domingo, 20 de janeiro de 2008

Quatro Damas - J G de Araújo Jorge


1ª edição -1964

A carta que ainda farei


A carta que um dia hei de escrever
quando tu fores minha noiva,
será curta, pequena...

Na verdade, eu já a fiz:

“Meu amor,
que eu não possa nunca te dizer
nem encontre palavras para descrever
o quanto sou feliz !”


A companhia


Do amor não quero mais a aventura,
quero a companhia.

Já não procuro ilusões e surpresas
se todos os caminhos foram percorridos,
se oblíquo sol da tarde alonga a minha sombras
presa ainda a meus pés, a fugir, para onde?

Quero a compreensão, a tranqüila ternura,
a presença melhor depois que amada,
a que sabe ser luz clareando a estrada,
ser aragem na fronte ardente a inquieta;

- alta maré para encobrir escolhos,
ser água para a sede que atormenta,
sombra, quando a luz doer nos olhos.

- A que inteira se dá sem pedir nada
só pela humilde alegria de se dar!

A que é pousada para o amor que vinha
já cansado de tudo e que não tinha
onde ficar.

A que tem mãos felinas, mãos que arranham
infladas de amor,
sem a gente sentir,
mãos que enlaçam, depois, cantam ternuras,
e que emberçam as nossas amarguras
e nos fazem dormir...

A que é mulher, - mar alto, porto e abrigo –
a que fica a nossa espera,
à que se pode voltar a qualquer hora...
A que sabe perdoar nossos pecados
nossos marinheiros desejos desgarrados
e não nos mandam embora...

Do amor não quero mais a aventura
quero a companhia:
a que depois do beijo
me dará a mão,
a que será minha - à noite se entregara
sem pejo -
e impoluída e pura,
continuara comigo, com a mesma ternura
no coração...

Quero a doce, a permanente companhia .

A que depois da noite
é o meu dia,
e, com o braço em meu braço
há de acertar seu passo
na mesma direção...


A culpada...


Não tens culpa se me encontras céptico, e se custo
a acreditar em ti.

Talvez eu já esteja batido demais, ou talvez
me pareças muito criança.

Tanto a Vida me mentiu, que me acovardo à simples idéia
de uma nova esperança.


A viagem


Não vamos fazer planos, vamos apenas viajar
neste barco que nos recolheu
e cujo rumo não sabemos...

Não vamos fazer planos, vamos olhar as gaivotas,
os crepúsculos sobre o mar,
as ondas, as nuvens, os portos que amanhecerão,
agradecer ao destino que nos fez passageiros
do mesmo sonho.

Não vamos fazer planos, não vamos matar as nossas alegrias
modificando roteiros, se não sou o comandante do navio,
se ninguém é,
não vamos matar as nossas alegrias
com itinerários antecipados
como se fossemos turistas ricos
apenas gastando o seu tédio...

Não vamos fazer planos, vamos nos deixar levar
ao sabor das correntes,
vamos agradecer essa viagem como se fosse a primeira
como se fosse a última,
como se fosse aquela viagem há tanto tempo esperada,
que inacreditavelmente se tornasse
realidade...
E o porto onde chegarmos, - qualquer que seja o porto
ou o horizonte de mar que sempre se afastará,
serão o porto e o horizonte
da felicidade...


A vida, de repente...


De repente
percebemos como era boa aquela vida que levamos
aqueles calmos momentos de impercebida felicidade,
aquelas horas aparentemente vazias e sem prazer
entretanto, cheias de nós, de nossa simples presença,
de uma ternura que enlevava nossos corações
como as velas cheias dos bancos sonolentos
sobre o mar sem ondas...

De repente
gostaríamos que tudo voltasse para que nos apropriássemos
do que foi nosso, e se perdeu,
para que pudéssemos dar valor
a tanto que tivemos, sem saber que era amor...

Agora
que a vida nos atira (sobre que expectativas
sombrias e inevitáveis?)
nos lembramos que já fomos nós, pelo menos no início,
e subitamente nos sentimos numa curva impossível,
à borda de um precipício...


Abismo?


Sei que ao voltar a mim, como quem chega
do fundo de um abismo,
trazia duas estrelas em meus olhos
e o ouro dos teus cabelos em minhas mãos...

Afinal
que estranho abismo era esse
em que os anjos nos embalavam
e nos sentíamos na mão de Deus?!


Afinal...


Restou o travo de uma decepção
que foi perdendo lentamente
o amargor...

Fui eu
(que num momento de paixão doentia)
enriqueci com a minha fantasia
um pobre amor...


Agradecendo a você


Você achará tolos talvez
estes versos que te escrevo,
mas eu explico porque:

- seja lá como for
meu amor,
eu quero agradecer Você
... a Você.


Algo mais...



Eu queria te dar algo mais que poesia:
este ardor que me abrasa, e me punge, e espezinha,
e se consome em vão numa íntima agonia
porque não te possuí... porque não foste minha!

Não queria deixar que partisses sozinha
sem algo de vivido entre nós dois - queria
que a amarga solidão que em minha alma se aninha
fosse um canto de sol, de desejo e alegria !

Eu queria te dar algo mais que um lamento,
queria tatuar com meu beijo a lembrança
nem que fosse a lembrança feliz de um momento...

Com tão pouco de mim, num derradeiro empenho,
eu queria te dar algo mais... a esperança,
a fé que já perdi... o amor que já não tenho!


Alguma coisa


Que ao menos acontecesse alguma coisa...
De bem ou de mal...

Por exemplo:
- Que este sonho despencasse do 10. andar
e virasse notícia de jornal...


Alpinista


Escalei um sonho de amor
mas rolei sobre o abismo
e me encontraram morto...

Quando um dia me acharam
abriram a minha mão
e te encontraram...
....................................................

Eras a pura Edelvais
inacessível,
que eu quisera colher
e apertara ao coração...

Sim... Fizera o impossível...
Mas em vão...


Alvorada eterna


Quando formos os dois já bem velhinhos,
já bem cansados, trôpegos, vencidos,
um ao outro apoiados, nos caminhos,
depois de tantos sonhos percorridos...

Quando formos os dois já bem velhinhos
a lembrar tempos idos e vividos,
sem mais nada colher, nem mesmo espinhos
nos gestos desfolhados e pendidos...

Quando formos só os dois, já bem velhinhos,
lá onde findam todos os caminhos
e onde a saudade, o chão, de folhas junca...

Olha amor, os meus olhos, bem no fundo,
e hás de ver que este amor em que me inundo
é uma alvorada que não morre nunca!


Ama-me como eu sou...


Ama-me como eu sou
sem me perguntar pelo antes de ti,
por esses momentos meus, nublados, sem razão,
pelo passado, em pedaços perdido nas viagens,
- sem querer saber a história das tatuagens
que marcam o coração...

Ama-me como eu sou
(para que perguntar?)
- marinheiro que por tantos mares, inutilmente
se procurou. . . e perdeu,
com tão pouco talvez para te dar,
mas tão pouco, tão eu...

Ama-me como eu sou.
(e sê o que tu és:
humilde, terna, boa,)
- não queiras amarrar-me nem tolher-me
nem ser sombra a seguir-me presa aos pés...
Deixa-me livre, como um velho barco
afeito às ondas pela proa
e aos ventos, pelo convés...

Concede-me a solidão
(que precisam da solidão os que foram do mar...)
Concede-me a solidão, nos meus momentos
de zero, ou de temporal, em que caio em mim mesmo,
como coisa inútil!
e egoísta, e sofrido,
só preciso de mim para voltar...

Sê o que tu és
(humilde e boa, sempre disposta a se dar
sem recompensas,
alegre, toda vez que volto e atiro amarras
para ficar )
- feliz porque cheguei sem ter saudades
sem deixar para trás nada mais do que mar...

Ama-me como eu sou,
(não queiras mudar-me, amor, pois bem sabes que é tarde
e já não há mais tempo)
e o coração quem te diz,
- abriga-me em teus braços, que eu neles renasço e vivo,
que eu não sou senão um homem infeliz
que ainda fazes feliz...


Amor de fantasia


O pior, para mim, é ter que encontrar-te todo dia,
falar contigo como a uma estranha,
ver-te linda e distraída,
estender-te a mão, em cumprimentos banais,
quando tu és afinal (que importa se não sabes?)
- a minha Vida ...

