
Aos nossos passos tão sozinhos
Todos os caminhos
Todos os carinhos
Vem raiando a madrugada
Música no céu
Canção do amor ausente
Ah, mulher
Tu que criaste o amor
Aqui estou eu tão só
Na imensa treva
Da tua ausência
Mulher, canção
Noturna flor do adeus
Vem me matar de amor
De amor nos braços teus
É tanto o meu amor
Tanto por ti
Que não há dor maior
Do que eu vivi
A dor desta separação
Ouvindo o próprio coração
Bater cada minuto
Da
Ai, quem me dera
Dar-me todo a ti
Ai, quem me dera
O tempo que perdi
Ai, quem me dera
Ser o ar
Que ao menos
Roça os lábios teus
E te beijar
Mais um adeus
Canção do amor demais
Quero chorar porque te amei demais
Quero morrer porque me deste a vida
Oh, meu amor, será que nunca hei de ter paz
Será que tudo que há
Só
E já nem sei o que vai ser de mim
Tudo me diz que amar será meu fim
Que desespero traz o amor!
Eu nem sabia o que era o amor
Agora sei porque não sou feliz
Canção do amor que chegou
Eu não sei, não sei dizer
Mas de repente essa alegria
Alegria
Que alegria de viver
E de ver tanta luz, tanto azul!
Quem jamais poderia supor
Que de um mundo que era tão triste e sem cor
Brotaria essa flor inocente
Chegaria esse amor de repente
E o que era somente um vazio sem fim
Se encheria de cores assim
Coração, põe-te a cantar
Canta o poema da primavera em flor
É o amor, o amor chegou
Chegou enfim
Canção do amor que não vem
Ah, soubesse eu te contar
Toda amargura
De não poder te dar
Tanta ternura
Ah, soubesse eu nunca te contar
Ah, pudesse eu te dizer
Toda tristeza
De estar sempre esperando
Uma incerteza
E nada poder
Nem desesperar
Oh, triste caminho do coração
Que ama sozinho
Que coisa triste
Amar sozinho
Quanta solidão
Ah, pudesses entrever
Minha ansiedade
Depois de um dia de saudade
De uma noite inteira a soluçar
Vem! Não tardes mais
Amor, que eu vivo procurando
Quando vais chegar?
Eu sei que chegarás
Ah, pudesse eu pôr a teus pés
A minha vida
Amor, por quem tu és
Oh, vem
Não tarde mais
Sim, por favor
Façam silêncio
Meu amor vem
Quando
Canção em modo menor
Porque cada manhã me traz
O mesmo sol sem resplendor
E o dia é só um dia a mais
E a noite é sempre a mesma dor
Porque o céu perdeu a cor
E agora em cinzas se desfaz
Porque eu já não posso mais
Sofrer a mágoa que sofri
Porque tudo que eu quero é paz
E a paz só pode vir de ti
Porque meu sonho se perdeu
E eu sempre fui um sonhador
Porque perdidos são meus ais
E foste para nunca mais
Oh, meu amor
Porque minha canção morreu
No apelo mais desolador
Porque a solidão sou eu
Ah, volta aos braços meus, amor
Canção para alguém
Foste na minha vida
Alguém que apareceu
Para findar a dor
Foste a mulher querida
Que o destino me deu
Para viver de amor
Foste esperança e magia
Sinceridade e poesia
Ponho nesta canção
Toda a minha emoção
Toda a sublimação do meu amor
Nela vai ternamente
O beijo mais ardente
Para a beleza da tua boca
Eu
Nas noites cheias de luar
E tem a sinceridade
Que vive no meu olhar
Junto a ti deposita
A saudade infinita
Que eternamente habita em meu coração
Ela é tristeza… recordação
Canção para o grande amor
Despedi o grande amor de mim
Dizendo assim: grande amor
Não se esqueça de voltar
Porque a dor do amor que teve fim
Que foi ruim, sei que sim
Outro amor há de apagar
E há de ser sempre assim:
Minha casa aberta
E na mesa posta um talher a mais
Um cinzeiro a mais
E no seu lugar a mesma mulher a esperar
A mesma mulher pronta pra dizer
Entre, por favor, quando alguém surgir
Quando alguém chegar
Pode ser o amor, pode ser a dor, pode ser
Preciso ter muitas rosas para receber
O grande amor
Quando for
Sua hora de voltar
Canta, canta mais
Canta, canta
Sente a beleza
Canta, canta
Esquece a tristeza
Tanta, tanta
Tanta tristeza
Canta
Ah...
