sábado, 26 de janeiro de 2008

Poemas do Amor Ardente - José Guilherme de Araújo Jorge



Coletânea de poesia erótica


4ª edição

1972


Índice (Por ordem alfabética)

01 - A flor...

02 - A raposa

03 - A tarde cai... enquanto te despes

04 - Acordeon

05 - Adivinha-se

06 - Ah! Não será isto poesia?

07 - Ameaça

08 - Amor

09 - Angústia

10 - As duas faces

11 - As duas mãos...

12 - Astronauta

13 - Balada aos teus encantos

14 - Balada embalando Maria

15 - Barro

16 - Batida de amor

17 - Bom dia, amigo Sol!

18 - Brinde

19 - Cabocla

20 - Cacho de uvas

21 - Caminho monótono

22 - Canção do meu abandono

23 - Cantarei o amor

24 - Canto primitivo

25 - Cínica

26 - Confissão

27 - Conquista

28 - Cortesã

29 - Crucifixo na parede

30 - Depois...

31 - Descobrimento

32 - Desejo Oriental

33 - Desejos... na manhã de Sol

34 - Desfolhando

35 - Despertar...

36 - Do outro lado

37 - Domínio

38 - Dualidade

39 - Era música

40 - Essa...

41 - Esta saudade

42 - Estou olhando as minhas mãos

43 - Estranho destino...

44 - Estudo nº 5

45 - Eu sei que era

46 - Eu serei esse mar...

47 - Exaltação

48 - Fantasia nº 1

49 - Fausto...

50 - Fogo

51 - Frio ou calor?

52 - Frutos proibidos

53 - Gata angorá

54 - Gosto quando me falas de ti...

55 - Insaciáveis

56 - Interlúdio

57 - Lírica nº 15

58 - Lírica nº 46

59 - Luas cheias

60 - Madrigal em tom de prece

61 - Manjares

62 - Marinha nº 1

63 - Marinha nº 2

64 - Marinheiro

65 - Mas... sorriste!

66 - Mensagem cifrada

67 - Misticismo

68 - Modelo

69 - Morrer...

70 - Morrer?

71 - Mutação

72 - Não tentes mais fugir...

73 - Noite

74 - Nossa cama

75 - Numa tarde como esta

76 - O espelho

77 - o grande momento

78 - O Guia...

79 - O óbvio

80 - O perfume

81 - O sonho

82 - O véu da fantasia

83 - Olho as mãos... e penso...

84 - Ontem... hoje...

85 - Oráculo

86 - Orquídea

87 - Os pombos

88 - Parreira

89 - Passional

90 - Paternidade

91 - Pecadores

92 - Peixe

93 - Poema para as mulheres de todas as cores

94 - Poemas

95 - Poemeto nº 4

96 - Poemeto nº 6

97 - Poemeto nº 8

98 - Pontos finais

99 - Presença

100 - Professora...

101 - Pudor

102 - Pureza

103 - Razões de amor... II

104 - Remorso

105 - Revelação

106 - Rodin

107 - Sensual

108 - Sensual (poemeto)

109 - Sonata ao Luar

110 - “Strip-tease”

111 - Suprema ironia

112 - Templo pagão

113 - Teu véu...

114 - Teus cabelos

115 - Teus seios...

116 - Última página

117 - Uma hora de morrer...

118 - Vício

119 - Vingança

120 - Volúpia


A flor...


É uma flor perdida entre alvuras e brumas
que eu persigo,
flor obscura nascida em teu corpo de neve e de sol
e escondida de todos, menos do amor...

Encontro-a depois da escalada
entre o céu e a queda.
E quando a tenho em meus lábios,
agarrando-me a ti
despenco no abismo.


A raposa...


Teus seios são cachos de uva
penso, em angústia perene,
a me sentir a raposa
da história de La Fontaine.


A tarde cai... enquanto te despes...


A tarde morna, sensual, lânguida, no poente
vai descendo de manso, lentamente,
em dobras roxas pelos espaços...
- como a tua camisa quando te despes
displicente
para a ansiedade eterna dos meus braços...

A tarde
presa naquele cume de montanha,
fugindo suavemente, silenciosa,
com a cautela de alguém que espreitasse o horizonte
cheia de receios,
- parece, no teu corpo acetinado e quente,
a camisa cor de rosa
e indolente
que encontrou ao cair a arrogância dos bicos
dos teus seios...

A tarde vai caindo, e vacila, e demora
naquele cimo de montanha
que esbatido no azul das distâncias, agora,
num forte tom vermelho
se ruboriza,
- tal como a tua camisa
toda vez
que indiferente à minha sofreguidão,
roçando em teus quadris, parando em teu joelho,
vai descendo, descendo, em dobras, molemente,
em dobras suaves de seda a desmaiar plisses
sobre o chão

A tarde morna, com seus tons dúbios de luz
fugidia,
tem esse calor distante
esse vago perfume
e esse gesto indolente e cheio de torpor,
- da camisa ao soltar-se dos teus ombros nus
em carícias estranhas,
no instante em que teu corpo, branco como o dia,
encontra nos meus braços o abraço das montanhas
para a Noite de amor...


Acordeon


Quando te tenho sobre os joelhos
penso que sei tocar Acordeon,
e brotam notas dos meus dedos
que eu sei bem que tu ouves
porque os teus olhos estão dançando um tango.


Adivinha-se


Quando tu passas, sob o teu vestido
na ousadia das formas
advinha-se
- o desejo incontido,
- essa vontade,
da carne que se sente prisioneira
e que arrogantemente se rebela
em ânsias de liberdade...

Adivinha-se o desejo
da carne que não tarda a ser mulher...
- da semente que quer romper o chão...
- da flor que abre a corola ao sol
a espera
do louro pólen da fecundação!...


Ah! não será isto poesia?


A alegria provocante do teu sorriso
a fresca alegria
da tua boca molhada como os caminhos
ao nascer do dia,
- ah! não será isto poesia?

A música de abismo no silencio longo
do teu beijo que atrai,
essa estranha vertigem que inebria,
- ah! não será isto poesia?


Ameaça...


Os teus olhos estão cheios de umidade
meus olhos sentem frio quando encontram os teus...

Se aperto tua mão, sinto-a muda, distraída
como se estivesse sozinha,
-ah! Nunca pudeste compreender
a íntima razão por que os meus dedos trêmulos
procuram demorá-la um pouco mais na minha!