Em vão me confesso num olhar de ternura
que procura teus olhos, além,
onde ninguém pode chegar,
e o coração se alvoroça! e paro, e me contenho,
numa angústia apaixonada...
E linda, e distraída,
tu nem percebes nada...

Iludo o meu desejo, (esse Fauno em travesti
de velho Pierrot)
a imaginar mil coisas de poeta e de louco,
Ah! se eu fosse o teu Senhor!)
- e te atiro palavras, como serpentinas
displicentes,
para distrair os outros, os intrusos, - presentes
a este singular carnaval
do meu amor...

Ah! se soubesses o quanto és minha,
nesses instantes proibidos
da imaginação,
mas profundamente verdadeiros,
- tu, linda e distraída,
boneca e criança,
talvez acendesses, na distancia dos teus olhos
para os meus olhos marinheiros
e para a minha vida,
alguma esperança.


Antes... depois...


Antes de ti
mesmo acompanhado
eu continuava cada vez mais sozinho...

Depois de ti
mesmo sozinho
estou cada vez mais acompanhado...


Ao Soneto


Tu me lembras o pátio de um mosteiro
retangular, fechado, onde as arcadas,
- as quadradas arcadas, - sobre os pisos
jogam luzes e sombras, silenciosas.

São quatorze as arcadas ao redor...
E as palavras caminham de sandálias...
Bem no meio do pátio, entre a folhagem
de um secreto jardim, sussurram águas.

É em ti que os poetas, - monges sem clausura –
se recolhem na vida tantas vezes
e se põem a rir ou a chorar,

entoando seus cantos como rezas,
e ao ouvi-los depois, nem mesmo sabem
se é sua, a música... ou se é a voz da fonte...


Aportar...


Você chegou, pequena e humilde
como quem pede proteção
e nada tem a dar...

E hoje, em teus braços, sou eu que me recolho
como um barco cansado de tormentas
feliz da praia calma onde pôde aportar...


As pegadas do amor


Não devíamos continuar nos amando nestes versos
feitos em hora de suprema beleza,
quando nem sequer mais existimos
nem somos dignos do fogo em que nos consumimos...

Não devíamos continuar nos amando nestes versos
com o mesmo louco e incontrolado ardor,
quando já não existimos,
e, - pior que tudo! - quando destruímos
o mito de eternidade desse amor...

Se eu pudesse, destruiria estes versos,
(Ah! como me faz mal o seu hálito frio!)
- versos que continuam a falar de nós
e me dão a impressão,
de carregar dos espectros de atores, num teatro vazio
em patética declamação...

Destino estranho o destes versos
a levarem um amor pelos tempos afora,
como um eco perdido
do que foi vida um dia, e foi ânsia
e foi voz...

Hoje são... como nossas almas descarnadas,
ou num chão de palavras, as pegadas
de um louco que passou
e se perdeu de nós...


As seis faces...


Quando te encontro e observo que ficaste mais linda
e soltaste os cabelos para me agradar,
e me entregas os lábios num beijo leve e morno como a aragem,
e tranças os teus dedos em meus dedos, e me olhas
como no dia em que te tirei para dançar pela primeira vez,
é que percebo que continuas
a namorada.

Quando te preocupas com o tempo porque vou sair,
e recomendas detalhes como se me visse criança,
e repreendes a minha falta depois que as visitas se foram,
e endireitas a minha gravata, e escolhes a minha camisa,
e me fazes trocar os sapatos que não combinam;

quando surpreende o meu cansaço, e me enlaças,
e recosta a minha cabeça em teu colo,
e me dás conselhos como se eu pudesse segui-los,
é que descubro que há em ti, para mim, até mesmo
um pouco de mãe.

Quando te consomes muito mais com as minhas preocupações
e advinhas meus pensamentos, me prevines contra falsos amigos,
e te empenhas em partilhar também minha luta;

e economizas, como se com isso poupasses minhas forças,
e, sem querer, com uma palavra, desvendas uma solução
tão próxima e tão evidente, mas que meus olhos não percebiam;
quando à noite , na sombra, sem tocarmos os corpos,
conversamos, esquecidos, como dois amigos numa encruzilhada,
é que compreendo que tu és
a companheira.

Quando chego, e ao abrir a porta, estás à espera
com tua felicidade que me envolve e me aconchega,
e tirar da minha mão a pesada pasta de couro,
e me entregas os lábios (úmidos e trêmulos);

quando te encontro depois, em todos os detalhes cotidianos
e prosaicos, que fazem o melhor da vida:
minha toalha de banho no lugar; meus chinelos no seu canto;
minha roupa limpa sobre a cama; aquela jarra com flores arrumada;
aquela mesa posta, com seus talheres brilhando;
aquele odor de refeição que é o perfume do lar;
quando te vejo, leve e diligente, a circular pela casa
que consideras teu Reino, teu Mundo, teu Universo;
sei que tu és então
a esposa.

Quando à noite, de tarde, ou de manhã, (é um momento imprevisto
e nunca marcado) sinto que precisas de mim, que te faço falta,
como do ar, ou da água, de alimento, ou de vida,
e te encontro ao meu lado sempre irrevelada, e te dispo,
e se desencontraram as mãos e nossos corpos
e subitamente nos jogamos, como banhistas
contra o mar, contra as ondas, o mar desconhecido
as ondas que afogam e arrastam,
e de súbito estamos salvos na areia, como náufragos, és
a amante.

Quando te encontro ao meu lado, deitada numa nuvem
a acompanhar outras nuvens preguiçosas e itinerantes
no céu do coração;

quando te pões a falar como crianças nas brincadeiras
em diminutivos, em “faz-de-contas” de pura imaginação,
e de ti restou apenas o contato dos nossos corpos, que
[permaneceu em nós
entretanto distante, imaterial, a planar
como aquela gaivota na vaga luz da tarde que se esvai;
quando estirados na areia, cansados, mas felizes,
já podemos conversar, eu diria nesta hora que tu és
simplesmente
a irmã.

Quando penso em ti, e te sei tantas, no milagre da multiplicação
do amor,
recolho-me a ti, como pássaro às ramagens, onde encontra
a sombra, o ninho, o balanço, o fruto, - o impulso
para o vôo.

E amo, e trabalho, e sonho, e canto.


Astronauta


Já foste o mapa-mundi
de meus desejos,
percorri-te em todas as direções

Agora,
veste-te, meu amor...
Não adianta continuares
bela... e nua...

Meu destino é a lua...


Aviso


Por que não te vais? Por que não segues
teu caminho, sem acidentes,
e teimas em me querer?

Hei de vingar em ti, também, a culpa que não tens
meu desespero e meu abandono,
o que a Vida me fez sofrer...


Bailado


Gestação. O sonho Nasce...
O palco é um ventre.

Não eram estátuas
eram mil formas vivas na multiplicidade da beleza
e do ritmo,
nos instantâneos
de cada momento...

Os pássaros perderam as asas
mas o vôo permaneceu
no firmamento...
O canto fez-se harmonia
no plástico silêncio
do movimento

O palco
era um pensamento...


Basta você


Por Você
que encontro e veio,
- que é como um sonho bom que eu sonho
e em vão desejo,
só porque a tenho ao meu lado)
em nome dos meus olhos:
- Obrigado!

Obrigado, por Você!

Basta você ser Você. Para que mais?
E por essa alegria que Você me dá,
por essa estranha felicidade, inexplicável,
que me faz ser feliz sem saber bem por que,
só por isto, e por tudo isto, eu lhe agradeço,
pois o destino achou que vez por outra
mereço
ver Você!

Basta Você ser Você. Basta, por um segundo
sentir a sua mão na minha mão,
tão pouco, pensarão!)
- e, entretanto, para mim é tanta coisa, um mundo
encantado...

Mesmo sem nada me dar, Você já está-se dando
com a sua presença,
e isto é quase tudo para quem não pode, como eu,
senão
sonhar acordado!

Sim, porque tudo, já se vê,
tudo: seria Você!


Batida de Amor...


Desconfio que você esta “tomada”, amor...

Às vezes você me olha como se eu fosse formidável
como se eu fosse uma beleza,
fosse um sputnik, uma bomba atômica, que sei eu?
- fosse uma vista do Rio de Janeiro...
Acho até que você me olha às vezes,
como se eu fosse Nosso Senhor...