Canta, canta
Canta, vai, vai
Segue cantando
Canta
Canta mais
Cantiga da ausente
Se eu ando assim tão triste
Tão cheio de langor
É porque nada existe
Para mim sem meu amor
Ela está tão longe, tão longe
Que nem sei
E o seu olhar tão lindo
Não pode nem me ver
E as suas mãos morenas
Já nem podem me acenar
E só me resta a esperança
De ver meu amor voltar
Com os seus cabelos negros
E a sua graça pequenina
E a sua ternura linda
E o seu gostar de mim
Como ela me dizia
Feliz a soluçar
Eu te amo tanto
Que já nem sei mais
Canto de Iemanjá
Iemanjá, lemanjá
lemanjá é dona Janaína que vem
Iemanjá, Iemanjá
lemanjá é muita tristeza que vem
Vem do luar no céu
Vem do luar
No mar coberto de flor, meu bem
De Iemanjá
De lemanjá a cantar o amor
E a se mirar
Na lua triste no céu, meu bem
Triste no mar
Se você quiser amar
Se você quiser amor
Vem comigo a Salvador
Para ouvir lemanjá
A cantar, na maré que vai
E na maré que vem
Do fim, mais do fim, do mar
Bem mais além
Bem mais além
Do que o fim do mar
Bem mais além
Canto de Ossanha
O homem que diz "dou" não dá
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz "vou" não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz "sou" não é
Porque quem é mesmo é "não sou"
O homem que diz "estou" não está
Porque ninguém está quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha, traidor
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor
Amigo sinhô
Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha, não vá
Que muito vai se arrepender
Pergunte pro seu Orixá
Amor só é bom se doer
Vai, vai, vai, vai amar
Vai, vai, vai, vai sofrer
Vai, vai, vai, vai chorar
Vai, vai, vai, vai dizer
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor
Canto de Oxalufã
Você que sabe demais
Meu pai mandou lhe dizer
Que o tempo tudo desfaz
A morte nunca estudou
E a vida não sabe ler
Ô-babá
Não dá pra ninguém saber
Por que é que há
Quem lê e não sabe amar
Quem ama e não sabe ler
Você que sabe demais
Mas que não sabe viver
Responda se for capaz:
Da vida, quem sabe lá?
Da morte, quem quer saber?
Canto de Pedra Preta
Olô, pandeiro
Olô, viola
Olô, pandeiro
Olô, viola
Pandeiro não quer
Que eu sambe aqui
Viola não quer
Que eu vá embora
Olô, pandeiro
Olô, viola
Pandeiro quando toca
Faz Pedra Preta chegar
Viola quando toca
Faz Pedra Preta sambar
Pandeiro diz:
Pedra Preta não samba aqui não
A viola diz:
Pedra Preta não sai daqui, não
Pedra Preta diz:
Pandeiro tem que pandeirar
Pedra Preta diz:
Viola tem que violar
O galo no terreiro
Fora de hora cantou
Pandeiro foi-se embora
E Pedra Preta gritou
Olô, pandeiro
Olô, viola
Olô, pandeiro
Olô, viola
Canto de Xangô
Eu vim de bem longe
Eu vim, nem sei mais de onde é que eu vim
Sou filho de Rei
Muito lutei pra ser o que eu sou
Eu sou negro de cor
Mas tudo é só amor
Tudo
Xangô Agodô
Hoje é tempo de amor
Hoje é tempo de dor, em mim
Xangô Agodô
Salve, Xangô, meu Rei Senhor
Salve, meu orixá
Tem sete cores sua cor
Sete dias para a gente amar
Mas amar é sofrer
Mas amar é morrer de dor
Xangô meu Senhor, saravá!
Xangô meu Senhor!
Mas me faça sofrer
Mas me faça morrer de amor
Xangô meu Senhor, saravá!
Xangô Agodô!