Os teus lábios me falam de amor
como se tratassem
de algum tema banal sem emoção, nem cor...
Por isso, não compreendes que os meus lábios tratem
de um tema banal qualquer
te falando de amor!

As vezes, receio
que a tua indiferença mate o meu orgulho
e a paixão que domino a custo, se liberte
louca!
- e eu te tome em meus braços como alucinado
e deixando o amor-próprio ferido de lado
numa febre cruel machuque a tua boca!

Não importa, depois, que te revoltes
e até me esbofeteies!
Prefiro esse ódio, sim, eu quero que me odeies!
Quero que ao me encontrares, os teus olhos brilhem
mais, ardendo contra mim
de indignação!

Quero tudo de ti! Não quero indiferença
que me castiga assim, e é martírio
e é doença
e faz da minha angústia uma alucinação

E guarda o que te digo
neste instante:

- eu nasci para ser teu inimigo
ou teu amante
mas nunca um teu amigo
ou teu irmão!
...................................................................

Está, pois, como vês, nas tuas mãos
escolher
o que queres que eu seja
ou o que terei de ser!


Amor


E nunca chegamos ao fim da taça,
Por mais que a esvaziemos.

Agora,
sei que isto é amor...


Angústia


Há uma estranha beleza na noite!...
Há uma estranha beleza...
Oh, a transcendente poesia
que verso algum traduz...
- A via-látea inteiramente acesa
parece a fotografia
de um tufão de luz!

(Quem seria,
quem seria
que pregou lá no céu aquela imensa cruz?!)

Que infinita serenidade!... Que infinita serenidade
misteriosa,
nesse infinito azul dos céus e em tudo mais:
- nos telhados, nas ruas, na cidade...
(Só os gatos gritam na noite silenciosa
sensualíssimos ais!)

Meu Deus, que noite calma! E aquela trepadeira
feminina e ligeira
veio abrir bem na minha janela
uma flor, - como uma boca rubra e bela
que eu não terei,
- e ainda sinto nos lábios um travo nauseante
do amor, que, faz bem pouco, há apenas um instante,
paguei...

E o céu azul assim!... E essa serenidade!
Silêncio. A noite, o luar tão claro o luar lá fora...
Juraria que há alguém não sei onde que chora...

Oh, a angústia invencível que me prostra,
invade
e me devora...


As duas faces


Quando te aperto contra mim,
quando te beijo,
percebo que este amor é assim
como uma mistura
de ternura
e desejo,
que não tem fim...

Às vezes, tenho vontade de tomar-te entre as mãos
com a humildade e a pureza de um crente
a desfiar um terço,
tenho vontade de te embalar docemente
com esse cuidado de alguém que embalança
num berço,
uma criança...

E, logo após, ímpetos de te amar,
de te querer e beijar
com volúpias de fogo
e carícias de chama,
como desesperadamente a gente quer
e beija
uma mulher
que se ama,
e se deseja...

Mistura
de ternura e desejo,
de mansa ternura
e desejo violento,
mistura
de morno carinho
e voluptuoso calor
- à vezes te quero como uma criança...
- outras vezes, como um louco, um doente
de amor!


As duas mãos


À noite, sob os lençóis, nossas mãos cegas se encontram
e um diálogo de ternura e de silêncio
independe de nós.

Mãos insones, que surpreendemos ainda juntas, num diálogo
de ternura e silêncio,
quando a manhã nos expulsa do sonho...

Como Deus expulsou Adão e Eva
do Paraíso...


Astronauta


Já foste o mapa-mundi
de meus desejos,
percorri-te em todas as direções

Agora,
veste-te, meu amor...
Não adianta continuares
bela... e nua...

Meu destino é a lua...


Balada aos teus encantos


Há no teu corpo coleios
de serpente pelo chão...
Quem sabe, pois, se os teus seios
são serpentes enroscadas,
em sensuais emboscadas,
- escondidos como estão?

São tão belos os teus seios,
redondos, vivos e cheios,
cheios, como luas cheias
e brancos como as areias,
- irrequietos como o mar...
As vezes, quando te agitas,
palpitam trêmulos no ar,
- são duas aves aflitas
presas de ânsias infinitas
mas que não podem voar...

São duas aves esquivas
irrequietas e lascivas
que quando escapam do ninho
erguem seus bicos ao céu;
- aves sem asas, cativas,
em posições agressivas
crescendo em tua nudez,
- nos bicos cor de uva e mel
têm duas gotas de vinho,
de um doce vinho, de um vinho
de uma infinita embriaguez.

Sentinelas avançadas
de tuas formas ousadas,
não se rendem com certeza
guardando a tua beleza,
e embora caia o teu corpo
e entregues tua alma até,
- teus seios, esses teus seios,
redondos, belos e cheios,
erguem-se mais, sem receios!
- ainda estão vivos, de pé!

Quando se atiram no ataque
enfrento-os com o meu desejo!
- não há forca que os aplaque,
não há carícia, nem beijo,
se os tento em vão dominar...
Que eles assim me entontecem:
- sou como o vento! E eles crescem:
- são como as ondas do mar!

Roubaste ao mar duas ondas
são duas ondas redondas.
que ostentam pérolas raras,
pérolas cor de cereja
que o meu desejo deseja
no teu corpo de águas claras...

- são duas ondas redondas
que espraiam contra o meu peito
quando em teu corpo perfeito
- no oceano - que é o nosso leito,
sou como um barco no mar...

Roubaste ao mar duas ondas
são duas ondas redondas
onde me vou naufragar...


Balada embalando Maria...


Odor de folhas verdes perturbando,
punhais de luz ferindo a ramaria...
- é o teu corpo cheiroso me estonteando!
- são teu olhos, Maria!

Rumor na mata de água inquieta e fria,
bicos de ave no ninho quente e brando...
- é a tua voz feliz cantarolando
- são teus seios, Maria!

Sombra de noite que vai baixando
caju mostrando a polpa cor do dia...
- são teus cabelos me chamando
- são tem lábios, Maria!

Fruto maduro abrindo a mataria,
gestos de gaivotas no ar bailando...
- é o teu riso medroso me tentando!
- são tuas mãos, Maria!

Vento que sopra leve, acariciando,
Mel que canta na boca e que inebria...
- é o teu carinho morno me prostrando!
- são teus beijos, Maria!

Raio de sol dançando de alegria,
cipós que ao meu redor se vão fechando
- é a tua alma de criança madrugando!
- são teus braços, Maria!

Rima que eu quis rimar com fantasia,
trecho de céu que ao longe vai clareando...
- é o teu nome que eu vivo soletrando!
- são teus sonhos, Maria!

Girassol sempre a luz acompanhando,
levada aos ventos, erradia...
É o meu amor por ti, louco, sonhando!
É o teu amor, Maria!


Barro



Não me culpes, se não posso tirar deste amor
senão formas, como louco escultor diante do barro...

Não era teu destino ser música
em meu coração.


Batida de amor...


Desconfio que você esta “tomada”, amor...

Às vezes você me olha como se eu fosse formidável
como se eu fosse uma beleza,
fosse um sputnik, uma bomba atômica, que sei eu?
- fosse uma vista do Rio de Janeiro...
Acho até que você me olha às vezes, como se eu fosse
Nosso Senhor...

Você me põe uns olhos vidrados de cabrocha em transe
e eu sinto suas mãos me percorrendo, me descobrindo,
e eu já nem sei quem sou eu
nem pra onde vou.

Bobagem, amor, eu não sou ninguém,
ou por outra, sou apenas alguém que abraça você com ternura,
que descobre sua nuca, que segura seu traseiro,
que morde suas coxas,
que acaricia seus quadris, todo o seu corpo,
como se você fosse um violão e eu quisesse fazer você virar música
e quisesse ouvir você tocar, no coração.

Às vezes, amor
você me olha de um jeito que eu até me sinto
num altar,
(que Deus me perdoe o sacrilégio)
mas é bom a gente se sentir assim gostado
desse jeito
como a coisa mais importante, mais formidável do mundo

E é por isso que eu apanho você em meus braços
e a amarro toda,
todinha, até soltar você, e ouvir você dizer que morreu,
que morreu bem morrida,
e que então já nada mais importa, nada, nem mesmo sputnik,
nem a bomba atômica, nem o Rio de Janeiro,
nem a vida.


Bom dia, amigo Sol!


Bom dia, amigo Sol! A casa é tua!
As bandas da janela abre e escancara,
- deixa que entre a manhã sonora e clara
que anda lá fora alegre pela rua!

Entre! Vem surpreendê-la quase nua,
doura-lhe as formas de beleza rara...
Na intimidade em que a deixei, repara
Que a sua carne é branca como a Lua!

Bom dia, amigo Sol! É esse o meu ninho...
Que não repares no seu desalinho
nem no ar cheio de sombras, de cansaços...

Entra! Só tu possuis esse direito,
- de surpreendê-la, quente dos meus braços,
no aconchego feliz do nosso leito!...


Brinde


Tomarei tua cabeça entre as mãos como uma taça,
e transbordará o louro “champagne” dos teus cabelos
sobre meus dedos...

Me olharei no cristal dos teus olhos
e verei minha imagem refletida no desejo
que efervesce,
e beberei em teus lábios entreabertos a tua vida
até que os teus olhos fiquem vazios e ausentes...

Até que te sintas leve e gloriosa como uma taça de cristal
traspassada de luz
num brinde a esse segundo de êxtase imortal...
Uma taça que, por esse segundo morreria afinal
espatifada,
num grito de prazer esplêndido e triunfal!

.......................................................................................

Tua cabeça entre as minhas mãos
será a taça com que brindarei
nesse segundo,
o destino do amor
no destino do mundo!


Cabocla


Cabocla, em teus olhos há estranhos desejos,
mistérios de noite,
clarões de luar...

Tua boca, é uma fruta madura, vermelha,
madura de beijos,
de beijos maduros que eu quero apanhar!
Tua boca é uma fruta gostosa, será
assim como um bago branquinho,
branquinho,
e doce de ingá!

Teu riso, Cabocla, é tão fresco, tão bom,
que há nele um murmúrio de fontes, e o som
das águas rolando na mata fechada...
Teu riso, Cabocla, parece a alvorada,
parece na sombra o clarão do caminho,
- teu riso parece esse sulco branquinho
que se abre na pele macia e corada
de um doce cajú!


Cachos de uvas


Vejo em teu corpo, teus seios
redondos, belos, pesados,
como ao tempo das vindimas
os cachos de uva dourados...

E tomo-os nas minhas mãos,
sazonados de calor
para meus lábios sedentos
do vinho do teu amor

Teus seios são cachos de uvas
Uvas da terra ou do céu
Sei que embriagam mais que o vinho
Que são doces mais que o mel!


Caminho monótono


E por que hei de negar?... Ah! o encanto da estrada
abrindo em cada curva um leque de paisagem,
e o mistério da casa escondida e encantada
que mora sob a sombra amiga da folhagem

E por que hei de negar? Se isso é a vida passada;
se o fastio espantou o encanto da miragem
Hoje - o olhar distraído, e a alma já cansada
repetem todo dia e sempre a mesma viagem

E por que hei de negar? Ah! Aquelas ânsias loucas
dos beijos que cantavam sempre em nossas bocas
e das mãos, não sabendo nunca onde pousar...

Hoje... por mais que venhas, sempre estou sozinho...
E por que hei de negar? Se teu corpo é um caminho
onde de olhos fechados posso caminhar?...


Canção do meu abandono


Não, depois de te amar não posso amar ninguém!
Que importa se as ruas estão cheias de mulheres
esbanjando belezas e promessas
ao alcance da mão?

Se tu já não me queres
é funda e sem remédio a minha solidão...

Era tão fácil ser feliz quando estavas comigo!
Quantas vezes, sem motivo nenhum, ouvi teu riso
rindo feliz, como um guizo
em tua boca?
E todo momento
mesmo sem te beijar eu te estava beijando:
- com as mãos, com os olhos, com o pensamento,
numa ansiedade louca!

Nossos olhos, meu Deus! nossos olhos, os meus
nos teus,
os teus
nos meus,
se misturavam confundindo as cores
ansiosos como os olhos
que se dizem adeus...

Não era adeus, no entanto, o que estava em teus olhos
e nos meus,
era êxtase, ventura, infinito langor,
era uma estranha, uma esquisita, uma ansiosa mistura
de ternura com ternura
no mesmo olhar de amor!

Ainda ontem, cada instante era uma nova espera...
Deslumbramento, alegria exuberante
e sem limite...
E de repente,
de repente eu me sinto triste como um velho muro
cheio de hera
embora a luz do Sol num delírio palpite!

Não, depois de te amar não posso amar ninguém!
Podia até morrer, se já não há belezas ignoradas
quando inteira te despi,
nem alegrias incalculadas
depois das que senti...

Depois de te amar assim, como um deus, como um louco,
nada me bastará, e se tudo é tão pouco...
...eu devia morrer...


Cantarei o Amor



Acima de tudo
cantarei o amor

O de Cristo de Confúcio, o de Romeu e D. Juan,
o de Che Guevara,
acima de tudo cantarei o amor.

Em todos os momentos, lascivos ou gloriosos
mansos ou eróticos,
unindo dois ou arrastando milhões,
nascido da ternura ou da revolta
procriando seres ou idéias,
acima de tudo cantarei o amor.

O amor
- cimento e força -
que constrói e ilumina
que convoca e conquista,
- bola de neve do bem inevitável,
acima de tudo cantarei o amor.

E o tirarei do coração
como a hóstia do cálice
ou o sol, da manhã,
ou a espada, da bainha,
- fulcro para a alavanca do meu verso
mover o mundo -

Acima de tudo cantarei o amor.


Canto primitivo


Inveja, sim,
do lavrador, do colono,
que violentou o chão e empurrou as florestas
para o cume das montanhas, assustadas
pelo fogo das queimadas...

Que plantou os toros
e colheu a casa,
simples, sozinha, perfeita...
- o sol dançando em torno, - e à janela, vê seu mundo
como um Deus, e olha sem crer a sua mão direita.

Inveja, sim,
da pureza inicial, bárbara e rude
do amor sem sucedâneos,
da beleza da terra sem pudor,
acordando com as colheitas douradas
ao primeiro sol,
e dormindo com as plantações quando as montanhas
estendem
como franjado xale,
seus véus de sombra sobre o vale.

Ah! ser puro como as plantas,
como a terra,
ter o coração forte como os córregos
que estrugem pelas pedras, nas gargantas
da serra.

E possuir a vida sem complexos
instintiva, sem razão,
como o touro-garanhão que na pastagem
à luz do sol, urrou para os céus
o Canto da fecundação!


Cínica


Aos meus ciúmes doentios
tu me disseste, ainda nua:
- de olhos abertos, sou dele;
- de olhos fechados, sou tua!


Confissão


Eu queria num gesto inútil de arrependimento
ajoelhar-me aos teus pés
e adorar-te,
-e a minha adoração
seria a eterna prece dos meus lábios impuros
em penitência
à beleza de tua imagem cheia de inocência
e perfeição...

Só em erguer os olhos para o teu vulto, eu sinto
que te profano,
e a minha crença é talvez a fatal perdição
de tua vida...
Tu me julgas um deus, julgaste-me perfeito,
e foi tamanho o teu engano
que hoje nem queres crer quanto foste iludida!

Minhas mãos deixam máculas em tuas mãos, antes brancas
como as das santas de gesso,
- meus beijos contém veneno
e infelizmente
nunca pudeste ver minha alma pelo avesso...

Por que não te esquivaste à ousadia dos meus braços
dos meus lábios
das minhas mãos?
Não devias sentir pelas minhas palavras
senão desprezo e horror...
Ah! tu não podes ver que és imprudente e criança
e que te entregas assim
com essa tua confiança
ao tóxico mortal do mais doentio amor!

Devias evitar as minhas mãos,
devias
esquivar-te ao meu contato,
libertar-te de mim e do absurdo pesadelo
do meu domínio,
- porque, nem eu sabia o mal que te causava,
e quero fazer-te um bem agora, abrir teus olhos
ainda em tempo talvez
a um tão funesto fascínio...

Ah! Mil perdões porque arrastei-te em vão
comigo
em meu destino,
e desviei teu rumo que era claro e azul
para as sombras do meu, aventureiro e incerto...

Mil perdões porque tanto te adoro,
porque,
nao posso renunciar-te por um mal já feito
e, covarde! - ainda te amo... ainda te quero perto!

Eu te ergui num altar eu te quis santa e pura
precisamente como fui te achar,
para,
estranho prazer! abraçar-te, sentir-te,
numa imensa loucura
e arrependido após, atirar-me aos teus pés
em silêncio... a chorar!

Merecias que um outro igual a ti passasse
pelo teu caminho
e te ofertasse o braço e oferecesse a mão...

Ah! Nada pude dar-te além de meu desejo
e é tão pouco o desejo para quem procura
uma alma,
um coração!...

Tua alma. Ah! tua alma era assim, bem assim
sonoramente bela
transparente e hialina
como a fímbria azulada de uma taça fina
de cristal,
e a minha alma, ahl minha alma, sempre impulsiva
e louca,
foi deixar sobre a fímbria azul da taça fina
a mancha da minha boca
doentia e sentimental!

Merecias que um outro que não eu te visse
naquela mesma noite em que te vi
e te adorei
e quis,
- porque ele, esse “ele” estranho que eu odiaria
com o meu ódio mais profundo,
só ele, - quase o creio, - poderia
te fazer feliz!

Merecias alguém que te desse um recanto
afastado (é melhor afastado),
um recanto
que fôsse como um ramo sossegado
ou como um ninho,
muito alto, sob o fundo de um céu azulado,
e onde cantasse enamorado
algum poeta feliz que nasceu passarinho

Merecias alguém que te tomasse as mãos
com sincera meiguice,
e pudesse entender o que nunca entendi
e soubesse dizer o que eu nunca te disse!

Alguém que respeitasse o teu amor, alguém
que fosse tal como és
e vivesse aos teus pés
numa outra adoração,
- que não seria a minha, impura e feita apenas
de profanação!

Por que hoje, - em minha angústia, sofro ante o irreparável
ao ter que me conformar
com esse mal que acabei por fazer a mim mesmo
quando o fiz contra ti,
- sofro, porque te achei tal como eu te queria
tal como eu te esperava
e te destruir!


Conquista


Debruçado sobre teus olhos, ainda ofegante
de escalar alturas
e preso ainda aos teus cabelos para não cair,
eu me punha a falar como sonâmbulo
num deslumbramento de vertigem...

E então tu me apertavas contra o seio,
como se eu acabasse de ser salvo
em tua vida,
e me revelavas que aquelas palavras sem nexo
que eu, como um tonto, te repetia,
não eram palavras
era poesia...


Cortesã


Esquece, amor, meus pecados
tu me disseste a sorrir,
se nos meus olhos cerrados
só tu me podes possuir...


Crucifixo na parede


Puseste na parede, sobre o leito,
um belo crucifixo de madeira;
é essa imagem de amor, puro e perfeito,
que há de guiar-nos pela vida inteira...

A tua idéia, eu, em princípio, a aceito,
pois sei que a tua fé é verdadeira,
também eu, a esse Cristo, rendo preito,
se fez do amor sua missão primeira.

Mas deixa que te diga meus receios:
- como ter-te em meus braços, te colher,
dar completa evasão aos meus anseios

ante essa imagem de pureza e dor?
- Como é que esse bom Cristo há de entender
as loucuras sem fim do nosso amor?


Depois...



Pronto... Já agora seremos como dois irmãos
unidos pelo amor que há pouco nos venceu...
Meus sentidos não tocarão tua beleza
nem sentirás a aspereza do meu corpo de encontro ao teu...

Há em ti a quietude das águas remansosas e protegidas
e eu sou como um barco de velas recolhidas
guardando no cordame dos mastros, a nostalgia erótica dos ventos
e no bojo, ressoante, o rumor impetuoso do mar alto...

Pronto... Já agora o meu pensamento ficou límpido e sereno
como um céu sem nuvens depois que o vento passou
num temporal...
- e consigo te amar - um amor quase fraterno
e ameno, -
que fica à margem do bem... que paira acima do mal!

Já agora seremos apenas como dois irmãos...

Adormecerás em meus braços, - como a tua mão que
ficou em minhas mãos -
e eu ficarei a enlaçar-te, com os lábios em teus cabelos
numa ternura imensa,
- esquecido da tua presença...
Tens um vago olhar de sonho.... e devo ter um vago
olhar de criança,
e envolve-nos essa paz, essa serenidade,
do mar calmo depois da chuva, e de um céu de bonança
depois da tempestade...

Já não me ouves, bem sei... se a tua cabeça sobre meu ombro
pendeu, em abandono...
- meus sentidos não acordarão tua beleza
nem sentirás a aspereza do meu corpo perturbar teu sono...

Pronto... Ficaste nos meus braços, quieta, adormecida,
como dentro das minhas mãos as tuas mãos...

Estranho o nosso amor... Interessante a vida...

- Há pouco, loucos, como dois amantes!
- Agora, puros, como dois irmãos!


Descobrimento



Tu foste em minha vida como a ilha deslumbrante e imprevista
na rota de um navegante:
- a antevisão sonhada de uma conquista distante...

Eu viajava pelo mar de outros corpos, na volúpia
dos que nasceram para o amor do mar ...

Teu corpo me atraiu como o primeiro mistério do oceano
aos olhos indagadores
de aventureiros e descobridores.

E eu velejei ao temporal de indomáveis desejos ...
Ao vento de tuas carícias violei as ondas de teu corpo
com a sofreguidão e a ousadia das quilhas nas águas,
- e aportei à ilha do teu amor, por uma noite de trópico
que era a noite de teus cabelos ...

Quando pisei em terra, tinha os lábios salgados
de oceano,
ímpetos de ventos nos braços nostálgicos
e arrepios na epiderme impregnada de sal ...

Cheguei em teu corpo com a alegria do descobridor
em terras estranhas,
- o olhar incendiado de posses e festas,
e diante da beleza imprevista do teu amor
escalei os cumes de todas as montanhas,
- devassei o mistério de todas as florestas ...

Ouviste atônita o rumor de meus passos
a canção de minhas palavras, ignoradas e belas,
cheias com o vento da imaginação, ao teu olhar nativo,
como brancas e nunca vistas velas
de caravelas...

Tiveste gestos espavoridos de pássaro assustado
e tentaste fugir ao “homem branco”,
surpresa,
a ferir o corpo em ramagens e espinhos,
- mas caíste afinal, emaranhada e presa
em minhas mãos que te descobriram e conheceram
como caminhos ...

Só eu sei o encanto da tua beleza indevassada,
do teu pudor de água clara nunca turvada
tremendo em teu olhar,
e a expressão da índia assustada, atraída pelo amor,
que quer fugir à posse do descobridor
quer fugir, com temor,
e se deixa enlaçar...

Me entregaste teu beijo como uma oferta generosa
e em teus lábios senti o gosto da terra nova,
me envolveste de sombras amenas e macias,
me estendeste o lençol branco das praias grandes e vazias,
e vencida afinal - (ah! teus olhos, ainda estou a vê-los)
me deste a tua nudez que era como o luar flutuando
na noite de teus cabelos
......................................................................................................

Tu foste em minha vida essa ilha deslumbrante que descobri
que devassei e possuí
e aonde nunca mais pude voltar...
Levou-me o vento a outras terras - o vento do destino -
e tu ficaste distante, e te perdi para sempre,
desarvorado sobre o mar...


Desejo Oriental


Quero que sejas assim, sempre nova,
sempre diferente,
lírica e sensual
pecadora e inocente,
- imagem pura do bem,
visão estranha do mal,
- nas “mil e uma noites” do meu desejo
oriental...

Terás então o meu amor
se isto conseguires...
- que o meu desejo é assim: volúvel, multicor,
como o arco-íris...


Desejos... na manhã de Sol


Na manhã de sol
bela e serena,
depois de um dia de chuva
depois que à noite ventou,
- tive desejos de apanhar aquela mulher morena
que passou...

Devia ter na boca rubra
um gosto de uva
um gosto bom de vinho,
e quando ela me olhou,
- pensei na fruta madura que o vento da noite derrubou
à margem do caminho...

Ah! o garoto que fui! Ah! o garoto que sou!
Na inquietação da minha vida,
nas voltas do meu caminho,
sempre a vontade incontida
de desejar as frutas do quintal vizinho!

Na manhã de sol
bela e serena,
- depois de um dia de chuva,
- ah! o garoto que sou!
tive desejos de apanhar aquela mulher morena
que passou!


Desfolhando


Essa boca, pequena, e assim vermelha,
que ao botão de uma rosa se assemelha,
- quanta vez provocava os meus desejos
desabrochando em flor entre os meus beijos...

Essa boca, pequena e mentirosa,
que diz, tanta mentira côr-de-rosa,
- era a taça de amor onde eu saciava
toda a ansiedade da minha alma escrava ...

Beijando-a, compreendia que eras minha...
Meu amor transformava-te em rainha,
teu amor me fazia mais que um rei...

Agora, tu fugiste... E eu sofro, quando
vejo um outro em teus lábios desfolhando
a mesma rosa que eu desabrochei!...


Despertar...



Ao sol que a vem chamar no quarto ela desperta...
Revira lindamente a loura cabeleira
no fofo travesseiro, e os olhos entreabrindo,
languidamente no ar ergue os braços cansados...

Despreocupada e só, deixa fugir das rendas
da camisa, em decote, os seios palpitantes,
que um gesto natural oculta sem querer...
Na quentura do leito, em suave desalinho
Seu corpo se descobre... Ela, então, se levanta
e através da camisa etereamente leve
entrevê-se o esplendor das formas arrogantes...

A luz beija-lhe os pés... o corpo... toda... inteira
num delírio sensual... quando ao chão, molemente,
vai caindo a camisa, e esplende à luz do dia
o seu corpo, ainda morno, em completa nudez:
- a ereta rigidez do colo... a espádua nua...
o contorno do ventre... e a penugem macia
que encobre entre os marmóreos pedestais de estátua!...
......................................................................................................

E à luz do sol que espia através das cortinas
Desenhou-se o perfil da carne e da mulher!...


Do outro lado



Quando enfim abri os olhos
debruçado sobre ti, eu olhava teus cabelos finos
tão leves, como um tênue mistério em tua nuca...
E o pequenino lóbulo de tua orelha
onde pendurei o brinco do meu beijo.

E fiquei a pensar que estava ali, tão presente
em ti
e nem me vias...

...Tu estavas do outro lado,
em toda parte de minha vida,
e nem sabias...


Domínio



Hoje, tu já não coras se te abraço,
hoje, tu já não foges ao meu beijo...
Sabes que és minha... e o que desejo e faço
é o que faz e deseja o teu desejo...

Ficas mais bela no desembaraço
da suave intimidade em que te vejo...
Nada negas - e dando-me o que almejo
tudo me dás - quando o teu corpo enlaço!

Quando o teu corpo junto ao meu se aninha...
Vives pelo prazer de seres minha,
e és dócil e flexível como uma haste,

No abandono total em que te enleias,
quem diria, que um dia, já negaste
com a mesma boca com que agora anseias!


Dualidade


Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo
o meu próprio desejo tão violento,
dir-se-ia ter pudor, ter sentimento,
quando estás junto a mim, quando te vejo.

É um clarim a vibrar como um harpejo,
misto de impulso e de deslumbramento.
Sei que é Amor, meu amor...porque o desejo
é desejo e ternura a um só momento.

Beijo-te a boca, as mãos, e hei de beijar-te
nessa dupla emoção, (violento e terno)
em que a minha alma inteira se reparte,

- e a perceber em meu estranho ardor,
que há uma luta entre o efêmero e o eterno,
entre um demônio e um anjo em todo Amor!


Era música...

(Para leres, ouvindo a "Transfiguração do Amor
e Morte, de Tristão e Isolda" , de Wagner)



E então soprou um vento de ternura intensa.

E as nuvens se dispersaram, e eu vi que meu coração emergia
como um alto cume de montanha, dourado de sol,
musicado de pássaros e éguas.

Olhava teus olhos, tuas mãos, teus cabelos, teu corpo...
Teu corpo era como um caminho sinuoso por onde saí desesperado
a procurar-te.

E de repente, tomei-te nos braços, afaguei-te a cintura, recolhi-te ao meu peito,
Teu coração inquieto pulsava mais que o córrego das montanhas,
batia asas de pássaro encandeado.

E de repente saímos livres e felizes, como simples animais de Deus
com a direção dos ventos.

Faminto, colhi-te como fruto! Sedento, bebi-te como a água!
Marquei meus dentes em tua carne
e escorreste pela minha boca, pelo meu pescoço, pelo meu peito.
Meus braços foram tuas formas. Minhas mãos te conheceram.
Desmanchei-te os cabelos, e me perdi. Nossas bocas se uniram, e se esqueceram.

Tatearam meus lábios escalando cumes,
devassando vales.

E fiquei em ti, vivo e silencioso, como o sangue nas veias,
como a seiva na raiz.
E desci sobre ti e me entranhei, como a chuva descendo e molhando.
E quando falamos: era música.


Essa...



Essa, que hoje se entrega aos meus braços escrava
olhos tontos de amor que aos poucos me farto,
ontem... era a mulher ideal que eu procurava
que enchia a minha insônia a rondar meu quarto...

Essa, que ao meu olhar parado e indiferente
há pouco se despiu - divinamente nua -,
já me ouviu murmurar em êxtase fremente:
- Sou teu!... E já me disse, a delirar: - Sou tua!

Essa, que encheu meus sonhos, meus receios vãos,
num tempo que eram vãos meus sonhos, meus receios,
já transbordou de vida a ânsia das minhas mãos
com a beleza estonteante e morna de seus seios!

Essa, que se vestiu... que saiu dos meus braços
e se foi... - para vir, quem sabe? uma outra vez,
- segui-a... e eu era a sombra de seus próprios passos...
amei-a... e eu era um louco quando a amei talvez...

Hoje, seu corpo é um livro aberto aos meus sentido
já não guarda as surpresas de antes para mim...
(não importa se há livros muitas vezes relidos
importa... que afinal, todos eles tem fim)

Essa, a que julguei ter tanta afeição sincera
e hoje não enche mais a minha solidão,
simboliza a mulher que sempre a gente espera...
mas que chega e se vai como todas se vão.


Esta saudade



Esta saudade és tu... E é toda feita
de ti, dos teus cabelos, dos teus olhos
que permanecem como estrelas vagas:
dois anseios de amor, coagulados.

Esta saudade és tu... É esse teu jeito
de pomba mansa nos meus braços quieta;
é a tua voz tecida de silêncio
nas palavras de amor que ainda sussurram.

Esta saudade são teus seios brancos;
tuas carícias que ainda estão comigo
deixando insones todos os sentidos.

Esta saudade és tu... É a tua falta
viva, em meu corpo, na minha alma, viva,
... enquanto eu morro no meu pensamento.


Estou olhando as minhas mãos


Estou olhando as minhas mãos agora, te escrevendo,
mãos loucas,
te mandando mensagens como um telegrafista
que se pusesse a transmitir para a Lua...

Estas mãos não foram apenas as mãos que te acariciaram
que te seguraram tantas vezes a cabeça,
pelos teus cabelos,
como uma taça em que se vai beber...

...que te conheceram toda, e ante a tua surpresa,
te descobriram
tu que não sabias mesmo que existias,
até aqueles momentos em que te achei como um
tesouro ignorado...

estas mãos que olho, batendo nos teclados, sob a luz
como duas estranhas aranhas tecendo poesia na noite
em pensamentos vãos,
tecendo uma inútil teia que já não prende mais,
- elas guardam tantas lembranças em sua táctil
memória
de mãos...

Eram elas que, trêmulas e ansiosas,
todas as vezes, como a primeira vez,
participavam do decisivo instante:
davam a volta na chave, enclausurando-te, avarentas,
e então eu podia pensar, com uma louca alegria antecipada:
- já está comigo, é minha!

Eram elas que em sua impaciência, cegas, tantas vezes
complicaram
a minha ânsia natural de o mais depressa possível
querer ver-te nessa beleza de sonho
com que Deus te vestiu...

E foram elas, também, que algumas vezes, recalcitrantes,
- sem aceitar o tempo e sem tê-lo visto passar -
tão sem jeito e sem vontade, só a custo conseguiram
abotoar em teu vestido aqueles colchetes inacreditáveis.

Estou olhando as minhas mãos, e se elas não fossem minhas,
palavra de honra que não acreditaria em nada disso
que estão pensando
e temiam em te escrever.


Estranho destino...


Ficará ressoando indefinidamente
no bronze de tua carne moça de adolescente
essa música infinita
que ainda às vezes escuto, e ainda às vezes me agita
na lembrança das horas distanciadas...

Eu fui no bronze vivo de teu corpo, o primeiro
som!
- o toque matinal e alvissareiro
das primeiras badaladas!

Que a tua carne morena, esplêndida e tropical
trouxe o estranho destino
musical
de um sino!


Estudo nº 5
(A posse esse gozo de Amor)


A Posse
- esse gozo de amor com que te embriagas, -
é uma estranha roedora que a si mesma se rói...

Porque querer lutar se não há esperança?
Por que? Se o mesmo gesto que alcança,
- destrói...


Eu sei que era


Não, não eram teus olhos, que eles estavam cerrados
e embriagados
de misterioso vinho;
nem eram tuas mãos, que elas tateavam
tontas de carinho;
nem era a tua vontade, que havias perdido de ti mesma,
e não encontrarias o caminho....

Eram teus lábios sim, e a tua voz que ainda lutava
com ternura,
num débil balbucio sem alento:

- “Meu amor, é loucura!...”

.................................................................

Eu sei que era! Eu sei que era!
Louco também é o sol, a noite, o mar, o vento!
os pássaros, a terra, o céu, a primavera!


Eu serei esse mar...


Tenho ainda na boca o sabor de teus beijos
e nos olhos a morna luz de teu olhar,
- há em teu corpo alvoradas rubras de desejos
e rompantes de vagas livres sobre o mar...

Sabes bem que te adoro, eu o disse a tua boca
naquele instante longo a cheio de delicias,
e em minhas mãos provaste a ânsia incontida e louca
de uma declaração de amor a de carícias...

Consegui te alcançar em minhas mãos, - assim
como quem colhe um fruto entre as sombras dos ramos...
Toquei-te o corpo inteiro... a pensar que a sem fim
o incêndio que nos queima enquanto nos amamos!

Hás de ser uma praia branca ao meu enleio
nua, deitada ao sol, exposta ao mar a aos ventos,
- e eu serei esse vento de ternuras cheio!
e eu serei esse mar de desejos violentos!

Um do outro vamos ser, assim... divinizados
por um amor perfeito em comunhão com o céu,
- ver o céu a morrer em tens olhos parados
e a terra, aberta em flor, em teus lábios de mel...

Fundiremos no mesmo abraço o mesmo assomo,
dois num só - na infinita integração do amor,
tu, perfeita, eu perfeito, ambos perfeitos, como
a terra e o céu, o mar e a praia, o sol e a flor!


Exaltação



Gosto de te entrever na penumbra sensual
morna e doce do leito,
com os olhos semicerrados
- onde a tua alma foge como um sol no poente...
e os lábios entreabertos
- onde tua alma aflora como sol nascente!...

Gosto de te entrever, despida e quase nua,
na carícia dos momentos silenciosos
cheios de ânsias,
gemidos
e suspiros nervosos...
- quando teus seios brancos, brancos, da cor da lua,
ou como luas túmidas, talvez,
parecem quartos crescentes
fugindo do teu vestido
e anunciando o esplendor das luas cheias
despontando na sombra em completa nudez!

Gosto de te sentir a carne luminosa
quando, através do tato, eu te admiro e vejo
como u'a mancha branca na penumbra,
uma estranha e envolvente nebulosa...

Uma estranha e envolvente nebulosa
que me abraça
me cega,
me alucina,
e põe na minha boca um gosto de desejo
e deixa na minha alma uma impressão divina...

Gosto de te sentir... de descobrir teu corpo
feito de leite e luar,
feito de carne e luz,
e entontecer meus olhos deslumbrados
e pousar os meus lábios excitados
sobre os bicos pequenos dos teus seios nus.

Gosto de te sentir tateando nos meus dedos,
enchendo as minhas mãos ansiosas e vazias
e infiltrando-se em mim... em minha alma... em meus nervos...
como a aragem que é a vida e a alma dos arvoredos...

E vem-me esta impressão, quando estamos unidos
completamente sós,
que misturamos todos os sentidos
e que somos, assim, como troncos fundidos,
pelo abraço amoroso e estreito dos cipós!

Gosto de te sentir bem junto, palpitante,
desabrochando desejos,
multiplicando emoções,
- para ao contato ardente do teu corpo
esculturar-te inteiramente em minhas mãos - que loucas!
na escultura mental das minhas sensações!

E gosto de esquecer de mim mesmo e de tudo,
mergulhar o meu rosto em teus cabelos negros,
onde há a frescura da noite
e um cheiro de mato em flor,
e vendo um céu maior que o êxtase descerra
atingir o Infinito e despencar na Terra
vivendo a sensação de que morri de amor!...


Fantasia nº 1
(Quero rubis de sangue)



Quero rubis de sangue, como gotas vivas
da aurora,
a ouvir cantar ,o peito o coração
quero esmeraldas verdes como as de Paes Leme
e lendas imaginárias,
quero cidades novas onde ninguém mora
cidades extraordinárias!
- solidões de florestas, amplidões de campos,
e a alegria da escuridão
onde a noite ainda a acende os fogos de salão dos
pirilampos!

Quero envolver os ombros brancos e nus
da minha amada
(e que parece, foram modelados
com a areia branca embebida de leite e de luz),
- com a capa de pelúcia da noite azul prateada!
Quero apanhar a Lua, quando ela pousar
no cume da montanha
para seguir sua marcha pela Noite a dentro
sonâmbula e calada;
- quero a Lua! prometi levar a Lua branca
com São Jorge no centro
à minha amada!

Quero o sol
porque brinco com o sol manhã cedo
quando ele pula o muro verde das serras
trepa na minha janela,
entra pelo meu quarto,
e vem bater nos meus olhos para me acordar...
Quero o sol! porque o sol ajuda a alma da gente
a se sentir contente!
- e a viver
a sorrir,
a esquecer,
e a cantar!

Quero dormir bem junto da janela aberta
para sentir a Noite como uma cuia mágica
sobre meus olhos emborcada,
- bem junto da janela escancarada
dos meus desejos,
por onde fogem teus ais, teus arrulhos, teus sonhos
e a canção sensualíssima
dos beijos!

Quero um braço apoiado ao meu, calmo e sereno,
um corpo no meu corpo,
quero viver e amar,
- que essa vida é tão pouca
e o mundo tão pequeno!
- quero na minha boca o gosto de outra boca
e os sonhos e os anseias das minhas mãos
hei de satisfazê-los da maneira mais louca!

Serei um fauno livre a buscar-te nas selvas,
serás a ingenuidade cheia de receios,
e transbordando de beijos os teus seios
servirei o teu corpo ao meu corpo, num leito
de relvas,
Próprio
próprio
para festins pagãos!

Quero despir inteiramente
a tua carne branca e luminosa
como a Lua,
e eu despir-me também, e inteiramente nus,
- deitar-te sobre o chão, braços abertos, nua!
para morrer de amor nos teus braços em cruz!

Dar-te a beber nas mãos, a água pura das fontes
das fontes frias da mata
que ninguém sabe aonde vão,
e parecem teu riso a cantar pelas pedras
sorrindo no chão...

E ver teu corpo belo sobre um leito de folhas
abandonado,
à carícia de aragem dos meus beijos
quando nos encontramos,
- caído como uma fruta madura
da altura
dos ramos,
- para as minhas mãos!
- para os meus desejos!

Cobrir-te o corpo de flores
que as mãos pródigas das árvores
vão soltando ao léu,
com ciúme da própria luz que acaricia e beija
e adejar ao teu lado como uma ave inquieta
à procura de mel!

E os pássaros, hão de dizer com certeza, nos vendo
lá das folhagens,
baixinho:
- é estranho onde aqueles dois foram fazer seu ninho!

Correremos pois
os dois,
pelos varadouros
e extensas aléias
das matas cheias de sombras e de flores
debruadas de verdes rendas...
- hás de soltar ao vento os teus cabelos louros,
e debruçada sobre o lago quieto onde dormem ninféias
lembrarás, refletida nas águas, a Yara
das lendas...

De dia
os teus cabelos são louros, são louros
impregnados de sol!
- e gosto de prendê-los com cordões de flores
de silvestres perfumes!
De noite
os teus cabelos são negros, são negros,
impregnados de sombra!
- e gosto de amarrá-los com cordões faiscantes
dos vagalumes!
Quando em teus cabelos louros
ou negros,
mergulho o rosto,
- parece:
que faz sempre sol-posto!
que a noite mansamente nos meus olhos desce!
...........................................................................................
Parece
que tudo roda, que tudo foge, que tudo cresce
e desaparece...


Fausto


Tu, moça, bela, tão calma...
Eu, inquieto, a alma ferida...
- O Diabo leve a minha alma,
quero o amor de margarida!


Fogo

Prostituta que fosses, eu te amaria
do mesmo modo.

O amor, como o fogo,
purifica o que toca.


Frutos proibidos


Teus seios - frutos maduros,
cachos de uva de um pomar
guardado por altos muros
que apenas vejo, ao passar...


Gata Angorá


Sobre a almofada rica e em veludo estofada
caprichosa e indolente como uma odalisca
ela estira seu corpo de pelúcia, - e risca
um estranho bordado ao centro da almofada...

Mal eu chego, ela vem... (nunca a encontrei arisca)
- sempre essa ar de amorosa; a cauda abandonada
como uma pluma solta, pelo chão deixada,
e o olhar, feito uma brasa acesa que faísca!

Mal eu chego, ela vem... lânguida, preguiçosa,
roçar pelos meus pés a pelúcia prata,
como a implorar carícias, tímida e medrosa...

E tem tal expressão, e um tal jeito qualquer,
- que às vezes, chego mesmo a pensar que essa gata
traz no corpo escondida uma alma de mulher!


Gosto quando me falas de ti...


Gosto quando me falas de ti... e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos tranqüilos

Gosto quando me falas de ti... e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs...

Gosto quando me falas de ti... quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,
maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti... e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol
distendido,
e descortino o teu destino, como um caminho certo, cuja
primeira curva
foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti... porque percebo que te desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrola inútil como um novelo
que nos cai no chão...


Insaciáveis

Teus seios... Tento aplacar
seus insaciáveis desejos,
e hei-los de bicos pro ar
sempre a procura de beijos!


Interlúdio


Há uma estranha ternura, há uma estranha meiguice
na expressão de teu rosto e em teu modo de ser.
Criança e mulher... talvez, ainda ninguém te disse
o que, com o meu olhar, confessei, sem querer...

Teu olhar... esse teu olhar adolescente
onde há um misto de sonho e indeciso desejo,
me perturba e emociona inesperadamente
sempre que em meu caminho, eu te encontre, eu te vejo...

Quando vens para mim, e te sinto ao meu lado
a olhar-me nos olhos, terna, fundamente,
teu coração, - bem vejo, - é um pássaro agitado,
a bater em teu peito, as asas, febrilmente.

Que fazer? E essa dúvida atroz me alucina.
Em teus olhos inquietos, há um clarão qualquer.
Devo deixar passar a criança, a menina,
ou devo transformar a menina em mulher?

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