sábado, 26 de janeiro de 2008

Tempo Será II - José Guilherme de Araújo Jorge

Rosa mulher...


Uma rosa não sabe que é uma rosa,
vive a vida feliz que Deus lhe deu,
imagem de beleza silenciosa,
que na ponta de uma haste floresceu...

A beleza de ser tão graciosa,
de ser flor desde o instante em que nasceu,
como você – menina moça – rosa
que é rosa, e disto não se apercebeu...

Rosa em botão – adolescente ainda
com um toque de mistério no semblante
e um doce olhar de uma ternura infinda...

Rosa mulher... E ao encontrá-la, e ao vê-la,
só um desejo me ocorre, obstante:
que a mereça colher... quem a for colhê-la.


Santo, operário

(A Santo Dias Silva, lider metalúrgico, morto
no dia 29 de outubro de 1979 numa greve em
S. Caetano
- SP)



Era afinal sua sina.
Luta de classes - cena final.

Canonizou-o a bala
assassina,
policial.

Ficou na rua estirado, os olhos abertos
sem mais olhar,
que nem os dedos frios da morte
tiveram tempo para cerrar.

(A violência nao conseguiu estourar
a massa obreira)
e ordeira,
ela escorre pelas ruas
e pela praça se solta,
consciente de sua força
e de sua revolta

Os companheiros o tomam nos bravos, e o levam
em silencio
em procissão...
Era tudo, em verdade, um ato de fé,
não de joelhos, mas de pé
fazendo comunhão.

Ei-lo braços pendentes, carregado
pela rua
mesmo sem cruz,
como um outro Jesus
em seu Calvário...

Canonizou-o a bala assassina,
(mas a luta continua),
- seu sindicato é o seu altar -
Santo,
operário.


São os moços


Neste pais com fome, magro, maltrapilho
abandonado, numa calçada suja de sangue
como um atropelado à espera de socorro

neste país cercado pela curiosidade
de uns poucos sobreviventes,
humanos ou indiferentes,

aproximei-me como político,
ajoelhei-me, como sacerdote,
para testemunhar, para tentar uma ajuda,
ou para a extrema-unção,

e pus meu ouvido sobre o peito:

- Milagre! Ainda bate o coração


Sobrevoando Miami


De repente
a própria terra parece de brinquedo
lá embaixo,
tudo se torna insignificante:
as convenções, as guerras, os mesquinhos
interesses humanos.

Será que essas nuvens brancas
(são cúmulos, segundo os meteorologistas)
como novelos de algodão, de imenso edredom
a se perder de vista, sobre os oceanos,
e aqueles pássaros que riscaram com suas asas
o branco espaço azul,

sabem que são norte-americanos?
........................................................................................

Ah, ninguém pede passaporte aos pássaros.
às nuvens, às ondas, aos rios, às corredeiras,
que nada sabem de guerras,
sobrevoam espaços e terras
e seguem por campos e serras
sem ver fronteiras...


Tristeza, não


Acende um sol em tua vida,
respira fundo, e parte de tua solidão
para algum lugar, para alguma
ilha
desconhecida,
onde faça verão...

Não te entregues morto
ao pensamento,
há sempre um porto
adiante
onde mora a esperança
ou o esquecimento...

Tristezas, não

Joga-as fora
uma a uma,
a cada momento, a cada hora,
quando chegarem ao coração,
se tentarem nublar teu dia

O perigo, amigo, é armazená-las,
asfixiando a alegria
no fundo do Ser,

formando uma outra vida
não vivida
de que se pode até morrer...


Velho remorso


Hoje, ao te olhar assim, calma, serena,
sou como um juiz que tendo condenado
alguém (cumprindo há anos sua pena)
descobriu não Ter sido ele o culpado.

A Vida que te dei – valeu a pena ?
Tão pouco a te lembrares do passado...
Ah, se houvesse outra vida; extraterrena,
para poder pagar-te o amor frustrado.

Mas não há. E ainda te amo... E por incrível
que pareça, a minha alma desola
não consegue explicar, nem é possível

o que há, o que houve, o que sofrer te fiz...
Ah! Quanta vida foi desperdiçada
porque não soube te fazer feliz


Nesta segunda parte do livro “Tempo Será”
temos 77 sonetos de vários autores

e vários idiomas

e, dois sonetos de J.G.


J G de Araújo Jorge

A imortalidade do soneto

(Minha homenagem a esta forma
fixa, eterna, de poesia. JG.)


II
Soneto: como a fênix renascida
- mitológico pássaro da lenda -
no coração do poeta, a morte e a vida,
ressurges em onírica legenda.

A tua forma ideal foi concebida
para servir de preito ou de oferenda;
- flor de graça e mistério, recolhida
em que jardins suspensos? - canto e prenda.

Permaneces de pé, imorredouro,
como uma fênix, mas de penas de ouro
que num milagre eterno se recria,

sempre cantando, sempre renascendo,
queimada - mas os séculos vencendo –
para a glória do amor a da poesia!


Cristhophe Plantin
(Bélgica, 1514-1589)


A felicidade deste Mundo



Ter uma casa limpa, aconchegante e bela,
um florido jardim com canteiros fragrantes,
frutas frescas, bom vinho, e as crianças distantes,
para gozar em paz a fiel presença dela.

Sem dívidas, questões e sem qualquer querela,
herança a repartir, parentes litigantes,
contentar-se com um pouco, evitar intrigantes
e viver com justiça uma vida singela.

Com franqueza jovial, sonhar, sem ambições,
cultivar com prazer as caras devoções,
dominando o desejo e as tentações da sorte,

a alma livre mantendo, o raciocínio, forte,
e em paz, a conversar com Deus, em orações,
aguardar sem temer a presença da morte.


Baudelaire
(França, 1821-1867)


A fonte de sangue


Muitas vezes parece jorrar o meu sangue
como uma fonte - então me sinto vago, exangue;
ouço-o como um murmúrio surdo em minha vida
mas me atormento em vão, sem achar a ferida.

Pela cidade inteira a escorrer, vai formando
sobre um campo fechado, ilhas de vez em quando,
e vai matando a sede a cada criatura
pondo em tudo o que toca uma rubra moldura.

Tenho pedido sempre aos vinhos capitosos
esquecer, por um dia, essa angustia tão rara,
- o bom vinho que à vista e que ao ouvido aclara.

E só no amor achei os sonos generosos,
mas o amor para mim a um leito em brasas, feito
para um sofrer cruel! E um inferno em meu peito!


Guillermo Valencia
(Colômbia, 1873-1942)


A Helena Soto Del Coral
(Rainha dos Jogos Florais)


Para cantar-te a graça, a beleza serena,
para a curva fixar do teu perfil divino,
só a lira, talvez, do cego peregrino
que revelou ao mundo a beleza de Helena.

Mas sendo bela assim, em ti, nenhuma pena
turva a expressão do rosto; e em teu feliz destino
tens o mesmo sorrir que Leonardo, o Divino,
deu a sua Gioconda enigmática e serena.

Para exaltar a luz do teu olhar, em sonhos,
para acender a brasa em teus lábios risonhos,
para tentar medir o ritmo de tua voz,

mil versos se fizeram, não em tinta preta,
mas sobre as asas finas de uma borboleta:
- um bilhete de amor, a voar, dobrado em dois!


Guillermo Valencia
(Colômbia, 1873-1942)


À memória de Josefina


Do que foi um Amor, uma doçura
sem par, feita de sonho e de alegria,
resta somente agora a cinza fria
que retém esta pálida envoltura.

A orquídea de esquisita formosura,
a borboleta em vã policromia
deixaram a fragrância e a galhardia,
legado para a minha desventura.

Sua lembrança sobre tudo impera;
de seu sepulcro minha dor a arranca;
minha fé a cultua; o amor a espera;

mas devolvo-a à luz com a mesma e franca
risada matinal de primavera:
nobre, modesta, carinhosa e branca!


Manuel Machado


A mulher sevilhana

I
Carmen


Quando, ao entardecer, doce aragem circula
como um suspiro no ar pelos campos de Triana,
o seu cabelo negro é tão negro que azula
e o seu ardente olhar floresce e se engalana.

Com esse ar superior de homem que se defende
de uma linda mulher - da sedução do amor –
passa Antonio - e num longo olhar de fogo, acende
a alma dela e lhe tinge as faces de rubor.

Ela o vê se afastar - confundindo no ouvido
o pulsar de seu seio e o passo conhecido.
E ao rezar, a ao regar as flores prediletas,

há um nome que a perturba em delicias secretas.
Ante o espelho, amanhã, lembrando o que sentiu
prende ao negro cabelo uma rosa de abril!


Manuel Machado


A mulher sevilhana


II
Rosária



“Os homens são assim... É assim mesmo esta vida!”
E ante as próprias razões, paciente, convencida,
sobre a costura inclina a cabeça onde há presa
uma rosa que esplende, e lhe inveja a beleza!

E a pensar em seu lar - limpo espelho, sem jaça –
que ela cuida e que encanta em milagres de graça,
eis o que o mundo, alheio, ao seu redor, ignora:
se João chega, ela ri; se João tarda, ela chora.

Ele a quer muito, sim, embora o diga pouco,
volta sempre a esse amor que é tudo o que ainda tem.
Ela o espera - e o seu ninho aquece, comovida,

ao constante calor de um amor doce a louco.
E, por acaso, João nessa noite não vem...
“Os homens são assim... E assim mesmo esta vida!”


Francisco Rodríguez Marin
(Espanha, 1855-1943)


A um bem efêmero



Oh, inesperado bem que a mim chegaste
como em meu coração te recolheste,
e em eflúvios celestes o inundaste
e num mar de delicias o envolveste ?

Pois que ao teu fogo o meu amor ardeste
por que ao partir ardendo o abandonaste?
Para durar tão pouco por que vieste?
E se quiseste vir, por que o deixaste?

Relâmpago fugaz, oh bem - meteoro
que no céu cintilou! Nem sei se vi
na noite a tua luz. Mal pude ver-te!

Mas a sorte bendigo a não deploro,
pois perdendo-te assim, enfim perdi
essa angústia e esse medo de perder-te.


José Asunción Silva

(Colômbia, 1896-1926)


A um pessimista


Escureces demais tuas visões,
algo de belo e bom ainda há na vida;
nem tudo na existência é uma ferida
a sangrar exaurindo as ilusões.

Certo a vida tem sombras: e as paixões
já mortas, a ternura ressequida,
tudo o que foi amado e que se olvida
é fonte de angustiosas decepções.

Mas por que duvidar, se ainda nos falam
num remoto porvir, embora obscuro,
a esperança que existe e que não vês,

a ternura profunda, o beijo puro,
as carinhosas mãos de mães que embalam
os berços cor-de-rosa dos bebes?


Ricardo León
(Espanha, 1877-1943)

A uma dama


Do instante em que vos vi, minha Senhora,
fiquei cativo à vossa formosura,
e nas entranhas dessa noite escura
que é a minha vida - amanheceu a aurora!

Piedade! pois minha alma vos adora
prisioneira em dulcíssima loucura,
e amor eterno nestes versos jura
com essa ternura que em meu peito chora !

Não vos ofenda, pois, o meu carinho,
que os vossos claros olhos, possa tê-los
como luz a guiar o meu caminho...

Foi minha doce predição mirá-los
pois se a amá-los cheguei, tão-só por vê-los
certo, Senhora, hei de morrer, de amá-los!


Tomás Iriarte

(Argentina, 1794-1876)


A uma dama muito obrigada



Enquanto, suave, a primavera passa,
teu decote é zeloso, na abertura,
mas ao verão ardente, sem censura,
ele entremostra toda a tua graça!

Depois o outono chega e tudo embaça...
Então, vai se fechando, te enclausura,
e ao vir o duro inverno, com usura
ciumento, ao teu pescoço ele se enlaça.

Renego este tempinho madrilenho
de longo inverno e de tão longos xales...
(Sou ilhéu! meu protesto não contenho!)

Mas socorrer-me esta em tua mão:
mesmo em novembro, espero, me regales
com o presente de um dia de verão!


Rimbaud
(França, 1845-1891)

Adormecido no vale



É uma clareira verde, onde canta um riacho
prendendo alegremente às ervas seus farrapos
prateados; onde o sol da orgulhosa montanha
brilha. É um valezinho a espumar claridades.

Um jovem soldado, a boca aberta e a cabeça
descoberta a molhar-se na erva fresca, azul,
dorme; está estirado ao chão, a céu aberto,
pálido, no seu leito verde, à luz que chora.

Os pés nos lírios roxos, dorme. E sorri como
sorriria uma criança enferma, em sono leve.
Natureza - aconchega-o bem: ele tem frio!

Os perfumes não mais lhe excitam as narinas;
dorme ao sol; tem a mão abandonada ao peito.
Dois rubros orifícios sangram-lhe a direita.


Baltazar Estazo
(Espanha, século XIX)

Amor



Com vosso amor é um sábio o ignorante;
sem vosso amor é tolo o mais prudente;
com vosso amor se absolve o delinqüente,
sem vosso amor varia o mais constante;

com vosso amor é ousado o mais galante;
sem vosso amor, culpado o que é inocente;
com vosso amor, festivo o displicente,
sem vosso amor o humilde é um arrogante;

com vosso amor é claro o mais obscuro;
sem vosso amor é nada o que o céu cobre;
com vosso amor é justo o mais iníquo;

sem vosso amor é torpe o que é mais puro,
com vosso amor é rico o que é mais pobre,
sem vosso amor é pobre o que é mais rico!


Mercedes Matamoros

(Cuba, 1858-1906)


Anseios


Quero os teus risos - de infinitos gozos –
são perfumadas e embriagantes teias,
quero enlaçar teu corpo com as cadeias
ardentes de meus braços amorosos!

Quero incendiar de beijos voluptuosos
o sangue que circula em tuas veias,
e este fogo de amor que em mim ateias
acender em teus olhos luminosos!

Porque tem sido sempre, em meus amores,
venenosas as mais fragrantes flores,
e meus dias e noites, temporais,

jamais hei de esquecer as horas belas...
Ah, sempre arrastam folhas amarelas
as paixões loucas como vendavais!


Auguste Angellier
(França, 1848-1911)

As carícias do olhar


As caricias do olhar são as mais adoráveis,
chegam ao fundo da alma, aos limites do Ser,
e libertam assim segredos inefáveis
de outro modo em silencio, a sem ninguém saber.

Os beijos puros são grosseiros junto a elas,
mais que qualquer palavra o seu falar é forte,
nada exprime melhor, no mundo, as coisas belas
que passam num momento, em efêmera sorte.

Quando a idade envelhece a boca em seu sorrir
que as rugas vão marcando aos poucos de amargura,
intacta ainda mantém sua límpida ternura.

Feitas para inebriar, consolar, seduzir,
guardam toda a doçura, e os ardores e o encanto!
Que outra caricia em luz trespassa o nosso pranto?


Antonio Machado
(Espanha, 1875-1939)

As cinzas de um crepúsculo, senhora



As cinzas de um crepúsculo, Senhora,
- rota a cinzenta nuvem da tormenta -
pintaram sobre a rocha pardacenta
no cerro, ao longe, um resplendor de aurora;

uma estática aurora em rocha fria
que assombra e que apavora o caminhante,
mais que feroz leão, em claro dia,
ou nas dobras da serra, a ursa gigante.

Com o fogo de um amor que é meu tormento
entre a esperança e o medo um sonho esboço,
procuro o mar, além... o esquecimento;

não, como à noite, a rocha, é o amor vosso,
enquanto o mundo gira em sombras, lento...
Não me chameis, porque voltar não posso.


Francisco Luis Bernardez
(Argentina, 1900)

Ausência



Iluminava o meu amor
o teu amor, mas não sabia
o amor que quando se acendia,
a sua sombra era maior.

E não sabia, cego por
toda essa luz! - Que ele não via
que a tua luz anoitecia
a epifania deste amor.

Agora, minha noite expia
o seu pecado de ser dia,
e sem consolação melhor.

Mas que pensar se, todavia,
totalidade tão sombria
sombra será de teu amor!?


Manuel Machado
(Espanha, 1874-1947)


Canção singela


Oh, a paz, oh, a paz, oh, a bendita
paz do campo, a paisagem matinal
que vejo da janela... Oh, a bonita
casinha, ao longe... entre o canavial!

Frente ao sol generoso, junto ao rio
que em sons, em plena posse, a várzea rega,
- andaluza cigana que se entrega
sob o límpido azul de um céu de estio!

E aquele amor primeiro... que traduz
no coração uma ânsia de futuro,
que aguarda sempre a sem queimar-nos arde

O amor primeiro, estrela-dalva, luz
da manhã, que cintila, ainda puro,
num céu tranqüilo, à hora do adeus da tarde.


Dámaso Alonso
(Espanha, 1898)

Como era?



A porta aberta. Veio, quieta a suave...
Era material Espirito? Traía
uma ligeira inclinação de nave
e uma luz matinal de claro dia.

Não chegava a ser ritmo, harmonia,
nem era cor. O coração bem sabe!
Porém dizer como era não podia
- forma não é, e nem na forma cabe.

Língua, barro mortal, cinzel inepto
deixa a flor do conceito - eis o meu repto -
nesta noite de bodas, de louvor,

e canta, mansamente, humildemente,
a sensação, a sombra, o estar presente,
enquanto ela a minha alma enche de amor.


Juan Ramón Jiménez
(Espanha, 1881-1963)

Coração partido



Acreditei que o coração já estava
curado para sempre. E já o havia
encantado com a música, a poesia
alta e pura, que à lira dedilhava.

E por onde eu seguia, onde eu passava,
a gentil primavera refloria;
- sonhos de paz e cantos de alegria,
a luz do sol em meu rincão entrava.

Mas, entre as rosas, eis que tu surgiste
como sempre, a sorrir, ó inconstante!
jogando redes, preparando laços...

E o meu altivo olhar tornou-se triste,
e o pobre coração, de novo, amante
outra vez aos teus pés fez-se em pedaços...


Rafael Duyos

(Espanha, 1906)


Dois sonetos


I

Esse perfume teu, que assim me inunda
os poros, se te aperto, se te abraço,
deixa em meu sonho o venturoso traço
do rosal, que ao meu toque se fecunda.

Outra coisa não sou senão profunda
semente, pólen sobre o teu regaço,
puro estame de amor em que te enlaço
e enxerto em minha carne vagabunda.

Cheiras, amor, igual a esses jardins
mouriscos, de fragrâncias singulares,
cheiras, amor, como a alga dos meus mares

revolvida na areia entre jasmins...
E à nardo, a murta, a estio nos pomares,
e à alva espuma nos mares, dos delfins.


II
Que hei de fazer, amor, sem teu cuidado
quando novembro chegue às minhas veias?
Já não trarei as mãos, como hoje, cheias
de açucenas, do teu jardim velado.

Porém, desse jardim por mim guardado
entre estas folhas de sonetos cheias,
restará a saudade - e em suas peias
um perfume de amor, de amor calado.

E quando perguntarem: a isto, que era?
Por que uma tal lembrança murcha e rota
no teu velho caderno de poesias?

Eu lhes direi que foi a primavera!
O sumo dos tens lábios, gota a gota,
semeando as ilusões mais fugidias.


Ricardo Gil
(Espanha, 1855-1907)


Dúvida


Deserto esta o jardim. Ela demora.
O motivo, não sei; o tempo avança.
Ó dúvida cruel que me apavora!
Começa a vacilar minha confiança

O medo vira até superstição:
se chegar por ali, daquele lado, não me quer...
Mas se vier pelo portão,
ó meu Deus, é que então eu sou amado!

Quanta coisa imagina quem quer bem!
Foge dúvida atroz - eu te desterro! -
ela há de vir pelo portão de ferro

ao meu encontro. Ó Deus, o que a detém?
Seus passos posso ouvir. Os olhos cerro.
Mas não quero saber por onde vem...


Guillermo Valencia
(Colômbia, 1873-1942)


Ela


Escondida nas sombras da pedreira
de minha mente calcinada, pura
como o diamante no carvão, fulgura
seu rosto como o vi a vez primeira.

E qual paciente lapidário, espera
meu amor a visão humilde e pura
em que hoje envolvo a sua ideal figura
de artista, de mulher, de feiticeira.

Se algo palpita no meu poema, gota
d'água no areal, pegada de alguma ânsia
que ainda agita e refaz minha alma rota,

se rasga as sombras a centelha bela
de um verso - luz que brilha na distancia –
e sua ardente irradiação - é ela!


Guillermo Valencia
(Colômbia, 1873-1942)


Enigma



Cintilam no zênite da memória
uns olhos... De quem são? Morto, decerto
ainda os verei... Se insone, estão por perto,
não sei que olhos serão, qual sua história...

De Helena, de Cleópatra, de Anactória
ou de Palas? Sondaram o deserto
com Agar? Ou o mundo descoberto
acenaram aos nautas como glória?

Não pode ser! Porque a vivacidade
desses olhos me envolve como um cerco
e me acende lembranças sem adeus...

Vão-se os dias... Febril é a ansiedade...
Em conjecturas vãs me afundo e perco...
Eis que passas.:. E eu grito: são os teus!


Corneille
(França, 1606-1684)

Epitáfio de Elizabeth Ranquet


Não chores ao passar junto a esta sepultura:
é um relicário, sim, do mais nobre valor;
nela há mais do que um corpo, há uma alma que foi pura
e pulsa um coração em eterno fervor.

Antes de se quitar com a terra fria e dura
aos altos céus erguia um gesto de louvor,
mas aos pés do Criador, era a humilde criatura
a espalhar pela terra as graças do Senhor.

Com o pobre partilhou toda a sua riqueza,
o trabalho e a bondade eram sua nobreza,
seu suspiro final foi como um ai de amor.

O passante! Que tal exemplo alto o transporte!
Que a vida que aqui jaz nao te fale de dor
pois não morre jamais quem trazia tal sorte!


Guillermo Valencia
(Colombia, 1873-1942)

Esfinge



Tudo em ti me perturba! Oh, por certo que enganas!
Desde a boca, essa rosa de abismos, felina,
onde muda paixão esplende, purpurina,
até o aceso olhar entre louras pestanas.

Tudo em ti me faz mal! Esse ar com que te ufanas!
Teu sorriso, um feitiço! E em tua voz divina,
entre flores se esconde e caminha, ferina,
uma pantera à espreita... Oh, por certo que enganas!

Na expressão do teu rosto há martírio e vingança.
Em tuas doces mãos vi morrer a esperança,
e espinhos a ocultar, a tua flor seduz...

Tua luz alimenta a ânsia das mariposas,
ardam nela este verso e todas estas coisas
- tu és uma mentira em dois olhos azuis!


Marco Antonio Cajiao
(Colômbia)


Este amor


Este amor que levamos escondido
e por nos dois somente partilhado;
tão fundo em nos gravado, e assim gravado
tão longe de poder ser esquecido;

este amor só por nos dois dividido e,
por tão dividido, eternizado,
este tão doce amor, crucificado,
e por crucificado, tão ferido;

este amor como vento de verso,
tão manso, tão sutil, leve e fragrante,
que as vezes foge, sem querer, da mão;

este amor tão em nós e tão distante
será sempre um mistério oculto em vão,
mas, embora mistério... tão constante!


G. P. Monti
(Argentina)


Evocação


Pulsa na noite azul que a luz suaviza
uma lua clorótica a recente,
e na lembrança surges, lentamente,
vaporosa, inconsútil, imprecisa.

Do que há tempos surgiu e se eterniza,
ainda és, por certo, uma impressão ardente,
e embora assim presente, estás ausente,
teu sorriso, ao sorrir, desfaz-se em brisa...

Teus olhos olham com olhar de sonho,
o teu suave perfume em vão aspiro,
e a uma emoção irreal todo me exponho;

e nesse encanto astral flutuas no ar:
és uma flor de amor feito suspiro,
um suspiro tornado em luz de luar!


Antonio Afán de Rivera,
(Espanha, 1504-1571)


Foi noivo, João


De uma Maria sem igual, João
foi o noivo ideal, e em seus amores
tudo eram sonhos, alegrias, flores,
e projetos sem fim no coração.

E finalmente o dia da emoção
chegou, com seu cortejo de esplendores,
dia em que todos, todos nós, senhores,
à igreja vamos sem apelação.


Lua-de-mel! Que dote e puro o vinho!
Um mês após, no entanto, eis que o demônio
fez-me encontrar cada um no seu caminho...

E ao perguntar por que, me disse Antônio:
- como em vinagre se transforma o vinho
assim também o amor no matrimonio.


Jean d'Argent
(Costa-Rica)


Garota “Bem”



Ofélia - é uma sereia de piscina,
psique de algum Cupido de cinema,
datilógrafa esperta e sibilina,
semivirgem de carro - audaz teorema!

Freqüenta apartamentos, andorinha
de boates, de voltinhas, de passeios,
mas certa noite há de acabar sozinha,
que este é o fim das que vivem de tais meios...

Playboys fazem por ela apostas caras,
os coronéis tomam geléia real,
os fotógrafos ganham poses raras...

E o italiano do bar, contando prosa,
com cara de primata original,
compra-a, fiado, à amiga generosa.


Juan Ramón Jiménez
(Espanha, 1881-1963)


Guarda do amor



Visto minha vontade com a armadura
do sofrer, do trabalho e da pureza,
sou um guarda de frágil fortaleza
se estás sempre a invadir minha amargura.

Mensagens de prazer e de ternura
escuto em torno... E além, vejo a beleza
do verde campo em flor... Minha tristeza
vai ceder novamente a essa loucura!,

Para não te escutar, bato as algemas,
golpeio o escudo de meu peito à espada,
senhor e escravo, ao teu amor me exponho.

Dormir me prende a ti, sem mais dilemas,
pois entras sempre, cruel e desvelada,
pela porta traiçoeira do meu sonho.


Luís G. Urbina
(Mexico, 1867-1936)

Intermédio romântico



É diáfano o crepúsculo. Parece
de brilhante cristal, e abre no céu
uma ágata de luz e é como um véu
em que o ar azul da tarde desfalece.

Em âmbares cloróticos decresce
o pôr-do-sol; a as nuvens, longe, ao léu,
são flores de um fantástico vergel,
quando uma estrela, pálida, aparece.

As aves lentamente se recolhem;
a sombra avança, e entre purpuras, erma
a noite - as mãos da noite estrelas colhem...

Deixo que meu espirito adormeça
e penso em teu olhar que canta a emberça,
teus olhos tristes de esmeralda enferma.


Antonio Machado
(Espanha, 1875 - 1939)

Isto sonhei


Que o caminhante, em si, traz o caminho,
e no jardim, junto do mar sereno
o acompanha um perfume a rosmaninho
e o odor seco do feno em campo ameno;

que da longa jornada caminheiro
punha no coração íntima trava,
para esperar o verso verdadeiro
que na alma, fundamente, sazonava.

Isto sonhei. E o tempo, esse homicida
que nos arrasta a morte e flui em vão,
era um sonho somente, em velha lida.

E alguém mostrava ao mundo, em sua mão,
uma brasa sem cinzas - e era a vida –
tal o fogo da grega concepção.


Ricardo Jayme Freyre
(Bolivia - 1863-1933)

Je meurs ou je m’attache



Deixa que empoe o teu cabelo e o esconda,
ó, maliciosa e amada feiticeira,
que será sob a nívea cabeleira
uma Duquesa da época da Fronda.

Inconstante e fugaz, tal como uma onda,
teu capricho te trouxe a mim, brejeira,
e tua graça floresceu, inteira,
sobre minha existência triste, hedionda.

Tua graça meu céu encheu de cores!
Que ela cante a sorria a céus abertos
à ave vermelha dos teus lábios presa...

Pois assim, mesmo quando tu te fores,
em tua honra cunharei meus versos
com a tua nobre efígie de Duquesa.


Louis Charles Alfred de Musset

(França, - 1810-1854)


Lendo Petrarca



Lendo Petrarca em tempo já distante,
sonhei também com a glória em meu destino.
Seu verso mais que humano era divino,
e ao amar e cantar foi poeta a amante!

Do coração sensível, palpitante,
a fugaz emoção, o desatino,
era o único a gravar em canto, em hino,
e lapidava o verso - qual diamante.

Ó tu gentil e misteriosa Dama,
por quem logo serei abandonado,
tem compaixão de uma alma agradecida;

se Petrarca não sou - na mesma chama
arde o meu coração apaixonado,
e a quem o Amor me da entrego a Vida!


Leopoldo Lugones
(Argentina, 1847-1938)


Lua maliciosa

Com pérfido aparato
de amorosa fadiga
luz seu ouro na intriga
como um olho de gato.

Ó poetas, seu recato
ja passou, ninguém liga;
evitem que consiga
seu fácil celibato.

O doce Shakespeare canta
sua graça de infanta
mas quando une a alma nua

a Julieta infeliz
"Swear not by the moon", diz:
"Não jureis pela lua".


Emilio Carrère

(Espanha, ?-1947)


Manon


Magas pupilas de ouro, as veias, cor de anil
em tua mão de monja - um lírio de ilusão –
és toda sonho e nardo, e em teu suave perfil
de dama do Trianon há uma nobre expressão.

Nada mais versalhesco: o teu porte gentil
- branca rosa de lis - é celeste visão!
Que fogo há na tua alma inquieta e sutil
que nos teus olhos põe tanta fascinação?

Quatorze versos dou-to e são flores, aos molhos;
quatorze rouxinóis para cantar teus olhos,
brancos cisnes, quatorze, à tua gentileza;

pra teus lábios beijar, quatorze abelhas de ouro,
e quatorze orações como salmos, em coro,
para a consagração de tua alva beleza.


Luis Cane
(Argentina. 1897)

Metamorfose



Sufocar este amor enriqueceu
meu coração de canto e de harmonia,
e em claro manancial de poesia
sua secreta dor se converteu.

Tornou-se canto tudo o que sofreu;
a pena sem consolo, em alegria,
minha noite por dentro fez-se dia,
e se pôs a lembrar do que esqueceu...

A sofrer por amor, fez disto um gozo,
na face, a flor de um riso, em vez de pranto,
e oculta na raiz a alma ferida...

E a fingir um destino venturoso
e a parecer que o canto era só canto,
acabou alegrando a própria vida!


Félix B. Visillac
(Argentina, 1885)

Minha taça



Tenho uma taça de cristal, Senhora,
com pintura de lírios, fantasia,
foi feita para encher-se de ambrosia,
e é qual sua alma, límpida e sonora.

Se bebo nela, meu prazer agora
é como uma cascata de alegria
que espuma numa esplêndida euforia,
ou uma límpida flor que se desflora...

Amo essa bela taça em que eu a vejo:
qual sua boca, é uma ânfora de beijo,
clara, como a sua alma virginal;

e eu a imagino transbordando estrelas
se seus lábios, ansiosos por bebe-las,
pousam na sua fímbria de cristal!


José Maria Souviron
(Espanha, 1904)


Mistério livre



Se queres que te queira de outro modo
terei que não querer-te, te querendo,
terei que desquerer-te do meu jeito
e isto afinal será querer-te ainda.

Será como querer-te um pouco menos,
porém querer-te, assim, como quisera
para que meu querer só te agradasse
como não me da gosto contentar-te.

Teria que ser eu quem não seria
quem te quisesse... E quem te quereria
o que te quero, amor, como te quero ?

Porque se te quisesse de outro modo
nós não nos quereríamos de todo:
te morrerias, tu, como eu me morro.


Gaspar Octavio Hernández
(Panamá, 1893-1918)

Neve e fogo


Há um sereno esplendor em ti, tão leve
luz na brancura de teu rosto fino
que, muitas vezes, vendo-te, imagino
que nasceste do seio alvo da neve.

Quando te vejo à noite, frente ao mar
à janela, em anseios cismadores,
tua figura é como um ramo em flores
onde pousam dois pombos, a arrulhar.

Alguém talvez ao ver-to pensaria
que tens uma alma distraída e fria,
mas se a luz dos teus olhos puder ver,

com suprema emoção, vai concluir
que inflamado de amor há de morrer
se à paixão que arde em ti se consumir!


Francisco Sosa
(México)

No Baile e no Templo



Num baile alegre, numa festa louca,
ontem te vi: a mais bela a querida,
tua beleza era uma flor de vida,
um ninho de sorrisos tua boca!

Hoje te cobres com uma negra touca
e de humilde percal estas vestida,
na tua boca lívida e esquecida
não mais, como o champanhe, o riso espouca!

E por que te olho assim? Por que até o templo,
que é a casa do Senhor, hoje caminhas
para molhar os dedos no lavabo?

Em vez de seres da piedade o exemplo
provas talvez que dás - se te avizinhas
os ossos ao Senhor, a carne ao Diabo.


José de J. Esteves
(1878-1909)


O ladrão


Enquanto a virgem aldeã dormia
- o leito junto da janela aberta -
sua beleza, na penumbra incerta,
um cisne em seu remanso parecia.

E eu que encantado a olhava, e que sentia
toda a paixão a tumultuar, desperta,
estive a ponto de gritar: - Alerta!
quando o ladrão franqueou a gelosia.

O quarto agora era algo extraterreno!
Vi-o acercar-se, de cautelas cheio,
junto ao leito da virgem se detendo...

Era um raio de luar!... - Entrou, sereno,
sua casta nudez beijou, tremendo,
e adormeceu sobre o seu alvo seio...


Ventura de La Vega
(Espanha, 1807-1865)

O nome de Laura



O tronco que em abril de folhas
viste coberto, e onde teu nome foi gravado,
Laura, logo o verás nu, desfolhado,
que à inclemência do tempo não resiste.

Virá dezembro - e a sua bruma triste
há de envolve-lo, e o deixará gelado,
e ao frio vento norte, desgalhado
talvez se abata, a então nada subsiste.

Templo mais forte que o teu nome leve
onde não haja vento frio, e aquele
rude inverno que a cobre em branca neve

será meu coração que, humilde, em rogo
te pede que o aceites, Laura, e nele
graves teu nome com buril de fogo!


Federico Garcia Lorca
(Espanha, 1899-1936)

O poeta exige que o seu amor lhe escreva

Amor de minha carne, viva morte:
espero em vão tua palavra escrita,
penso com a flor já seca, na desdita,
que se vivo sem mim, que importa a sorte?

O ar em torno é imortal. A pedra, inerte,
a sombra, não conhece, nem a evita.
Coração sem, ninguém, não necessita
o mel gelado que a alta lua verte.

Eu te sofri, rasguei as minhas penas;
tigre e pomba envolvi tua cintura
num duelo de carícias a açucenas.

Enche pois de palavras tal loucura,
ou deixa-me viver minha serena
noite de mágoa para sempre escura.


Alexis Mix Arvers
(França, 1806-1850)

O soneto



Na alma tenho um segredo e na vida um mistério,
um grande e eterno amor num momento irrompido;
é um mal sem esperança, e assim, profundo e sério,
aquela que o causou nem sabe que é nascido.

Azar! Passo a seu lado, em vão, despercebido,
portanto, sempre só, sem nenhum refrigério,
e hei de chegar ao fim, à campa, ao cemitério,
nada ousando pedir ou tendo recebido.

E ela que o céu criou boa e terna, hei de ver
seu caminho a seguir, e a ouvir sem entender
o murmúrio de amor que a seus pés se erguera...

A um austero dever, piedosa, se desvela,
e dirá, quando ler meus versos cheios dela:
- Que mulher será essa? - E não compreendera.


Jorge Rojas
(Colômbia, 1911)

O sonho



Dormindo assim... (Se nua ela estivesse
sob os lençóis, mais pura não seria ...)
Protege-a esse abandono que a oferece
na rede de seu sangue, que a vigia;

e o ritmo dos quadris - pura harmonia
e essa curva do sonho que intumesce
à agitação do sonho, e que parece
cheia de morno mel ou de ambrosia;

e essa polpa dos lábios que podia
dar nome a um fruto, sem falar, calada,
pois a própria doçura já o diria;

e essa sombra de uma asa, aprisionada,
que das coxas tão brancas voaria
se por acaso fosse despertada...


Diego Fernández Éspiro
(Argentina, 1872-1912)

Oferenda


Despojo eu sou de duras tempestades
que açoitam como o vento o mar profundo,
e errante sigo, atravessando o mundo
ao fulgor de sinistras claridades.

Trago o espirito, em mim, de outras idades,
germe de glória e de pesar fecundo,
sou um poeta feliz, o vagabundo
rimador de aventuras e saudades.

Apostolo do belo, visionário,
subo, a escalar feliz minha loucura,
essa escarpada encosta do Calvário,

à Dor pedindo a derradeira luz,
da Beleza adorando a face pura,
e arrojando a seus pés meus versos nus!


Carolina Coronado
(Espanha, 1823-1911)


Oh, como te amo! Como à luz do dia!



Oh, como te amo! Como à luz do dia!
Teu nome invoco, apaixonada e triste,
e quando a noite veio, e tu partiste,
minha alma em ânsias ainda te pedia!

És para mim o tempo que me guia,
a idéia que ao meu pensamento assiste
porque em ti se concentra quanto existe:
a esperança, a paixão, minha poesia.

Nao há canto que iguale em força e alento ,
o teu amor, se sonhas e deliras;
num doce instante de arrebatamento...

Tremo ao te ouvir. Se me olhas tu me inspiras!
E quisera exalar o último alento,
abrasada ao calor do ar que respiras.


Guillermo Blest Gana
(Chile, 1829-1905)

Olhar retrospectivo



Chegando a última página da vida
- tragicomédia que me desespera –
volvo o olhar para o ponto de partida,
sentindo a dor de quem já nada espera.

Quanta nobre ambição que foi quimera!
Quanta bela ilusão desvanecida!
Sombreada vejo a estrada percorrida
só com flores de morta primavera.

Porém, nesta hora lúgubre, sombria,
de severa verdade e desencanto,
de supremo amargor e de agonia,

- eis meu maior pesar, meu triste canto:
não ter amado mais! Eu que queria,
eu que pensava ter amado tanto!


Antonio Gómez Restrepo
(Colômbia, 1869)

Olhos



Olhos há, sonhadores, vagabundos,
que nos abrem longínquas perspectivas;
e olhos cujas pupilas pensativas
nos falam de outros céus e de outros mundos.

Olhos como o pensar, calmos, profundos,
em cujo fundo gris vagam, esquivas,
as ilusões, em bandos fugitivas
como alcíones livres, errabundos.

Outros há que embelezam o sofrer
e são filtros de sonho e esquecimento
aos que os seguirem para se perder,

olhos tão doces como o bem querido,
e que assim vagos luzem num momento
como astros de um Paraíso já perdido!


Hugo von Hofmansthal
(Alemanha, - séc. XIX)


Os dois


Tinha ela a mão a taça leve a fina
cujas bordas seus lábios pareciam,
e nem uma só gota transbordava
tão segura era a mão, tão firme o passo.

Montava ele um corcel ágil e vivo –
mas com seu gesto breve o dominava.
e o mantinha, ao bridão, no rumo certo,
tão segura era a mão, tão firme o pulso.

Porém, quando ele foi tornar a taça
que ela, gentil e bela lhe ofertava,
para os dois, de repente, a leve taça

fez-se pesada, e trêmulos, os dois,
já não sabiam que fazer das mãos,
e, que desastre! - o vinho derramou-se!


Juan Ramón Jiménez
(Espanha, 1881-1963)


Outubro



Deitara-me na terra e olhava em frente
os infinitos campos de Castela
que o outono recobria com a amarela
doçura do seu claro sol no poente.

O arado - lento - paralelamente
abria a terra escura e boa, aquela
terra onde a mão que lança, a vida grela
de seu ventre violado honradamente.

Pensei tirar o coração - lançá-lo
cheio do seu sentir alto a profundo
nos amplos sulcos desse chão tão terno,

a ver, se com parti-lo e com semeá-lo,
a primavera revelava ao mundo
a árvore pura de um amor eterno!


Alfonsina Storni
(Argentina, 1892)

Paixão


De beijar, cada um tem um gosto, e é capaz:
este prefere as mãos, o outro, os seios, a boca;
porém entre este e aquele a diferença é pouca,
não são deuses, bem vês - são homens, nada mais.

Ah, poder encontrar esse Alguém superior
que algo divino traz, e o peito é uma couraça,
esse homem cuja chama abrase-te de amor
e te sintas morrer, como ao vento, a fumaça.

A mão que sobre ti pousando, grave, calma,
faça nobre teu ser, generosa tua alma,
tua mente o mais rico e profundo dos poços;

e esse alto e claro olhar que toda te ilumine
e te aqueça, e te envolva, e te abrase e calcine
até a seca raiz dos teus pálidos ossos!


Menardo Ángel Silva
(Equador, 1899-1921)

Palavras de Outono



Guarda o sorriso: o meu coração enfastiado
é um fruto a sazonar que para o chão se inclina,
largo foi o caminho, amiga, estou cansado
e queria gozar minha hora vespertina.

Odeio o falso amor de folhetim; ferida,
minha alma não esmola as piedades alheias;
carrego uma tragédia: a minha própria vida!
- para escrevê-la usei todo o sangue das veias.

O outono chegou cedo, e me fez reflexivo,
sinto-me quase triste, alheio, pensativo,
as delícias do amor não me atraem, na idade.

Meu espirito anseia a lua, a eterna aurora,
e o relógio de Deus há de marcar-me essa hora
de estar com o meu Senhor por toda a eternidade!


Frida Schultz Cazeneuve de Mantovani
(Argentina)

Por esta vida



Perdão por este olhar de fé, e ainda alegria!
Perdão por esta boca a invocar no deserto!
Perdão por esta noite a anoitecer tão perto
e trêmula, a esperar o despontar do dia.

Perdão pelo caminho a prosseguir sem guia,
perdão por este morto arbusto, a descoberto,
perdão por esta sombra a procurar, decerto,
a resposta do corpo fiel a que seguia.

Perdão por este grande amor, enquanto avanço
sem luz e sem visão! - pois que há muito não vejo
a pegada que busco e que ao teu ser me leve.

Perdão por esta luta insana, sem descanso,
perdão por esta morte em que vivo e desejo,
por esta espera vã... por esta vida breve!


Maria Olímpia de Obaldía
(Panamá)

Post Umbra



Meu coração o teu já pressentia,
minha alma te buscava desde outrora,
e te esperava ao despertar da aurora
e te chamava quando o sol morria.

E tua alma chegou, oh! que alegria!
E no barco do amor, tal como agora,
nossas almas seguiram mar afora
até uma ilha de sonho e de poesia,

ilha em que o sol sorri, bela e florida,
e aí hão de viver por toda a vida,
ainda que a morte cruel de ti me aparte,

pois ao te ver chorar minha partida,
numa estrela minha alma convertida,
por escalas de luz vira beijar-te!


Miguel de Cervantes
(Espanha, 1547-1616)


Quando Preciosa o pandeirinho toca


Quando Preciosa o pandeirinho toca
e enche de doces sons os ares vãos,
pérolas vai desfiando em suas mãos,
flores desabrochando em sua boca;

a alma fica enlevada, a fica louca
a prudência, aos seus atos (ó cristãos!)
que, de limpos, de honestos e de sãos,
tão alto a fama lhe erguem que aos céus toca.

Suspensas ao menor dos seus cabelos,
mil almas leva, a aos pés, caídas, tem
as flechas com que o amor a atinge e espreita;

cega e deslumbra com os seus olhos belos,
seu Império de amor de pé mantém
e mais grandezas tem do que suspeita!


Francisco de Medrano
(Espanha - século XVII)

Quem te disse que a ausência causa olvido


Quem to disse que a ausência causa olvido
mal soube amar, porque se amar soubera
(a ausência que é?) a morte nunca houvera
as lembranças do amor adormecido.

Poderá se esquecer que está ferido
pela flecha traiçoeira, quando espera
fugir, medroso, e luta, e desespera,
o veloz animal ao chão caído?

O amor é uma ferida penetrante
que a alma chega... E a minha alma se deleita
porque a flecha, por ti, foi desferida.

Não temas, pois, em ver-me assim distante,
que a ferida de amor uma vez feita
sempre, e em qualquer lugar, será ferida.


Juan Ramón Jiménez
(Espanha, 1881-1963)

Retorno fugaz


Ah, como era, meu Deus? Deus meu, como era?
- Oh, coração falaz, mente indecisa!
Era como o passar suave da brisa?
Como o fugir da alegre primavera?

Tão leve, tão volúvel, tão ligeira,
como efêmera flor... Vulto impreciso,
como um sorriso que se perde em riso...
Tremula no ar, igual a uma bandeira!

Bandeira, flor, sorriso, forma alada,
primavera de junho, brisa pura!
- que louco foi teu carnaval, tão triste!

Toda a tua inconstância deu em nada!
- Memória, cega abelha da amargura!
Não sei como eras, nem por que fugiste!


Antônio Monti
(Argentina)

Soneto


Me dizes que dos pássaros eu tenho
todas as notas para assim cantar-te.
Quero que saibas: foi só por amar-te
que de tão longe eu ensaiando venho.

Noutros tempos, meu verso foi roufenho:
andava pelo mundo, magro de arte.
Analisa-o agora, parte a parte,
e convirás quanta razão eu tenho.

Estudei para pássaro primeiro.
Tomei lições depois com Mestre Vento
e ouvi-o com atenção de um marinheiro.

O mar, também, me deu o seu talento,
e conhecendo o amor, o mais puro e alto,
aprendi a cantar e assim te exalto!


Edmond Spenser
(Inglaterra, 1552-1599)

Soneto



Sobre a areia escrevi seu nome um dia
mas o mar o levou; a mesma empresa
volto a tentar, insisto - todavia
as ondas tudo apagam com presteza.

E ela me disse: tudo é vão e passa.
Nunca eternizarás o que é mortal.
E eu passarei também, tal como a escassa
pegada de meu nome, desigual.

Não! protestei. - Só o vil é que perece!
Tu sobreviverás, nem tudo some.
Em teu louvor meu verso se engrandece

e em altos céus há de gravar teu nome.
E na terra, até a morte, em sonho e lida,
viverá nosso amor com a nossa vida.


Guillermo Valencia

(Colômbia, 1873-1942)

Soneto



Que te amei, sem rival, bem que o sentiste,
e bem sabe o Senhor; nunca se liga
a hera errante à floresta quieta e amiga
como ao teu ser se uniu minha alma triste.

Em meu viver, o teu viver persiste
como o doce rumor de uma cantiga
- a lembrança do amor é que mitiga
o luto, e ao duro tempo ainda resiste.

Diáfano manancial que não se esgota,
vives em mim, e à minha vida austera
teu frescor se mistura gota a gota;

palmeira foste, num deserto a arder,
no meu pélago amargo - uma gaivota!
E em mim só morreras quando eu morrer!


John Keats

(Inglaterra, 1795-I82l)

Soneto



Quando fico a pensar poder deixar de ser
antes que a minha pena haja tudo traçado,
antes que em algum livro ainda possa colher
dos grãos que semeei o fruto sazonado;

quando vejo na noite os astros a brilhar
- vasto e obscuro Universo, impenetrável mundo! -
quando penso que nunca hei de poder traçar
sua imagem com arte e em sentido profundo;

quando sinto a fugaz beleza de alguma hora
que não verei jamais - como doce miragem –
turva-se a minha mente, e a alma em silêncio chora

um impulsivo amor. E a sós, me sinto à margem
do imenso mundo, e anseio imergir a alma em nada
até que a glória e o amor me dêem a hora sonhada!


Luiz Ruiz Contreras

(Espanha, 1863)

Soneto



Não, não temas... Que a minha boca impura
nada dirá do que meu peito sente,
não, não receies que meu beijo ardente
possa manchar-te a virginal brancura!

Nem temas ver em torno da cintura
meu braço - como astuta e vil serpente
nem que teus puros sonhos de inocente
destruam seu cantar, minha loucura.

Ah! meus olhos, no entanto, consumidos
ao fogo dos tens olhos, meu desejo
atiçam, loucos, num incêndio mudo,

tua imagem levando aos meus sentidos...
E eu te possuo com o olhar, te beijo!
E tu sorris, amor... e ignoras tudo!


Manuel José Othon

(México, 1858-1906)

Soneto


É o meu adeus! Adiante vais, austera,
pelas planícies que o calor escalda,
por teus cabelos soltos reverbera
a luz - a maldição que se desfralda!

Em minhas vãs angustias... Que me espera?
Ao longe, és como fúnebre grinalda
numa desolação de primavera,
numa funda tristeza, de esmeralda.

O terremoto humano, num momento,
destruiu meu coração - oh ruína estranha!
Maldito seja, pois, o pensamento!

Ainda te avisto, dolorosamente...
Sigo teu vulto, como se acompanha
o que foge e se afasta eternamente...


Menardo Ángel Silva

(Equador)

Soneto



No inverno há em gestação a nova primavera;
na noite mais sombria há uma alvorada pura;
o ser sábio é esperar; é forte quem espera:
bom semeador quem vela a colheita futura.

As horas dançam no ar, e se vão... É um aviso:
o riso e o pranto logo hão de encontrar um fim;
ah, feliz é quem pode ver, com o mesmo riso,
a serpente no bosque e o lírio no jardim.

Por ser inacessível é que adoro o céu!
Senhor! que eu nunca alcance o sonhado troféu,
nem satisfaça nunca a ânsia que me devora.

Triste e amargo é o fastio, os sonhos conquistados,
e farto o coração, ante os bens já gozados
em angústia, a indagar: “Que hei de pedir agora?”


Soror Juana Inés de La Cruz

(México, 1651-1695)

Soneto


Rosa divina que em gentil cultura
és, com a tua fragrante sutileza,
magistério purpúreo da beleza,
alva lição de excelsa formosura;

há em ti como que humana arquitetura,
exemplo de uma ingênua e vã nobreza,
em cujo ser fundiu a natureza
o berço alegre e a triste sepultura.

Altiva em tua pompa presumida,
soberba, a morte afrontas, não te inclinas,
mas logo, desmaiada e emurchecida,

teu ser desfaz-se todo em tristes ruínas!
E assim, com douta morte e fútil vida,
vivendo enganas e morrendo ensinas!


Miguel Ángel Asturias
(Guatemala, 1899-1974)

Soneto a Maria



Não mudes a pureza - asa a perfume –
do meu sentir, meu doce mal-estar,
és um ninho de pomba ainda implume,
princípio de viver, meu palpitar.

Tua presença é o pão de meu ciúme;
ouvir teu nome - levedura no ar –
é o céu que o diz, e em canto se resume,
porque dizer Maria já cantar!

Apresentam-me os prados suas flores,
em mel desfaz-se o fruto em minha boca,
e te amo, com o melhor dos meus amores.

E apesar disso, para mim, Maria,
a constelação que não se toca,
e um avançado mar - minha agonia!


Lope de Vega
(Espanha, 1562-1635)

Soneto de Violante


Um soneto pediu-me Violante.
(Nunca me vi na vida em tal “espeto”!)
Quatorze versos dizem que é soneto:
sem me dar conta, já fiz três... Adiante!

Pensei, e me sentia vacilante,
mas já vai na metade outro quarteto:
e se chego ao principio de um terceto
nada há mais, nos quartetos, que me espante.

No primeiro terceto vou entrando,
e presumo que entrei com o pé direito
pois ao fim, com este verso vou chegando.

E assim passo ao segundo, e então suspeito
que estou seus treze versos terminando:
- contai se são quatorze: e já está feito!


William Shakespeare
(Inglaterra, 1564-1616)

Soneto XXIX


Quando em minha desgraça e sem fortuna sigo
dos homens desprezado, e minha sorte choro,
praguejo contra os céus insensíveis, deploro
meu destino, e em protesto inútil me maldigo.

E os ricos de esperança invejo, e, num momento,
anseio ter também prazeres, alegrias,
tudo o que, à alma nos traz algum contentamento
e de amizades enche o decorrer dos dias...

Mas se assim desolado estou, e penso em ti,
tal como a cotovia ao vir da madrugada,
canto à espera do sol, à luz que ainda não vi,

e me sinto feliz, e sou rico talvez,
pois tendo o teu amor em minha alma encantada,
nem troco o meu Destino e nem invejo os reis!


Jorge Isaacs
(Colômbia, 1837-1895)

Sonhei


Sonhei feliz que à tua casa um dia,
alta noite, levou-me amor veemente,
e eu aspirei o delicioso ambiente
velado, numa luz suave e macia.

Sobre moles coxins, de fantasia,
dormir fingias voluptuosamente:
a cabeleira de ébano, luzente
sobre as brancas roupagens, se perdia.

Trêmulo de emoção e de ansiedade
beijei-te, com os meus lábios abrasados...
Surpresa e carinhosa me sorriste...

Não, não baixes teus olhos por piedade!
Que brilhem de prazer, iluminados,
fazendo alegre a minha vida triste!


J. Fernández de Villar
(Espanha, 1888)

Sonho galante



Quisera ser teu pajem favorito
para estreitar-te as mãos espirituais,
e converter em flor de madrigais
teu coração tão duro, de granito.

Em meu escudo eu levaria escrito
teu nome, para a inveja dos rivais,
e teus lábios em flor, rubros, sensuais,
seriam mel, para o meu beijo aflito.

Em tua honra eu terçaria lanças
para alcançar favores a esperanças,
vencendo prélios, superando escolhos,

e tendo o teu orgulho dominado,
quisera ver-me sempre retratado
nessas claras safiras dos teus olhos.


Carlos Manuel Arita
(Honduras)

Teus olhos negros, tua tez morena


Fascina-me a brancura da açucena
- as flores alvas são as mais bonitas –
mas me atraem com forças infinitas
teus olhos negros, tua tez morena.

Como as flores, também, casta e serena,
aos desejos de amar, por certo, incitas,
porém só vejo, em ânsias vãs, aflitas,
teus olhos negros, tua tez morena

Arrastaria tudo, humildemente
(a alma, livre da angústia que a condena),
para ter-te afinal sempre presente,

e se adorar-te fosse a minha pena,
amaria em silêncio, eternamente,
teus olhos negros... tua tez morena.


Miguel Rasch Isla
(Colômbia - 1889)


Tua boca



Arrecife, onde há um mar de canto e guizo,
tua esplêndida boca é uma granada
que pede, tentadora e encarnada,
um beijo que a desarme, se preciso.

Quando te pões a rir, despreocupada,
espalhas ao redor desse teu riso
um grato odor de fruta sazonada
dos secretos jardins de um Paraíso.

É uma pequena gruta de frescura
(apertados parênteses de flores)
animado jardim em miniatura.

Eu a beijara, ardendo de desejo
para sentir, morrendo-me de amores,
a eternidade efêmera de um beijo!


Luiz C. López
(Colômbia)


Um caso


Minha tia magra e fria
solteironamente feia
com nostálgica atonia
pensa nas coisas da aldeia.

Quer olhar a sua cria
de patos - quando passeia,
e manejar todo o dia
a roldana, e a lata cheia

no poço. E ouvir em jejum
sua missa, e só mais um
desejo afinal almeja:

não manchar o pensamento
com o tal 6° mandamento
pornográfico. Assim seja!


Daniel Laínez

(Honduras)


Um fundo sentimento de ternura


Um fundo sentimento de ternura
por ti, mulher, meu coração abriga
- que outra, tal como tu, querida amiga,
soube aliviar a minha desventura?

Como num leito de infinita alvura,
com a água fresca que o calor mitiga,
em teus braços deixei minha fadiga
e adocei, com teus beijos, a amargura.

Já tenho a boa e terna companheira
a quem posso confiar minha alma,
inteira, nas horas de tristeza e desencanto;

e nos jardins do nosso amor ardente
esvoaçam, coloridas, febrilmente,
as tontas borboletas do meu canto!


Hector Pedro Blomberg
(Argentina, 1890)


Velhas cartas de amor


Ah, queimá-las não pude... É que elas - quem diria?
guardam murchas assim tua morta paixão
- a febre de uma noite, as lágrimas de um dia -
como o eco já sem voz de uma ultima canção.

Tuas cartas! - num tempo a que eu retornaria –
fizeram palpitar de amor meu coração...
Depois, veio o silêncio, a distância, a agonia,
e o bálsamo do tempo - a cruel consolação!

Vivem nelas ainda um romance apagado,
a luz da mocidade, o fogo de um passado,
a glória de uma vida aos vinte anos em flor...

Ontem, contava-as, sim - com um gesto indiferente...
Mas sobre elas caiu uma lágrima ardente ...
... E não pude queimar tuas cartas de amor...


J G de Araújo Jorge

A taça do soneto

(Minha homenagem a esta forma
fixa, eterna, de poesia. JG.)


I
O soneto foi feito para um brinde
aos momentos felizes e ao amor,
quando, a sós, conversamos em silêncio
com o coração - em juras e segredos.

E’ um interlúdio suave, um canto breve,
confessionário da alma onde de joelhos
vamos levar, contritos, os pecados
que são razão de ser, não de perdoar.

Não foi feito o soneto para os gritos,
a revolta dos homens, os protestos,
os momentos de heróico desespero;

medido, harmonioso, transparente,
e’ uma taça onde apenas nos servimos
do champanhe das horas mais felizes!

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