sábado, 26 de janeiro de 2008

Poemas do Amor Ardente 2 - José Guilherme de Araújo Jorge

Madrigal em tom de prece


Principalmente gosto dos teus olhos de águas e espantos
onde flutuas em transe, na luz de duas estrelas fugidias,
e porque eles me dizem que continuas intocada por dentro
e eu fui o primeiro, e há muito me pressentias.

E gosto de teus cabelos quando escorrem
entre meus dedos, e me dão a impressão
de que te tenho nas mãos, e de que todo me emaranho
em sua rede, e de que estamos presos, submersos, perdidos,
sem salvação.

Gosto de tuas mãos pequenas, boêmias, andarilhas
que saem com o destino do amor, e me percorrem,
e se perdem sem caminhos pelos meus cabelos
e me encontram por toda parte, e me aconchegam,
e me socorrem.

Gosto dos teus quadris, amplo vaso torneado
de onde nasce, num torso de planta, a envolver-me
em seus ramos,
de planta que se abre em flores e frutos
que eu desejo e colho
vermelhos, em tua boca, em tuas mãos, em teus seios,
quando nos amamos.

Gosto de tuas costas (como um arco, flexível)
que se alargam em duas luas imensas, geminadas,
surgindo entre os lençóis,
clareando a escuridão,
e que às vezes, de certo jeito, me parece
em teu corpo de mulher,
num meneio qualquer,
com uma grande, exótica e sensual
folha de tinhorão!

Gosto de tua ternura, ternura de vaga mansa,
ternura de praia curva, de enseada onde me deito
como um barco carregado de itinerários,
e de onde, sempre, nunca mais quero partir,
se tudo em torno é perfeito...

Gosto de teu amor... humilde amor que me incensa,
(turíbulo em que teus sentidos todos se consomem)
humilde amor que me exalta, e se prosterna fiel,

como se fosse um Deus, pobre deus submisso
a este culto que o faz tão simplesmente um homem,
- um homem tão preso à terra,
de repente... no céu...


Manjares


Teus seios, belos, perfeitos
(misto de fruto e de flor)
são brancos manjares, feitos
para as delícias do amor...


Marinha nº 1
(Desmancha os meus cabelos)

Desmancha os meus cabelos, como fazes
quando estamos os dois calmos e em paz,
em vazio colóquio - quando estamos
como dois barcos quietos... junto ao cais...

Quando deixamos para trás o mar,
mar de impulsos, de sonhos e desejos,
quando o teu corpo é um barco ao meu comando
sacudido de ventos e de harpejos...

Já vencemos, os dois, cantos e vagas,
na aventura das horas dionisíacas,
deslumbrados com os próprios temporais...

Desmancha agora, amor, os meus cabelos,
como fazes nas horas de bonança,
quando somos dois barcos, junto ao cais...


Marinha nº 2
(Em teus braços)



Em teus braços, sou como um barco
desarvorado,
por roteiros perdidos...

E o meu desejo é este vento
que levanta procelas
em teus sentidos...

Ah! Morrer assim
como um marinheiro,
e mergulhar, e me afogar...
... e encontrar meu destino e meu fim
em teu corpo de mar...


Marinheiro


Vocação de marinheiro,
percorri o mapa de teu corpo branco
em todos os roteiros
até os que inventei...

E ainda fui te revelar tua própria beleza
no espelho de meus olhos deslumbrados,
e nas histórias que na volta
te contei...


Mas... sorriste!...


Quando ficaste nua... inteiramente nua...
vi-te como uma estátua em tua perfeição,
e não ousei me aproximar sequer...

.........................................................................

Mas sorriste...
E o teu sorriso quebrou todo o “encanto”...
- Matou em mim o artista... e o homem despertou!
- Matou em ti a estátua... e surgiu a mulher!


Mensagem cifrada


Minhas costas ficaram como sensíveis palimpsestos
onde escreveste, com os estiletes de tuas unhas
estranhos caracteres
em misteriosa linguagem...

São loucos hieróglifos que gravas sem sentir
como um artista em transe que se pusesse fora de si,
a transmitir a sua mensagem...

Nem tu mesma és capaz de traduzir os sinais
que deixaste gravados em minhas costas
fixando aqueles instantes de infinito prazer
e exaltação,

e eu penso, que se pudesse um dia decifrá-los
teria descoberto o segredo da escrita
do amor
e penetrado, e revelado o enigma
da própria Criação!


Misticismo



Teu amor me transformou num crente, eu que tinha
a alma arejada e clara
como os descampados batidos de sol...

Habituaste-me aos meios-tons das tuas súplicas e
das tuas palavras murmuradas
à penumbra envolvente dos teus êxtases de humildade
e oferecimento
ao perfume morno de incenso das tuas carícias
de pelúcia angorá...

E eu me ajoelho diante do teu corpo belo, do teu corpo branco
porque ele é o meu altar,
acendo a chama vermelha do Desejo nos castiçais
quentes, de carne
dos teus seios nus,
e recebo do cálice entreaberto dos teus lábios puros a
hóstia do grande amor!

Teu amor encheu meus sentidos de crepúsculos santos
e místicos
eu rezo todas as noites no altar branco do teu corpo
oração profana da Vida e do Desejo!

Benditos aqueles que podem orar como eu, no catecismo
vivo dos teus cinco sentidos

os cinco mandamentos que os deuses quiseram desconhecer
e que valem no entanto muito mais que os dez...

Agora eu aprendi a rezar. E encho os teus ouvidos de
preces ansiosas
e palavras suaves...
Ao nosso lado então, tudo é vazio, é longínquo, é enorme,
quando os nossos corpos se unem
se confundem
como os feixes de luz que se cruzam na sombra,
no interior sonâmbulo das naves...