Você me põe uns olhos vidrados de cabrocha em transe
e eu sinto suas mãos me percorrendo, me descobrindo,
e eu já nem sei quem sou eu
nem pra onde vou.

Bobagem, amor, eu não sou ninguém,
ou por outra, sou apenas alguém que abraça você com ternura,
que descobre sua nuca, que segura seu traseiro,
que morde suas coxas,
que acaricia seus quadris, todo o seu corpo,
como se você fosse um violão
e eu quisesse fazer você virar música
e quisesse ouvir você tocar, no coração.

às vezes, amor
você me olha de um jeito que eu até me sinto
num altar,
(que Deus me perdoe o sacrilégio)
mas é bom a gente se sentir assim gostado
desse jeito
como a coisa mais importante, mais formidável do mundo

E é por isso que eu apanho você em meus braços
e a amarro toda,
todinha, até soltar você, e ouvir você dizer que morreu,
que morreu bem morrida,
e que então já nada mais importa, nada, nem mesmo sputnik,
nem a bomba atômica, nem o Rio de Janeiro,
nem a vida.


Bichos? Deuses?


... E para continuar a viver
tivemos que sair de nós
e voltar à nossa primitiva condição
de bichos...

- Éramos apenas dois bichos...
(ou Deuses?)

... Nem podia ser mesmo humana
tão grande felicidade...


Bocó


Você não pode ficar zangada, amor,
quando eu chamo você de boba,
quando eu digo que você tem um arzinho bocó,
um desajeitado jeito de quem ainda
não foi colhida
pela vida...

Agora, vou confessar:
gosto de você assim
com todas as pequeninas coisas, tão você,
ingênuas, comovidas...

E quer saber por quê?
- Eu já estava mesmo ficando cansado
das “sabidas”...


Cicerone


No primeiro dia em que te vi
tu me olhaste
como se já me trouxesses em teus olhos...

Ou como se andasses sobre nuvens
ou como se eu não tivesse os pés no chão...
................................................................................

e eu te segui
porque compreendi
que tu eras a Cicerone do Paraíso...


Cinderela


Brincaste de Cinderela em meu Destino.
E
u fiz o Príncipe Encantado
em tua imaginação
e em teu amor.
....................................................................

Que não acordes de teu sonho deslumbrado
para te convenceres que ofertaste apenas
o coração
à um pobre trovador...


Curiosa


Quando acordei
já te encontrei de olhos abertos
me espiando...

Curiosidade a tua!
querias ver com certeza como eu sou
sonhando contigo!


...De vidro


Pudessem ser de vidro estes versos
para quebrá-los. como quem quebra
um frasco inútil, vazio,
que teima em guardar um recalcitrante perfume
como um desafio...


Descoberta



De repente
seus olhos se encheram de passado
inexplicavelmente...

e eu percebi, com amargor,
que não havia presente
(nem haveria futuro)
em nosso amor...


Desconfiança...


Que vale a vida afinal
quando chegamos a este ponto?
Deixou de ser romance:
é crônica banal
ou conto.

Vale a pena seguir?
Sem aquele entusiasmo
aquelas ânsias,
sem aquela força de querer,
só para continuar, e se repetir...
(mais pelo hábito da vida
que pela alegria de viver?)

Vale a pena continuar ?
Ou é melhor fugir (fugir ou parar
que são formas diferentes de morrer...)

Já de nada me espanto,
talvez seja tudo paradoxal
mas começo a desconfiar que está chegando esse momento
extraordinário,
em que devo me recolher para ouvir o canto
de meu coração solitário...


Do outro lado



Quando enfim abri os olhos
debruçado sobre ti, eu olhava teus cabelos finos
tão leves, como um tênue mistério em tua nuca...
E o pequenino lóbulo de tua orelha
onde pendurei o brinco do meu beijo.

E fiquei a pensar que estava ali, tão presente
em ti
e nem me vias...

...Tu estavas do outro lado,
em toda parte de minha vida,
e nem sabias...


Dualidade


Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo
o meu próprio desejo tão violento,
dir-se-ia ter pudor, ter sentimento,
quando estás junto a mim, quando te vejo.

É um clarim a vibrar como um harpejo,
misto de impulso e de deslumbramento.
Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo
é desejo e ternura a um só momento.

Beijo-te a boca, as mãos, e hei de beijar-te
nessa dupla emoção, (violento e terno)
em que a minha alma inteira se reparte,

- e a perceber em meu estranho ardor,
que há uma luta entre o efêmero e o eterno,
entre um demônio e um anjo em todo Amor!


Dueto


Bendita sejas tu, que escancaraste
uma janela em minha solidão,
e trouxeste com a luz, esse contraste
de luz e sombra em que meus passos vão...

Bendita sejas tu, que me encontraste
como um mendigo a te estender a mão,
e que inteira te deste, e assim, tornaste
milionário o meu pobre coração...

Bendita sejas tu, que, de repente
fizeste renascer um sol no poente
reacendendo esse ardor com que arremeto

e com que espero novamente a vida,
e transformaste, sem saber, querida,
a cantiga do só... num canto em dueto!


Ela


Quando ela passa na rua
é como uma banda de música:
- um escarcéu!

E como sou maluco por música
desde garoto,
- lá vou eu!


Elegias a um amor perdido...


I
Vivemos pior que dois estranhos,
como condenados, carregando
um hediondo segredo
a nos torturar...

Pesada solidão a das almas nuas
que continuam juntas, sempre duas,
sem nada que esperar...


II
Levamos escondido
o corpo de um amor
que em vida, nos enlevou
e hoje, nos oprime...

a verdade
é que simulamos dolorosamente
uma felicidade,
como quem oculta algum crime...


III
A nossa covardia
(e quais serão as razões,
se não há para nós amanhã ou depois?)
- invento esta agonia
a dois...

E assim, como preso sem grades,
em nossa mútua presença,
vamos cumprindo cada dia
de uma interminável sentença...


IV
Crueldade do destino!
Quantas vezes cansado,
sem saber com que forças, me pergunto,
e a mim mesmo me digo:

- por que, pelo mal que fizemos
apenas a nós mesmos
um tão duro castigo?


Escolha


- Se tivesses que escolher
entre o céu
a terra
a liberdade
o amor,
que escolherias?

- O amor.


Está cheio de ti meu coração...


Está cheio de ti meu coração
como a noite de estrelas está cheia,
tão cheia, que ao se olhar para a amplidão
o olhar de luz se inunda e se incendeia...

Está cheio de ti meu coração
como de ondas o mar que o dorso alteia,
como a praia que estende sobre o chão
milhões de grãos do seu lençol de areia...

Está cheio de ti meu coração,
como uma taça, erguida, transbordante,
num momento de amor e de emoção,

- como o meu canto enquanto eu viva e eu cante
como o meu pensamento a todo instante
está cheio de ti meu coração!


Estampas


I
E dizer
que me fazes sentir Príncipe Encantado
capaz de mil romances e aventuras
e do sonho mais belo,

eu, cavaleiro, de glórias enfastiado,
vencido e destronado,
sem reino e sem castelo...


II
Chegas
com teus olhinhos vidrados
teus olhinhos de contas, de boneca ou de fada,
e se encontro teu olhar
esqueço toda a vida passada
e tenho a impressão de que tudo
vai começar...

Oh, a pureza de teu coração! Oh, a ingenuidade
de teu olhar de manhã sem segredos,
sem nuvens, sentimental...

De repente, me sinto
como um brinquedo, numa casa de brinquedos,
ao olhar de uma criança
na véspera de Natal...


Estes versos

Estes versos não foram escritos como tantos
nas minhas horas sós, nas madrugadas
da lembrança...

Escrevi-os em teu corpo, eu os dizia ao teu lado
ao teu ouvido
com os lábios em teus cabelos,
sem perceber que eram versos...

Foste tu que os encontraste em seu canto
que acreditaste neles,
(e, quem sabe? por vaidade)
te punhas a repeti-los para que não se perdessem...

Estes versos não eram para ser escritos,
não sabiam sequer que eram versos,
eram apenas palavras de amor que tu recolheste
como um punhado de flores silvestres sem nome...

Simples palavras de amor que colheste, e em tuas mãos
desabrocharam sua inútil perenidade,
quando tinham nascido para morrer pelo chão
como as coisas efêmeras...

Agora
estes versos, que não eram versos, que eram simplesmente
palavras de amor,

são versos
de dor.


Estrela cadente


Ela que foi um canto de alegria
a Musa do que escrevo em seu louvor,
que pos um véu azul de fantasia
sobre o sonho impossível desse amor...

Que foi luz, que foi som, beleza e cor
no meu mundo fugaz de cada dia,
que foi tudo afinal: perfume e flor
numa vida monótona e vazia...

Que está presente no meu pensamento
como uma onde em vai-vem na praia, ou
uma estrela a luzir no firmamento...

Foi estrela-cadente... Cintilou
no alto dos céus, num rápido momento
e... nas sombras da noite se apagou!


Eternidade


Estamos fora do tempo...

Este instante de amor que vivemos
é a eternidade.


Existo


Seu amor me fez real, e me deu o sentido
da alegria de ser, total, completamente...
Fez de um pobre poeta em sonhos consumido
alguém que tem nas mãos um mundo! e sofre, e sente!

Seu amor foi a vida a irromper da semente
de um velho coração cansado e ressequido,
o verde que voltou ao ramo nu, pendente,
a imprevisível flor, o fruto inconcebido...

Seu amor foi milagre a cantar pelo chão
como a água, no agreste, a acenar ao viajante
a esperança, o prazer, a vida, a salvação...

Passo a existir, quem sabe? apenas porque a amei...
E ela existe talvez, a partir deste instante
porque ela e o seu amor... em versos transformei!


Facho de Luz


Às vezes, tua cabeça loura em minhas mãos
é como um facho de luz.

E é tanta a claridade que cega o meu desejo,
que cerro os olhos, encandeado, e para não me perder
agarro-me ao teu beijo.


Falta de ar


Há dias que posso passar sem sol, sem luz,
sem pão,
sem tudo enfim...

(Tenho até a impressão de que não preciso de nada...
... nem mesmo de mim...)

Mas há dias, amor... (e parece mentira)
- nem eu sei explicar o porquê
de tão grande aflição -

em que não posso passar sem Você
um segundo que seja!
- de repente preciso encontrá-la, é preciso que a veja -

- Você é o ar com que respira
meu coração!


Família...


Da janela do meu apartamento, à noite, quando chego
vejo defronte, a mulher sentada à máquina de costura
sob um foco de luz.

São oito a meia. As janelas da sala, dos quartos, de todo o apartamento
estão apagadas.

A mulher continua costurando, costurando. Ao seu lado
estão sempre brincando um menino a uma menina,
(devem ter 5 a 6 anos)
e sobre a cama de casal ha um menorzinho, quase sempre pulando
sobre o colchão.

Vez por outra a mulher se volta para eles, ( não ouço o que diz)
mas faz pouca diferença porque eles continuam fazendo a mesma coisa.

De repente, ela para de costurar.
As crianças desaparecem.
Um minuto depois, ele se curva para beijá-la, ela se levanta e sai.
As crianças se agarram as pernas dele, entram e saem
correndo por todos os cômodos.
...................................................................................................................

Da janela do meu apartamento, à noite,
todas as noites,
me emociono a pensar, não sei o que...

“... Ser pai é ser esperado, é parar a costura,
é ser segurado pelas pernas, é, de repente...
acender o apartamento todo!”


Fatalidade


Há muitos anos eu te escrevia
sem por endereços em meus versos.

Tu lias,
compreendias,
e esperavas... que o meu caminho
atravessasse o seu

Era uma fatalidade
o que se deu...


Fuga?



Escrevo. Tento evadir-me.
Para onde? Se não há saídas
se já experimentei todas as vidas
e em vão...

Tento evadir-me, e as palavras
são como túneis
sem fim, em minha solidão...


Gosto quando me falas de ti...


Gosto quando me falas de ti... e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos tranqüilos

Gosto quando me falas de ti... e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs...

Gosto quando me falas de ti... quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,
maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti... e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol
distendido,
e descortino o teu destino, como um caminho certo, cuja
primeira curva
foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti... porque percebo que te desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrola inútil como um novelo
que nos cai no chão...


História



Eras a Musa
eu, o poeta...

Aconteceu naquele instante
em que, displicente,
me estendeste a mão dizendo adeus
- como que diz até logo, -
e eu tive a impressão de que subitamente,
minha vida era uma nova Pompéia
que submergia em lavas para os séculos.

Agora
revendo as provas dos velhos poemas
que me queimaram,
te desenterro estátua irreconhecível
entre cinzas e palavras,
lembranças de um mundo em que fomos personagens,
e em que hoje, és história,
e eu, - arqueólogo.


Histórias...


Histórias...
Coisas loucas talvez, vagas, simplórias...
Isso tudo sou eu que imagino,
Você desculpará....

Vamos contar histórias.....
- Era uma vez..... um barco pequenino
que abriu velas ao vento do Destino.....
.......e por onde andará?


Identidade



Se me encontrarem morto no rua
(como um indigente, um desconhecido)
apenas com a minha poesia.

- seria bem fácil me reconhecer...

Bastaria que entregassem à primeira moça
que passasse,
a poesia, para ler,
e ela haveria logo de dizer (com a alma inquieta):
- é o meu poeta ...

... E, tenho certeza,
(desculpem-me a imodesta convicção):
- uma lágrima límpida e silenciosa
turvaria seu coração...


Irremediável...


Nunca que aprende o coração da gente!
Sempre a eterna e inevitável necessidade
de crer no amor
irremediavelmente...

Quando um amor se vai,
nos castiga ou nos trai,
logo se esquece o insulto
ao vir a solidão...

- e o “ateu”, o descrente,
retornam ao velho culto
tão logo um outro amor acena
e ilude novamente
o coração....


Irremediavelmente


Hoje, quando me encontras
sou um homem amargurado
a tentar esconder-se em sua alegria triste
e em seu triste humor.

Sou um homem ferido, que ainda vive e resiste
desfeiteado
por um amor morrido:
inacabado amor.

Por que não foges? Por que te contaminas
com o fel
dessa melancolia,
que em vão, de risos e cantos
se fantasia,
procurando encobrir um pessimismo cruel
e medonho?

e por que partilhares esse amargor doentio
tu que és toda Primavera
e tens direito ao sonho?

Se há tantos corações iguais ao teu,
no estio,
por que tua ternura ingênua persevera
em vir morar num coração tão frio
e tristonho?

Percebo, - e basta um segundo só, se me concentro:
- sou um homem morrido, irremediavelmente triste
por dentro
a pintar-se, entretanto, por fora de alegria,
por orgulho, pudor, por estranha ironia...

E a tentar disfarçar em vão, seu cansaço
e seu tédio...

Desiste, amor, desiste!
Não gaste tua vida assim, inutilmente,
para salvar um doente, a quem o amor fez doente
sem remédio...


Janela aberta


Chegaste em minha vida
como uma janela aberta
nuca casa vazia e triste.

Trouxeste um dia de sol
um aceno de folhagem
um canto de pássaro.

Que importa se continuo a ser
a mesma casa triste
e vazia?

Debruçado à janela agora
posso te ver passar...
todo dia...


Lar


Na estante
meus livros me esperam
e a um simples aceno, conversam
e contam histórias...

Na penumbra
em terna expectativa
minha poltrona guarda em seus braços
a forma do meu cansaço.

Cegos
meus pés calçam no escuro
os chinelos, ao lado da cama.

Em silêncio, meu sono
encontra outro corpo,
(sem fome, sem sede)
e se acomoda e adormece nele
como uma rede...


Loucura...


A verdade
é que chegaste tarde,
e não pude prever que um dia vinhas...

E o que teria sido um sonho bom e igual
a tantos outros,
uma história de amor e de ternura...

- não pode ser amor somente, e sendo mais
teve que ser loucura!


Madrigal em tom de prece


Principalmente gosto dos teus olhos de águas e espantos
onde flutuas em transe, na luz de duas estrelas fugidias,
e porque eles me dizem que continuas intocada por dentro
e eu fui o primeiro, e há muito me pressentias.

E gosto de teus cabelos quando escorrem
entre meus dedos, e me dão a impressão
de que te tenho nas mãos, e de que todo me emaranho
em sua rede, e de que estamos presos, submersos, perdidos,
sem salvação.

Gosto de tuas mãos pequenas, boêmias, andarilhas
que saem com o destino do amor, e me percorrem,
e se perdem sem caminhos pelos meus cabelos
e me encontram por toda parte, e me aconchegam,
e me socorrem.

