sábado, 26 de janeiro de 2008

Tempo Será - José Guilherme de Araújo Jorge

1ª edição

1986


Índice (Por ordem alfabética)

1ª Parte

00 - A minha poesia e três presidentes

01 - A crítica

02 - A cruz

03 - A diferença

04 - A realidade

05 - Afinal, sempre

06 - Aleluia!

07 - Anseios

08 - As duas faces

09 - As rédeas

10 - Brasília: o seu monumento

11 - Canto resignado

12 - Carta ao poeta João Cabral de Melo Neto

13 - Carta da Itália

14 - Casamento

15 - Consolo inútil

16 - Don Quixote

17 - Decolagem

18 - Enquanto dormes

19 - Essa “Aritmética”

20 - Fácil, a gente ter mãe

21 - Fatalidade

22 - Finados

23 - Fruto

24 - Inocência

25 - Jesus

26 - João ou José?

27 - Lágrima refém

28 - Lembrança de Arlington

29 - Lembrança tardia da aventura americana no Vietnam

30 - Lembrando Vinicius

31 - Manhã de Inverno em Ottawa

32 - Mea culpa

33 - Minha biblioteca

34 - Momento feliz

35 - Momento só

36 - O Gol de Éder

37 - Obrigado

38 - Palavras ao líder eleito e canonizado

39 - Poema ao filho de John Lennon

40 - Poemas sonhados em espanhol

41 - Poesia

42 - Poeta subversivo

43 - Presença

44 - Que hei de fazer?

45 - Requerimento ao Presidente do banco do Brasil

46 - resposta ao poeta Itabirano

47 - Rodrigo

48 - Rosa mulher...

49 - Santo, operário

50 - São os moços

51 - Sobrevoand Miami

52 - tristezas, não

53 - Velho remorso



2ª Parte

Sonetos traduzidos

01 - A felicidade deste Mundo - Cristhophe Plantin

02 - A fonte de sangue - Baudelaire

03 - A Helena Soto del Coral - Guillermo Valencia

04 - A imortalidade do soneto - J G de Araújo Jorge

05 - à memória de Josefina - Guillermo Valencia

06 - A mulher sevilhana - Carmen - Manuel Machado

07 - A mulher sevilhana - Rosária - Manuel Machado

08 - A taça dos sonetos - J G de Araújo Jorge

09 - A um bem efêmero - Francisco Rodríguez Marin

10 - A um pessimista - José Asunción Silva

11 - A uma dama - Ricardo León

12 - A uma dama muito obrigada - Tomás Iriarte

13 - Adormecido no vale - Rimbaud

14 - Amor - Baltazar Estazo

15 - Anseios - Mercedes Matamoros

16 - As carícias do olhar - Auguste Angellier

17 - As cinzas de um crepúsculo - Antonio Machado

18 - Ausência - Francisco Luis Bernardez

19 - Canção singela - Manuel Machado

20 - Como era? - Dámaso Alonso

21 - Coração partido - Juan Ramón Jiménez

22 - Dois sonetos - Rafael Duyos

23 - Dúvida - Ricardo Gil

24 - Ela - Guillermo Valencia

25 - Enigma - Guillermo Valencia

26 - Epitáfio de Elizabeth Ranquet - Corneille

27 - Esfinge - Guillermo Valencia

28 - Este amor - Marco Antonio Cajiao

29 - Evocação - G P Monti

30 - Foi noivo, João - Antonio Afán de Rivera

31 - Garota “Bem” - Jean d'Argent,

32 - Guarda do amor - Juan Ramón Jiménez

33 - Intermédio romântico - Luís G Urbina

34 - Isto sonhei - Antonio Machado

35 - Je meurs ou Je m’attache - Ricardo Jayme Freyre
36 - Lendo Petrarca - Louis Musset

37 - Lua maliciosa - Leopoldo Lugones

38 - Manon - Emilio Carrère

39 - Metamorfose - Luis Cane

40 - Minha taça - Félix B. Visillac

41 - Mistério livre - José Maria Souviron

42 - Neve e fogo - Gaspar Octavio Hernández

43 - No baile e no templo - Francisco Sosa

44 - O ladrão - José de J Esteves

45 - O nome de Laura - Ventura de La Vega

46 - O poeta exige que o seu amor lhe escreva - Federico Garcia Lorca

47 - O soneto - Alexis Mix Arvers

48 - O sonho - Jorge Rojas

49 - Oferenda - Diego Fernández Éspiro

50 - Oh, como te amo! Como a luz do dia! - Carolina Coronado

51 - Olhar retrospectivo - Guillermo Blest Gana

52 - Olhos - Antonio Gómez Restrepo

53 - Os dois - Hugo von Hofmansthal

54 - Outubro - Juan Ramón Jiménez

55 - Paixão - Alfonsina Storni

56 - Palavras de Outono - Menardo Ángel Silva

57 - Por esta vida - Frida S Cazeneuve de Mantovani

58 - Post Umbra - Maria Olímpia de Obaldía

59 - Quando preciosa o pandeirinho toca - Miguel de Cervantes

60 - Quem te disse que a ausência causa olvido - Francisco de Medrano

61 - Retorno fugaz - Juan Ramón Jiménez

62 - Soneto - Antonio Monti

63 - Soneto - Edmond Spenser

64 - Soneto - Guillermo Valencia

65 - Soneto - John Keats

66 - Soneto - Luiz Ruiz Contreras

67 - Soneto - Manuel José Othon

68 - Soneto - Menardo Ángel Silva

69 - Soneto - Soror Juana Inés de La cruz

70 - Soneto a Maria - Miguel Ángel Asturias

71 - Soneto de Violante - Lope de Vega
72 - Soneto XXIX - Shakespeare

73 - Sonhei - Jorge Isaacs

74 - Sonho galante - J Fernández de Villar

75 - Teus olhos negros. tua tez morena - Carlos Manuel Arita

76 - Tua boca - Miguel Rasch Isla

77 - Um caso - Luiz C López

78 - Um fundo sentimento de ternura - Daniel Laínez

79 - Velhas cartas de amor - Hector Pedro Blomberg


Três Presidentes e a minha poesia

No dia 20 de maio, em 1985, encontrando-me no Rio (ainda não conhecia pessoalmente o Presidente José Sarney), recebo do Palácio do Planalto, Brasília, um telefonema surpreendente. Pensei tratar-se de um trote, uma brincadeira. Ao atender, ouvi, do outro lado da linha, um capitão, ajudante-de-ordens da Presidência da Republica, que, depois de se congratular comigo pela data (é o dia de meu aniversario), informou-me que o Presidente desejava falar comigo. Ouço então a voz do Presidente, que começou a declamar os versos de um soneto meu, “Bom dia, amigo sol!”, do livro Eterno Motivo:

“Bom dia, amigo sol, a casa a tua!

As bandas da janela abre e escancara,

deixa que entre a manhã sonora e clara

que anda lá fora, alegre, pela rua.”

Interrompi-o emocionado. Um poeta Pode considerar-se consagrado quando consegue chegar à alma e à memória de seu povo. Aquele gesto, entretanto, trazia-me a convicção de que conseguira mais: eu chegara a memória e ao coração do próprio Presidente do meu povo.

Revelou-me, então, que desde estudante, no Maranhão, sua geração lia e sabia de cor os versos meus; que possuía meus livros, e me considerava “o maior poeta popular do Brasil”.

Na oportunidade, permito-me recordar que surpresa e homenagem idênticas me proporcionaram dois outros Presidentes.

Juscelino deu-me um fervoroso apoio em duas campanhas. Num jantar que me ofereceu em seu apartamento na Av. Atlântica, agradecendo um pronunciamento que fiz sobre o “Catetinho” a sua obra, saudou-me:

“- Salve o Poeta de Brasília! Brasília: Redescobrimento do Brasil, estocada certeira no coração do sertão, como diz no seu poema.”

Antes já me enviara uma carta com extremos de generosidade, a 5 de agosto de 1971, onde afirma:

“A sua alma de poeta, e dos mais altos do mundo contemporâneo, se desdobra neste poema em prosa, criando uma legenda que poderá encimar a moldura da civitas brarsiliensis que a sua verve e seu gênio estarão ajudando a formar.”

Ainda recentemente, ao participar da Comitiva Presidencial na sessão de reabertura da ONU, numa reunião em Nova York, fui apresentado a Márcia Kubitschek pelo Presidente Sarney, e tive a satisfação de ouvi-la comentar:

“- J. G. de Araujo Jorge? Presidente: este foi o nosso candidate, era o candidato do papai.”

O outro Presidente foi Jânio Quadros. Quando o visitei em S. Paulo, em companhia de meu primo e inesquecível amigo Brígido Tinoco, seu ex-Ministro da Educação, em casa do Deputado José Camargo, ao me reconhecer, aproximou-se para abraçar-me:

“- O meu poeta!