Na minha religião, que é a tua religião
eu sou o único deus,
não há santos, nem impostores, nem missais solenes, de
litúrgico esplendor...
No altar branco do teu corpo, entre as chamas rubras do
Desejo
eu sou o Senhor!

Teu amor me transformou num místico, eu que tinha a
alma arejada e clara
como os descampados batidos de sol...

Porque antes, eu queria mulheres nuas correndo por
entre matas e alfombras,

queria meu teto na curva do céu!
queria meu leito na terra do chão!
Meu Desejo era um fauno livre e erótico
num templo pagão...

Hoje, fujo da luz do dia, dos descampados indiscretos,
das ruas cheias

Já não quero o leito pagão de todos os homens
onde pisam todos os caminhos
onde pousam todos os olhares...

Quero o teu misticismo acariciante, a tua sombra que
tem gestos envolventes
sinto-me bem na penumbra roxa do nosso aconchego
no mundo escondido do nosso leito,
quando os teus olhos são como dois vitrais iluminados e
cheios de lendas
e o meu Desejo é a chama tremula que acendo sempre
em devoção
aos meus pecados...

Hoje eu não sou pagão, hoje eu já sei rezar para os teus ouvidos
uma doce ave-maria:

“Ave Maria
cheia de graças
com dois seios brancos como duas luas caídas do céu,
o senhor é convosco porque eu sou o vosso único senhor,
bendita sois vós
entre todas as mulheres, e porque me quereis,
bendito é o fruto do vosso ventre e do nosso amor,
e mil vezes bendita porque vos adoro
um segundo, talvez...”


Benditos aqueles que fogem da luz onde todos os olhos
são cegos e todos os passos incertos
para a sombra acolhedora de um pouso onde há uma
árvore farta de ramaria
cheia de música e poesia
para o nosso ouvido deslumbrado,
e traz no ramo que pende o fruto doce e maduro do
grande pecado...

Por ele viveremos e sofreremos livres,
por ele canto e me exalto nestes versos meus,
longe de insipidez do Paraíso, onde éramos demais
porque já havia um deus...

Benditos os que tomam o hábito da divindade quando
encontram os mandamentos
da Vida,
e podem orar como eu, no catecismo vivo dos teus
cinco sentidos
uma ave-maria
para cada Noite
para cada Dia!


Modelo


I
Quero que poses para mim.

Encontrarei a palavra que exprima,
o que em meu sangue tumultua,
e a imponderável e secreta rima
que é só tua.

Serás minha obra-prima!
Serei o teu pintor...
Quero que poses para um poema, meu amor,
toda nua.


II
Quero que poses para um poema,
toda nua.

(Perdoa, meu amor. Bem estranha é a exigência
com certeza...)

Sou um humilde poeta moderno
que não confia na imaginação,
nem faz esta injustiça
à tua beleza!


Moleque


Frio ou Calor?...

Cobri com as mãos os teus seios...
Tremiam, nus, meu amor...
Não sei se era de receios,
se de frio... ou de calor...


Morrer?


Quem te viu como eu vi, em meus braços perdida,
sem dúvidas e enleios,
o corpo, como as curvas de uma estrada
por onde louco me fui em constante escalada,
do vale de teu ventre
aos cumes de teus seios...

Quem te sentiu assim, quando estávamos sós,
com teus braços em torno a mim
como cipós,
teus braços delicados, de repente possantes
e ardentes
como ondulantes
serpentes...

Ah! quem provou a força imprevista que punhas
nesse laço,
sentindo sobre mim, como estranhas picadas,
as tuas unhas
cravadas
em cada abraço...

Quem te teve como eu - toda, inteirinha -
(cada encontro era uma lua-de-mel, uma boda!)
quem como eu te sentiu minha,
com essa ânsia da terra sedenta a erguer no alto
os ramos,
estonteada de luz e calor,
entregando-se toda
à carícia molhada da chuva
sem pudor...

Ah! quem te teve assim, e te tem, e te quer,
nesta loucura imensa
que às vezes nem parece amor, parece doença,
e sente que possui de ti nestes instantes
a tua alma e o teu ser,

não precisa seguir mais... nem um passo que seja!
- teve tudo afinal que se quer ou deseja,
já podia morrer...


Morrer...



Quando estamos a sós... quando o teu corpo enlaço
e mergulho o meu rosto em teus cabelos soltos,
por Deus que nem eu sei o que sinto, o que faço,
há em mim a confusão de desejos revoltos!

Tendo os lábios aos teus longamente apertados,
misturo em nossas bocas nossa própria Vida,
e ao te sentir pesar em meus braços, vencida,
o mundo é um caos que gira em meus olhos cerrados...

Quando encontro em meu corpo o teu corpo macio,
os seios soltos, nus... fremindo no meu peito,
- abraço-te numa ânsia! ... e depois que te estreito
sou como um tronco em queda a soltar-se num rio!

Eu te quero e desejo! ... Esse amor que me dás
é uma alucinação que cega os meus sentidos...
Meus braços te enlaçando, querem sempre mais
até que os nossos corpos rolem confundidos...

Não há nada no mundo, eu junto a ti, sou franco!
Desprezo a terra inteira, e todos os tesouros
para poder beijar o teu pescoço branco
e desmanchar com as mãos os teus cabelos louros!

Não há mundo, se te ouço num débil socorro
a debater-se em vão e a murmurar: “sou tua!
cobre-me de carícias que me sinto nua
e aperta-me ao teu peito que em teus braços, morro!”.

..............................................................................................

Quando estamos a sós... calados, esquecidos,
nosso amor é um incêndio esplêndido, sensual,
e julgamos morrer ao seu calor, vencidos
ao sublime estertor de um desejo imortal!


Mutação


E o lírio esbelto e puro, de alvas pétalas
com seu ar branco de sonho
no seu esguio pendão,
curvou-se naquele dia quando o vento passou
e manchou-se na terra
e desfez-se no chão.

No mesmo lugar, surgiu da mesma terra
a corola vermelha
de outra flor,
uma viva papoula cor de sangue
com uma boca ansiosa, aberta para o amor...

..................................................................................

Não sei porque neste momento
vieste ao meu pensamento...


Não tentes mais fugir...


Sou moço, ainda lateja o sangue em minhas veias
na força de uma idade ardente e tropical...
- tenho lavas no peito, e o teu olhar sensual
é fogo com que a carne, em ânsias, incendeias...

Minha alma tem a sede e a ardência das areias
sob o sol de um deserto inclemente e fatal...
- Tens tentado fugir... - mas um dia, afinal
possuída, hás de cair aos desejos que ateias...

Na entranha de teu corpo há uma árvore escondida...
- Tua boca é uma flor de carne, e os teus seios
dois frutos sazonando entre ramos da vida...

Eu quero a tua sombra... A minha alma te quer...
- Não tentes mais fugir... liberta os teus anseios
nessa noite de amor em que serás mulher!...


Noite


Há na expressão do céu um mágico esplendor
e em êxtase sensual, a terra está vencida,
deixa enlaçar-te toda... A sombra nos convida,
e uma noite como esta é feita para o amor...

Assim... Fica em meus braços, trêmula e esquecida,
e dá-me do teu corpo esse estranho calor,
ao pólen que dá vida, em fruto faz-se a flor,
e o teu corpo é uma flor que não conhece a vida...

Há sussurros pelo ar... Há sombras nos caminhos...
E à indiscrição da Lua, em seu alto mirante,
encolhem-se aos casais, os pássaros nos ninhos...

Astros fogem no céu... ninguém mais pode vê-los...
procuram, para amar, a noite mais distante,
e eu, para amar, procuro a noite em teus cabelos!...


Nossa cama


Olho nossa cama. Palco vazio
sem o drama, sem a comédia,
do nosso amor.

A nossa cama branca,
branca página, em silêncio,
de onde tudo se apagou...

(Meu Deus! quem poderia ler aquelas ânsias, aqueles gemidos,
aqueles carinhos
que a mão do tempo raspou, como nos velhos
pergaminhos?...)

A nossa cama
imensa, como a tua ausência,
tão ampla, tão lisa, tão branca, tão simplesmente cama,
e era, entretanto, um mundo,
de anseios, de viagens, de prazer,

- oceano, que teve ondas e gritos encapelados apelados,
e nele nos debatemos tanta vez como náufragos
a nadar... e a morrer...

Olho a nossa cama, palco vazio,
em nosso quarto, - teatro fechado -
que não se reabrirá nunca mais...

Nossa cama, apenas cama, nada mais que cama
alva cama, em sua solidão
em seu alvor...

Nossa cama:
- campa (sem inscrição)
do nosso amor.


Numa tarde como esta...


Ouço a chuva cair, e ninguém pode
saber, quanto a minha alma está sozinha...

Lembro-me bem: chovia assim, chovia.
- Numa tarde como esta ela foi minha.

E enquanto não chegava, eu me dizia:

- “Vai molhar-se todinha, o meu amor...
Tão frágil, que receio ao vento e à chuva,
antes dos beijos meus, se desintegre...
Onde estará neste momento ainda?
E enquanto não chegar, nada há de ver...”

E lá fora aumentando a chuva, e a chuva
me olhando, indiferente ao meu sofrer...

(Na penumbra do quarto, as coisas todas
eram sombras vazias, esperando.)

De repente: seus passos. Sim! seus passos...
Adivinho-lhe os olhos: não mentira.
E quando a porta se fechou, pensei
por um momento ainda, que não era,
- que eu é que louco imaginara tudo.

Encostou-se ao meu peito, e o coração
vaga escondida, contra o meu batia.

Beijei-lhe a boca... e então bebi-lhe as gotas
no pescoço, no rosto, nos cabelos...

-”Criancice, meu amor!... - molhada e fria esta roupa
há de até lhe fazer mal...”

Tão débil era o amor a aconchegar-se:
quase uma criança entre medrosa e alegre,...

Ah, a chuva que a molhou!... E eu fui cuidá-la...
e em pouco, éramos dois, ardendo em febre...


Numa tarde como esta ela foi minha,
molhada e trêmula a colhi nos braços.

Hoje, chove... A minha alma está sozinha...
E nunca mais hei de escutar seus passos...


O espelho


Dizias não gostar dele...
Mas já te vais acostumando à sua silenciosa
presença...

Mudo espectador só ele tem o direito de assistir também
às redescobertas de tu beleza.

Tu me chamas de louco, porque às vezes,
não contento de ver-te a face,
te surpreendo em descuidadas revelações
em seus olhos prateados...

Tolice, amor,
por ele posso encontrar num imenso instante
todas as faces de tua beleza
e multiplicar ao infinito
as loucuras e alegrias do nosso amor!


O grande momento


Como uma réstia de sol instantânea,
tu entras
pela porta entreaberta,
nem bem te adivinho.

...Esse o momento maior de euforia e tranqüilidade,
quando a porta se fecha sobre o teu vulto
e meus braços se abrem para receber-te.

Esse o momento maior de euforia e tranqüilidade:
há calor em meu peito e o verão em teus olhos;
- como que tocadas de vento, foram-se todas as dúvidas
da tensa espera, angustiosa.

De repente, desanuviam-se todas as ânsias,
todas as inquietações;
ouço-te a respiração ofegante, sinto-te as mãos frias,
tenho-te de encontro ao peito ainda sem nada dizer.

Sei agora que és minha, que foste minha, que serás minha,
principalmente que és minha, pois não mais te espero:
te tenho!

- Imprevistos não deterão teus passos,
nada desviará nosso encontro se estás
em meus braços...

Canto e rio, e nem percebes... Canto e rio
e te amo,
beijo-te em silêncio, e penso que nada mais te desviará
de meus desejos:
a chuva, o vento, a morte, que sei eu?

Esse o momento maior de euforia e tranqüilidade...
Um no outro, vivemos a impressão de que nós
apenas conhecemos
essa felicidade,
que nunca ninguém a sentiu...

Depois, os olhos fechamos, e silenciamos...
O resto do mundo parou (que mundo?) parou...
sumiu...


O guia...


Toda te entregas às minhas mãos, confiante.
Sabes que elas são o guia, e te conduzirão
a todos os caminhos que teu desejo
imaginar


O óbvio


- Por que casamos, senhora?
Vivemos tão bem os dois...
Já não fazemos agora
o que faremos depois?


O perfume

Ficaste, inteira, neste perfume
que continua em minhas mãos.

Meu olfato dá olhos às lembranças
e te vejo, e te dispo, e ainda te encontro, ainda...

Minha insônia vai ficar a noite toda
a sonhar neste perfume...


O sonho


Eras minha, ou melhor, ias ser minha...
Eu te beijava toda, lentamente,
e meu beijo de amor, tonto, ia e vinha,
como um pássaro no ar, leve, impaciente.

Primeiro, em tua boca me detinha,
depois, ia descendo, em lava ardente;
e ao descobri-te, inteira, nuasinha,
de beijos te cobria, inteiramente:

- os seios, os quadris, o ventre, tudo...
Estranha lava de um vulcão sem chamas,
de um estranho vulcão, violento e mudo...

Mas, acordo... Os lençóis frios, desertos...
Ó meu amor, se é certo que tu me amas,
vem, que eu quero sonhar de olhos abertos!


O véu da fantasia


Desnuda-te apenas nos instantes cegos dos sentimentos
quando todos nos transfiguramos,
(de nós mesmos, esquecidos...)

Meu Desejo quer-te velada
novamente,
tão de pronto meus braços te soltem
tal coo um tronco abatido
ao sabor da corrente...

Não te exponhas assim, displicente, aos meus olhos
que banalizas tua beleza
e podes te igualar a encardidas visões...

Que desça o pano ao fim dos espetáculos
e que voltes aos bastidores
antes das novas apresentações...

Quero-te nua em meus braços, (mas deixa que te confesse: )
quero-te nua, com essa encantada nudez
que eu diria
vestida sempre com um véu
de fantasia...


Olho as mãos... e penso...


E dizer que estas mãos te conheceram...

Que para elas não guardavas segredos
e a elas tantas vezes te entregaste, em confiança
como uma criança...

Olho-as, como se fossem as mãos
de um jogador - que tudo ganha e tudo perde -
mãos que tudo tiveram nervosas, aflitas,
e de repente já nada tem, e estão vazias e infinitas
sobre o pano verde...

(Só que em minha roleta, o pano é negro,
da cor dos teus olhos...)

Preocupo-me, amor, neste momento, ao fitá-las:
quanta coisa puderam ter retido...

E penso:

- quem há de, agora, desabotoar atrás
aquele teu vestido?


II
Estas mãos, que foram guias, cicerones
em viagens maravilhosas
ao redor de nós mesmos -
mãos que inutilmente carrego:

- agora,
mãos insones,
mãos nervosas,
são como guias de um cego.


Ontem... Hoje...


(Ó Amor, como desandas!)
Ontem, ciúmes... mil espreitas...
Hoje nem sei com quem andas
nem em que cama te deitas...


Oráculo


Sinto que vens de longe, através das eras,
para um mundo profano, esquecido das olímpicas
belezas,
das mediterrâneas primaveras
e das perfeições supremas...

Eu sabia que vinhas, e por isso eu te esperava ...

Ressuscitarei em teu corpo a alma perdida e escrava,
e ao milagre da ressurreição,
vibrarão teus ouvidos com a música dos meus poemas
e os teus olhos com a fantasia da minha imaginação!

Despertarei em tua carne todos os gestos adormecidos
e ressoarão novamente em teus sentidos
acordes imortais de outros hinos de amor...

Soprarei a luz nas tuas órbitas frias e inanimadas
que não viram a marcha dos tempos,
e na superfície de cristal de tua beleza serena
acordarei repuxos de líquidos corpos
transparentes,
e mergulharei nas profundezas as minhas mãos nervosas
-as minhas mãos ardentes...

Depois... eu turvarei a pureza sem mácula
da tua alma presa
e adormecida,
trazendo-te do fundo de ti mesma, e entregando-te surpresa
a própria Vida ...

Libertarei o teu corpo feito de ritmos elementares
para a suprema celebração desse milagre criador...
E dos teus esponsais com o Poeta,
renascerão em tuas formas
todas as estátuas gregas,
e de teu ventre virá a luz que há de perpetuar a beleza
na imagem de um novo deus, filho do nosso amor!


Orquídea


Está em teu corpo, como a flor
sobre o abismo
presa ao ramo oscilante
num aceno de vida ou de morte.

Flor de sombra e mistério, nascida
em teu corpo,
velada, escondida,
rara orquídea na penumbra da mata
entre réstias de sol.

Diante dela me ajoelho, como num altar,
deslumbrado de vê-la,
e quero então alcançá-la... e a alcanço sempre,
sem colhê-la...

Flor de sombra e mistério
flor de nuvens e de algas
flor de líquens
que me atrai,
que colho sempre... me deslumbra
e foge,
e de repente, se esvai...


Os pombos


Pousaram em teu corpo, em tempo imemorial,
dois alvos pombos
e em ti fizeram ninho.

Vou encontrá-los, vivos, aconchegados,
e só faltam arrulhar quando os tomo nas mãos
tensos, pesados,
e os acarinho...

Alvos pombos, em ti,
descubro-os sempre a medo, a temer espantá-los...

- São encantados regalos
para os meus olhos,
e soltos, postam-se inquietos
e surpresos,
como ainda há pouco os vi...

Os bicos no ar... (parece que ainda estou a vê-los)
em suspenso, palpitam sem que eu possa contê-los,
mas em vão tentam voar:
- estão presos a ti...

Alvos pombos... (“quem sabe se se põem a arrulhar
quando os tenho nas mãos, belos,
sensuais,
tal como os outros quando se amam,
e arrulham
nos beirais?”...)


De penas ou de arminho?
Pousaram em teu corpo, em tempo imemorial
dois alvos pombos,
e em ti fizeram ninho.


Parreira


Nua,
pequena e graciosa,
com teus seios
pesados e cheios
que enchem as minhas mãos,
embriagam
meu lábios
e entontecem
meu olhar,

tu me lembras
uma parreira nova
de haste delicada,
com dois belos cachos
sazonados
a balançar...


Passional



És lânguida e amorosa quando estás sozinha
em teu corpo perfeito este amor apoteosas!
Nos teus olhos distantes, tudo se adivinha
e há em teu beijo um sabor encarnado de rosas!

Nasceste com certeza para ser rainha,
e o serias na certa, das mais poderosas
- no entanto, aqui te tenho escrava, e sendo minha
cabes toda e inteirinha em minhas mãos nervosas!

Os teus cabelos louros, soltos sobre o leito
espalham-se em meu ombro, emolduram teu rosto,
e, quando assim te sinto abatida em meu peito

os teus olhos castanhos, místicos, oblongos,
vão morrendo em desmaios roxos de sol posto
sob, a noite de seda dos teus cílios longos!


Paternidade


Deito a vida na cama
e durmo com ela.

Faço filhos na vida
com amor:
aí estão: meus poemas.

Choram, cantam, riem, lutam,
principalmente amam -
parecem-se comigo, bem sei que têm defeitos,
- mas são meus:
neles pulsa meu sangue e se agita minha alma -
cumprirão seu destino.

.........................................................................................

Há uns poetas por aí
que só fazem filhos
por inseminação artificial.

Não amam. Têm por isso um ódio de morte
aos poetas do Amor.


Pecadores



Ali - no canto escuro do jardim
não havia o menor sinal de gente...
Só nós dois. .. E eu então, sensualmente
beijei-te a boca... o seio... tudo enfim...

Nem eu sei bem dizer o que se sente,
quando estreitei teu corpo junto a mim...
- Embriaguei-me talvez... completamente...
- naquele canto escuro do jardim...

Fui ousado, bem sei... Dizias: - não!
- mas não pude te ouvir sentindo aquela
tão louca e indescritível sensação

E pequei... - Pecaria outro qualquer
- Foi mais culpado o Deus que te fez bela
e ele - o Demônio -, que te fez mulher!


Peixe


Nem tu saberias dizer
quantas vezes já mergulhei nas águas claras de teu corpo
a procurar-te...
Em teus braços mudei de espécie.

Sou um peixe entre algas e corais...
E agora se me tirarem da água
é que morrerei.


Poema para as mulheres de todas as cores


Oh, o estranho prazer de deixar nossa imagem em todos os olhos
castanhos ou negros, verdes ou azuis,
nos olhos das mulheres que amamos ou desejamos,
que fizemos felizes
ou infelizes,
- nos olhos das mulheres de todos os países...

Oh, o estranho prazer de sob os céus mais distantes, frondejar
nossos ramos,
e nas terras mais longes, mergulhar
nossas raízes!

O prazer de deixar nossos beijos, e a mancha dos nossos contatos,
em todos os corpos nus,
morenos ou brancos, caboclos, mulatos,
manchados, de sombra!
pintados de luz!

Oh, o estranho prazer de saber que em todos os idiomas
pensam em nós...
- que em cada porto há um lenço que nos chama,
uma lágrima, no olhar de quem nos ama,
e um soluço, e uma voz!

- E que somos lembrados
em todos os lugares...
- e adorados
em todos os altares...

Oh, a alegria de deixar no ventre de todas as mulheres,marcadas
pelas nossas carícias,
- deslumbradas
pelo nosso amor,
- o pólen de ouro dos nossos sentidos incontentados
que hão de dar frutos louros, morenos, pigmentados,
conforme a cor da corola
conforme o colo da flor!


Poemas (Numerados)


Nº 03
Queria ser o perfume
que te conhece toda
e te acompanha invisível
e fiel.


Nº 04
Principalmente
continuaste nas minhas mãos,
onde teu perfume
te guardou inteira.


Nº 39
Te amo também com as mãos, como um cego.
E não me canso de procurar em teu corpo
os caminhos onde me perco.


Nº 40
E ficaram nas minhas costas as marcas de tuas unhas,
como as pegadas do louco viajante
antes que o abismo o tragou.


Nº 49
Sentindo o caminhar sonâmbulo de tuas mãos
e os passos embriagados de teus dedos,
sou um homem que se dissolve.


Nº 55
Às vezes te sinto sob os meus dedos,
como um teclado onde minhas mãos insaciáveis
repetem infinitas escalas...


Nº 79
É sempre a mesma ânsia...
Tomo-te as mãos, os lábios, e estaremos toda,
e te deitas como os verdes capins nas encostas
quando passa o vento...


Nº 43
Não dou tempo ao teu pudor
e te tomo sobre meus joelhos...
Colho a tua graça nua
frente ao espelho...


Nº 60
Estavas nua em meus braços,
esquecida de que já era tarde...

Só o espelho complacente
tinha razões para compreender
o nosso esquecimento


Nº 56
E este amor marinheiro, a viver de chegadas
e partidas, - inquieto e louco,
quando desejaria a terra para se enraizar...


Nº 58
E de repente, abri os olhos... e nossas bocas
se debatiam como dois náufragos abraçados
que não soubesse nadar...


Nº 73

Quando te cubro com meu carinho,
não sentes frio.

Quando te sinto tão junto a mim,
e te abraço, e me perco, e te perdes,
já não sabemos mais o começo
e o fim...


Nº 77
Cada instante de posse é uma “aleluia!”
Oh! colher-te em botão
tornar-te flor...

Onde andará o poeta que escreveu
que “a conquista é o réquiem do amor”?


Nº 76
Já agora és minha.

Estou em ti, como a seiva
invisível
a circular,
como o espaço,
onde acenas, para florir
e frutificar...


Nº 44
Sim, tive amantes e amadas,
fui escravo, fui senhor,

mas agora que te encontro
tenho a amante e a amada
num mesmo amor.


Poemeto nº 04


Na branca bandeja de teu ventre
serves a flor.

Ah! minha boca sedenta de delícias
é uma abelha tonta de amor...


Poemeto nº 6
(Me esperas)


Bom é saber que me esperas
na penumbra de teus olhos,
com teus beijos de água e tuas mãos de aragem...

E para mim desnudas
teu corpo de leite e mel,
de paina e areia...


Poemeto nº 8
(Capricho da memória)


Capricho da memória:
de tantos momentos em que te vejo
e em que no meu pensamento
tua imagem se insinua,

havia de fixar-te, naquele íntimo instante
em que mais te desejo:
inteiramente nua!


Pontos finais

Todo o teu corpo é um poema
que não teria fim
na arrogância das linhas e das formas
túmidas e sensuais,
- se a natureza, sábia, não pusesse
nos pontos culminantes de teus seios
dois pontinhos finais!...


Presença...


Se esta página onde escrevo
fosse um espelho, meu amor

... estaria embaciada ainda
pelo teu calor...


Professora...


Se me amas com tal ardor
e te dizes amadora,
com certeza, meu amor,
já nasceste professora...


Pudor


Escapas nua, dos meus braços

e vais te vestir no quarto ao lado.


Pureza


Vinde, ó mulheres puras!
Trazei a vossa beleza cheia de gestos ingênuos, ternuras
e recatos,
e vossa carne adolescente que desconhece contactos,
e vossos lábios cerrados que não provaram beijos
e vossos olhos claros nunca turvados pela sombra dos desejos!

Trazei-vos a vós mesmas, afinal,
nos vossos corpos virgens, nos vossos braços,
para a tatuagem sentimental
dos meus desejos
e dos meus abraços!

Trazei as vossas formas desconhecidas, para a curiosidade e as loucuras
das minhas mãos,
e os livros de páginas fechadas dos vossos corpos inéditos
para os meus olhos que se cansaram de relidas
e estragadas
brochuras,
- vinde! trazei as vossas ânsias irreveladas
e as vossas vidas,
ó mulheres puras!

Trazei à noite dos meus sentidos perdidos em brumas
a alegria dos vossos contornos cheios de ondas e espumas
e das vossas carnes mornas e enluaradas...
- vossos olhos serão estrelas num trecho azul da noite
entre nuvens serenas,
e eu já não seguirei entre sombras apenas
e lampiões de olheiras roxas e viciadas!

Deixai que eu me purifique em vossos braços
e mergulhe a cabeça em vossos seios
e desmanche com as mãos vossos cabelos!
Ensinai-me orações, pra que eu as possa dizer
aos vossos ouvidos,
orações de amor puro, feitas de anseios
e desvelos!

- deixai que purifique os meus sentidos
encardidos!

Que eu quero a pureza,
quero a beleza,
quero a luz,
quero o sol,
quero o calor!
- dos vossos lábios puros,
dos vossos corpos nus,
do vosso imenso amor!
.............................................................................................

Vinde! e as minhas mãos despertarão em vossos sentidos
as melodias ignoradas dos vossos instintos,
e acenderão em vossas carnes adolescentes
lampejos
ardentes,
E os vossos lábios sangrarão retintos
aos meus desejos,
e os vossos seios florirão aos meus lábios famintos
de beijos!

As minhas mãos “virtuosas”, onde tumultuam tantos sentimentos
e tantos seres
acordarão em vossas formas suaves
cheias de gestos de aves,
e em vossa carnes rijas e macias
as alegrias do amor, as supremas alegrias
de todos os prazeres!

Acordarão em vossos corpos todas as indizíveis delícias,
e meus dedos nervosos saberão compor
“prelúdios” de carícias
e “noturnos” de amor!

Vinde! E eu improvisarei sobre o teclado branco desses instrumentos,
nos mais delirantes momentos,
os mais delirantes motivos
de amor,
e ficará ressoando nos infinitos mundos
obscuros
dos vossos ventres fecundos
e puros
a melodia imortal do meu sêmen criador!.


Razões de Amor... II


Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;

de teu ventre - uma enseada
- porto sem cais e sem mar -
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teu quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;

- do teu corpo só de alvuras
- das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...

Gosto de ti
desesperadamente;

gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
- gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...


Remorso...


Eu perverti a tua ingenuidade
eu maculei tua inocência
eu pus sobre o teu vulto suave como um lírio
a sombra do martírio,
- o peso de uma cruz...

Povoei de sombra e de maldade
a tua vida
- tua vida era pura como o céu e a luz!

Eu fui o garoto mau
que, desprevenidamente,
toldou com as mãos a água clara
a água límpida
da corrente...

E da tua alma de criança
e da tua figura de boneca
fiz um vulto de mulher igual a tantos outros
por quem já cruzei...

Teu destino...
Teu destino era um romance branco
que eu quis ler mas não soube
e ao folhear
manchei...

Havia de pensar que minha experiência
não falharia;
que a tua pureza era hipocresia
tua inocência falsidade
e até supor
que a expressão de abandono de teus lindos olhos
não era amor!

E havia de sofrer a infinita amargura
de saber que por mim deixaste de ser pura,
e por ingenuidade e inocência entregaste
a tua alma e o teu corpo
para eu macular...

Preferia nem sei, preferia mil vezes
que não existisses
mil vezes preferia nunca te encontrar...

Eu perverti a tua ingenuidade
eu maculei tua inocência
e ainda queres perdoar-me o mal que te causei
e tudo o que te fiz,
- deixa que eu sofra e amargue... porque bem mereço
ser infeliz!

E poupa-me desta forma, tu que é boa e és pura
a cruel humilhação
e a suprema amargura
do teu perdão!


Revelação


Sentirás a embriaguez da vida na tonteira
dos teus sentidos...

E cairás ao chão abandonada ao Sol!

Teus lábios abrir-se-ão como pétalas úmidas
de sangüínea corola bêbeda de mel!

Tuas mãos sobre a terra, abandonadas, tremulas,
são como dois pássaros feridos, agonizando
presos aos teus braços...

Teus olhos se encherão de sombras e de estrelas
como as retinas da noite quando a noite desce...

Tua voz morrerá bem lentamente
assim,
como o arrulho dos ninhos quentes e amorosos
na hora doce e sensual em que o dia tem fim...

Mas
de repente
num rompante de Vida
teu corpo vibrará num hino alucinado!
teus olhos conterão dois sóis que te incendeiam!
teus dedos ferirão a terra em que te deitas!

.........................................................................

E outros lábios ouvirão o grito de tua boca!


Rodin


As mãos de Rodin te adivinharam
naquele torso de Danaide,
e adivinharam as ânsias das minhas mãos
nos gestos daqueles faunos...


Sensual
(poemeto)



Eram dois bicos, como dois bicos de aves,

só que tremiam sob o teu vestido...


Sensual


Ainda sinto o teu corpo ao meu corpo colado;
nos lábios, a volúpia ardente do teu beijo;
no quarto em solidão, desnuda, ainda te vejo,
a olhar-me com olhar nervoso e apaixonado...

Partiste!... Mas no peito eu sinto a ânsia e o latejo
daquele último abraço inquieto e demorado...
- Na quentura do espaço a transpirar pecado,
ainda baila a figura estranha do desejo...

Não posso mais viver sem ter-te nos meus braços!
- Quando longe tu estás, minha alma se alvoroça
julgando ouvir no quarto o ruído dos teus passos...

Na lembrança revejo os momentos felizes,
e chego a acredita que a minha carne moça
na tua carne moça até criou raízes!...


Sonata ao Luar



Branca, tão branca, como se fosse feita
toda de luar,
- um luar humano...
- como se seu corpo fosse o maravilhoso teclado
de um piano
à espera de mãos de artista para o despertar!

Branca, tão branca, como se seu corpo fosse
feito da espuma do mar,
mar de delícias, mar de meus anseios...
- adivinho a inquietação desse mar de mistérios
quando tremem as ondas vivas dos seus seios!

Branca, tão branca, como se fosse feita
da mais fina areia,
dessa areia que é luz embebida de sol
dessa areia que canta ao contato do mar!
Areia de uma praia impossível e desconhecida
numa enseada escondida
onde nenhuma vaga ainda foi se espraiar...

Branca, tão branca, como se seu corpo fosse
uma estátua vestida em mil véus de luar,
(- branco luar de camélias e de lírios
que tem forma de mulher em meu olhar -)
um morno luar de amor, a viver em meus nervos,
como a lua, sobre os nervos deslumbrados
do mar!

Branca, tão branca, como se seu corpo fosse
num gesto heráldico e fino
um lírio esbelto no ar!...
- um lírio de alma vermelha de rosa feiticeira
que abre os lábios úmidos, brejeira
para o sol beijar!

Branca, tão branca, como se seu corpo fosse
esta folha sem mancha onde escrevo os meus versos
a pensar,
- pensar que hei de compor na alvura do seu corpo,
versos do nosso amor, sem rimas nem palavras,
que ela só há de ler... a viver...
a vibrar...

Branca, tão branca, como o meu pensamento
antes de a encontrar...


Strip-tease


Tua alma foi se despindo
a pouco e pouco
como num espetáculo de “strip-tease”.

E quando te vi nua,
tal como eras;
possuí teu corpo.


Suprema ironia


E eis a suprema ironia
ao meu coração ferido:
- tu foste trair-me um dia
mas, com quem? – com teu marido...


Templo pagão


Quando inteira te despes, - os teus ombros nus
modelados de luar, de areias e de luz;

os teus seios pequenos, trêmulos e ousados,
como frutos maduros, quentes, sazonados;

e os teus curvos quadris esculturais, e as ondas
das nádegas carnosas, cheias e redondas;

e o detalhe das pernas firmes, que eu contemplo
como a duas colunas áticas de um templo;

e a borboleta fulva, de asas de veludo
imóveis e espalmadas no teu claro ventre;

quando inteira te despes aos meus olhos, - tudo
é um convite de amor a que eu viva, a que eu entre

para rezar no templo escondido e velado
que há no teu corpo esplêndido e marmorizado

uma oração pagã, olímpica e sensual,
em glorificação da beleza imortal!


Teu véu...


No começo,
mesmo inteiramente nua,
completamente nua,
não te despiste ainda...

Ainda te cobres com um véu
de sutil transparência,
- um véu de inquieto pudor...

Depois
é que realmente ficas nua,
e esqueces teus embaraços:

- quando te tomo em meus braços
e te enlouqueço de amor!


Teus cabelos


Estamos quietos amor, em bonança
esquecidos de nós
viajando por nós mesmos, sem nós mesmos...

Distraída e imprevidente
te recostas em meu peito
e estás leve e alheia como uma criança sem sono.

De repente, minha mão encontra teus cabelos
e como estranha aranha se esconde em tua nuca,
e meus dedos se entranham e se emaranham
como raízes profundas, silenciosas.

São teus cabelos, sim,
não posso mais tocá-los...

Tem estranhos eflúvios que me fazem estremecer
até o fundo de mim mesmo,
e... já não me reconheço...

Tua cabeça em minha mão acende-se como uma tocha loura,
e olhos em teus olhos as chamas que ardem, sopradas
por que misteriosos ventos?

Gosto de encher as mãos com os teus cabelos,
como um lavrador, a recolher, feliz,
as louras messes de uma farta colheita.

Ah, teus cabelos, amor,
são um incalculável tesouro...

Quero morrer sempre e cada vez mais
como um rei Midas afogado em ouro
perdido neles, como em mar de sonhos...


Última página


Daqueles instantes de morrer, em que eu
te tenho em meus braços, e eu perdido;

das lembranças que ficam rodopiando loucas
como folhas que o vento revolve, e eu revolvo;

dos meus turvos ciúmes sem razão, que nascem
como a hera a manchar de sombra os muros brancos

da nudez de teu corpo de assomos e encantos
que eu amo e colho em lances medievais de herói;

da solidão sem fundo em que afundo e me perco
quando estás não sei onde – em que terras sem céu?

- deste amor que chegou para ser o começo
e esqueceu para trás qualquer rastro de sonho;

fiz este livro, trevo de quatro folhas, trevo
lírico e confidente, multipétala flor,
que em verdade só tu colherás...

...................................................

(Este livro que é só teu, e só teu... Que te devo
e pagarei com amor...

Oh! insignificante parcela, de tudo o que me dás!...)


Uma hora de morrer...


I
Uma hora de morrer é aquela
em que, debruçado sobre teus olhos,
me agarro a ti para salvar-me
e sinto que afundamos juntos.


II
Uma hora de morrer é aquela em que nada dizes,
em que apenas me olhas como agradecendo,
e em que me guardas ainda contra ti,
como se quisesse Ter a certeza de que apesar de tudo
ficamos na terra.


Vício


Tu nunca chegas no meu pensamento à hora de entrar.
Chega de repente, invade tudo, e é impossível te expulsar
por que já sou eu que te procuro.

Não escolhes momento. É na hora séria ou na hora triste,
na hora romântica, ou na hora de tédio
por mais que me encontres fechado em mim mesmo
entras pelo pensamento, - clara fresta, vulnerável
às lembranças do teu desejo.

E quando chegas assim, estremeço até regiões ignoradas
e me levanto, e saio, sonâmbulo, a te buscar
e a caminhar a esmo...

Chegas - como uma crise a um asmático, -
e então preciso de ti
como preciso de ar,
e tenho a impressão de que se não te alcanço,
se não te encontro,
vou morrer, miserável, como um transeunte nas ruas,
antes que o socorro chegue para salvá-lo...

Depois que consegues atingir meu pensamento
tua posse é uma obsessão,
alcançar-te é um suplício...
Teu amor para mim - é humilhante a confissão -
não é amor, é vício...


Vingança


Ontem eu a possuí ... e você não é minha!
Paradoxo talvez, mas tudo aconteceu ...
Em pensamento, o beijo eu colhia, tinha
o sabor desse beijo que você não deu ...

De olhos cerrados, louco, a sua imagem vinha
com a força do que é real e se impôs ao meu “eu”...
E o corpo que eu tocava e a minha mão sustinha,
na sombra, aos meus sentidos cegos - era o seu!

Ontem por mais que a idéia seja estranha e louca,
- você foi minha enfim! apertei-a ao meu peito...
desmanchei seus cabelos... machuquei-lhe a boca!

E possuí-a afinal, - num ímpeto criador –
vingando o meu orgulho abatido e desfeito
num doentio segundo de paixão e amor!


Volúpia


Quisera te associar à pureza e à candura
quando pensasse em ti... Mas a emoção, teimosa,
transforma sem querer toda a minha ternura
numa estranha lembrança ardente voluptuosa...

Não poderei dizer apenas que és formosa
quando a própria beleza em ti se transfigura,
- e pela tua carne há pétalas de rosa
e no teu corpo há um canto fresco de água pura!

Um sincero pudor vislumbro em teus enleios,
mas se disser que te amo com pureza, eu minto,
- no olhar trago tatuada a visão de teus seios...

E em vão tento associar-te ao céu, à fonte, à flor!
Quando falo de ti, penso em teu corpo, e sinto
que ainda estremece em mim teu último estertor!

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