Gosto dos teus quadris, amplo vaso torneado
de onde nasce, num torso de planta, a envolver-me
em seus ramos,
de planta que se abre em flores e frutos
que eu desejo e colho
vermelhos, em tua boca, em tuas mãos, em teus seios,
quando nos amamos.

Gosto de tuas costas (como um arco, flexível)
que se alargam em duas luas imensas, geminadas,
surgindo entre os lençóis,
clareando a escuridão,
e que às vezes, de certo jeito, me parece
em teu corpo de mulher,
num meneio qualquer,
com uma grande, exótica e sensual
folha de tinhorão!

Gosto de tua ternura, ternura de vaga mansa,
ternura de praia curva, de enseada onde me deito
como um barco carregado de itinerários,
e de onde, sempre, nunca mais quero partir,
se tudo em torno é perfeito...

Gosto de teu amor... humilde amor que me incensa,
(turíbulo em que teus sentidos todos se consomem)
humilde amor que me exalta, e se prosterna fiel,

como se fosse um Deus, pobre deus submisso
a este culto que o faz tão simplesmente um homem,
- um homem tão preso à terra,
de repente... no céu...


Madrigal para uns olhos verdes

Nos vossos olhos de mar
de um verde-mar furta cor,
quis um dia navegar
- afoito navegador...

E afinal, por me perderdes
nos vossos olhos de mar,
de um verde-mar furta cor,
dos vossos olhos tão verdes
nunca mais soube voltar...
..................................

Vossos olhos são tão verdes
de um verde-mar furta cor,
que afinal por me perderdes
fiquei perdido de amor...


Maluco...


Só sei que depois que a encontro,
só sei que depois que a vejo
não posso dirigir automóvel...

Entro na contramão,
não respeito os sinais
quase atropelo gente,
me chamam de maluco...
e, às vezes, até demais...

E todos tem razão...
Só que não sabem a razão
porque...
Mas quando a vejo, meu amor,
fico maluco, maluquinho
por Você!


Mar, amor e morte...


Esse tédio cinzento... esse imenso vazio
sem nenhuma paisagem...
Esse vento do mar, de umidade, de longes
em que todo me encharco...

E eu a agarra-me à vida
tremendo de frio,
- sem a coragem do comandante do navio
de afundar com o seu barco...


II
Vamos respeitar o amor...

(Um dia, ele aconteceu...)
- pelo que tenha sido,
por tudo que lhe demos
ou... pelo que ele nos deu.

(Nem era para nós, difícil, o presságio...)

- Se nada resta fazer, se tudo está perdido,
que ele ao menos se salve
do nosso naufrágio...


Margarida...


Quem já viu a margarida
na sua haste leve e fina
sobre o dorso da colina
ao vento suave a acenar?

Pois ela é assim, parecida,
em sua inquieta alegria,
oscila, e é toda poesia,
quando vive em meu olhar...


Mensagem cifrada


Minhas costas ficaram como sensíveis palimpsestos
onde escreveste, com os estiletes de tuas unhas
estranhos caracteres
em misteriosa linguagem...

São loucos hieróglifos que gravas sem sentir
como um artista em transe que se pusesse fora de si,
a transmitir a sua mensagem...

Nem tu mesma és capaz de traduzir os sinais
que deixaste gravados em minhas costas
fixando aqueles instantes de infinito prazer
e exaltação,

e eu penso, que se pudesse um dia decifrá-los
teria descoberto o segredo da escrita
do amor
e penetrado, e revelado o enigma
da própria Criação!


Meu rumo


Sou um barco de 7 mares...
És a vela branca
do meu pensamento...

- Vou para onde me levares
ou aonde nos leve o vento...


Monólogo do barqueiro solitário


Não sei como consigo conter este desejo que sopra
e me impele para ti
como um barco para o mar...

Não sei como consigo amarrar-me a mim mesmo
como quem nada sente,
a simular esta calma, esta paz,
deixando-me ficar como um barco a bater inutilmente
contra o cais...

Ahl Se ainda fores minha! Enfunarei mil velas
pelo oceano a fora,
soltarei bandeiras, seguirei audacioso o meu roteiro...

Ah! Se tu fores minha! Não viverei assim
em viagens de sonhos
preso às amarras do meu desespero...

Partirei em busca daquela ilha
que veio em teu olhar...

Ah! Se tu fores minha, que maravilha!
Serei dono do Mar...


Motivo moderno para solo de violino


Que importa se lá fora os carros passam,
os jornais têm manchetes atômicas,
os foguetes violam o espaço,
e os homens práticos carregam pastas
grávidas de negócios,
e fígados insociáveis?

Aqui, junto a ti,
em nosso leito,
meu coração século dezenove te ama,
e murmura coisas que eu fico bobo de ver
como te deixam derretida,
e tocam teu corpo
como um arco de violino...


Não digas...


Não diga: sem este amor
morrerá meu coração...

Do tronco abatido, calcinado,
e que parece morto,
irrompe às vezes, às primeiras chuvas
nova vegetação...





E ficamos tão nós
tão um no outro
que não sabemos mais onde um começa
e onde o outro termina...

Demos um nó cego
em nossos destinos...


... Nos Bastidores


A luz dos refletores
batias asas ...

E no amplo palco iluminado
e no meu coração desesperado
bailavas...

Bem que te quis tomar nos braços
quando chegaste, trêmula, comovida...

Mas, apenas te fitei...
É que devo continuar
onde fiquei:
nos bastidores... de tua vida...


Nossa cama


Olho nossa cama. Palco vazio
sem o drama, sem a comédia,
do nosso amor.

A nossa cama branca,
branca página, em silêncio,
de onde tudo se apagou...

(Meu Deus! quem poderia ler aquelas ânsias, aqueles gemidos,
aqueles carinhos
que a mão do tempo raspou, como nos velhos
pergaminhos?...)

A nossa cama
imensa, como a tua ausência,
tão ampla, tão lisa, tão branca, tão simplesmente cama,
e era, entretanto, um mundo,
de anseios, de viagens, de prazer,

- oceano, que teve ondas e gritos encapeladosapelados,
e nele nos debatemos tanta vez como náufragos
a nadar... e a morrer...

Olho a nossa cama, palco vazio,
em nosso quarto, - teatro fechado -
que não se reabrirá nunca mais...

Nossa cama, apenas cama, nada mais que cama
alva cama, em sua solidão
em seu alvor...

Nossa cama:
- campa (sem inscrição)
do nosso amor.


Notações tristes à margem do amor


1
Sim, não somos os mesmos, reconheço
e até
confesso com amargor...

Repara no que tu és
e no que sou agora...
Vamos parar, portanto... Antes guardar de pé
as lembranças do amor
que apagá-las, de rastos, sobre o chão de outrora...


2
O desencanto é perceber que deste ponto em diante
tudo já foi vivido, experimentado,
e não há mais o que ver...

Compreender, imprevistamente, que tudo é passado...
E... mesmo sem presente, e sem futuro:
continuar a viver...


3
Acabaríamos nos envergonhando de nós mesmos,
(nós que nos amamos, nós que fomos amantes)
se este amor que viveu de sensações extremas
e gerou cantos e poemas
acabasse afinal,

burguesmente, como uma festa domingueira,
ou ficasse a rolar sem lances de beleza
uma rotina monótona
e banal...


4
Seria tão fácil se te pudesse falar
sem ressentimento ou rancor:

- se não mais nos amamos
vamos parar onde estamos,
não vamos azedar
um doce amor...


5
Acho que posso ver além dessa alegria
que desabrocha em meus lábios, desafiando
a minha dor...

Também na madrugada em festa, ao vir do dia,
há lágrimas de orvalho límpidas chorando
no riso de uma flor...


Noturno sem número


E eu tão só, e eu tão cansado...
A alma já nada quer
nada reclama...

Só tu cintilas como estrela
numa límpida radiância
na noite de minha insônia...


Nunca pensei...


Nunca pensei que ao ter-te ainda a meu lado
eu pudesse sentir-me, em solidão,
tão só, tão sem ninguém, desesperado,
que nem mesmo a lembrança do passado
tornasse menos frio o coração...

Ah! pior solidão é essa que a gente
sente ao lado de alguém que se perdeu...
Havia tanta coisa... e, de repente,
tudo se esvai, inexplicavelmente:
- já não sabes se és tu, nem se eu sou eu!