Canto e contraponto
Ai, amante, espera um pouco
Deixa que se canse
Este desejo louco
De teu corpo
Deixa que se estanque
O canto rouco
De paixão
Que noite sem fim
Soluça
Dilacerante
Sim
Nas mortais escarpas
Nos furores nossos
Porque, exausta carne
Nas sangrentas bodas
Só terás meus ossos
Saturnais destroços
Deste amor fatal
Canto triste
Porque sempre foste
A primavera em minha vida
Volta pra mim
Desponta novamente no meu canto
Eu te amo tanto mais
Te quero tanto mais
Ah, quanto tempo faz
Partiste como a primavera
Que também te viu partir
Sem um adeus sequer
E nada existe mais em minha vida
Como um carinho teu
Como um silêncio teu
Lembro um sorriso teu
Tão triste
Ah, luar sem compaixão
Sempre a vagar no céu
Onde se esconde a minha bem-amada
Onde a minha namorada
Vai, diz a ela minhas penas
E que eu peço, peço apenas
Que ela lembre as nossas horas de poesia
As noites de paixão
E diz-lhe da saudade em que me viste
Que estou sozinho
Que só existe meu canto triste
Na solidão
Cara-de-pau
Pega aquela muleta!
Pule como perneta!
E onde é que está sua perna de pau?
Chega dessa corcova
Ponha uma bossa nova
E atarracha uma cara de pau
E por todo o caminho
Vá naquele passinho
Devagarinho
Bem de mansinho
Devagarinho
Bem de mansinho
Pregue a orelha na boca
Faça cara de louca
Elimine dois dedos da mão
Ponha um olho de vidro
E um pé dentro do ouvido
Fique sempre a três palmos do chão
E a mão estendida
É uma boa pedida
Grande pedida!
Boa pedida!
Grande pedida!
Boa pedida!
Caro Raul
Caro Raul, tá tudo bem, tá tudo azul
Que tal a gente se encontrar
Lá por um bar na zona sul
Bater um papo e pôr as coisas no lugar
E, se puder, leve o Carlinhos, o Levon
Doca e Paulinho com você, pra gente ver
Quem é o bom numa partida de sinuca
Pra valer.
Depois podemos dar um pulo no Carreta
E um abraço no Luís
E com o Ampar saborear
Um vinhozinho chegadinho de Paris
Telefonar para o Zequinha e a Regina
Pra saber se a saideira que eles vão oferecer Vai ter
Cartola e Louis Prima até o dia amanhecer
E, finalmente, quando a gente estiver mesmo pra dormir
Numa champanhe bem gelada sucumbir
Erguendo a taça ao novo dia que há de vir
Caro Raul
Falado:
Neste choro pro Raul, Toquinho e eu mandamos um abraço fraterno pro Zé Nogueira, pra Joca e pra Luizinha, pro Elifas, que fez a capa deste disco, pro velho e querido Américo e sua Janette, pr’aquela gente maravilhosa do Concorde, lá no Rio, Zé Fernandes, o maître perfeito, o Sérgio de Souza, e lá no Antonio's, não muito distante, o Manolinho, não é? Manolinho… lá, sempre comparecendo a tudo isso, sem falar no Cayon, que ajudou a gente a armar toda essa confusão.
Carta ao Tom
Rua Nascimento e Silva, 107
Você ensinando pra Elizete
As canções de Canção do amor demais
Lembra que tempo feliz
Ah, que saudade
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse
Nossa
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor
É, meu amigo, só resta uma certeza
É preciso acabar com essa tristeza
E preciso inventar de novo o amor
A carta que não foi mandada
Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor
Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez
E
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais
Cartão de visita
Quem quiser morar
Tem
Tem que nada ter de seu
Mas tem que ser o rei do seu país
Tem que ser uma vidinha folgada
Mas senhor do seu nariz
Tem que ser um "não faz nada"
Mas saber fazer alguém feliz
Tem que viver devagarinho
Pra poder ver a vida passar
Tem que ter um pouco de carinho para dar
Precisa, enfim, saber gastar e ao receber uma esmolinha
Dar de troco o céu e o mar
Tem que ser um louco
Mas um louco para amar
Vai ter que ter tudo isso
Tudo isso pra contar
Tem que bater muita calçada s
Só cantando o que o povo pedir
E só vendo a moçada praticando pra faquir
Precisa, enfim, filosofar
Que ser alguém é não ser nada
E não ser nada é ser alguém
Tem que bater samba
E bater samba muito bem
Vai ter que ter tudo isso
Tudo isso e o céu também
Cavalo-marinho
Cavalo-marinho
Dança no terreiro
Que a dona da casa
Tem muito dinheiro
Cavalo-marinho
Dança na calçada
Que a dona da casa
Tem galinha assada
Minha rua onde eu me criei feliz
Rua onde eu brincava
Rua onde eu brigava
Rua onde eu caía
E onde a poesia
Fez seu aprendiz
Rua alegre, parecia não ter fim
Rua onde eu corria
Atrás do meu arco
Rua onde eu morava
Tinha uma menina
Que cantava assim:
Cavalo-marinho
Dança no terreiro
Que a dona da casa
Tem muito dinheiro
Cavalo-marinho
Dança na calçada
Que a dona da casa
Tem galinha assada
Rua triste, nunca vi tão triste assim
Vinha uma menina
Vindo pela rua
Linda como a lua
E assim como a lua
Deu-se toda a mim
Rua escura, amargura fez-se
Porque
Vivo da procura
Da menina pura
Que na noite escura
Me cantava assim:
Cavalo-marinho
Dança no terreiro
Que a dona da casa
Tem muito dinheiro
Cavalo-marinho
Dança na calçada
Que a dona da casa
Tem galinha assada
Cem por cento
Há muita gente que diz
Coisas dela
Mas essa gente que diz
Cai por ela
Eu que também fui por ela
Sei disso
Eu é que amei
Eu é que sei
Todo despeito que há nisso
Porque pra mim
Ela foi cem por cento
Nunca deixou de me amar
Um só momento
Pode falar quem quiser
Mas no meu fraco entender
Ninguém foi tão mulher
Certa Maria
Se for Zazá
Deixa isso pra lá
Se for Zezé
Já não dá mais pé
Se for Zizi
Diga que eu parti
Parti sem lhe dar explicação
Se for Zozó
Diga que eu não tô nem pra Zuzu
Tudo terminou
Pode dizer o que quiser
Se for mulher na ligação
Menos se for certa Maria que eu adoro
E por quem choro
E não durmo e nem canções canto mais
Se ela chamar
E se eu não tiver, pode dizer
Que se ela quiser eu estou na base
De casar e ter casais
E diga ainda
Que ela é linda
Ela é linda demais
Chega de saudade
Vai, minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
Mas se ela voltar
Se ela voltar
Que coisa linda
Que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De você viver sem mim
Não quero mais esse negócio
De você longe de mim...
Vamos deixar desse negócio
De você viver sem mim...
Chora coração
Tem pena de mim
Ouve só meus ais
Eu não posso mais
Tem pena de mim
Quando o dia está bonito
Ainda a gente se distrai
Mas que triste de repente
Quando o véu da noite cai
Aqui fora está tão frio
E lá dentro está também
Não há tempo mais vazio
Do que longe do meu bem
Chorando pra Pixinguinha
Meu velho amigo
Chorão primeiro
Tão Rio antigo
Tão brasileiro
Teu companheiro
Chora contigo
Toda a dor de ter vivido
O que não volta nunca mais
E na emoção deste chorinho carinhoso
Te pede uma bênção de amor e de paz
Choro chorado pra Paulinho Nogueira
Quanta saudade antiga
Quanta recordação
O toque paciente
De tua mão amiga
Me ensinando os caminhos
Corrigindo os defeitos
Dando todos os jeitos
Pras notas brotarem
Do meu violão
Ah, como eu me lembro ainda
Cheio de gratidão
A hora entardecente
A nostalgia infinda
No modesto ambiente
Da casinha da praça
E eu em estado de graça
De estar aprendendo a tocar violão
E hoje nós dois
Tempos depois
Damos com nova emoção
Um novo aperto de mão
Neste chorinho chorado juntos
E que, tomara, renasça
Pois
É chorar de parceria
Num chorinho que é só coração
E relembrar que o passado
Vive num choro chorado
Pelo teu e o meu violão
Coisa mais linda
Coisa mais bonita é você, assim
Justinho você, eu juro
Eu não sei por que você
Você é mais bonita que a flor
Quem dera a primavera da flor
Tivesse todo esse aroma de beleza
Que é o amor
Perfumando a natureza numa forma de mulher
Porque tão linda assim
Não existe a flor
Nem mesmo a cor não existe
E o amor
Nem mesmo o amor existe
E eu fico um pouco triste
Um pouco sem saber
Se é tão lindo o amor
Que eu tenho por você
Como dizia o poeta
Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai
Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não
Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão
Como é duro trabalhar
Fui caminhando, caminhando
À procura de um lugar
Com uma palhoça, uma morena
E um cantinho pra plantar
Achei a terra, vi a casa
Só faltava capinar
Mas sem o colo da morena
Quem sou eu pra me abusar
E lá vou eu
Paro aqui, paro acolá
E lá vou eu
Como é duro trabalhar
E vou cantando, tiro moda
Faço roda no arraial
Busco a morena de olho
Cheiro
E bico essa, bico aquela
Vou bicando sem parar
Mas não tem mais moça donzela
Que mereça eu me abusar
Consolação
Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar
Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa do amor
Ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei
É que ninguém nunca teve mais
Mais do que eu
Corujinha
Corujinha, corujinha
Que peninha de você
Fica toda encolhidinha
Sempre olhando não sei quê
O seu canto de repente
Faz a gente estremecer
Corujinha, pobrezinha
Todo mundo que te vê
Diz assim, ah, coitadinha
Que feinha que é você
Quando a noite vem chegando
Chega o teu amanhecer
E se o sol vem despontando
Vais voando te esconder
Hoje em dia andas vaidosa
Orgulhosa como quê
Toda noite tua carinha
Aparece na TV
Corujinha, coitadinha
Que feinha que é você
Cotidiano n° 2
Há dias que eu não sei o que me passa
Eu abro o meu Neruda e apago o sol
Misturo poesia com cachaça
E acabo discutindo futebol
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Acordo de manhã, pão sem manteiga
E muito, muito sangue no jornal
Aí a criançada toda chega
E eu chego a achar Herodes natural
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Depois faço a loteca com a patroa
Quem sabe nosso dia vai chegar
E rio porque rico ri à toa
Também não custa nada imaginar
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Aos sábados em casa tomo um porre
E sonho soluções fenomenais
Mas quando o sono vem e a noite morre
O dia conta histórias sempre iguais
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Às vezes quero crer mas não consigo
É tudo uma total insensatez
Aí pergunto a Deus: escute, amigo
Se foi pra desfazer, por que é que fez?
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Decididamente
Decididamente, eu não sou gente.
Eu sou um ente incompetente, mal-acabado
Eu, infelizmente, não consigo sequer ser um mendingo
Dá tudo errado
Deus, quando me fez, devia estar muito invocado
Ganhou o campeonato de fazer nego sofrer
Urubu pousou na minha sorte
Eu nasci pra boi de corte
Deu cupim no meu viver
Sábado passado, quando eu vinha
Uma zinha "da pontinha"
Fez uma linda carinha para mim
Eu, aí, peguei minha pessoa
E fui andando para a boa
Na esperança de um domingo menos ruim
Pois, amigo, que é que você acha
Vou e levo uma "bolacha"
De um frajola que eu não sei de onde surgiu
E que, além de tudo, não contente
Me mandou apenasmente
Quando você está mesmo sem sorte
Nem a vida e nem a morte
Querem nada de saber de você, não
Você pode estar morto, defunto
E vêm os vermes todos juntos
Lhe pedir pra não seguir a refeição
Chega o dia e a vida está tão chata
Que você pega e se mata
Dá um tiro que parece de canhão
Mas a sua sorte é tão ingrata que ele sai pela culatra
Com licença da expressão
Deixa
Deixa
Fale quem quiser falar, meu bem
Deixa
Deixa o coração falar também
Porque ele tem razão demais
Quando se queixa
Então a gente
Deixa, deixa, deixa, deixa
Ninguém vive mais do que uma vez
Deixa
Diz que sim pra não dizer talvez
Deixa
A paixão também existe
Deixa
Não me deixes ficar triste
Deixa acontecer
Ah, não tente explicar
Nem se desculpar
Nem tente esconder
Se vem do coração
Não tem jeito, não
Deixa acontecer
O amor é essa força incontida
Desarruma a cama e a vida
Nos fere, maltrata e seduz
É feito uma estrela cadente
Que risca o caminho da gente
Nos enche de força e de luz
Vai debochar da dor
Sem nenhum pudor
Nem medo qualquer
Ah, sendo por amor
Seja como for
E o que Deus quiser
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