E ante certa perplexidade dos presentes, pôs-se a dizer poemas do meu livro Cânticos.

Atalhei-o, aproveitando a oportunidade da visita, para agradecer-lhe uma declaração, quando ainda Presidente da Republica, em entrevista ao Jornal do Brasil, de que eu era o seu poeta preferido, e, na sua opinião, o maior do Brasil.

“- E continua sendo, Deputado - confirmou-me, num abraço efusivo.

Desculpem-me os leitores tais relembranças, e a imodéstia de revivê-las.

São realmente fatos, dos mais caros, em minha vida literária.
Compensam o silêncio de certa crítica e a marginalização a que pretendem, em vão, relegar minha poesia, comentaristas facciosos em gratuitas hostilidades a uma obra que sequer leram. Uma obra com 35 títulos e mais de 2 milhões de exemplares vendidos. Como se o grande, insuspeito e definitivo juiz não fosse sempre o leitor, o povo.

Daí a confissão na trovinha:

“Por certo que me comovo

nem gloria existe maior:

ouvir um Poeta o seu povo

dizer seus versos de cor.”

J. G.

Rio, fevereiro de 1985


A crítica


Torcem o nariz
para a minha poesia.

E eu pergunto
feliz:
- sem ela, que faria?

Boa, má,
qual o critério para seu julgamento?
E quem são, afinal,
os opositores?
Sem ela sou um músico sem instrumento,
minha vida seria vazia
como uma jarra
sem flores.

Sim, é a minha mesa, e meu pão,
meu vinho, minha ferramenta
de trabalho,
poderosa ou falha,
mas que sei fazer,
a que posso tocar,

Que culpa posso ter
se alguns a negam
quando tantos a querem levar?

(Levar só, não:
levar
no coração.)

Mágica cisterna,
ah, a minha poesia
(dizem que ela tem leitores)
se vende,
é como uma pequena lanterna
que se acende
e o caminho alumia;

humilde destino
de ser
um pouco de luz
na escuridão,
uma esmola de amor
a tantos indigentes,
mendigando nas ruas da solidão.


A Cruz

A cruz não será mais crucificação.

Não estará no alto do Calvário.
(Sempre me pareceu um espantalho,
espécie de Saci Pererê do Diabo,
com sua perna de pau,
os braços abertos, não para abraçar,
mas com seus pregos e cordas
para crucificar.)

Nós a humanizaremos, a ela se abrirá meio a meio
para que tenha, mesmo de pau, duas pernas,
para que possa andar
e vir ao nosso encontro.
Nos seus bravos, em suas mãos,
não haverá mais pregos ou cordas,
não haverá mais Calvário.

Libertaremos o Senhor!
Não estará apenas nos catecismos e nas lendas.
Nós o ressuscitaremos dos Evangelhos
e recristianizaremos o mundo com o seu Amor.

Não continuará apenas no céu...

Sem velas, incensos, mirras, reis magos,
há de chamar novamente os pequeninos

e expulsara os vendilhões do templo,
caminhara com o povo.

A cruz não será mais crucificação.
Será a imagem de um Deus livre, de bravos abertos
para nos abraçar,
para seguir conosco, ao nosso lado
ou à nossa frente,
no mesmo rumo.

A estrela do Natal, na terra
ou nos céus,
será uma pedra de luz
do estilingue de Deus.


A diferença


Ao cruzarmos, acaso, num momento
nossos passos, ao longe, já te avisto;
sigo - a levar-te no meu pensamento,
segues - e nem percebes que eu existo.

De acompanhar-te o vulto não resisto,
sem que chegues a entender qual meu intento,
pois te vais distraída, e eu sofro e assisto
a tua indiferença ao meu tormento.

Outras vezes, estamos lado a lado,
e eu te acompanho com meus olhos tristes
entre ansioso, vencido e desolado...

Nosso encontro se resume nisto:
tu passas, para quem só Tu existes,
e eu, para quem nem sabe que eu existo.


A realidade



Tudo tem um começo, um meio e um fim...
Por que pois se sonhar com a eternidade
para o amor? - quando a vida é mesmo assim,
e essa é a final a dura realidade?,

Não fugiu nosso amor a essa verdade
que não pode afetar a ti e a mim,
se esse é o destino, e se a fatalidade
inexorável, quando chega é assim...

Feito o inventário já nem sei que resta
dessa aventura que foi uma festa
de que saímos para não voltar...

Não lembro os beijos nem os teus afagos...
Te esqueci... Me esqueceste... estamos pagos....
E agora, a vida... vai continuar...


Afinal, sempre


Sou tua partida
e tua chegada
o momento de dor
e de alegria,
o lenço que acena,
o riso que espera.

Quando não és presença
em todos os sentido
continuas comigo:
és saudade.

Sou tua partida
e tua chegada...
Inventamos distâncias
para dar um nó cego
Neste amor.


Aleluia!


Agora
há o medo branco,
há o pode negro
e a justiça
vai ficando sem cor.

Chegará o dia
em que no país da Casa Branca
haverá também
uma Casa Negra.

O verso poderoso de Langhston Hughes
soará como uma badalada de bronze
na campânula dos céus:

“Eu também sou América!”

Aleluia!


Anseios

(Idéia de um soneto de Francisco
Rodrigues Marín, poeta espanhol)



Água eu quisera ser - pela alegria
de te dar a beber meu próprio ser,
por tua sede, que eu não mataria,
- para molhar teu lábios de prazer...

Vento eu quisera ser - e à noite iria,
adormecida, te surpreender
ressonando em teu leito, e então seria
o ar que precisas pra poder viver!

Fogo eu quisera ser - e em rubras chamas
num delírio de amor, toda, abrasar-te,
para ter a certeza de que me amas...

Depois, para possuir-te de verdade,
terra eu quisera ser!... E disputar-te,
ciumento, à morte, pela eternidade!


As duas faces

Quando te aperto contra mim
quando te beijo,
percebo que este amor é assim
como uma mistura
de ternura
e desejo,
que não tem fim...

Às vezes, tenho vontade de tomar-te entre as mãos
com a humildade e a pureza de um crente
a desfiar um terço,
tenho vontade de te embalar docemente
com esse cuidado de alguém que embalança
num berço
uma criança...

E logo após, ímpetos de te amar,
de te querer e beijar
com volúpias de fogo
e carícias de chama,
como desesperadamente a gente quer
e beija,
uma mulher
que se ama,
se deseja...

Mistura
de ternura e desejo,
de mansa ternura
e desejo violento,
mistura
de morno carinho
e voluptuoso calor,
- às vezes te quero como uma criança...
- outras vezes, como um louco, um doente
de amor!


As rédeas


Ah, desejos com que me alucinas
que desabrocham como se o coração
fosse uma flor...
Teus cabelos (são as crinas)
são as rédeas do amor.

Tem elétricos segredos...

Escorrem entre meus dedos
macios e finos
a fugir,
e eu os agarro e os puxo contra mim,
em ânsias, em desespero,
para não cair.

Para não cair... Pura ilusão...

Teu corpo
como um potro bravio,
nessa hora de desvario
Por mais que tente dominá-lo
atira-me no chão.


Brasília: O seu monumento

(De um pronunciamento feito em memória
a Juscelino Kubitschek de Oliveira no dia
14 de outubro de 1976)



Brasília é o seu monumento!

Em verdade
não um momento estático, de bronze ou de pedra em silêncio
no alto de um pedestal, cercado de indiferença,
numa rua regurgitante ou numa praça quieta
de qualquer cidade,
entre crianças e indigentes
sem consciência de sua presença.

Não um monumento esquecido trezentos e sessenta e quatro dias
o povo em torno, em seus encontros e desencontros
com a vida; amassando com os pés cansados o pão de cada dia:
um monumento que só existe na curiosidade dos turistas
ou nas horas de festa,
com bandeiras, discursos, soldados,
todo flores e musica, um segundo,
e depois mergulhado em seu anonimato.
Brasília é o seu monumento!

Não um monumento trabalhado por duas mãos, convencional,
num instantâneo imaginário
anatômico, antropomórfico, posando sem ser visto,

réplica de um corpo, sobrevivendo sem alma,
ponteiro de um relógio parado a marcar apenas um segundo
enquanto a História segue adiante, na maratona das séculos.

Brasília é o seu monumento!
Não um monumento estático, de bronze ou de pedra em silêncio.
mas um monumento vivo, construído de gente,
esperanças, sofrimento, alegrias e cansaços
de formas a belezas nunca dantes concebidas
riscando novos perfis nos seus amplos horizontes.

Brasília é o seu monumento!
Sinfonia perfeita e inacabada
entoada num crescendo a cada nova manhã
numa palpitação de real e fantasia;
e, oh! suprema ironia, a crescer com a presença
dos que, tal como Pedro, pretenderam negar,
ou fugir,
e sem coragem para o reconhecimento
terão que se penitenciar um dia.