Nunca pensei que em tua companhia
pudesse sentir em solidão...
Ah, negra é a noite se foi claro o dia,
e maior é a tristeza, se a alegria
antes cantava em nós, era canção...

Nunca pensei que ao ter-te ainda comigo
no vazio cruel desses instantes
me sentisse tão só, como hoje sigo,
e pudesse concluir, como um castigo:
- tanto mais juntos... quanto mais distantes!


O espelho


Dizias não gostar dele...
Mas já te vais acostumando à sua silenciosa
presença...

Mudo espectador só ele tem o direito de assistir também
às redescobertas de tu beleza.

Tu me chamas de louco, porque às vezes,
não contento de ver-te a face,
te surpreendo em descuidadas revelações
em seus olhos prateados...

Tolice, amor,
por ele posso encontrar num imenso instante
todas as faces de tua beleza
e multiplicar ao infinito
as loucuras e alegrias do nosso amor!


O véu da fantasia


Desnuda-te apenas nos instantes cegos dos sentimentos
quando todos nos transfiguramos,
(de nós mesmos, esquecidos...)

Meu Desejo quer-te velada
novamente,
tão de pronto meus braços te soltem
tal como um tronco abatido
ao sabor da corrente...

Não te exponhas assim, displicente, aos meus olhos
que banalizas tua beleza
e podes te igualar a encardidas visões...

Que desça o pano ao fim dos espetáculos
e que voltes aos bastidores
antes das novas apresentações...

Quero-te nua em meus braços, (mas deixa que te confesse:)
quero-te nua, com essa encantada nudez
que eu diria
vestida sempre com um véu
de fantasia...


Obra-prima


A sua adolescência é em si
uma obra-prima
da natureza,
um pequeno universo...

É impossível conter toda a sua beleza
numa rima,
ou medi-la num verso...


Outros caminhos...


Chegas de muito longe... trazendo meu sonho,
e és a imagem da pureza que eu escondi no fundo
dos meus fracassos...

Perdoa, meu amor, se de joelhos me ponho...
E se terás que passar por esse chão imundo
se quiseres chegar
até meus braços...


Pavana para uma criança morta


E afinal
em meio a tantos embaraços
eis ao que chegamos, sem perceber...

Andamos de um lado para outro
com essa criança nos braços
sem saber o que fazer...

Um sentimento de culpa nos persegue...
Diante dela, ainda choras,
e a minha alma se cala...

Fomos nós que a deixamos morrer sem um gesto sequer
para salvá-la...

E agora, a carregamos
sem reconhecimento, sem piedade,
esquecidos de tudo que nos deu, em outros tempos
de felicidade...

Mas para que lembrar? Houve mesmo outros tempos
em que ela nos pegou pela mão, como crianças
bêbedas de vida
sem falsos pejos,
e embriagou-nos de carícias
e desejos?...

Hoje... Somos nós que a levamos, em nossos braços,
pesados braços, caídos braços, já sem abraços,
sem coragem de enterrá-la
no coração...

E por que esperar por um milagre, se nós não cremos
em milagres?
- Se nós não cremos em ressurreição?


Paz...


Assinemos a paz...

Pelo que fomos
mas já não somos mais,
não vamos desprezar o nosso amor
como um amor qualquer...

Aceitemos o Destino - que a ele cabe
pôr e dispor -
e já que não foi possível a felicidade...

... seja o que Deus quiser...


Pequenina...


Sim, és pequenina...
E sendo mulher, lembras mais
às vezes, uma menina...

Uma menina cheia de sonhos
vãos...

Sim, és pequenina...
(como gosto que sejam as mulheres
para melhor caberem em minhas mãos...)


Pergunta tola


Afinal
(para o meu bem
ou para meu mal)

- encontrar Você
para quê?


Presença...


Se esta página onde escrevo
fosse um espelho, meu amor

... estaria embaciada ainda
pelo teu calor...


Príncipe Encantado


Ontem
Me senti Príncipe Encantado
quando você me encontrou...

E ao Vê-la
em sua ingenuidade sonhadora,
em sua desprevenida beleza,
fiquei a lastimar antecipadamente a sorte
de mais uma Princesa...


Quanto a mim...


Bom é saber que me esqueceste,
e descobrir (para meu mal
ou para meu bem?)
que eu apenas te amei...

Que tu fosses feliz
foi afinal
o que sempre desejei
e quis...
........................................................................

Não choro, não me lamento
de nada sinto falta...

... E para que falar em sofrimento
se a noite vai alta...


Receio...


I
Às vezes receio (e talvez falte pouco)
que esse ímpeto que vem do coração
com uma força estranha,
extravase em ternura quente
como as lavas de um vulcão pela vertente
de uma montanha...

Receio que transborde
esse ímpeto louco, que domo
nas profundezas do Ser
e é fogo, em meu olhar...

E eu ponho tudo a perder...
Tudo... Eu que há tanto tempo me contenho
não sei como,
a esperar...


II
Nesse silêncio me aprisiono
e me acovardo,
nesse silêncio me guardo...

Por mim, por ti, por nós dois,
é melhor que não venha a palavra,
que eu fique mudo...

Se te dissesse a primeira palavra
talvez depois
fosse capaz de tudo...


Remorso?


Por que há de ser assim o amor,
sempre desajustado
em nossas vidas?

Esta ternura que tanto te cativa
uma outra inutilmente a desejou
e bem que a mereceu....

Perdoa, amor... Mas essa ternura
que te dou,
é remorso talvez, sentimento de culpa,
que seu eu?

Prodigalizo-te o que por tanto tempo
neguei, sem explicação,
a quem tanto se deu, e desesperada se foi
sem qualquer explicação...


Restos de naufrágio...


Me lembro de teus gestos de criança, teus olhos garços,
teus cabelos louros despenteados
pela aragem fria,
me lembro de tua perturbação adolescente
naquele dia...

E da expressão de teu olhar
sempre que me encontrasse,
quando o amor era um primeiro rubor de alvorada
em tua face...

S então eu fosse teu e tu fosses minha
eu, puro, sem passado, a esperar pelo mundo;
tu, a imagem da própria ingenuidade
em seu canto inicial,
nosso amor teria sido um céu azul, profundo,
onde dois pássaros esvoaçassem
antes do pouso nupcial...
......................................................................................

Maldade do Destino... Coisas da Vida em seus desígnios...
nem pudeste ser minha e nem pude ser teu...
(Ah! aquele instante dos instantes
que irremediavelmente se perdeu!)
- em que este amor teria sido o amor perfeito
como as manhãs de abril nas montanhas distantes...

E hoje que tens cansado o corpo e a alma entregas
em gestos lassos,
com esse jeito de quem tem pago pelo pouco
que tem recebido,
um doloroso preço,
- hoje, enfim, que te tenho em meus braços,
eu, também, sou um saturado, um perdido,
e já não te mereço...

Depois de tantas voltas inúteis, nossas vidas
que ventos estranhos desarvoraram
sobre o mar,
são como os restos de um naufrágio
que as ondas dispersaram
e ao fundo de uma mesma praia
foram dar...

Restos... somos restos de nós mesmos
a boiar...


Revolver


Tu me tomas-te, encantada,
em tuas mãos,
(como um menino a um revolver de brinquedo)
com uma alegre ingenuidade...
..........................................................................

Só que ainda não te apercebeste
que é um revolver de verdade...


Rio-me



Rio-me, e entretanto, eu sei que estou doente
que um cansaço de tudo às vezes a alma invade,
e de repente, sou como um mendigo ao fim do dia
sem ter para onde ir, à hora em que todos voltam...

Rio-me, e entretanto, eu sei que às vezes choro
sem lágrimas, sem pranto, só por dentro, e sinto
que a vida de repente é uma coisa sem nada
que lhe possa explicar um segundo que seja!

Rio-me, e entretanto, a vontade que tenho
é de às vezes deitar-me na rua, e esperar
que um vento sopre a luz dos meus olhos, mais forte,

e acabe de uma vez com o que nunca devera
um dia começar, se o fim que se anuncia
ninguém sabe seu nome: é vida, sonho, ou morte?


Sabedoria


Não te percas em vã filosofia...
O negócio é viver..... Vive primeiro!
O pouco que alcançaste é o verdadeiro,
e o resto, sonho só, - tudo utopia.

Deixa passar o que não pode ser!
A esperança do vão, é doentia...
Ergue a mão ao que a mão pode colher
e ao que está longe, esquece e renuncia...

Se tiver que chegar o inesperado
colhe-o, que essa é a atitude de quem vence:
saber colher o bem predestinado...

A Vida é o mais efêmero dos bens
nela em verdade, nada te pertence,
nem sabes aonde vais... nem de onde vens...


Sem querer...


Tu nada dizias...

Mas eu precisava saber
para aplacar minha dor...

Foi então que toquei tuas mãos
sem querer...

Tuas mãos, tão frias...
- Obrigado, meu amor...


Silêncio


E porque tudo
queremos dizer...

Nunca temos tempo
de dizer nada...


Sinal errado...


Teus olhos verdes,
traiçoeiros,
indicavam passagem livre...

Segui...

Era o abismo...





Lá fora há um luar triste
molhando tudo...

Será o luar
ou serão os meus olhos?


Solilóquio amargo



As vezes (e estamos em nossas vidas, naturalmente,
vivendo dias e noites, dias e noites
há tanto tempo...)

- e, de repente, um pensamento amargo e insólito
toma conta de mim.

Um dia - e ele chegará - um de nós terá
que partir,
e o outro, vai ficar.

Eu? Você? Quem terá que se despedir
sem dizer para onde? Quem terá que ficar
sem dizer para que?

Imagino esse dia, - e um estranho pavor me paralisa
por alguns momentos.
Não concebo minha vida sem Você,
e, - desculpe-me - tenho mais pena de Você
se for eu que tiver que ir embora.

Ha tantos anos vimos trazendo nossas vidas como uma vida só,
e de tal modo as juntamos que o dia em que tivermos que separá-las
a que ficar, será um simples destroço, um pedaço mutilado de vida
incapaz de sobreviver.

Para que, meu Deus? a gente construir com duas vidas
um destino só,
fazer esse trabalho dias e noites, de tantas pequeninas coisas
aparentemente insignificantes,
de momentos de puro prazer, de horas de lenta agonia,
construí-to lentamente, como quem estivesse fazendo uma
obra para sempre,
e, subitamente - sem o menor aviso, sem a menor razão,
depois de tanta coisa juntada, e sonhada, e sofrida,
uma força maior - como uma faca - corta tudo ao meio
e uma metade se enterra, e a outra metade, de pé, se desmorona
como um auto-mausoléu de areia?
.....................................................................................................

Eu te agradeço, Senhor, que este pensamento
só raramente me venha, e logo o sopres além...

Que seria de mim, afinal, se ele pousasse por mais tempo
em minha vida?


Solilóquio ao entardecer


I
Interessante, amor, como depois de tantos descaminhos
de tantos desajustes, a vida vai ajeitando a felicidade,
ou a felicidade vai se ajeitando na vida, sem a gente perceber,
se enrodilhando em si mesma como um gato no tapete.

Como vamos reduzindo as proporções de nossos sonhos
(sem que nos apercebamos disto),
modificando nossos planos (aquelas aspirações que eram
como viagens à Marte),

limitando os horizontes de nossa felicidade,
e por isso mesmo, tornando-a possível, real, palpável,
capaz de ser possuída, sem nada perceber de seu conteúdo,
antes tomando uma forma imprevista. Apenas.

Estranho, amor, como a felicidade
pode se reduzir a um quase nada (sem deixar de ser tudo)
sem deixar de ser felicidade!

(Sabe uma coisa, amor? A gente só pode ser feliz depois
de ter andado muito, e ter provado
os tragos amargos da vida,
e depois que afinal a gente chega a uma espécie de filosofia
sobre o querer, e o poder alcançar...)

Interessante, amor, mas vamos concluindo que a renúncia
é a irmã mais velha da felicidade,
- Irmã Renúncia! - e só por ela, chegamos tantas vezes
aquela alegria de saber
quanto nos basta esse pouco que nos transborda das mãos...


II
Hoje, por exemplo, basta estar em casa, basta Você estar comigo
para que me sinta feliz...
De repente me ocorre que há hoje tanta gente que não pode estar em casa,
que não sabe o que é estar em casa - sentir vagamente, em torno
o calor de uma companhia que faz de cada coisa inanimada
algo que existe, e vibra, e sente, e sofre, e ama,
como um Ser.

(De deixe que lhe confesse, depois de tanto tempo lado a lado:
- nunca a casa me parece tão vazia, como agora
se acaso chego, e não a encontro...)
É tão fácil entender: Você está em toda parte: nas flores das jarras,
na porta entreaberta, no rumor da cozinha, na bolsa sobre a cama,
em tantos lugares! na ordem das coisas, no gosto dos detalhes,
(em tantos detalhes só acessíveis à minha percepção...)

Hoje, basta você estar em casa e já me sinto feliz,
se seu andar, seu vulto, sua voz,
“materializam” sua presença a todo instante.

Basta saber que cada providência sua é um pensamento em mim,
basta saber que vamos nos sentar juntos, à mesa ( e essa é
sempre uma hora de comunhão)
- e vamos nos deitar juntos... E até já não importa se
conversamos tão pouco
sobre o tão pouco de nossas vidas,
se nossos corpos apenas se tocarão, ao acaso, sob os lençóis,
como dois ramos acenando, na sombra, ao entardecer.

Quem nos vir há de pensar que somos apenas duas pessoas sentadas
à mesa,
conversando na sala,
vendo televisão,
duas pessoas dormindo na mesma cama;
e entretanto, que engano!
- somos dois mundos, duas vidas
construídas há tantos anos em tantos irreconstituíveis momentos,
unidas como fios, por duas agulhas que tecem
a mesma malha,
e eu não poderia olha-la como a olho, se Você não viesse de tão longe
em meu coração,
nem Você sorriria para mim desse modo, se eu não fosse para Você
tanta coisa de que talvez nem Você mesmo se aperceba.

Não sei se consigo traduzir essa sensação de felicidade
que me vai possuindo inteiro - e se vai entranhando em mim,
numa infinita tranqüilidade
que sinto na alma, no coração, nas mãos, nos braços, no corpo todo,
sem nenhuma razão aparente,
e por tão pouco, dirão.

Mas hoje basta Você estar em casa, mais nada, apenas estar em casa,
na tua casa que é a minha casa, na nossa casa,
para que eu me sinta feliz.


III
Chega a ser tola, confesso, essa emoção que faz com que
me deixe ficar esquecido
numa poltrona, em silencio, na penumbra, nesta hora quase noite...
E olhando as coisas em torno, e recostando o corpo pesado,
e cerrando os olhos para me ver melhor, me digo sem nenhum medo
que me sinto tão bem, tão em paz com a minha vida
que ate podia morrer.

(Nada deve haver de pior, afinal, para a felicidade,
que a gente chegar de volta, ao fim do dia,
e não encontrar em sua casa
senão uma casa vazia.)

Hoje, basta saber que continuamos juntos, a seguiremos assim
até o fim;
que tormentas medonhas não conseguiram separar-nos,
que vencemos obstáculos que pareciam intransponíveis
além das nossas forças;

- que continuamos juntos, no mesmo barco, como dois remadores
que ficaram em seus lugares quando as vagas cresceram,
e apertaram suas mãos aos duros punhos dos remos
e somaram a sua fé, a avançaram mais fortes, a sentiram que sobreviveram
porque estavam juntos.

Hoje, basta pensar que alcançaremos as calmarias do fim da viagem
quando as correntes e os ventos não estremecerão mais
nossos nervos cansados,
nem agitarão nossos cabelos grisalhos,
e, quem sabe? - chegaremos à terra, braços dados
um no outro, como antigamente, quando era o começo,
e cegos e aventurosos não conhecíamos o roteiro,
nem perigos e emboscadas...

Hoje, basta Você estar em casa para que me sinta feliz...

E nesse momento em que a felicidade parece se reduzir
e ficar mais leve,
para que a possamos carregar,
deixa que lhe confesse amor, que hoje, Você é sempre,
e é muito mais que aquele amor que foi, e continua sendo,
porque posso chamar Você agora
(e até a hora derradeira)
o que Você não podia ser outrora:
- a minha companheira.


Sonetinho


Não tenho jeito pra trova
apesar das que já fiz,
a quadra lembra uma cova
com a cruz dos versos em x...

Ainda estou vivo e feliz
e do que digo dou prova:
- tentei cantar numa trova,
e meu amor pediu bis.

Bem sei que é meu o defeito
mas uma trova é tão, pouco
que ao meu cantar não dá jeito

Só mesmo um poema é capaz
de conter o amor demais
que trago dentro do peito.


Sorrio...


Ah! vieste me falar de antigamente
desse tempo em que fui sentimental,
quando o amor era um sonho puro e ardente
vestido em véu de espumas, nupcial...

Quando me dava, perdulariamente,
vivendo o mal sem conhecer o mal,
a levar a alma inquieta de quem sente
e de quem busca uma conquista ideal...

Era sestro da idade essa existência...
Sinal de pouca vida e muito sonho,
de muito sonho... e pouca experiência...

Hoje, no entanto, se a pensar me ponho:
- sorrio... Um vão sorriso de indulgência...
...Sinal de muita vida... e pouco sonho...


Sorte...


Está aí, amor, uma coisa que às vezes me pergunto,
(naqueles dias de silenciosa ternura
naqueles momentos sem assunto,)
- uma coisa tola que eu penso
e que você não advinha:

- como podem os outros homens ser felizes,
se Você é uma só...
... e se Você é só minha?...


Tempo perdido


Quanto tempo perdido, e como dói
pensar que nunca mais o reaveremos...
Vivemos longe um do outro, como extremos,
que o tempo, - um moinho - lentamente mói...

Quanto tempo perdido... Eu, já mudado,
sem aquele entusiasmo, aquelas ânsias
que ficaram perdidas no passado
e se vão diluindo nas distâncias...

Tu, sem aquela expressão ingênua e pura
aquela ar de menina, que pedia
proteção para um sonho de ventura
que seu olhar inquieto refletia...

Tanto tempo perdido... E houve um momento
quando nos vimos a primeira vez,
que o amor seria belo, como o vento
como o mar, como a terra, o sol, talvez!


Tempos...


I
E dizer
que eu não podia passar um segundo sequer
sem saber onde estavas...

Hoje,
nem sei se existes...


II
Houve um tempo, em que eras
o Presente, o Mais-que-Perfeito
o Infinitivo...

Hoje...
nem és Passado...


Terezinha


Terezinha
Terezinha,
que não é de Jesus
nem será minha...

De quem será?
De quem será?
Que inveja eu sinto
de alguém que está
não sei bem onde,
de alguém que um dia
certo virá
e levará
a Terezinha

É a Padroeira
de antigo sonho
que em minha alma
em vão se aninha...

Terezinha
Terezinha,
que não é de Jesus
nem será minha...


Teus cabelos


Estamos quietos amor, em bonança
esquecidos de nós
viajando por nós mesmos, sem nós mesmos...

Distraída e imprevidente
te recostas em meu peito
e estás leve e alheia como uma criança sem sono.

De repente, minha mão encontra teus cabelos
e como estranha aranha se esconde em tua nuca,
e meus dedos se entranham e se emaranham
como raízes profundas, silenciosas.

São teus cabelos, sim,
não posso mais tocá-los...

Tem estranhos eflúvios que me fazem estremecer
até o fundo de mim mesmo,
e... já não me reconheço...

Tua cabeça em minha mão acende-se como uma tocha loura,
e olhos em teus olhos as chamas que ardem, sopradas
por que misteriosos ventos?

Gosto de encher as mãos com os teus cabelos,
como um lavrador, a recolher, feliz,
as louras messes de uma farta colheita.

Ah, teus cabelos, amor,
são um incalculável tesouro...

Quero morrer sempre e cada vez mais
como um rei Midas afogado em ouro
perdido neles, como em mar de sonhos...


Trago amargo


Dispenso as palavras
de conforto...

Tomarei como um trago amargo
o meu desgosto...

- Amor morto:
amor posto.


Trovador


E vou iludindo, assim,
aos outros
e a mim...

Sigo
a espalhar cantiga,
trovador de alma triste
e alegre bandolim...


Tudo?... Nada?...


Que hei de dizer-te se nada te posso dizer?
Se tudo sabes sem uma palavra em meus lábios.
Se meus olhos toda vez que te encontram
se confessam como um pecador,
e eu não posso evitar que eles falem por mim
e revelem aos teus olhos meu segredo de amor?...

Que hei de dizer-te? Se nada te posso dizer...
Se devo parecer um incoerente, um tolo...
Se só me resta afinal esse consolo
de me confessar toda vez que meu olhar
encontra o teu olhar...

Há tanta coisa ao redor... tanto cenário inútil
ao nosso encontro,
- encontro só meu,
pois que afinal nem sei se ao me veres, me vês,
ao cruzar meu passo com o teu...

Tão complicada esta vida... E como seria simples
amar-te
tomar-te como uma criança em meus braços, beijar-te...
(Perdoa, amor, estas coisas que penso
e a estas horas tardes, componho... )
- tomar-te só para mim, e dividir contigo
pedaço por pedaço, inteirinho, este amor,
este sonho...

Chamo sonho a este amor com que me embriago,
amargo pensamento onde apenas é doce
a tua presença,
perdoa, amor: pensar em- ti, era, a principio, vago,
no começo, nem supus que importante isto fosse,
hoje, pensar em ti já é quase uma doença...

Que hei de dizer-te, afinal, se nada posso esperar...
Se temo que tudo se desmanche...
Receio pronunciar qualquer palavra, a palavra
que seria essa pequena pedra deslocada,
capaz de provocar uma avalanche!
... e sepultar
este sonho, e fazer de tudo...
... nada!


Um novo amor


E de repente... (parece incrível)
- o tudo de antes, não existe mais
não interessa...

Um novo amor, amor,
é sempre um mundo novo
que começa!

Não importa a experiência que tiveste
ou que julgas Ter,
nem essa íntima e inútil convicção
de que nada mais poderia em tua vida
surpreender o coração...

Não importa o percorrido
o conquistado,
ou o que antes foi desejado
por teu marinheiro coração,
- um novo amor
começa tudo do chão...

é como se abrisses os olhos para a vida
naquele instante,
como se para trás nada tivesse havido...
Nasces com um novo amor! E viverás de novo
o mistério deslumbrante
do que há de acontecer, como se nunca tivesse
acontecido...

De repente
nada mais resta,
o ontem, foi uma noite que passou,
- o hoje é o que importa, é o que se vai viver...

Um novo amor, é uma festa,
é uma nova alegria...
Um novo amor, amor, é um novo dia
que vai nascer!


Vaga


E um dia,
levaste com um gesto de vaga sobre a areia
tudo o que havia em minha vida...

Com um vai-vem de vaga, apagaste
tudo,
e restou a praia limpa, a areia branca,
e uma manhã de sol, sem brumas...

E a tua presença de vaga
vaga ternura , em vagas
de carícias a envolver-me todo
de espumas...


Variações sobre o amor


I
Agora que te amo
concluo e proclamo:
nunca haverá um amor igual ao outro,
podes crer...

Como não há o mesmo beijo, o mesmo olhar,
a mesma ternura,
o mesmo prazer...


II
O amor é como o perfume...
Uma vez que se sente
nunca mais se mistura ou se pode esquecer
completamente...


III
Tu pensas que amas muitas vezes...

Engano, puro engano,
esse é um estranho milagre do coração
humano
que custei a entender,
e que ainda não compreendes talvez:

- toda vez que se ama
é a primeira vez...


IV
Nunca se ama duas vezes
porque apesar de um só, o amor não se repete
no coração da gente...

O amor é como o mar...
- único, múltiplo,
diferente...


V
Os amores são como as ondas
no mar...
Parecem todas iguais quando espumam, distante,
e se põem a avançar...

Entretanto, nunca haverá uma onda
igual àquela que se elevou, cresceu
e se desfez...
Toda onda é onda somente
uma vez...


VI
Um amor é sempre assim
novo, diferente,
e surpreendente,
nada tem com o amor que passou
que floriu, que murchou,
como uma onda, ou uma flor...

Um novo amor, (que importa o coração
viajado
e sofrido?)
é sempre um novo amor!

Que importa se é velho o barco?
Importa é o novo roteiro
a nova paisagem...

Um novo amor é sempre o primeiro...
É sempre uma nova viagem...

Nenhum comentário: