sábado, 5 de janeiro de 2008

Vinícius de Moraes VII

O poeta Hart Crane suicida-se no mar

Quando mergulhaste na água
Não sentiste como é fria
Como é fria assim na noite
Como é fria, como é fria?
E ao teu medo que por certo
Te acordou da nostalgia
(Essa incrível nostalgia
Dos que vivem no deserto...)
Que te disse a Poesia?

Que te disse a Poesia
Quando Vênus que luzia
No céu tão perto (tão longe
Da tua melancolia...)
Brilhou na tua agonia
De moribundo desperto?

Que te disse a Poesia
Sobre o líquido deserto
Ante o mar boquiaberto
Incerto se te engolia
Ou ao navio a rumo certo
Que na noite se escondia?

Temeste a morte, poeta?
Temeste a escarpa sombria
Que sob a tua agonia
Descia sem rumo certo?
Como sentiste o deserto
O deserto absoluto
O oceano absoluto
Imenso, sozinho, aberto?

Que te falou o Universo
O infinito a descoberto?
Que te disse o amor incerto
Das ondas na ventania?
Que frouxos de zombaria
Não ouviste, ainda desperto
Às estrelas que por certo
Cochichavam luz macia?

Sentiste angústia, poeta
Ou um espasmo de alegria
Ao sentires que bulia
Um peixe nadando perto?
A tua carne não fremia
À idéia da dança inerte
Que teu corpo dançaria
No pélago submerso?

Dançaste muito, poeta
Entre os véus da água sombria
Coberto pela redoma
Da grande noite vazia?
Que coisas viste, poeta?

De que segredos soubeste
Suspenso na crista agreste
Do imenso abismo sem meta?

Dançaste muito, poeta?
Que te disse a Poesia?

Rio de Janeiro, 1953

Notas

O poeta Hart Crane suicida-se no mar

Hart Crane (Ohio, 1899-1933) foi poeta. Suicidou-se saltando do Navio que o levava a Nova Iorque. Admirava T. S. Elliot, inspirando-se nele em sua busca de uma linguagem capaz de traduzir a vitalidade, as ambigüidade e perplexidades do mundo moderno. Sua obra mais conhecida é o poema épico The Bridge (A Ponte), iniciado em 1923 e publicado em 1930. Segundo Crane, o poema era uma "síntese mística da América".


Soneto de Florença

Florença... que serenidade imensa
Nos teus campos remotos, de onde surgem
Em tons de terracota e de ferrugem
Torres, cúpulas, claustros: renascença

Das coisas que passaram mas que urgem...
Como em teu seio pareceu-me densa
A selva oscura onde silêncios rugem
No meio do caminho da descrença...

Que tristes sombras nos teus céus toscanos
Onde, em meu crime e meu remorso humanos
Julguei ver, na colina apascentada

Na forma de um cipreste impressionante
O grande vulto secular de Dante
Carpindo a morte da mulher amada...

Rio de Janeiro, 01.1953

Natal

A grande ocorrência
Que nos conta o sino
É que, na indigência
Nasceu um menino.

Mil e novecentos
E cinqüenta e três
Anos são peremptos
Dessa meninez.

Muito tempo faz...
Mas ninguém olvida
Que é um dia de paz...
Porque fez-se a vida!

12.1953


Genebra em dezembro

Campos de neve e píncaros distantes
Sinos que morrem
Asas brancas em frios céus distantes
Águas que correm.

Canais como caminhos prisioneiros
Em busca de saída
Para os mares, os grandes, traiçoeiros
Mares da vida.

Cisnes em bando interrogando as águas
Do Ródano, cativas
Ruas sem perspectivas e sem mágoas
Fachadas pensativas.

Chuva fina tangendo namorados
Sem amanhã
Transitando transidos e apressados
Pont du Mont Blanc.

Relógios pontuais batendo horas
Aqui, ali, adiante
Vida sem tempo pela vida afora
Tédio constante.

Tédio bom, tédio conselheiro, tédio
Da vida que não é
E para a qual há sempre bom remédio
Do bar do "Rabelais".

Genebra, 1954


Soneto da maioridade

O Sol, que pelas ruas da cidade
Revela as marcas do viver humano
Sobre teu belo rosto soberano
Espalha apenas pura claridade.

Nasceste para o Sol; és mocidade
Em plena floração, fruto sem dano
Rosa que enfloresceu, ano por ano
Para uma esplêndida maioridade.

Ao Sol, que é pai do tempo, e nunca mente
Hoje se eleva a minha prece ardente:
Não permita ele nunca que se afoite

A vida em ti, que é sumo de alegria
De maneira que tarde muito a noite
Sobre a manhã radiosa do teu dia.

Rio de Janeiro, 1954


Dois poeminhas com Sputnik

I *


Vai, Jorge Lafayette
Vai em frente, menininho
Pula muro, pinta o sete
Manda a bola no vizinho
Briga com a turma da rua
Sai correndo, joga pique
Depois pega o sputnik
E vai namorar na Lua.

II *


Uma cachorrinha
Girando no espaço
Sozinha, sozinha
Girando no espaço
Uma cachorrinha
Sem sede e sem fome
Girando no espaço
Por causa do homem:
Tanta mulherzinha
Girando no espaço
Por causa de homem...
– Salve, mulherzinha!
– Eia, cachorrinha!


* Poeminha no álbum de Jorge Lafayette de Carvalho e Silva.
** Poeminha para Yvete Magdaleno e para Laika, a cadelinha espacial.

Roma, 1955

Notas

Dois poeminhas com Sputnik

O Sputnik I foi o primeiro satélite artificial da Terra. Seu lançamento – um feito da União Soviética – ocorreu a 4 de outubro de 1957 e marcou o início da Era Espacial. A este primeiro grande passo seguiram-se, no decorrer do século XX, o vôo de Iuri Gagarin (1961), a assinatura do Tratado do Espaço (1967) e a chegada do homem à Lua (1969). A chamada Corrida Espacial foi umas das facetas da Guerra Fria.


Soneto da mulher ao sol

Uma mulher ao sol – eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A
flor dos lábios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.

Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua
e quente de sol – eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pêlo úmido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.

Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda e com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce

E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente – e se deixa a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir...

A bordo do Andrea C, a caminho da França,

11.1956


Poema para Gilberto Amado

O homem que pensa
Tem a fronte imensa
Tem a fronte pensa
Cheia de tormentos.
O homem que pensa
Traz nos pensamentos
Os ventos preclaros
Que vêm das origens.
O homem que pensa
Pensamentos claros
Tem a fronte virgem
De ressentimentos.
Sua fronte pensa
Sua mão escreve
Sua mão prescreve
Os tempos futuros.
Ao homem que pensa
Pensamentos puros
O dia lhe é duro
A noite lhe é leve:
Que o homem que pensa
Só pensa o que deve
Só deve o que pensa

Paris, 1957


Um beijo

Um minuto o nosso beijo
Um só minuto; no entanto
Nesse minuto de beijo
Quantos segundos de espanto!
Quantas mães e esposas loucas
Pelo drama de um momento
Quantos milhares de bocas
Uivando de sofrimento!
Quantas crianças nascendo
Para morrer em seguida
Quanta
carne se rompendo
Quanta morte pela vida!
Quantos adeuses efêmeros
Tornados o último adeus
Quantas tíbias, quantos fêmures
Quanta loucura de Deus!
Que mundo de mal-amadas
Com as esperanças perdidas
Que cardume de afogadas
Que pomar de suicidas!
Que mar de entranhas correndo
De corpos desfalecidos
Que choque de trens horrendo
Quantos mortos e feridos!
Que dízima de doentes
Recebendo a extrema-unção
Quanto sangue derramado
Dentro do meu coração!
Quanto cadáver sozinho
Em mesa de necrotério
Quanta morte sem carinho
Quanto canhenho funéreo!
Que plantel de prisioneiros
Tendo as unhas arrancadas
Quantos beijos derradeiros
Quantos mortos nas estradas!
Que safra de uxoricidas
A bala, a punhal, a mão
Quantas mulheres batidas
Quantos dentes pelo chão!
Que monte de nascituros
Atirados nos baldios
Quantos fetos nos monturos
Quanta placenta nos rios!
Quantos mortos pela frente
Quantos mortos à traição
Quantos mortos de repente
Quantos mortos sem razão!
Quanto câncer sub-reptício
Cujo amanhã será tarde
Quanta tara, quanto vício
Quanto enfarte do miocárdio
Quanto medo, quanto pranto
Quanta paixão, quanto luto!...
Tudo isso pelo encanto
Desse beijo de um minuto:
Desse beijo de um minuto
Mas que cria, em seu transporte
De um minuto, a eternidade
E a vida, de tanta morte.

Petrópolis, 18.03.1958

O mosquito

Parece mentira
De tão esquisito:
Mas sobre o papel
O feio mosquito
Fez sombra de lira!

Montevidéu, 1959

Of God and gold

As gold breeds misery
Misery breeds light
That makes the stones glare
For the pauper's delight.

Light is but the pauper's gold
Stones are but rocks
That pave the way where run
God's miserable flocks.

The world has many rocks
God has many flocks
God's a shepherd, I was told
God is made of gold.

Rio de Janeiro, 1959


Blues para Emmet Louis Till

(O negrinho americano que ousou assoviar para uma mulher branca)

Os assassinos de Emmet
– Poor Mamma Till!
Chegaram sem avisar
– Poor Mamma Till!
Mascando cacos de vidro
– Poor Mamma Till!
Com suas caras de cal.

Os assassinos de Emmet
– Poor Mamma Till!
Entraram sem dizer nada
– Poor Mamma Till!
Com seu hálito de couro
– Poor Mamma Till!
E seus olhos de punhal.

– I hate to see that evenin'sun go down...

Os assassinos de Emmet
– Poor Mamma Till!
Quando o viram ajoelhado
– Poor Mamma Till!
Descarregaram-lhe em cima
– Poor Mamma Till!
O fogo de suas armas.

Enquanto contendo o orgasmo
– Poor Mamma Till!
A mulher faz um guisado
– Poor Mamma Till!
Para esperar o marido
– Poor Mamma Till!
Que a seu mando foi vingá-la.

– O how I hate to see that evenin'sun go dow...



Notas

Blues para Emmet Louis Till

Emmet Louis Till (natural de Chicago, EUA) era um menino negro de 14 anos que foi brutalmente assassinado em agosto de 1955, no Mississippi. Alegou-se que ele teria assobiado para uma mulher branca. As fotos do corpo mutilado (encontrado nas águas do rio Tallahatchie) chocaram o mundo. No seu funeral, aproximadamente 50.000 pessoas estiveram presentes; sua morte ajudou a acender a luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos.

Mais tarde, o poema de Vinicius de Moraes, com ligeiras alterações, foi musicado por Toquinho e ganhou o nome de "Blues para Emmet".

O verbo no infinito

Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...

Rio de Janeiro, 1960


Soneto a Pablo Neruda

Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, meu irmão, meu companheiro...
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?

Canto maior, canto menor – dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro

E o seu amor – o amor que hoje encontramos...
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
Celebro-te ainda além, Cantor Geral

Porque como eu, bicho pesado, voas
Mas mais alto e melhor do céu entoas
Teu furioso canto material!

Atlântico Sul, a caminho do Rio, 1960

Poética ( II )

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
– Entrai, irmãos meus!

Rio de Janeiro, 1960


Namorados no mirante *

Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens – a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie – tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas no magma incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E
da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio...


* Feito para uma fotografia de Luís Carlos Barreto.

Rio de Janeiro, 1960

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...

Montevidéu, 1960


Poema para Candinho Portinari

em sua morte cheia de azuis e rosas

Lá vai Candinho!
Pra onde ele vai?
Vai pra Brodóvski
Buscar seu pai.

Lá vai Candinho!
Pra onde ele foi?
Foi pra Brodóvski
Juntar seu boi.

Lá vai Candinho!
Com seu topete!
Vai pra Brodóvski
Pintar o sete.

Lá vai Candinho
Tirando rima
Vai manquitando
Ladeira acima.

Eh! Eh, Candinho!
Muita saudade
Para Zé Cláudio
Mário de Andrade.

Se vir Ovalle
Se vir Zé Lins
Fale, Candinho
Que eu sou feliz.

Ouviu, Candinho?
– Diabo de homem mais surdo...

Petrópolis, 1962


Feijoada à minha moda

Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia eu prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora – perdoe – tão tarde

(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.

Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho.

E a cozinheira, por respeito
À nossa mestria na arte
Já deve ter tacado peito
E preparado e posto à parte

Os elementos componentes
De um saboroso refogado
Tais: cebolas, tomates, dentes
De alho – e o que mais for azado

Tudo picado desde cedo
De feição a sempre evitar
Qualquer contato mais... vulgar
Às nossas nobres mãos de aedo

Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks.

Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão

E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas

De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)

E – atenção! – segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.

Feito o quê, retire-se caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso

Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.

Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de lingüiça

Enquanto ao lado, em fogo brando
Desmilingüindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso

Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.

Uma farofa? – tem seus dias...
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) – e chega.

Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da lingüiça na iguaria – e mexa-se.

Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
– Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão...

Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta... – jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin
O
seu Vinicius de Moraes.

Petrópolis, 1962

O anjo das pernas tortas

A Flávio Porto



A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!

Rio de Janeiro, 1962


Soneto no sessentenário de Rafael Alberti

A luminosa lágrima que verte
Hoje de ti saudosa a tua Espanha
Quero bebê-Ia em forma de champanha
Na mesma taça em que bebeste, Alberti.

E brindaremos para que desperte
Num ímpeto feroz de touro em sanha
Sedenta
de viver a tua Espanha
Que um mau toureiro derrotou inerte.

Beberemos, irmão, por que bem haja
Teu povo malferido, e que reaja
E do encontro final, rútilo e forte

Reste na arena o touro sobranceiro
E pela arena, o sangue do toureiro
Conte que a vida renasceu da morte.

Petrópolis, 10.12.1962


A brusca poesia da mulher amada (III)

A Nelita



Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido herói

(sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a

(bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância já me chega o rastro.
É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!

Rio de Janeiro, 1963


Soneto da espera

Aguardando-te, amor, revejo os dias
Da minha infância já distante, quando
Eu ficava, como hoje, te esperando
Mas sem saber ao certo se virias.

E é bom ficar assim, quieto, lembrando
Ao longo de milhares de poesias
Que te estás sempre e sempre renovando
Para me dar maiores alegrias.

Dentro em pouco entrarás, ardente e loura
Como uma jovem chama precursora
Do fogo a se atear entre nós dois

E da cama, onde em ti me dessedento
Tu te erguerás como o pressentimento
De uma mulher morena a vir depois.

Rio de Janeiro, 04.1963

Soneto da rosa tardia

Como uma jovem rosa, a minha amada...
Morena, linda, esgalga, penumbrosa
Parece a flor colhida, ainda orvalhada
Justo no instante de tornar-se rosa.

Ah, porque não a deixas intocada
Poeta, tu que és pai, na misteriosa
Fragrância do seu ser, feito de cada
Coisa tão frágil que perfaz a rosa...

Mas (diz-me a Voz) por que deixá-la em haste
Agora
que ela é rosa comovida
De ser na tua vida o que buscaste

Tão dolorosamente pela vida?
Ela é rosa, poeta... assim se chama...
Sente bem seu perfume... Ela te ama...

Rio de Janeiro, 07.1963


Soneto do gato morto

Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa
silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e a morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.

Florença, 11.1963

Anfiguri

Aquilo que eu ouso
Não é o que quero
Eu quero o repouso
Do que não espero.

Não quero o que tenho
Pelo que custou
Não sei de onde venho
Sei para onde vou.

Homem, sou a fera
Poeta, sou um louco
Amante, sou pai.

Vida, quem me dera...
Amor, dura pouco...
Poesia, ai!...

Rio de Janeiro, 1965


Soneto de maio

Suavemente Maio se insinua
Por entre os véus de Abril, o mês cruel
E lava o ar de anil, alegra a rua
Alumbra os astros e aproxima o céu.

Até a lua, a casta e branca lua
Esquecido o pudor, baixa o dossel
E em seu leito de plumas fica nua
A destilar seu luminoso mel.

Raia a aurora tão tímida e tão frágil
Que através do seu corpo transparente
Dir-se-ia poder-se ver o rosto

Carregado de inveja e de presságio
Dos irmãos Junho e Julho, friamente
Preparando as catástrofes de Agosto...

Ouro Preto, 05.1967


Poemas infantis

A arca de Noé

Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata.

O sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão, na cascata.

E abre-se a porta da Arca
De par em par: surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca

Noé, o inventor da uva
E que, por justo e temente
Jeová, clementemente
Salvou da praga da chuva.

Tão verde se alteia a serra
Pelas planuras vizinhas
Que diz Noé: "Boa terra
Para plantar minhas vinhas!"

E sai levando a família
A ver; enquanto, em bonança
Colorida
maravilha
Brilha o arco da aliança.

Ora vai, na porta aberta
De repente, vacilante
Surge lenta, longa e incerta
Uma tromba de elefante.

E logo após, no buraco
De uma janela, aparece
Uma cara de macaco
Que espia e desaparece.

Enquanto, entre as altas vigas
Das janelinhas do sótão
Duas girafas amigas
De fora as cabeças botam.

Grita uma arara, e se escuta
De dentro um miado e um zurro
Late um cachorro em disputa
Com
um gato, escouceia um burro.

A Arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Aos pulos da bicharada
Toda querendo sair.

Vai! Não vai! Quem vai primeiro?
As aves, por mais espertas
Saem voando ligeiro
Pelas janelas abertas.

Enquanto, em grande atropelo
Junto à porta de saída
Lutam os bichos de pêlo
Pela terra prometida.

"Os bosques são todos meus!"
Ruge soberbo o leão
"Também sou filho de Deus!"
Um protesta; e o tigre – "Não!"

Afinal, e não sem custo
Em longa fila, aos casais
Uns com raiva, outros com susto
Vão saindo os animais.

Os maiores vêm à frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como na vida.

Conduzidos por Noé
Ei-los em terra benquista
Que passam, passam até
Onde a vista não avista.

Na serra o arco-íris se esvai...
E... desde que houve essa história
Quando o véu da noite cai
Na terra, e os astros em glória

Enchem
o céu de seus caprichos
É doce ouvir na calada
A fala mansa dos bichos
Na terra repovoada.



São Francisco

Lá vai São Francisco
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho.

Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
Bom-dia, amigo
Dizendo ao fogo
Saúde, irmão.

Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos.


Natal

De repente o sol raiou
E o galo cocoricou:

– Cristo nasceu!

O boi, no campo perdido
Soltou um longo mugido:

– Aonde? Aonde?

Com seu balido tremido
Ligeiro diz o cordeiro:

– Em Belém! Em Belém!

Eis senão quando, num zurro
Se ouve a risada do burro:

– Foi sim que eu estava lá!

E o papagaio que é gira
Pôs-se a falar: – É mentira!

Os bichos de pena, em bando
Reclamaram
protestando.

O pombal todo arrulhava:
– Cruz credo! Cruz credo!

Brava

A arara a gritar começa:

– Mentira? Arara. Ora essa!
– Cristo nasceu! – canta o galo.
– Aonde? – pergunta o boi.
– Num estábulo! – o cavalo
Contente rincha onde foi.

Bale o cordeiro também:

– Em Belém! Mé! Em Belém

E
os bichos todos pegaram
O papagaio caturra
E de raiva lhe aplicaram
Uma grandíssima surra.


O girassol

Sempre que o Sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel.

O girassol é o carrossel das abelhas.

Pretas e vermelhas
Ali ficam elas
Brincando, fedelhas
Nas pétalas amarelas.

– Vamos brincar de carrossel, pessoal?

– "Roda, roda, carrossel
Roda, roda, rodador
Vai rodando, dando mel
Vai rodando, dando flor."

– Marimbondo não pode ir que é bicho mau!
– Besouro é muito pesado!
– Borboleta tem que fingir de borboleta na entrada!
– Dona Cigarra fica tocando seu realejo!

– "Roda, roda, carrossel
Gira, gira, girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o Sol."

E o girassol vai girando dia afora...

O girassol é o carrossel das abelhas.


O relógio

Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Tic-tac...



O pingüim

Bom-dia, Pingüim
Onde vai assim
Com ar apressado?
Eu não sou malvado
Não fique assustado
Com medo de mim.
Eu só gostaria
De dar um tapinha
No seu chapéu-jaca
Ou bem de levinho
Puxar o rabinho
Da sua casaca.


O elefantinho

Onde vais, elefantinho
Correndo pelo caminho
Assim tão desconsolado?
Andas perdido, bichinho
Espetaste o pé no espinho
Que sentes, pobre coitado?

– Estou com um medo danado
Encontrei um passarinho!


A porta

Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta.

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão.

Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa...)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.

Eu sou muito inteligente!
Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Só vivo aberta no céu!


O leão

(Inspirado em William Blake)


Leão! Leão! Leão!
Rugindo como o trovão
Deu um pulo, e era uma vez
Um cabritinho montês.

Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação
Tua goela é uma fornalha
Teu salto, uma labareda
Tua garra, uma navalha
Cortando a presa na queda.

Leão longe, leão perto
Nas areias do deserto.
Leão alto, sobranceiro
Junto do despenhadeiro.
Leão na caça diurna
Saindo a correr da furna.
Leão! Leão! Leão!
Foi Deus que te fez ou não?

O salto do tigre é rápido
Como o raio; mas não há
Tigre no mundo que escape
Do salto que o Leão dá.
Não conheço quem defronte
O feroz rinoceronte.
Pois bem, se ele vê o Leão
Foge como um furacão.

Leão se esgueirando, à espera
Da passagem de outra fera...
Vem o tigre; como um dardo
Cai-lhe em cima o leopardo
E enquanto brigam, tranqüilo
O Leão fica olhando aquilo.
Quando se cansam, o Leão
Mata um com cada mão.

Leão! Leão! Leão!
És o rei da criação!


O pato

Lá vem o Pato
Pata aqui, pata acolá
Lá vem o Pato
Para ver o que é que há.
O Pato pateta
Pintou o caneco
Surrou a galinha
Bateu no marreco
Pulou do poleiro
No pé do cavalo
Levou um coice
Criou um galo
Comeu um pedaço
De jenipapo
Ficou engasgado
Com dor no papo
Caiu no poço
Quebrou a tigela
Tantas fez o moço
Que foi pra panela.


A cachorrinha

Mas que amor de cachorrinha!
Mas que amor de cachorrinha!

Pode haver coisa no mundo
Mais branca, mais bonitinha
Do que a tua barriguinha
Crivada de mamiquinha?

Pode haver coisa no mundo
Mais travessa, mais tontinha
Que esse amor de cachorrinha
Quando vem fazer festinha
Remexendo a traseirinha?


A galinha-d'Angola

Coitada
Da galinha –
D’angola
Não anda
Regulando
Da bola
Não pára
De comer
A matraca
E vive
A reclamar
Que está fraca:

– "Tou fraca! Tou fraca!"


O peru

Glu! Glu! Glu!
Abram alas pro peru!

O peru foi a passeio
Pensando que era pavão
Tico-tico riu-se tanto
Que morreu de congestão

O peru dança de roda
Numa roda de carvão
Quando acaba fica tonto
De quase cair no chão

O peru se viu um dia
Nas águas do ribeirão
Foi-se olhando, foi dizendo
Que beleza de pavão

Foi dormir e teve um sonho
Logo que o sol se escondeu
Que sua cauda tinha cores
Como a desse amigo seu


O gato

Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma o seu banho
Passando a língua
Pela barriga.


As borboletas

Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas.

Borboletas brancas
São alegres e francas.

Borboletas azuis
Gostam muito de luz.

As amarelinhas
São tão bonitinhas!

E as pretas, então...
Oh, que escuridão!


O marimbondo

Marimbondo o furibundo
Vai mordendo meio mundo
Cuidado com o marimbondo
Que esse bicho morde fundo!

– Eta bicho danado!

Marimbondo
De chocolat
Saia daqui
Sem me morder
Senão eu dou
Uma paulada
Bem na cabeça
De você.

– Eta bicho danado!

Marimbondo... nem te ligo!
Voou e veio me espiar bem na minha cara...

– Eta bicho danado!


As abelhas

A aaaaaaabelha mestra
E aaaaaaas abelhinhas
Estão toooooooodas prontinhas
Pra iiiiiiir para a festa.

Num zune que zune
Lá vão pro jardim
Brincar com a cravina
Valsar com o jasmim.

Da rosa pro cravo
Do cravo pra rosa
Da rosa pro favo
Volta pro cravo.

Venham ver como dão mel
As abelhinhas do céu!


A foca

Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola
No seu nariz.

Quer ver a foca
Bater palminha?
É dar a ela
Uma sardinha.

Quer ver a foca
Fazer uma briga?
É espetar ela
Bem na barriga!


O mosquito

O mundo é tão esquisito:
Tem mosquito.

Por que, mosquito, por que
Eu... e você?

Você é o inseto
Mais indiscreto
Da Criação
Tocando fino
Seu violino
Na escuridão.

Tudo de mau
Você reúne
Mosquito pau
Que morde e zune.

Você gostaria
De passar o dia
Numa serraria –
Gostaria?

Pois você parece uma serraria!


A casa

Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque a casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero.


Poesias coligidas

A miragem

Não direi que a tua visão desapareceu dos meus olhos sem vida
Nem que a tua presença se diluiu na névoa que veio.
Busquei inutilmente acorrentar-te a um passado de dores
Inutilmente.
Vieste – tua sombra sem carne me acompanha
Como o tédio da última volúpia.
Vieste – e contigo um vago desejo de uma volta inútil
E contigo uma vaga saudade…
És qualquer coisa que ficará na minha vida sem termo
Como uma aflição para todas as minhas alegrias.
Tu és a agonia de todas as posses
És o frio de toda a nudez
E vã será toda a tentativa de me libertar da tua lembrança.

Mas quando cessar em mim todo o desejo de vida
E quando eu não for mais que o cansaço da minha caminhada pela areia
Eu sinto que me terás como me tinhas no passado –
Sinto que me virás oferecer a água mentirosa
Da miragem.
Talvez num ímpeto eu prefira colar a boca à areia estéril
Num desejo de aniquilamento.
Mas não. Embora sabendo que nunca alcançarei a tua imagem
Que estará suspensa e me prometerá água
Embora sabendo que tu és a que foge
Eu me arrastarei para os teus braços.

24.07.1933


Da fidelidade

Há alguma coisa maior que nós mesmos que é a fidelidade a nós mesmos
Flor espantosa que vive das águas cáusticas e das terras apodrecidas da

(prodigiosa extensão humana.
É a sua santidade que eu quero fazer nascer destas palavras de ritmo obscuro
E neste momento mesmo é talvez a sua inocência que eu violento com os

(meus dedos mártires que a desejariam sangrando.
Ela nasce desse instante supremo em que o homem que viu a verdade sente

(que a sua simplicidade trágica nada poderá contra ele
Ele que é como o país que vê a guerra no pássaro de arribação que se pousou

(da grande viagem sobre o seu pavilhão estendido.
Não existe talvez nada mais belo que a miséria que habita essa alma que nós

(mostramos como um pavilhão estendido ao pássaro peregrino
E talvez nada mais horrível que essa guerra que se vê nascer subitamente das

(entranhas da nossa miséria
A fidelidade é como o amor da miséria pelo eterno viajante sereno
É como um homem que à força de contemplar um rio é por sua vez

(comtemplado por ele.
Se é que há um lugar de Deus em cada criatura nada será fidelidade senão a fidelidade à falta de Deus neste lugar
Aos sentimentos e nunca à verdade porque a verdade é o símbolo do absoluto

(e o absoluto é a morte do homem.
Ai de mim! talvez eu devesse morrer porque eu digo as palavras da fé com

(gestos de inteligência.
Fidelidade, lírio, anjo, mar de pureza!

11.01.1935


As procelárias

De minha velha torre eu acompanho cada ano as aves que fogem dos climas

(atrozes
Lentas aves cuja multidão de asas batendo deixa a tempestade boiar sobre os

(verdes oceanos dos trópicos
E cujos corpos negros ocultam dias e dias o sol e à noite aprofundam a treva

(no frêmito profundo da sua passagem.
Da minha velha torre com que eu já me confundi ao Tempo e de quem sou a

(longínqua luz que os timoneiros vêem palpitando
E cujas escadas suspensas subi muita vez pensando atingir o céu descoberto

(em cima
Da
minha velha torre onde já vi o vácuo dos tufões e das calmarias

(repousarem na sua sucessão eterna
Eu sigo cada inverno essas estranhas peregrinas fartas em cujas garras

(pendentes parecem se suspender catástrofes
Eu, a quem foi dada a suprema liberdade da visão incessante dos horizontes

(nas auroras e nas tardes
A quem foi dada a significação suprema das correntes invisíveis e da

(inconstância dos ventos e a quem
Foi dada a palavra luminosa só ela capaz de dirigir o movimento dos portos

(do mundo
Eu durante eras nada compreendi dessas dolorosas fugitivas mas em cuja

(imutável rotina sentia a fatalidade de alguma missão a cumprir...
"Às vezes sonhava que elas eram escravas de Deus prisioneiras de um

(misterioso plano cujo movimento fizesse girar a terra
Outras, que eram anjos tombados, para quem não bastasse o inferno e cujo

(castigo fosse a eterna imagem proibida do céu no espelho das águas
E sobre que elas de quando em quando mergulhassem, não para se

(alimentarem de peixes, mas para conseguirem as nuvens e as estrelas
E outras, que eram almas vagabundas, irmandade pródiga dos campos

(santos, sequiosas de um espaço em renovamento, que sei mais...
Mas agora, talvez por tê-las visto tão de perto que cheguei a lhes sentir a

(rigidez da carne
Talvez porque ouvi um grito partir da sua massa escura e julguei reconhecer

(cheio de horror a própria voz que trago na vida
Eu sei quem elas são e por isso canto quando lhes sinto o palpitar das asas

(que me chega mais cedo porque a minha velha torre é alta e tudo sabe.
Da minha velha torre eu direi, nessa linguagem que aprendi no silêncio e na

(emoção das fontes da vida
Nessa linguagem que se foi dada a muito poucos é porque só deve ser

(escutada por pouquíssimos
Eu direi, com a tristeza de me saber o mais fraco e o mais desolado e de me

(sentir gritando fora de mim por esse mundo contra o que nada posso:
Elas são os Destinos dos homens – sempre que um homem clama há um

(homem que escuta
E é como se em todo o clamor houvesse um apelo de paz e em toda a escuta

(uma necessidade de amargura
Nessa ordem de almas caminhando das dilacerações para os grandes vazios

(íntimos
As procelárias são como as imagens dos Destinos trazendo e fugindo as

(tempestades mas trazendo e fugindo
E deixando em cada ser o que tirou de outros e arribando continuamente nos

(ciclos...

É por isso que eu acompanho cada ano as procelárias que voltam dos climas

(atrozes
Na esperança de que ouça um dia o mesmo grito que ouvi e em que julguei

(reconhecer minha fala
Para que eu possa mostrar ao meu miserável pássaro, satélite da minha

(passada descrença e impostura
A grande procelária branca que vive agora em mim e cujas asas enormes se

(estendem por todos os horizontes
E que olhando o céu noturno canta com voz de rouxinol baladas perdidas de

(comoção e de ternura
Os belos seios embebidos no mar que se alimenta deles e que cresce,

(cresce, cresce, pelo meu sexo, pelo meu peito, pelos meus olhos…

08.06.1935

Fuga e adágio

Vou sair correndo desta cidade em busca de um lugar qualquer onde possa

(escrever o poema da minha desgraça
Vou, porque já é demais para mim o espetáculo incessante da simulação e

(inexpressão das almas
Vou sair correndo, correndo... correndo pelas avenidas, pelas ruas, através

(os homens vestidos e as mulheres nuas
E os edifícios… vou sair, fugindo, fugindo dos olhares estéreis dos edifícios,

(correndo pelas ruas como um ladrão que se sentisse perseguido
Vou sair, vou movimentar toda essa gente fazendo com que me olhem, vou

(parar os carros fazendo com que não me matem, vou
Porque não posso mais desse irremediável – vou – tão maior e tão mais fraco

(do que eu mesmo, que me leva e me deixa gravado em todas as faces

(da vida...

08.06.1935


A ponte de Van Gogh

O lugar não importa: pode ser o Japão, a Holanda, a campina inglesa.
Mas é absolutamente preciso que seja domingo.

O azul do céu ecoa na esmeralda do rio
E o rio reflete docemente as margens de relva verde-laranja
Dir-se-ia que da mansão da esquerda voou o lençol virginal de miss
Para ser no céu sem mancha a única nuvem.
A calma é velha, de uma velhice sem pátina
As cores são simples, ingênuas
A estação é feliz: o guarda da ponte chegou a pintar
De listas vermelhas o teto de sua casinhola.
E, meu Deus, se não fossem esses diabinhos de pinheiros a fazer caretas
E a pressa com que o homem da charrete vai:
– A pressa de quem atravessou um vago perigo
Tudo estivesse perfeito, e não me viesse esse medo tolo de a pequena ponte levadiça
Desabe e se molhe o vestido preto de Cristina Georgina Rosseti
Que vai de umbrela especialmente para ouvir a prédica do novo pastor da vila.

Itatiaia, 09.1937


O eleito

Quando eu era menor na grande moradia
De minha avó materna e de meu pobre avô
Muitas vezes senti, como alguém que sonhou
Pesar sobre meu corpo o olhar da minha tia

Miserável, na frente mesmo dos avós
Que, velhos, sem amor, conversavam comigo
Deixava-me molhar de um riso de mendigo
Tremendo à comoção de uma volúpia atroz.

Na penumbra da sala lívida, amarela
Que te viu, minha mãe, antes de mãe, ser filha
Faminto como um cão no cio, sem família
Tocava sob a mesa a perna quente dela.

Ficava assim, as mãos geladas, os pés úmidos
Sem forças para olhar aquela mulher feia
Que tinha pêlos oleosos sob a meia
E esmagava na blusa os belos seios túmidos.

A náusea de mim mesmo abria-me a garganta
Tão forte quanto o mal que me engrossava o sangue
E era como se eu fosse alguma coisa exangue
E como se ela fosse alguma coisa santa.

Meus sonhos de beleza e meus votos de ideal
Debandavam como asas tristes e malferidas
Meu sonho era beijar as nádegas partidas
Ao desvendar o nu daquele ser fatal.

Com mãos fantásticas eu via-me, anjo impuro
Ereto na treva, o ventre despido a meio
Feroz, a mastigar-lhe a carne azul do seio
Sentindo-me ferir no seu corpete duro.

Por fim, sem poder mais, contendo à toa o hausto
Do gozo, corria a chorar para o banheiro
Onde, entre vômitos, o olfato aberto ao cheiro
Acre, masturbava-me até ficar exausto.

Quem jamais poderá dizer o medo louco
O indizível pavor de voltar que me vinha
De transpor a porta, olhar minha avó velhinha
E meu finado avô, que adormecera um pouco.

E entretanto, cheio de angústia, delicado
De angústia, voltava, abria de manso a porta
Incapaz de ferir aquela paz já morta
Com a mais leve emoção de me sentir culpado.

Pobre criança! que Deus implacável fizera
Que perdesse tão cedo as ilusões mais belas
Tu que devias ir viajando entre as estrelas
A cantar e a correr tonto de primavera?!

Itatiaia, 09.1937

Deram-me fogo ao gesto terno... (s/ título)

Deram-me fogo ao gesto terno
Com que a matei de simpatia
Ao descrever-lhe o santo inferno
Do seu riso no dia.

Diria como eu me disse: – Vai
Ao velho adro ao pé do monte
E com tuas meigas mãos de pai
Faz jorrar essa fonte.

– Não! – ouvi eu a voz de um monge
Clamando viva em meu deserto.
Olha que a fonte fica longe
E o teu desejo perto.

E ao sol das doze em Ouro Preto
A
minha jovem normalista
De pele branca e trança preta
Sumiu da minha vista.

Oxford, 1938


Soneto de criação

Deus te fez numa fôrma pequenina
De uma argila bem doce e bem morena
Deu-te uns olhos minúsculos de china
Que parecem ter sempre um olhar de pena.

Banhou-te o corpo numa fonte fina
Entre os rubores de uma aurora amena
E por criar-te assim, leve e pequena
Soprou-te uma alma cálida e divina.

Tão formosa te fez, tão soberana
Que dar-te aos anjos por irmã queria
Mas ao plasmar-te a carne predileta

Deus, comovido, te criara humana
E para tua justa moradia
Atirou-te nos braços do poeta.

Rio de Janeiro, 28.03.1938


Ah, como eram belos neste instante os ermos marítimos... (s/ título)

Ah, como eram belos neste instante os ermos marítimos
E como era misterioso e distante o poente da cinza
Que como um fato, oculto nos pálidos confins
Abria a pupila amarela da Lua, em carícias e ritmos...

E ela veio até mim, diáfana, por entre a teia
Da neblina, e eu, lírico de emoção, prendi-a, e amei-a
E nas bordas do mar, entre os sussurros de outras vagas
Confiei-lhe os carinhos da outra amiga, de outras plagas...

No entanto fiquei, entre o horizonte leve e a noite leve
O corpo atento e o gesto breve, sobre a areia
E o mar, verde como o meu desejo, me trazia a sereia
Que vinha sem cantos, e com encantos que a voz não descreve.

Lembro-me até que os seus seios eram brancos como a borracha
E nela se prendiam as algas da maré baixa
E que o seu sexo era puro e alto, e negro
O pêlo sedoso que o vestia, e cuja fartura me alegrou.

No amor, seu corpo agonizara em mil transportes
E seu gozo vibrava em Betelgeuse, a estrela
Que alta, no espelho do céu, era o infinito dela
Assim como uma vida é o espelho de mil mortes.

E depois, quando ela se foi, sem remorso e sem vida
Já nada mais restava da amiga desmerecida
E era como se o oceano verde, a murmurar de novo
Contivesse todo o meu afeto, e o meu desejo, e o meu segredo…

E foi num dia, como eu estivesse a apascentar
A minha tristíssima poesia, pelas campinas cérulas do mar
Que veio e fugiu uma cigana, visão de luz e ouro
E que tinha olhos azuis amanhecendo um véu louro...

Quarta-Feira da Paixão, 02.1938


Soneto de um casamento

Na sala de luz lívida, sorriam
Sombras imóveis; e outras lacrimosas
Perseguiam lembranças dolorosas
Na exaltação das flores que morriam.

Em vácuos de perfume, descaíam
Diáfanos, de diáfanas mãos piedosas
Fátuos sons de brilhantes que fremiam
Entre a crepitação lenta das rosas.

Nas taças cheias acendiam círios
Votivos, e entre as taças e entre os lírios
Vozes veladas, nessa mesa posta

Velavam... enquanto plácida e perdida
Irreal e longínqua como a vida
Toda de branco perpassava a Morta.

02.05.1938

Nessa sala perdida na Inglaterra... (s/ título)

Nessa sala perdida na Inglaterra
Vivo entre coisas mortas, vivo e mudo
Poeta louco e triste, eu te saúdo
No teu quarto de século na terra

Não te valha essa máscara de estudo
Nem te sirva essa máscara de guerra
Valha-te essa tristeza que te aterra
E essa loucura que em tua alma é tudo

Mova-te o sangue que em teu ser lateja
Leve-te o estro lúcido e distante
Que consomes nos copos de cerveja

Leve-te a vida ao bem da tua amante
E a morte, que do túmulo te beija
Viva-te como um momento deste instante.

Oxford, 19.10.1938


Quando me ergui ela dormia, nua... (s/ título)

Quando me ergui ela dormia, nua
E sorria, em seu sono desmaiada
Tinha a face longínqua e iluminada
E alto, seu sexo sugava a Lua.

Toquei-a, ela fremiu, gemeu, na sua
Doce fala, e bateu a mão alçada
No ar, e foi deixá-la de guardada
Sob a nádega fria, forte e crua

Tão louca a minha amiga, linda e louca
Minha amiga, em seu branco devaneio
De mim, eu de amor pouco e vida pouca

Mas que tinha deixado sem receio
Um segredo de carne em sua boca
E uma gota de leite no seu seio.

Oxford, 01.11.1938

Poema feito para chegar aos ouvidos de Santa Teresa

Não quero ir pro inferno
Santa Teresinha
Quero é ir pro céu
Que é boa terrinha
Mas se eu for pro céu
Você me procura?
Você me namora,
Santa Teresinha?
Você me namora, hein, santa Teresinha?

31.01.1939


Soneto da Ilha

Eu deitava na praia, a cabeça na areia
Abria as pernas aos alísios e ao luar
Tonto de maresia; e a mão da maré cheia
Vinha coçar meus pés com seus dedos de mar.

Longos êxtases tinha; amava a Deus em ânsia
E
a uma nudez qualquer ávida de abandono
Enquanto ao longe a clarineta da distância
Era também um mar que me molhava o sono.

E adormecia assim, sonhando, vendo e ouvindo
Pulos de peixes, gritos frouxos, vozes rindo
E a lua virginal arder no plexo

Estelar, e o marulho das ondas sucessivas
Da monção, até que alguma entre as mais vivas
Mansa, viesse desaguar pelo meu sexo.

Quarta feira de cinzas, Niterói, 02.1941

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