Cada choro de criança acordando as madrugadas;
cada canto de pássaro; as asas de cada avião
como espátulas abrindo roteiros nos espaços;
cada repique de sino a anunciar a seara
que se multiplica,
são a certeza de sua eternidade a desafiar
os tempos.

Sonhos, glória, troféu,
Brasília é o seu monumento –
agora, seu mausoléu.


Brasília, 1976


Canto resignado


Sou um poeta
dionisíaco,
visionário,
resignado em seu destino
sedentário.

Sonho, como os pássaros
que se vão a cada alvorada
e adormecem, à música da aragem,
com seus violinos
na folhagem.

Envelheço
diante dos mesmos horizontes,
braços estendidos a abrigar
o cansaço dos viajantes
invejando-lhes o destino
sem coragem de ver
seus passaportes.

Um poeta
cumprindo sua missão: desabrochar
versos (como flores)
e encher de sons o espaço
como as ramagens
ao arco do vento.


Carta ao Poeta João Cabral de Mello Neto
(Conversa Sobre Poesia)


Meu caro João Cabral de Mello Neto,
não é por mal,
mas você disse uma vez que poesia é construção,
trabalho, artesanato puro,
que o poema pode ser feito
como uma ponte, um muro,
como uma casa, a base de um projeto...
O Poeta seria
um arquiteto.

Desculpe, meu irmão,
mas não é não.

Você negou a inspiração.
Meu Deus, que heresia!
Como poderia
haver poesia então?

Poesia é graça,
transe interior,
revelação,
algo do coração, sentimental,
sem hora, sem razão aparente
para chegar,

como alguém que bate à sua porta, uma estranha,
u ma indigente, sem lar,
que você levava em si sem se aperceber,
e, surpreendentemente,
se põe a falar de repente
de você
para você.

E explicar, para que?
O poeta, irmão, é um Ser que pensa
porque sente,
e a emoção - a matéria-prima do seu verso...
A poesia - misto de imagem, ritmo, harmonia,
vivência, imaginação,
prazer ou sofrimento,
toma forma e se conforma
no pensamento...
(Como se imaginar um poeta sem sentimento
ante o seu Universo?)

No coração de um poeta
a poesia
- violino
divino –
é um inexplicável solo;
e em sua forma, em sua essência
como um cristal
se cristaliza
e todo em luz se irradia.
Mas em sua imaculada beleza a transparência
desconhece as leis da cristalografia.

Quanta vez, entre surpreso e atônito,
feliz depois do que escreveu,
o poeta é como um mergulhador que desceu
fundo
em seu mar,
em seu mundo...

Mas para se achar
se perdeu...

A inspiração
que você nega,
todo artista a conhece, ou consigo
a carrega.
Proust a comparou a uma decolagem,
uma espécie de ascensão
que o poeta faz de si mesmo,
de suas íntimas pistas...

Ao descortinar a sua paisagem
do alto, em surpreendentes vista,
cada poeta é um avião.

Desculpe, João Cabral, mas poesia
não é apenas construção,
(pensar assim seria fácil
demais).

O poeta não põe palavra em cima
de palavra,
verso em cima
de verso,
como um pedreiro
põe um tijolo
em cima de outro tijolo
no muro que faz.

Se isso fosse verdade
a gente poderia abrir uma escola,
uma faculdade,
para formar poetas, como engenheiros
ou bacharéis,
e dar diplomas e anéis
a esse poeta-doutor,
ao poeta-bacharel,

o que poderia por palavras no papel
falar da vida ou do amor,
bater nas teclas, seguro,
mas nunca decifrar a beleza e o mistério
de tudo o que nos cerca,
ou ser uma espécie de Nostradamus
antevendo o futuro.

Afinal
estou certo ou errado?
Será que digo um disparate?
Mas o poeta, esse ser predestinado,
não é um vate?

Ah, meu caro João Cabral de Mello Neto,
se o poeta fosse um arquiteto,
pense bem,
o poema não seria
um gesto, uma asa,
um olhar, uma vela
sobre o mar,
mas uma casa,
bela, como você diz,
mas uma casa vazia...

E uma casa vazia, meu irmão,
é menos que uma tumba...
Nela ao menos há uma flor, um nome, uma data,
uma lembrança,
uma saudade presente,
um farrapo de história
que permanece na memória
de alguém,
sombra, ou sonho de amor.

Não basta saber construir a casa, caro poeta.
A casa vazia,
é preciso povoá-la com vida

que se agita, e canta, e chora, e ri,
e é tristeza, paixão,
alegria.

Poesia
não é palavra apenas, - construída
é algo sem explicação
dentro, e acima de nós;

uma flor que de repente se entreabre
e se balança,
na ponta de um ramo ao sopro do vento,
e tem alma, e tem voz,
tem sentimento,
e é luz, perfume, imagem,
misteriosa e singular linguagem
secreta,
desconhecida,
humana ou divina
premonição da vida
no coração
do Poeta.


Carta de Itália


Meu irmão
a noite é fria, terrivelmente fria, como a sua ausência da pátria,
a noite é estranha, tragicamente estranha, como a paisagem desconhecida
que não mora nas reminiscências nem ficou na infância.

Silêncio rente ao chão, pesado. Sob a neve infinitamente indiferente e pura
dormem outros irmãos que a primavera descobrirá um dia
e lhes atirará gestos de flores tardios e sem gloria.

Há mãos lívidas, para o alto, saindo de dentro da terra
como estranha vegetação,
não são homens, não são ninguém, falam apenas uma outra língua,
são fantasmas, a por isso a metralha os poupou inexplicavelmente.

Tanto ódio, a afinal, dois olhos turvos e medrosos
uma boca faminta, um hálito cansado no ar,
um resto de juventude atravessado por uma lâmina de ódio

Meu pensamento repousa na pátria, no medo que ficou à minha espera,
no frio maior que o da noite estrangeira,' quando bate o correio,
na insônia criadora que vê uma guerra dentro do quarto
pela noite sem fim, morna, aterrorizadora.

Estou na mesinha de cabeceira sob a luz do abatjour,
no tricot com a minha forma ausente,
na cadeira vazia na hora da refeição, na voz do irmão mais novo,
sou um pensamento nos limites de uma casa, se ampliando no mundo,
uma dor difusa, inevitável, flutuante, uma ânsia de vida
às vezes de morte.

Fujo da pátria então, porque o frio é maior na lembrança impossível,
e caio na neve, sobre o corpo do companheiro que procurava
a liberdade e a democracia.

Meu irmão, a noite é fria, o silêncio encosta na gente, pesa na cabeça
depois da exploração, na expectativa do amanhecer,
neste segundo a pátria não tem fronteiras está suspensa por estes céus
misturou-se com a terra nos corpos gelados.

Evito perguntas, temo as perguntas como o inimigo
que à tocaia prepara a minha morte,
penso no companheiro morto, na ponta do seu cigarro que ficou no chão,
no retrato de criança na parede,
- e de repente – encontro a pátria fechada na ordem do dia,
na agulha do meu fuzil.


Casamento


Primeiro a lei, apenas a lei.

Bem sei que houve Mendelssohn e latim
bolos e chop.

Nem todos eram amigos, eram apenas parentes, alguns curiosos,

- curiosidade pornográfica, -

a indecência estava por trás das luzes
olhos e vitrais...

Apesar de tudo somos felizes. O que importa é o amor.


Consolo inútil


Sei que é um nada de amor, um quase nada
o que ainda tenho para te ofertar...
Que fiz do tanto que sonhei te dar?
Nem sei se um dia te sentiste amada?

Sei que apesar do amor, o teu olhar
guarda uma alma ferida e amargurada,
esse olhar ausente de quem vai levada
sem forças mais para poder lutar.

Sei no entanto que te amo, que te quero
mais do que ontem, talvez, e desespero
num consolo que, amargo, se maldiz....

Eis tudo que me resta, se me queres:
não sendo a mais feliz entre as mulheres
não és, ao menos, a mais infeliz..


Don Quixote


No fundo eu era um tolo, uma criança
que não sabia mesmo o que era o amor,
e te colhi, ingênua, pura e mansa,
ainda em botão, quase entreaberta flor.

Contra moinhos de vento, sonhador,
eu era um D. Quixote a erguer a lança
e tu vieste comigo, sem temor,
cheia de fé, de amor e de esperança.

E afinal que ganhaste? Um pobre amor
que pagarias caro, em sofrimento,
ao crer num poeta, um prestidigitador

Ah, quanto, sem saber, foste iludida!
E como dói esse arrependimento
de te dever, ó Deus, toda uma vida.


Decolagem

"O ato da criação poética é uma decolagem."

Proust



Decolo
de mim mesmo:

Mas sobem comigo as raízes da angústia
de um mundo cada vez menor à minha vista,
ao qual continuo ligado, placentariamente,
como um bebê ao útero materno.

Tento nascer, libertar-me, em vão
por mais que suba estou preso ao chão
à terra, por invisíveis nós,
só não compreendo por que à distância
os homens vão ficando insignificantes,
e, com certeza, não compreenderão a mensagem
quando o coração voltar ao angar de meu peito
e recolher-se, a sós.

Pressinto que serei um estrangeiro louco
à procura de compatriotas
num mundo sem fronteiras.

Decolo
Sou um astronauta na cápsula da minha imaginação
ao descobrir, subitamente, novas dimensões
para todos os desejos e preocupações
terrenas,
e o mundo
em que entre sonhos e penas me arrasto, em que agito,
e aquela lua grande, grande
mas insignificante como o grão de pó, perdido na poeira
do Infinito.


Enquanto dormes


Não consigo dormir... A meu lado, ressonas
em completo abandono, tranqüila, confiante,
e eu me ponho a pensar em nossas vidas, nossas
vidas, juntas no sonho, como em nosso leito.

E me deixo ficar assim, na leve insônia
que me traz à lembrança tantas coisas, tantas,
que fizeram de nós, de nossos passos, uma
rede em que duas linhas são como uma só.

E sem querer percebo que o que estou pensando
tem jeito de poesia, em versos simples, versos
sem rimas, e levanto-me, e venho escrever

a observar-te à distância, a ressonar, feliz,
sem poderes sequer calcular que a teu lado
um poeta te ama e sonha, e faz versos de amor.


Essa “Aritmética”...


Antes, eu era apenas metade
de um Ser, a pervagar sem rumo certo,
à procura ideal dessa unidade
que é como um novo mundo descoberto.

Enquanto sós, que somos? Um deserto
a nos pesar com sua imensidade,
existir só começa, a céu aberto,
quando dois são um só - eis a verdade!

Eu vinha por aí, aos solavancos,
como se diz: aos trancos e barrancos,
um pedaço a rolar, uma metade

de um Ser, mas quis a sorte, nos achamos,
e ao nos somarmos, nos multiplicamos
nessa aritmética da felicidade.


Fácil, a gente ter Mãe


Fácil, a gente ter mãe,
nem se percebe que tem,
mas só saber que ela existe,
que podemos encontrá-la
à hora que desejarmos,
que seus olhos sorrirão,
cheios de amor e bondade,
ao ver a nossa aflição;
que a seu lado - ela que é fraca-
nos sentiremos tão fortes
confiantes no futuro,
o coração tão seguro
e o mundo todo tão bom,
como se fosse verdade,
só isto vale ter mãe,
e é uma felicidade.

Fácil a gente ter mãe
- quase todo mundo tem -
mãe é uma coisa tão bela!
Pena é ver que há pela vida
os que só sabem que há mãe
porque ouviram falar nela,
só a conhecem de nome,
às vezes mesmo, nem isto.
Mãe é uma simples palavra
como uma nuvem ao vento,
um vazio pensamento.

Fácil a gente ter mãe,
nem se percebe que tem
no todo dia a seu lado
quando se tem a certeza
e se sabe onde ela está,
pra dividirmos com ela
uma alegria, um revés,
que basta só querer vê-la.
Assim é fácil ter mãe.

Difícil, sim, é perdê-la,
é ter que aceitar a idéia
de que no lugar de sempre
ela não se encontra mais.
Não adianta abrir a porta;
não passeia na varanda,
a cadeira está vazia,
na cama não tem ninguém.
E aquela voz que conforta,
que nos dava tanta paz,
que era um bem que não tem preço,
que era o nosso maior bem;
não ouviremos, calou-se,
é que ela agora mudou-se
pra um lugar sem endereço
onde Deus mora, no Além.

Ah, difícil é perdê-la,
nunca mais poder achá-la,
nos sentarmos a seu lado,
passearmos na varanda,
vê-la no quarto ou na sala,
que partiu, sem ter mais volta,
que pra nós nunca mais vem!

E indefesos e sozinhos,
termos que aceitar a sorte
por desolados caminhos,
inconformados com a morte,
todos perdidos também.

Fácil é a gente ter mãe,
mãe é assim como uma estrela,
estrela-guia que a gente
traz guardada dentro em si.
Difícil, sim, é perdê-la
como uma estrela cadente
que de repente se apaga...

E, oh, meu Deus, eu a perdi.

Brasília, Dia das Mães, 11 de maio de 1975


Fatalidade


Primeiro, foi aquela cruz de estrelas
no céu;
depois, aquelas cruzes das velas
das caravelas,
no mar,
mais tarde – a cruz da terra,
Terra de Santa Cruz...

Agora, - quantas cruzes
no sangue...

Cruzes!


Finados


Mãe,
hoje é dia de finados.

Não, não é remorso. Neste momento
leio nos jornais que milhares de criaturas
se atropelam nos cemitérios
levando flores a seus mortos.

Não vou lá, mãe. Não gosto de cemitério,
lá não sei te encontrar,
nem me sinto em paz,
perdido entre multidões...
E sofro de imaginar-te, imóvel, prisioneira
num gavetão de concreto empilhado num muro
branco, de lamentações...

Não, mãe, não me sinto em paz,
nem adianta procurar-te em meio a tanta gente estranha,
misturar tua imagem tão viva quando te penso viva,
com a lembrança da morte que deforma e desfigura
e com lutos e flores convencionais.

Ah, depois que partiste
não gosto de pensar onde te encontras.
Em minha aflição,
hás de ter a certeza de que todo dia
é dia de finados
em meu coração.


Fruto

Não estão mais vazias as minhas mãos
depois que te colheram...

A simples lembrança de teu corpo,
fruto ácido
apenas provado,
trincam meus dentes, sinto a boca presa,
meu instinto tem fome e mal contém o ímpeto
de te morder.

Ah, lembro os versos do poeta toda vez
que te veio, e me perturbo
e enleio:
és aquele fruto sazonado
no pomar alheio...


Inocência


I
No momento supremo de euforia,
em meio as manifestações populares,
enquanto o candidato* eleito Presidente,
de olhos molhados, acenava para a multidão
e a mulher chorava,
a filha pequena, de pé, a seu lado
bocejava...


II
No cemitério,
no acompanhamento funerário,
entre os lenços úmidos,
soluços abafados
e as máscaras compungidas
de dor das criaturas,

dois meninos corriam
e brincavam de esconder
entre as sepulturas.

*Jimmy Carter.


Jesus


João XXIII o despregou da cruz
e o ressuscitou em suas Encíclicas.

E
le descerá dos altares barrocos rebocados de ouro
entre castigais de prata a anjinhos voadores
sairá dos vitrais coloridos a iluminados,
dos catecismo ingênuos
não terá olheiras de moço transviado
nem a palidez dos “bichas”.

No máximo, seus cabelos longos, escuros,
escorridos sobre os ombros,
lembrarão as cabeleiras dos “hippies”
ou dos bateristas de “rock”.

Será realmente o menino que nasceu num estábulo
entre bichos pacíficos, e montes de feno,
filho de um pastor ignorado e de Maria,
criado por José
operário marceneiro.

O menino rebelde e incompreendido, que fugiu
de casa,
extraviou-se com as caravanas, atirou-se
em aventuras
por esse mundo de Deus,
que conheceu todos os povos, escalou montanhas,
conviveu com eremitas e sacerdotes
e espantou-os com sua fé, e suas vidência,
que aprendeu com os humildes, ensinou aos sábios,
lutou contra os mercenários...

Moreno e forte,
tostado de sol, olhos negros e brilhantes como
as noites orientais:
o Jesus homem comum, mensageiro de Deus,
de quem recebeu a missão
de apesar de sua grandeza e de sua força,
morrer por nós, humildemente,
para provar a existência do
Amor.


João ou José?


Sou um estranho
que veio me visitar.

Bato na porta:
- Quem e?

Deixo-o entrar,
não compreendo seu idioma,
não sei seu nome:
João Ou José?

Encontro-o , de repente, em mim,
em minha casa,
em minha companhia,
na intimidade de meu quarto...
Vejo-o no espelho
não sei quem é...

- João ou José?


Lágrima refém


Não era o sal da humildade
o ódio a fez brotar
desceu pela garganta.

Não houve lenço. Ardeu um segundo, como um meteoro,
queimou como um ferro aceso
na carne impotente.

Diante do pelotão, evaporou-se.
Este ar salgado que respiramos, não vem do mar,
vem de longe.

Não era um meteoro, era uma estrela
fixa
continua a cintilar, nós a seguiremos.


Lembrança de Arlington

(Visitando o cemitério de Arlington,
em Washington, na primavera de 1977)



Estou pensando na América, a então me lembro,
não sei por que, de Arlington
na primavera,
bosque ensombrado,
moradia de heróis.

São cabeceiras brancas de camas enterradas? Ou
apenas
lápides enfileiradas,
serenas,
onde a glória dorme sua inutilidade
sob o verde tapete de grama que se desfralda
como imensa bandeira, no chão?

..........................................................................................

Em qualquer lugar do mundo
jovens fazem amor...
Estão fabricando futuros
heróis que dormirão
em Arlington...


Lembrança tardia da aventura americana no Vietnam

(Aos norte-americanos)


Foi como se tivesses uma veia aberta
dessangrando
até a exaustão...

Teu corpanzil de “incrível Hulk”
se contorceu num chão, de lama e ódio
como um Golias derrubado,
ao olhar atônito do mundo
em sua revolta impotente.

Não adiantaram as transfusões,
e faltou-te coragem para repetires
no mesmo palco asiático
a tragédia de Hiroshima a Nagasaki...

Bateste em retirada, carregado de maca
como um “mocinho” agonizante
sem “happy end”,
e nao consegues ate hoje digerir
a grande e irremediável frustração...

Que te fique a lição!
Pagaste caro a aventura, a até hoje sofres
as seqüelas
que te abalaram a saúde e o poder:

- Nixon, velha cirrose irremediável,
Reagan, uma esclerose feita ameaça,
e Carter, um enfarte superável – quem sabe? –
numa outra “Casa Branca”, de repouso,
sem a inflação e o Irã.

(Brasília, dezembro, 1980)


Lembrando Vinícius


Quando partiu Vinícius, meu irmão, meu poeta
(Vinícius que não morreu)
ouvi a noticia na TV:

“Foi o último poeta romântico do Brasil.”

Se Vinícius pudesse ouvir, teria protestado:
- Esqueceram você, J. G.?
E eu lhe teria dito, entre magoado e absorto:
- Para eles, irmão,
eu sou um poeta morto.

O Vinícius que encontrei
adolescente,
na mesma tipografia,
relendo as provas de nossos primeiros livros
de poesia:
o seu Forma a Exegese,*
e o meu Céu Interior,

quando lhe confessei: acho-o jovem demais
para ser introspectivo, fechado, cerebral;
e ele, franco, compreendo: é que sua poesia é uma
água corrente

transparente, e você,
um retardatário romântico,
paradoxalmente, um grego sentimental.

Fica o tardio testemunho. E a alegria de depois
nos encontrarmos tantas vezes
na mesma canção,
o Vinícius que se abriu
aos claros versos de amor,
à mais alta poesia,
e a reinventar o romantismo
com seu gênio criador.


“Posteriormente verifiquei que Vinícius já tinha publicado,
num livreto, o poema “Ariana, a mulher”.


Manhã de Inverno em Ottawa


(Na casa de Michael Chesson e Zelia)


Amanheceu nevando.
Os arbustos, no jardim,
são brancas ovelhas desgarradas
pastando num campo de arminho.

Cada janela é um quadro surpreendente
para meus olhos estrangeiros
extraviados dos trópicos.

De fantástica paineira
flocos leves de alvas plumas se soltam
e rodopiam no ar
num bailado de vespas alvoroçadas...
Misterioso pintor redesenhou as árvores cuidadosamente
e duplicou seus ramos e troncos escuros
com a alvura de sua tinta.

Vem, amor,
quero apresentar-te, pessoalmente,
a uma árvore de Natal...
Sem algodão, sem velinhas iluminadas,
sem bolas de cristal,
uma árvore armada por Deus
nos jardins e nos caminhos de Ottawa
com seus bravos pendidos sob o peso do inverno
mas o vulto de pé - como a torre de uma igreja
que tivesse descido do céu para, ao rés-do-chão,
ficar mais próxima dos homens
e alegrar seus corações

(Janeiro de 1980)


Mea culpa


Mea culpa. Perdão pelo presente
que te dei sem futuro... Eu não sabia
que não sabia amar, naquele dia
em que te conheci, jovem, contente.

Só sei que desde logo eu te queria!
Desde o instante primeiro tive em mente
multiplicar por mil tua alegria,
que era um sonho de louco, inconseqüente.

Um pesadelo agora me parece
tudo quanto sonhei e está desfeito...
Surpreendo-me em saber que ainda me queres

se tão pouco te dei... Ah, se eu soubesse
te amar, por certo eu te teria feito
a mais feliz de todas as mulheres.


Minha Biblioteca


Pátria e lar do pensamento,
porto do coração.

Minha loja de sonhos, mercado de emoções
onde faço pelas madrugadas a minha "feira"
para reabastecer meu espírito de realidades e ficções
e sobreviver.

Aí estão as prateleiras sortidas, estoques inesgotáveis
de fantasias a experiências
para a minha fome de conhecimentos, minha sede
de descobertas,
minhas ânsias de beleza.

É só estender a mão e colher o livro
como um fruto maduro que lentamente degusto
e, milagrosamente,
permanece inteiro, íntegro, intacto
entre folhas e flores
e surpreendentemente se renova e multiplica
em inusitados sabores.

Minha biblioteca
parque de papel e palavras
onde me perco em andanças e onde me reencontro
em tantos caminhos desconhecidos,
bosque de tantos livros, como as árvores
com quem Beethoven conversava
em seu bosque de Bonn.

Meus livros, companheiros pacientes e silenciosos
com quem dialogo horas sem conta,
que não discutem, não alteiam a voz
em tantas discordâncias inevitáveis,
e humildemente se fecham e se recolhem
a um simples gesto meu de impaciência, cansaço
ou de sono.

Minha biblioteca,
abrigo certo
oásis de águas e sombras
no imenso deserto,
que me faz decolar de tantas realidades
e planar como uma asa-delta
sozinho, sobre paisagens insuspeitadas.

Minha biblioteca,
pousada no caminho
onde me sento, a pensar,
e onde chego a esquecer que há um mundo
rosnando ameaças ao redor,
e adormeço como um menino
feliz.


Momento feliz



É isso aí...
Estou quieto, estou no fundo...
Hoje, não quero movimento
meu caminho, meu vento
pelo mundo,
de déu em déu...

Me deixo ficar
como um lago
aconchegado entre ramagens,
pensando nuvens e pássaros, distantes...
no céu...


Momento só


Não há gaivotas
nem velas brancas, nem vultos de navios...
Nos horizontes
há apenas a música das vagas
em cantochão
entoada pelo mar
no coração.

Sou a rocha
ignorada
rasgando de espumas o pano infinito
esticado,
do oceano
sem vida, sem farol
para ver...

Náufrago
estou soçobrando
em mim mesmo
a morrer...


O gol de Éder

(O terceiro gol brasileiro contra a
Escócia no campeonato mundial
de futebol na Espanha, 1982.)



É uma asa ou um pé?

Súbito,
como num rápido balé,
sobre o palco de grama
ele avança.

Corre, dribla, voa
ou dança?

A bola é um misterioso imã
que o atrai,
e ele a toca de leve, e ela, em suave,
parábola,
1á vai...

Como se a trave fosse um ramo
onde pousar;
é um pássaro que sobe a docemente
se aninha nas redes
devagar...


Obrigado


- Obrigado - disseste. Ah, meu Deus, obrigado
eu só te poderia repetir; só eu
devo te agradecer por tê-la ao meu lado,
pelo pouco de bem que nos aconteceu.

Restamos nós ainda, afinal. Obrigado
pelo que teu amor tão paciente me deu,
bem que te prometi um mundo encantado.
Ah, quanto prometi!... E tão pouco foi teu.

Por que me agradecer? Se tinhas o direito
de somar minha vida à tua , sermos nós
se acreditaste em mim, se tanto me querias...

Ah, não saber te amar foi meu maior defeito!
Carrego pois comigo um pesadelo atroz.
que há de me acompanhar até o fim dos meus dias.


Palavras do líder eleito e canonizado


(Trecho de um pronunciamento na
Câmara dos Deputados em homenagem
ao Presidente Tancredo Neves.)



Legitimo foi teu poder
que pode alimentar na alma do povo
esperança tamanha,
e que afinal deixaste como herança
para os teus companheiros de campanha.

Mais do que, pelos votos secretos, silenciosos
das urnas, como bocas lacradas
ate a apuração,
elegeu-te o voto aberto, unânime, declarado,
das ruas e das praças em seus múltiplos e incontidos
gestos de aclamação.

Como a leve a ágil tábua de um jovem surfistas
sobre as vagas populares, nas cidades, nos campos,
nas vilas
de nosso imenso pais, seguiste sem parar,
desfraldando a bandeira dos homens livres
que enfrentam ventos a ondas
num desafio ao mar.

Chegava de pé, forte, sem quedas, à praia
cercado pelas multidões que eram povo
e nação
em consciente agitação,
e subitamente, quem sabe? tocado pelos mais altos desígnios
de Deus,
por sua poderosa mão,

paraste, e ninguém saberá jamais por que
paraste, e a tábua ágil e audaz que te levava
à crista das vagas
transformou-se em lúgubre barco, solitário,
em pesado caixão.

Companheiro Tancredo
deste a mão a teu povo em meio à noite escura
da ditadura militar,
e te preparavas para conduzi-to
à “terra prometida” da liberdade
e da fartura
quando tiveste que parar.
Mas a serenidade com que recebeste a árdua missão
dava a todos a segurança
da tua liderança,
e realizou o milagre na unidade nacional...

A certeza de que conhecias todas as curvas do futuro
seus obstáculos e barreiras
e de que dispunhas de todos os meios para vencê-los
pôs o povo a teu lado, a segui-lo confiante
para a meta final.

Que mais altos desígnios te reservou o Senhor?
repito.
E ao perguntar me comovo,
e chego à convicção de que Ele transformou
a tua missão
na dolorosa lição que há de iluminar o caminho
do nosso povo.

Teu martírio aureolou nosso sonho de liberdade
e sob tua liderança
a treva abriu-se em luz,
como há dois milênios, outro martírio
deu dimensão de eternidade
àquele que sonhou salvar o mundo
e morreu preso à cruz.

Primeiro, vitorioso, a acenar sobre as ondas
a vela da esperança, como bandeira
e troféu,
depois, subitamente, num céu de nuvens a ventos
tu te transfiguraste numa pequena asa-delta, e te elevaste,
planando, serenamente, rumo o céu.

Estranho teu destino, estranhíssima gloria!
Primeiro, pelo coração do povo, eleito
Presidente,
(mais que eleito, aclamado)
depois “canonizado”,
pela fé a pelo amor do povo,
em sua dor
ingressaste na História!

Sessão do dia 23, de abril de 1985


Poema do filho de John Lennon



(consolando a mãe no momento em que foi levado
ao local onde o pai fora assassinado, segundo
o noticiário dos jornais)



Mãe
papai agora
faz parte de Deus.


Poemas sonhados em Espanhol

“Estes poemas, como diz o título.
Literalmente, pensei-os em sonho.
Acordei com a minha própria voz, declamando-os.
Estava na Espanha, no campo, no meio de homens rudes, lavradores.
Creio que ao tempo da chamada Guerra Civil entre republicanos e falangistas.
Havia luta, mas as imagens eram confusas.
Uma criança, um menino, chorava ao lado do cadáver de um homem.
Não sei por que, mas aquela gente cheia de angustia e revolta tinha medo no olhar.
Havia fumaça, poeira.
A solidariedade os juntara como o vento às folhas secas nos remoinhos.
Por isso não distinguia as suas faces,
mesmo as dos que se encontravam à minha frente.
Só os seus olhos falavam.
Amanhecia.
Por que o amanhecer é sempre a hora da morte?
Por que os crepúsculos são a hora da solidão?
Sei que acordei, me levantei, e bati na máquina estes versos,
os versos que lhes dirigia como se estivesse fazendo um discurso.
São 17 poemas Sonhados em Espanhol.
Aqui estão".

J. G. de Araujo Jorge


1
Delante del cadáver de su hermano Diante do cadáver de seu irmão
el chico se puso a llorar: o menino se pôs a chorar:

- No pierden por esperar. - Não perdem por esperar.
Um dia yo también seré pueblo. Um dia, eu também serei povo.


2
Dios ha hecho el hombre, Deus fez o homem,
nosotros hicimos a Dios.
nós fizemos Deus.
Estamos pagados Estamos quites.

3
No confundas, hermano, tu derecho Não confundas, irmão,

(teu direito

al fruto del árbol que plantaste ao fruto da árvore que plantaste
com la posesión de la terra en que plantaste com a posse da terra onde

(plantaste

el árbol que dió el fruto. a árvore que deu o fruto.

El fruto es tu trabajo, O fruto é o seu trabalho,
la tierra es trabajo de Dios.
a terra é trabalho de Deus.
Y lo que Dios ha hecho antes de tu presencia E o que Deus fez antes de tua

(presença

pertencem a todos. pertence a todos.

4
Haremos de los arados Faremos dos arados
los tanques de nuestra guerra. os tanques de nossa guerra.

Solo habrá arados sobre la tierra. Só haverá arados sobre a face

(da terra.


No serán ciudades-fantasmas las que ficaran Não serão cidades-fantasmas

(que ficarão

a la retaguarda de nuestra caminata, à retaguarda de nossa

(caminhada,

ni campos triturados como las plantaciones nem campos triturados,

(como plantações

después de la avalancha de las inundaciones, depois da avalanche

(das inundações

las tormentas y huracanes. das tormentas e furacões.

Y en las huellas de nuestros pasos, E nas pegadas de nossa passagem
brotaran ondas de rubias espigas brotarão ondas de louras espigas
- son las espumas en sus altas cristas - - são as espumas em suas altas cristas -
para salvar a todos los ahogados para salvar a todos os afogados
de la hambre. de fome.

5
No estamos solos! Não estamos sozinhos!
Antes del "mojón de la conquista" de la muerte Antes do "padrão de

(conquista" da morte

tomaremos posesión de la tierra em tomaremos posse da terra em
nombre de nuestros compañeros; nome de nossos companheiros;

la tierra estendida en el suelo ondulante e a terra estendida sobre o solo

(ondulante,

será la bandera de la Humanidad desplegada será a bandeira de Humanidade

(desfraldada

por el trabajo libre pelo trabalho livre
en defesa de los derechos humanos universales.
em defesa dos direitos

(humanos universais.



6
Si. Hermanos. Sim. Irmãos.
No porque tenemos la misma sangre Não porque temos o mesmo sangue
en las venas, nas veias,
sino porque estaremos dispuestos a derramarla mas porque estaremos

(dispostos

(a derramá-lo

para adubar el suelo de la lucha común, para adubar o solo

(da luta comum,

con la misma fe, el mismo color de nuestra com a mesma fé, a mesma cor

(da nossa

revuelta. revolta.

Si. Jamás estaremos lejos Sim. Nunca estaremos separados
si sabemos donde estamos se sabemos onde estamos
si nuestras puertas se abrirán se nossas portas se abrirão
al toque convenido; ao bater convencionado;
asi como los arroyos chicos de la montaña, assim como os córregos da

(montanha,

llegaremos a ser el rio ancho e invencible nos tornaremos o grande rio,

(invencível,

transponiendo barreras, irrigando los campos transpondo barreiras,

(irrigando os campos

y, de salto en salto, e, de salto em salto,
criando mas fuerzas y energías.
criando mais forças e energias.

7
Los horizontes están orlados de negro Os horizontes estão tarjados de negro
como los cartones de luto. como as bordas dos cartões de luto.

El miedo y la muerte rondan como fantasmas O medo e a morte rondam

(como fantasmas

las mentes y los corazones as mentes a os corações
y hacen ruidos irreales.
e fazem ruídos irreais.

Pero ellos pasarán como las noches Mas eles passarão como as noites
y nosotros volveremos como el día, e nos voltaremos como o dia,
como el sol. como o sol.

Y la Paz será el blanco papel E a Paz será o branco papel
donde resucitaremos la palabra onde ressuscitaremos a palavra
fraternidad. fraternidade.

8
Las puertas cerradas As portas cerradas
como los ojos de los muertos como os olhos dos mortos
en cementerio de ruinas. num cemitério de ruínas.

Pero las ventanas se abrirán un día As janelas se abrirão porém um dia
al viento de la libertad ao vento da liberdade,
y se desplegarán como rotas banderas e se desfraldarão como rotas bandeiras,
y desarrollarán pétalos de cantos e desabrocharão pétalas de cantos
y venganzas sagradas em vinganças sagradas
para el pueblo hirviente en las calles. para um povo efervescente nas ruas.

9
Son pasos sordos, pesados, caminando São passos surdos, pesados,

(caminhando

conscientes de su trabajo conscientes de seu trabalho
como los de los obreros cargando fardos sobre como os dos trabalhadores

(carregando fardos

sus hombros doloridos? sobre os ombros doloridos?

No. Oigo pasos de duras botas Não. Ouço passos de duras botas
que no saben por qué caminan, que não sabem por que caminham;
saben solamente que son un pelotón sabem somente que são um pelotão
de acero sin voluntad; de aço, sem vontade
pero más alto que la voz asesina de comando porém mais alto que a voz

(assassina de comando

que ordena: "fuego!" que ordena: "fogo!"
oigo la algazarra de la muchedumbre ouço a algazarra da multidão
liberta que reventó por las calles y plazas liberta que estourou pelas ruas

(e praças

derribando barricadas, derrubando barricadas,
y cuya marcha será como una ola encrespada e cuja marcha será como uma

(vaga encapelada

rugindo de odio y de Iibertación. rugindo de ódio

(e de libertação.


La muchedumbre como una represa poderosa A multidão, como uma represa

(poderosa

que desconocía su propia fuerza que desconhecia sua própria força
y se reventó, e se rompeu,
y va ahogar con sus muertos todos e há de afogar com seus mortos todos
los dominadores os dominadores
y apagar sus crímenes e apagar seus crimes,
para que sus hijos renazcan puros para que seus filhos renasçam puros
y encontren la tierra e encontrem a terra
como en su primer dia. como em seu primeiro dia.
Para que sus vivos permanezcan Para que seus vivos permaneçam
y vivan. e vivam.

10
Si, la tierra tenia duenos, Sim. A terra tinha donos
pero acrescentaron su cuerpo que era tierra mas somaram-lhe seu corpo

(que era terra

tambien, y del mismo dueño. também, e do mesmo dono.

Si. La tierra acabó sendo suya despues que lo Sim. A terra acabou sendo sua,

(depois que o

enterraron, enterraram,
solo no comprenderon que su cuerpo era só não compreenderam que seu

(corpo era

la semilla a semente
capaz de hacer desarrollar por todos los horizontes capaz de fazer desabrochar

(por todos os horizontes

los ejércitos de las guerrillas os exércitos de guerrilheiros
de la libertad. da liberdade.

11
Lado a lado Lado a lado
como dos ladrillos en el mismo muro, como dois tijolos no mesmo muro,
como dos piedras en la misma obra, como duas pedras na mesma obra,
como dos sacos de arena en la misma barrica, como dois sacos de areia

(na mesma barricada,

como dos manos necesarias para empuñar como duas mãos necessárias

(para empunhar

una misma ametralladora; uma mesma metralhadora;

como dos corazones como dois corações
repartidos por Dios repartidos por Deus
en dos pechos distintos, em dois peitos diferentes,
pero latiendo juntos como dos palos batendo juntos como dois paus
de un mismo tambor. de um mesmo tambor.

Lado a lado Lado a lado
como dos compañeros siameses como dois companheiros
en la misma lucha siameses na mesma luta
de libertación. de libertação.

12
El dia vendra inevitable, haya nubes o tormentas, O dia virá inevitável,

(haja nuvens ou tormentas,

bombas o aviones, miedo o amenazas, bombas ou aviões, medo ou ameaças,
haya cielo o no, haja céu ou não,
el dia vendrá, porque nada apagará el sol o dia virá inevitável porque nada

(apagara o sol

que Dios encendió antes de todo que Deus acendeu antes de tudo
para que todos to puedan contemplar para que todos o possam contemplar
alumbrando los caminos de la libertad. iluminando os caminhos da liberdade.

El dia vendra inevitable O dia virá inevitável
porque el hombre, con todos sus descaminos, porque o homem, com todos

os seus descaminhos,

ha de encontrarse y reconocerse há de encontrar-se a reconhecer-se
antes de Dios. antes de Deus.

Y repartidos el pan y la sangre, E repartidos o pão e o sangue
como los Apostolos, como os Apóstolos
o los caballeros del rey Arthur, ou os cavaleiros do rei Artur,
todos se tentaran alrededor todos se sentarão ao redor
de la tabla redonda de la fraternidad. da mesa redonda da fraternidade.

Só lo que non habra Judas Só que não haverá Judas,
y terán encontrado el Vaso de Santo Graal e terão encontrado o

(Vaso do Santo Graal

de la Paz. da Paz..

13
Um dia mi pueblo comprendrá Um dia meu povo compreenderá
que somos conterráneos ideológicos, que somos conterrâneos ideológicos,
que hablo su idioma que falo seu idioma
y que, por to tanto, tendrá voz.
e que, portanto, terá voz.

No le importará si no tengo las manos ásperas Não lhe importara se não tenho

(as mãos ásperas

como las suyas, como as suas,
si vencido por el dolor de la hambre me curvaré se vencido pela dor da fome

(não me curvarei


sobre el estómago. sobre o estômago.

Um dia mi pueblo comprendrá que Um dia meu povo compreenderá que
Dios ha fabricado Deus fabricou
hombres de hielo y hombres de carne, homens de gelo e homens de carne,
pero ha puesto en cuerpos distintos pôs, porém, em corpos distintos
y en destinos diversos e em destinos diversos
corazones capaces de reconocer sus mensajes corações capazes de

(reconhecer suas mensagens

divinos divinas
y tentar corregir sus errores humanos e tentar corrigir seus erros humanos
sobre la tierra. sobre a terra.

Um dia mi pueblo llegará a los libros Um dia meu povo terá acesso aos livros
y descubrirá que hay un poeta a trabajare descobrira que há um poeta

(trabalhando

con las palabras com as palavras
como se fueran palancas como se fossem alavancas
para mover su mundo. para mover seu mundo.

14
Continuare mi misión Continuarei minha missão
mismo que las semillas se vuelvan en piedras.
mesmo que as sementes

(se transformem em pedras.


Estoy esciente de que cuando las piedras Estou ciente de que quando as pedras
de los poetas dos poetas
se transmuten en palabras, se transmudam em palavras,
servirán a las murallas, a los cantos y a la lucha servirão às muralhas,

(aos cantos e à luta

de los explotados y de los oprimidos. dos explorados e dos oprimidos.

Continuare mi misión Continuarei minha missão
aunque, en silencio, la opresión ainda que, em silêncio, a opressão
asesine las piedras o las palabras. assassine as pedras ou as palavras.

Yo no creo en milagros Eu não creio em milagres
pero creo que la libertad, como Dios, mas creio que a liberdade, como Deus,
sobrevive a todos los obstaculos sobrevive a todos os obstáculos
y "la voz del pueblo es la voz de Dios".
e "a voz do povo é a voz de Deus".

15
Arrancaremos de sus manos el chicote Arrancaremos de suas mãos o chicote
del dinero, do dinheiro,
de las manos proletarias las esposas das mãos dos trabalhadores as algemas
de los senores. dos senhores.
Y los coches correrán libres con sus conductores E os carros correrão livres

(com seus condutores

en el rumbo de sus destinos, no rumo de seus destinos
y nada los detendrá. e nada os deterá.

16
Mi hijo será justo, nada más. No humillará Meu filho será justo, nada mais.

(Não humilhará

com la nondad, ni perpetrará el crímen hediondo com a bondade, nem

(perpetrará o crime hediondo

de ser bueno de ser bom
com la conciencia del mal. com a consciência do mal.

17
Vistosas, las botas brillantes agriden el suelo Vistosas, as botas brilhantes

(agridem o solo

como se quisieran matar todas las hierbas como se quisessem matar todas as ervas más tiernas; mais tenras;
no las fabricaran.
não as fabricaram.

Vistosos los uniformes Vistosos uniformes
con medallas en los pechos com medalhas nos peitos
- monedas de falsas glorias - - moedas de falsas glorias -
faiscando al sol como se fueran de oro; faiscando ao sol como se fossem

(de ouro;


no las conquistaran.
não as conquistaram.

Vistosas espadas que penden de sus cinturones Vistosas espadas pendentes

(dos cinturões

en inútiles y guerreras exibiciones; em inúteis e inúteis exibições;

no las fabricaran sin enbargo. não as forjaram também.

Sus manos finas sustentando nuevos Suas mãos finas, sustentam novos
e perfeccionados fusiles e aperfeiçoados fuzis
no se confunden seguramente con las manos gruesas não se confundem

(certamente com as mãos gossas

de los labradores dos lavradores
que preparan la tierra para los festivos que preparam a terra para os festivos
esponsales de las safras esponsais da safra
ni las de los obreros que hacen bailar los teares nem as dos operários

(que fazem bailar os teares

en las fabricas. nas fábricas.

Sus manos alimentan las ametralladoras Suas mãos alimentam as metralhadoras
con el cinturón de acero de las municiones, com os pentes de balas das munições,

o acen recuar, concientes de sus crímenes, ou fazem recuar, conscientes de

(seus crimes,

los pesados cañones; os pesados canhões;
siembran destrucción y miseria, semeiam destruição e miséria,
el pánico y el dolor.
o pânico e a dor.

Em realidad, nada de to que llevan Em realidade, nada do que levam
y argullosamente ostentan, e orgulhosamente ostentam,
que exponen como maniquís en que expõem como manequins em
iluminadas vitrinas iluminadas vitrinas
preparadas para atraer la atención del pueblo; preparadas para atrair a atenção do povo,
produciron o criaran. produziram ou criaram.

No trabajan el cuero, no tejen los paños, Não trabalham o couro,

(não tecem os panos,

no siembran los granos, não semeiam os grãos,
no escriben los libros, não escrevem os livros,
no improvisan canciones de comunión y alegria, não improvisam canções

(de comunhão e alegria,

no apacentan rebaños, no llevan las reses não apascentam rebanhos,

(não tocam as reses

hacia los corrales; para os currais;
no alimentan los hornos con la masa blanca não alimentam os fornos com a

(massa branca

de los panes, dos pães,
no hacen transbordar los vientres proletarios não fazem transbordar

(os ventres proletários

de los barriles dos barris
con la sangre sana y dulce de las vendimias. com o sangue sadio a doce

(das vindimas.


Nada hacen. Nada fazem.
Exponen en suas marchas la arrogancia Expõem em suas marchas a arrogância
de los que confunden el poder con la vida dos que confundem o poder

(com a vida

y se alimentan de la muerte, como las carroñas e se alimentam da morte,

(como os corvos

que sobrevolan carnizas en todos los cielos que sobrevoam carniças sob

(todos os céus

negros negros
de regímenes que fabrican hombres y fieras de regimes que fabricam homens

(a feras

obreros y capitalistas. trabalhadores e capitalistas.


Poesia


Rio em palavras,
choro em palavras,
e limpo meu céu
de nuvens com os ventos
e o sol da inspiração do poemas.

Debruço-me sobre mim
e falo,
e conto,
e canto...
Nunca estou só
se sempre me acompanho...

Dizem que sou louco,
que falo sozinho,
se rio, a soluçar,
se choro, na alegria...

Não compreendem que estou
fazendo poesia...


Poeta subversivo


Sou um poeta emparedado
por uma critica de concreto.
Metem-me numa cela escura
como um encarcerado,
ou num esquife, como se minha poesia
manando do coração como água pura
fosse coisa morta,
e o silêncio é um policial à sua porta.

Sou um poeta emparedado
segregado gratuitamente,
deixado na rua como um garoto indigente
abandonado.

Decretaram um apartheid contra a minha poesia.
Certos críticos arianos
certos poetas brancos,
que falam e não são ouvidos,
vingam-se ferozes, racistas,
de minha pobre poesia que anda nas ruas
branca, negra, mestiça,
seja com quem for,
e todo dia amanhece escrita nos muros como uma mensagem
subversiva
de amor.

Ah, poesia perdida - como mulher da vida –
assim como o pão e o leite, como a água e o vinho,
alimenta
ou dessedenta
o que tem fome a sede no caminho,
e por isso tem leitores,
e por isso se vende...

E, o que a pior para essa minoria intelectual
(espécie de oligarquia tecnocrática da poesia
nacional),
o povo a entende.

Tudo bem, nada de novo,
não estou nos programas, nos recitais,
nas citações dos amigos em roda,
nos jornais,
mas estou feliz e em paz...
Sou um poeta do povo.

Só isso!
Prego a subversão neste mundo burguês,
a subversão do amor,
tal como a pregou
certa vez
Cristo.


Presença


Esquecer-te é impossível... Mas me iludo
e tento convencer-me inutilmente;
se me falam teu nome - fico mudo,
desconhecendo-te intencionalmente.

Minha memória se acovarda e mente,
mente dizendo que não sabe tudo,
tudo o que nos uniu, tudo o que sente,
e faz da negação o seu escudo.

Suplício é este lutar sem esperança,
sabendo que te trago na lembrança,
cada minuto em que não posso ver-te,

e a ver-te, sem cessar, em toda parte,
Ah! tão grande é o desejo de esquecer-te
que levo o tempo todo a relembra-te...


Que hei de fazer?


Por certo havia rastros e pegadas
pelos caminhos onde me perdi,
e colhi rosas brancas e encarnadas
que se despetalaram por aí.

Quantos tudos julguei, que foram nadas,
quanto amor batizei que não senti,
- até o momento em que as encruzilhadas
se desencruzilharam - rumo a ti.

Que hei de fazer? Farei tudo que possa
para que aceites a felicidade
que depende de ti para ser nossa...

Pode ser tudo estranho e paradoxal;
julgas que foste a última, e em verdade
foste a primeira e única afinal.


Requerimento ao Presidente do Banco do Brasil

Do relatório do Ministro : "Durante o ano de 1945
saíram do Banco do Brasil pela Carteira de Crédito
Agrícola, (?!), 3 bilhões a 500 milhoes de (Cruseiros
para financiamento do gado zebú."



Sr. Presidente.

Qlhai a Inglaterra: é Shakespeare, às vezes Nelson,
mas sempre Shakespeare;
e a Alemanha, - a entregar sempre a alma ao diabo -
- Fausto, sem Margarida, não é Bismark, é Goethe;
e a Itália, - oh! Divina Comedia, é Dante, já se move;
Portugal é Camões, a Pérsia é Omar Kayan;
França, - legenda dos séculos, - Vitor Hugo!

Olhai a América, é Whitman, credo da Democracia,
a Rússia é Maiacowsky, num canto socialista,
e o Brasil, o Brasil ja desafia os tempos:
- e Castro Alves!

Sim, Sr. Presidente,
viverão os povos mesmo sem algodão, sem petróleo, e sem trigo,
de qualquer forma – olhai a China de Confúcio e do arroz,-
vencerão guerras e cataclismas
- não subsistirão sem poesia.

Nasce da terra, do homem. É flor, é fruto, é trigo e carne,
é linho e seda, é rosa e sangue, petróleo e ferro,
é água e luz.

Restarão os povos que produzirem poesia
nas suas terras,
só eles se fixarão, só eles passarão incólumes
pela bomba atômica,
- sobreviverão heróicos.

Requeiro, Sr. Presidente, o financiamento da poesia,
que ela seja ao menos como o algodão
ou como o zebú.

P.D.


Resposta ao Poeta Itabirano

(De um pronunciamento na Câmara dos Deputados

por ocasião do 50.º aniversário de sua atividade literária)

À Carlos Drummond de Andrade



Sim, triste, orgulhoso, de ferro,
em sua poesia; entre tímido e terno
em seu próprio embaraço;
mas ferro que não enferruja
que o tempo desafia com um brilho eterno
de aço.

É triste, mas com uma tristeza mansa,
contida,
sem razão,
que envolve como uma nuvem, um xale, uma lembrança
querida
e torna menos frio o nosso mundo
e menos só a nossa solidão.

É orgulhoso, talvez, um orgulho guardado
humilde, com medo de se mostrar,
mas que todo se derrama em palavras, tornando
poesia,
e desabrocha puro - que alegria!
como uma flor no ar.

O resto, Poeta, é o tempo, impassível moinho
que em sua mó (parece mentira)
tudo mói!,

E diante dela, a vida, uma outra fotografia de
Itabira
na parede.
Tem razão:
como dói!


Rodrigo

(Pergunta sem resposta ao Senhor)

À Gadelha e Magna


Parábola cortada
pela mão
de Deus.

Por que no instante da chegada
não o viva! a saudação,
mas, inexplicavelmente,
o adeus?

(Afinal, que mistério se encobre
na infinita Onisciência
que escapa à nossa pobre
e humana
contingência?)

Puro acalanto.
Cabia num ninho.
Tenra haste, sem botão
nem flor.
Por que levar seu canto?
Seu choro sem dor
enrolar seu caminho?

Quem adivinharia seu curso,
seu rumo
desfeito?
Do rio, contido na pedra,
as curvas do leito?

Por que, de repente,
antes da terra, da água no chão
a engatinhar,
a presença engolfante,
a imensidão
do mar?

Vejo-o,
asas fechadas
(parênteses guardando
sobre o peito
o gesto de um vôo
sem defeito).

Que razão – ninguém a previu –
fez do barro macio e forte
que apenas se formara
o fluido evanescente
que o vento esvaiu
na manhã clara?

Súbito, sumiu
tão cedo,
antes de tudo - do sofrimento, da tristeza,
do pensamento
da beleza
tão pequenino,
sem medo,
apenas menino,
desarvorado astronauta
do Destino.

Esperança.
Guardei seu semblante
vidente,
o olhar percuciente
adulto,
em seus olhos de criança,
mas sem ondas a escolhos...

Por isso na amargura de meus olhos
- mar de sombras e abrolhos -
essa lembrança constante:
como um barquinho balouçante
a vela do seu vulto.

Ah, os anjos são crianças
neste feio mundo
sem bonanças
(não sabem dizer adeus).
Entretanto, cintilou um segundo
como se não fora esse o seu mundo
pura estrela cadente
recolhida por Deus.

Asteróide
a levar seu segredo
não para a noite, que amanhecia,
(e tentar entender será tentativa
incrível,
vã )
em verdade, quem diria?
fez-se luz, invisível
na luz da manha.

E fica a pergunta sem resposta
do coração que não aceita
o pesadelo medonho:

Que enigma, Senhor, se encerra afinal,
impenetrável
em sua partida,
antes que o Sonho
imensurável
se tornasse Vida?

Nenhum comentário: