quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Pablo Neruda - Poemas






Pablo Neruda




I
Matilde, nome de planta, pedra ou vinho,
de que nasce da terra e que dura,
palavra em cujo crescimento amanhece,
em cujo estio estala a luz dos limões .
Neste nome correm navios de madeira
rodeados pelos enxames de fogo azul marinho,
e essas letras são a água de um rio
que desemboca em meu coração abrasado.
Oh nome descoberto embaixo de uma trepadeira
como a porta de um túnel desconhecido
que comunica com a fragrância do mundo!
Oh invada-me com tua boca abrasadora,
indaga-me, se quer, com teus olhos noturnos,
porém em teu nome deixa-me navegar e dormir.
II
Amor, quantos caminhos há até chegar a um beijo,
que solidão errante há em tua companhia!
Passam os trens sós rodando com a chuva.
Em Taltal não amanheceu ainda a primavera.
Porém tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa as raízes,
juntos com outono, da água, dos quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custa tantas pedras que leva ao rio,
a foz da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações.
tu e eu tínhamos que simplesmente amarmo-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.


III
Áspero amor, violeta coroado de espinhos,
brejal entre tantas paixões eriçadas,
lança das dores, coroa da cólera,
por quais caminhos e como te dirige a minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso,
de súbito, entre as folhas frias do meu caminho?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que flor, que pedra, que humo mostraram minha morada?
O certo é que tremeu a noite pavorosa,
a árvore chegou todas as copas com seu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celeste,
entretanto que cruel amor me cercava sem trégua
até que me lançando com espadas e espinhos
abriu em meu coração um caminho de chamas.
IV
Recordarás aquela quebrada caprichosa
de onde os aromas palpitantes treparam,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentitude: traje do inverno.
Recordarás dos dons da terra:
irascível fragrância, barro de ouro,
ervas do matagal, locas raízes,
sortilégios espinhos como espadas.
Recordarás o ramo que te trouxe,
ramo de sombra e água com silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos ali donde no espera nada
e falamos tudo o que está esperando.


V
Não te toque a noite nem o ar nem a aurora,
só a terra, a virtude dos galhos,
as maças que crescem ouvindo a água pura,
o barro e as resinas de teu país fragrante.
Desde Quinchamalí de onde fizeram-se teus olhos
até teus pés criados para mim na Fronteira
é a greda escura que conosco:
em teus quadris toco de novo todo o trigo.
Talvez tu não o sabias, araucana,
que quando antes do amar-te me esqueci de teus beijos
meu coração ficou recordando tua boca
e fui como um ferido pelas ruas
até que compreendi que havia encontrado,
amor, meu território de beijos e vulcões.
VI
Nos bosques, perdidos, cortei um ramo escuro
e os lábios, sedentos, levantaram seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
uma companhia vermelha ou um coração cortado.
Algo que desde tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um grito ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida escuridão dos bosques.
Porém ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã canto embaixo de minha boca
e seu errante olor subiu no meu critério.
como assim me buscaram de súbito as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
y me deteve ferido pelo aroma errante.


VII
« Venhas comigo» disse -- sem que nada supera
de onde e como ardia meu estado doloroso,
e para mim não havia chave nem barcarola,
nada senão uma ferida pelo amor aberta.
Repeti: vem comigo, como se eu morresse,
e nada veio em minha boca com lua que sangrava,
nada viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh amor agora ouviremos a estrela com espinhos!
Por isso quando escutei que tua voz repetia
"Venhas comigo" -- fui como se desprendia
dor, amor, a fúria do vinho envelhecido.
que desde sua bodega submergida subira
e outra vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue e de chaves, de pedra e queimadura.
VIII
Sim não foi porque teus olhos tem cor de lua,
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e prisioneira tens a agilidade do ar,
sim não foi porque és uma semana de âmbar,
sim não foi porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és algum pão que a lua fragrante
elabora passando sua farina pelo céu,
oh, bem amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,
E tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso vê-lo todo:
veio em tua vida todo o vivente.


IX
O golpe da onda contra a pedra indócil
a claridade estala e estabelece sua rosa
e o círculo do mar se reduz a uma cauda,
a uma só gota de sal azul que cai.
Oh radiante magnólia desatada da espuma,
magnética viajante cuja morte floresce
e eternamente volta a ser e a não ser nada:
sal roto, deslumbrante movimento marinho.
Juntos tu e eu, amor meu, selamos o silencio,
entretanto destrói o mar suas constantes estátuas
e derruba suas torres de fascínio e brancura,
porque na trama destes tecidos invisíveis
a água desbocada, da incessante arena,
sustentemos a única e acossada ternura.
X
Suave é a bela como se música e madeira,
ágata, telas, trigo, pêssegos transparentes,
foram erigidas as fugitivas estátuas.
Fazia a onda dirige-se sua contraria frescura.
O mar molha pés polidos e marcados
a forma recém trabalhada na areia
e é agora seu fogo feminino de rosa
num só borbulho que o sol e o mar combatem.
Ai, que nada te toque se não o sal do frio!
Que nem o amor destrói a primavera intacta.
Formosa, reverberante de indelével espuma,
deixa que teus quadris imponham na água
uma medida nova de cisne e de nenúfar
e navega tua estátua pelo cristal eterno.


XI
Tenho fome de tua boca, de tua voz, de teu pêlo
e por estas ruas me vou sem alimento, calado,
não me nutri o pão, a aurora me altera,
busco o som líquido de teus pés neste dia.
Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso silo,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer teu pé como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado em tua formosura,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas sobrancelhas.
e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração quente
como uma puma na solidão de Quitratúe.
XII
Plena mulher, maça carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz moídos,
que escura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ares sufocados e bruscos tempestades de farina:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por apenas um mel derrotado.
Beijo o teu beijo e recorro ao teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povos pequenos,
e ao fogo genital transformado em tua delicia.
Corre pelos pálidos caminhos do sangre
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão um raio na sombra.


XIII
A luz que de teus pés sobe a tua cabeleira,
a turgencia que envolve tua forma delicada,
não é de nácar marinho, nunca de planta fria:
é de pão, de pão amado pelo fogo.
A farinha ajuntou num seleiro contigo
e cresceu incrementada pela idade venturosa,
quando os cereais duplicarão teu peito
meu amor era o carvão trabalhando na terra.
Oh, pão de teu rosto, pão de tuas pernas, pão de tua boca,
pão que devoro e nasce com a luz cada manha,
bem amada, bandeira das padarias,
Uma lição de sangue te deu o fogo,
da farinha aprendes-te a ser sagrada,
e do pão o idioma e o aroma.
XIV
ME FALTA tempo para celebrar teus cabelos.
Um por um devo contá-los e elogiá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser teu cabeleireiro.
Na Itália te batizaram de Medusa
pela arrepiada e alta luz de tua cabeleireira.
Eu te chamo de minha travessa emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pelo.
Quando te extravias em teus próprios cabelos,
não me olvide, lembra que te amo,
não me deixe perdido partir sem tua cabeleireira
pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, de dores transitórias,
até que o sol suba a torre de teus pelos.


XXIX
Vem da pobreza das casas do Sul,
das regiões duras com frio e terremoto
que quando até seus deuses rodaram a morte
nos deram a lição da vida na greda.
É um cavalinho de greda negra, um beijo
de escuro barro, amor, amapola de greda,
pomba do crepúsculo que voa nos caminhos,
alcazia com lágrimas de nossa pobre infância.
Jovem, tem conservado teu coração de pobre,
teus pés de pobre acostumados às pedras,
tua boca que nem sempre teve pão ou delicia.
É a pobreza do Sul, de onde vem minha alma:
em seu céu tua mãe vai lavando a roupa
com minha mãe. Por isto te escolhi, companheira.
LXVI
Não TE QUERO senão porque te quero
e de querer-te a não te querer eu quero
e de esperar-te quando não te espero
passa o meu coração de frio ao fogo.
Te quero só porque a ti eu te quero,
do ódio sem fim, e a odiando-te rogo,
e a medida de meu amor viajante
é não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro,
seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.
Nesta historia tão só eu me faleço
e morro de amor porque te quero,
porque te quero, amor, o sangue e fogo.


XCIV
SI Morro sobrevive-me com tanta força pura
que desperta a fúria do pálido e do frio,
do sul a sul levanta teus olhos indeléveis,
de sol a sol que sonha tua boca de guitarra.
Não quero que vacilem tua risada nem teus passos,
não quero que se morra minha herança de alegria,
não chames a meu peito, estou ausente.
Vivi em minha ausência como em uma casa.
É uma casa tão grande a ausência
que passará por ela através dos muros
e porá os quadros no ar.
É uma casa tão transparente na ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofre, meu amor, morrei outra vez.
XXXVIII
TUA CASA sonha como um trem ao meio dia,
zumbem as vespas, cantam as caçarolas
a cascada enumera os feitos do orvalho,
tua risada desprende seu trino de palmeira.
A luz azul do muro conversa com a pedra,
chega como um pastor silvando um telegrama
e entre as figueiras de voz verde,
Homero sobe com seus sapatos sigilosos.
Só que aqui a cidade não tem voz nem pranto,
nem sem fim, nem sonatas, nem lábios, nem buzinas,
porém um discurso de cascada e de leões,
e tu que sobes, cantas, corres, caminhas, abaixas,
plantas, coses, cozinhas, clavas, escreves, moves
o te tenha ido e se sabe que começou o inverno.


XLIV
SAIBAS que não te amo e que te amo
feito de que dos dois modos é a vida,
a palavra é uma ala do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.
Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não desejar amar-te nunca:
por isto não te amo todavia.
Te amo e não te amo como se tivera
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino infeliz.
Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.
LXXVI
Diego Rivera com a paciência do osso
buscava a esmeralda do bosque na pintura
a vermelhidão, a flor súbita do sangue
recolhia a luz do mundo em teu retrato.
Pintava o imperioso traje de teu nariz,
a centelha de tuas pupilas desbocadas,
tuas unhas que alimentam o ciúme da lua,
e em tua pele estival, tua boca de melancia.
Te colocou duas cabeças de vulcão fumegantes
por fogo, por amor, pela estirpe araucana,
e sobre os dos rostos doirados da argila
te cobriu com o casco de um incêndio bravio
e ali secretamente ficaram envolvidos
meus olhos em sua torre total: tua cabeleira.


PELLEAS E MELISANDA
DE
PABLO NERUDA
(1923)


MELISANDA
Seu corpo é uma hóstia fina, mínima e leve,
Tem os azuis dos olhos e as mãos da neve.
E o bosque das arvores parecem-se congelados,
E os pássaros que estão neles estão cansados.
Suas tranças ruivas tocam a água docemente
Como dos braços de ouro brotados da fonte.
Zumbe o vôo perdido das corujas cegas
Melisanda se põem de joelhos - e reza.
As árvores se inclinam até tocar a sua frente,
Os pássaros se mudam na tarde dolente.
Melisanda, a doce, chora junto à fonte.


O Encantamento
Melisanda, a doce, se extravia da rota,
Pelleas, lírio azul de um jardim imperial,
se leva em seus braços, como um cesto de frutas.


O COLÓQUIO PASMO
Pelleas.
Estou indo para caminho, que veio para ela,
meu amor desabou seus braços, seu amor tremeu
nas suas mãos.
Dali em diante meu céu teve estrelas à noite
e os apanhar fez sua vida um rio.
Para ti cada pedra que tocarão minhas mãos
deve ser primaveral, aroma, fruta e flor.
Melisanda
Para você cada espiga deveria apertar seu grão
e em cada espiga deveria ser espigar meu amor.
Pelleas.
Você me impedirá, por outro lado que eu olhe o caminho
quando a morte chegar para deixa-la ferida.
Melisanda
Eles o cobrirão meus olhos como uma dupla venda.
Pelleas.
Falará para mim de uma estrada que nunca termina.
A música que se esconde para encantar-te hoje.
longe da canção que a borboleta gorgoleja e salienta;
como uma Via Láctea deste meu peito flui.
Melisanda.
Em seus braços são emaranhadas de estrelas altas


Eu tenho medo. Me perdoe não ter chegado antes.
Pelleas.
Seu sorriso apaga um passado inteiro;
seus doces Lábios mantêm o que já está distante.
Melisanda.
Em um beijo você saberá tudo porque está calado.
Pelleas.
Talvez não saiba como então saber sua carícia,
Porque minhas veias que seu ser terá fundido.
Melisanda.
Quando eu morder a fruta você saberá sua delícia.
Pelleas.
Quando fecha seus olhos eu estarei dormindo.


O CABELO
Pesado, espesso e rumoroso,
no ventaria do castelo
o cabelo da amada
é um lampadário amarelo.
- suas mãos brancas em minha boca.
- minha frente em sua frente enluarada
Pellàs, bêbado, cambaleia
debaixo da perfumada floresta.
- Melisanda, uma lebre uiva,
para as estradas de aldeia
- Sempre que esses uivam as lebres
morro de susto, Pelleas.
- Melisanda, uns galopes de corcel,
se aproxime a floresta de loureiros.
- Eu tremo, Pelleas, na noite
quando aos galopes dos corcéis.
- Pelleas, alguém me tocou
como uma mão fina.
- Sério o beijo de seu amante
ou a asa de uma andorinha.
Na janela do castelo
há lampadário amarelo
de um cabelo milagroso.
Bêbado, Pelleas vai furioso,
o coração também quis
ser uma boca que se beij


A morte de Melisanda
Na sombra dos loureiros
Melisanda está morrendo.
Morrera-se o seu corpo leve.
Enterraram o seu doce corpo.
Juntaram-se suas mãos de neve.
Fecharam-se os seus olhos abertos.
De forma que se ilumine Pelleas
depois que tinha morrido.
A sombra dos loureiros
Melisanda morre em silêncio.
Por ela chorará a fonte
um canto tremendo e eterno.
Para ela rezarão os ciprestes
ajoelhando debaixo do vento.
Haverá galope de corcéis,
lunáticos latidos de cachorros.
Na sombra dos loureiros
Melisanda está morrendo.


Por ela o sol em seu castelo,
Apagará-se como um doente.
Por ela morrerá Pelleas;
quando a levam para o enterro.
Por ela vagará à noite,
moribundo para os caminhos.
Por ela se pisará nas rosas
Perseguiram-se as mariposas
E se dormirá nos cemitérios.
Por ela, por ela, por ela
Pelleas, o príncipe, está morto.


Canção dos amantes mortos
Ela era bela e era boa
Perdoe-a senhor!
Ela era doce e era triste
Perdoe-a senhor!
Dormia-se em seus brancos braços
Como uma abelha em uma flor.
Perdoe-a senhor!
Amava as doces canções
E ela era uma doce canção!
Perdoe-a senhor!
Quando falava era como se alguém
Houvesse falado em sua voz.
Perdoe-a senhor!
Ela dizia: - "Tenho medo"
"Escuto uma voz ao longe".
Perdoe-a senhor!
Ele dizia:- "tua pequenas
Mãos em meus lábios ".
Perdoe-a senhor!
Olhavam junto às estrelas
Não falavam de amor.
Quando morria uma mariposa
Choravam os dois.


Perdoe-a senhor!
Ela era bela e era boa,
Ela era doce e era triste.
Morreram da mesma dor.
Perdoe-os,
Perdoe-os,
Perdoe-os, senhor!
FINAL
Foram criados por mim estas palavras
com meu sangue, com minhas dores,
foram criadas!
Eu entendo amigos, eu entendo tudo.
Elas se misturaram inadvertidamente nas minhas,
Eu entendo, amigos!
Como se eu quisesse voar para mim e chegassem
Socorrendo-me com suas asas das aves,
todas as asas,
estas palavras vieram assim estrangeiras
desatar a embriaguez escura de minha alma.
É o amanhecer, e parece
que não foram apertadas as angústias
em laços tão terríveis ao redor da garganta.
E porém,
foram criados,
com meu sangue, com minhas dores,
eles foram criados por mim estas palavras!
Palavras para a alegria


como era meu coração
uma coroa de chamas;
palavras do uma dor que se prega,
dos instintos que remoem,
dos impulsos que ameaçam,
dos desejos infinitos,
das inquietudes amargas,
palavras do amor que floresce em minha vida
como uma terra vermelha cheia de cogumelos brancos.
Não ajustaram em mim. Nunca ajustaram.
De menino minha dor foi o grito
E minha alegria foi o silêncio.
Depois os olhos
esqueceram das lágrimas
varrido pelo vento do coração de todos.
Agora, me fale amigos, onde
onde esconder aquele afiada
fúria dos soluços.
Fale-me, amigos, onde
esconder o silêncio para que nunca ninguém,
sinta isto com a audição ou com os olhos.
vieram as palavras, e meu coração,
incontáveis como um amanhecer,
rompendo as palavras e se prendem seu vôo,
e nos vôos heróicos nos levam e nos arrastam,
abandonado e louco, e olvidado debaixo delas
como um pássaro morto debaixo das suas asas.
1923


Veinte poemas de amor
y
una canción desesperada
(Seleção)


Poema 1
Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,
te parecem ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de campônio selvagem te escava
e faz saltar o filho do fundo desta terra.
Fui só como um túnel. De mim foram-se os pássaros
e em mim a noite entrava com sua invasão poderosa.
Para sobrevier-me te forjei como uma arma,
como uma flecha em meu arco, como uma pedra em
minha funda.
Porém chega a hora da vingança, e te amo.
Corpo de pele e de musgo, de ávido leite e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de minha mulher, continuará em tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limites, meu caminho
indeciso!
escuras rugas de onde a sede eterna segue,
e segue a fatiga, e esta dor infinita.


Poema 2
Em sua chama mortal a luz te envolve.
Absorta, pálida dolente, assim localizada
contra as velhas hélices do crepúsculo
que em torno a ti dão voltas.
Silenciosa, minha amiga,
solidão do solitário desta hora das mortes
e cheia das vidas do fogo,
pura herdeira do dia destruído.
Do sol rui um racimo em teu vestido escuro.
Da noite das grandes raízes
crescem subitamente de tua alma,
e do exterior regressam as coisas em ti ocultas.
De modo que um povo pálido e azul
de ti recém nascido se alimenta.
Oh grandiosa e fecunda e magnética escrava
que do círculo que em negro e doirado chega:
erguida, trata e logra uma criação tão viva
que sucumbem suas flores, é cheia de tristeza.


Poema 3
Ah vastidão de pinheiros, rumor das ondas quebrando,
lento jogo das luzes, solitária cabana
crepúsculo abatendo-se em teus olhos, boneca,
caramujo terrestre, em ti a terra canta!
Em ti os rios cantam e minha alma se perde neles
como tu o desejas e fazia para donde tu o querias.
Marca-me em teu caminho meu arco de esperança
e soltarei em teu delírio meu disparo de flechas.
Em torno de mim estou vendo tua cintura de nevoa.
e teu silêncio me acusa minhas horas perseguidas,
e tu és como teus braços de pedra transparente
donde meus beijos perdem e minha úmida ânsia abriga.
Ah tua voz misteriosa que o amor tinge e dobra
no entardecer ressonante e moribundo!
Assim nas horas profundas sobre os campos tenho visto
dobrar-se as espigas em a boca do vento.


Poema 4
Eis que manha chega de tempestade
em um coração do verão.
Como alvos lenços de adeus passeiam as nuvens,
e o vento os sacode com suas mãos andarilhas.
Incontável coração do vento
batendo sobre nosso silencio enamorado.
Zumbindo entre as árvores, orquestrais e divinas,
como uma língua cheia de guerras e de cantos.
Vento que leva num rápido surrupio a folhagem
e desvia as flechas latentes dos pássaros.
Vento que a derruba em onda sem espumas
e sustâncias sem peso, e fogos inclinados.
Se irromper e se submerge seu volume de beijos
combatido na porta do vento de verão.


Poema 5
Para que tu ouças
minhas palavras
se adelgaçam às vezes
como as marcas das gaivotas nas praças.
Colar, de ébria cascavel
para tuas mãos suaves como as uvas.
E as perspectivo distantes minhas palavras.
Muito mais que minhas são tuas.
Vão esgueirando-se em minha velha dor como as heras.
Elas esgueirando-se assim pelas paredes úmidas.
Sóis vós a culpada deste jogo sangrento.
Elas estão esvaindo-se de minha guarida escura.
Tudo tu a invades, tudo tu a invades.
Antes de ti povoaram a solidão que te ocupavas,
e estão acostumados mais que tu a minha tristeza.
Agora quero que digam o que quero dizer-te
para que tu ouças como quero que me ouças.
O vento da angústia pode ainda de arrastar.
Furacões dos sonhos ainda às vezes a tomba
Escuta as outras vozes em minha voz dolorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me, companheira. Não me abandones. Siga-me.
Siga-me, companheira, nessa onda de angustia.
Porém se vão tendo com teu amor minhas palavras.
Tudo o que ocupas tu, tudo o que o ocupas.
Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas alvas mãos suaves como as uvas.


Poema 6
Recordas-te como era no último outono.
Era a boina gris e o coração em calma.
Em teus olhos guerreavam as chamas do crepúsculo
e as folhas caíam na água de tua alma.
Apegada em meus braços como uma trepadeira.
as folhas recolhiam tua voz lenta e em tua calma.
Fogueira do estupor que em minha sede ardia.
Doce jacinto azul torcido sobre minha alma.
Sinto viajar teus olhos e és distante como o outono:
boina gris, voz de pássaro e coração de casa
donde emigravam meus profundos anseios
e onde tombaram meus beijos alegres como as brasas.
Céu perspectivado de um navio. Campo perspectivado
das serras.
Tua lembrança é de luz, de fumo, de água em calma!
Mais fundo de teus olhos ardiam os crepúsculos.
Folhas secas de outono giravam em tua alma.


Poema 8
Abelha branca zumbe ébria de mel em minha alma
e te estorces em lentas espirais de fumaça.
Sou o desesperado, a palavra sem ecos,
o que perdeu tudo, e o que tudo esvai.
Última amarra, ruído em ti minha ansiedade última.
Em mim gritas deserta e és tua a última rosa.
Ah silenciosa!
Fecha teus olhos profundos. Ali tange a noite.
Ah nua, teu corpo de estatua temerosa.
Tens olhos profundos de onde a noite se faz.
Frescos braços de flor e regaço de rosa.
Se parecem teus sonhos como brancos caracóis.
Veio a dormir em teu ventre uma mariposa da sombra.
Ah silenciosa!
Aqui se fez a solidão de onde estava ausente.
Chove. O vento do mar caça errantes gaivotas.
A água anda descalça pelas as ruas molhadas.
Daquela árvore se queixam, como enfermas, as folhas.
Abelha branca, ausente, zumbindo em minha alma.
Renasce entre o tempo, delgada e silenciosa.
Ah silenciosa!


Poema 10
Temos perdido também este crepúsculo.
Ninguém nos viu esta tarde com as mãos unidas
enquanto a noite azul tangia sobre este mundo.
E tenho visto desde minha janela
uma festa do poente entre as serras distantes.
Às vezes como uma moeda
se ascendia um pedaço de sol entre minhas mãos.
Eu te recordava como a alma apreendida
dessa tristeza que tu me julgas.
Então, aonde se encontrava?
Entre estas gentes?
Falando que palavras?
Por que me chega todo este amor de um golpe
quando me sinto triste, e te sinto longe?
Caiu o livro que sempre se toma no crepúsculo,
e como um cão ferido tangeu aos pés minha capa.
Sempre, sempre te distancias entre as tardes
onde o crepúsculo corre maculando as estatuas.


Poema 12
Para meu coração basta-me teu peito,
para tua liberdade basta, minhas asas.
De onde minha boca chegará até o céu
o que estava entorpecido sobre tua alma.
É em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o orvalho das corolas.
Socava o horizonte com tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.
Eu falei que cantavas com o vento
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles é alta e taciturna.
e entristeces de pronto, como uma viagem.
Acolhedora como um velho caminho.
Te povoam ecos e vozes nostálgicas.
Eu despertei e às vezes migraram e fugiram
os pássaros que adormeciam em tua alma.


Poema 13
Hei que fui marcado com as cruzes do fogo
o Atlas branco de teu corpo.
Minha boca era uma aranha que cruzava escondendo-se.
Em ti, detrás de ti, temerosa, sedenta.
Histórias que quis contar-te na boca do crepúsculo,
boneca triste e doce, para que não ficares triste.
Um cisne, uma árvore, algo longe e alegre.
O tempo das uvas,o tempo maduro e frugal.
Eu que vivi em um porto desde onde te amava.
A solidão cruzada do sonho e do silêncio.
Acorrentado entre o mar e a tristeza.
Calado, delirante, entre dos gondoleiros imóveis.
Entre os lábios e a voz, algo se vai esmorecendo.
Algo com asas de pássaro, algo de angustia e de olvido.
Assim como as redes não retêm a água.
Boneca minha, apenas ficam as gotas tremendo.
Sem apreensão, algo canta entre estas palavras fugazes.
Algo canta, algo elevasse a minha ávida boca.
Oh poder de celebrar-te com todas as palavras de alegria.
Cantar, arder, ir, como um sineiro nas mãos de
um louco.
Triste ternura minha, que te faz assim de repente?
Quando é chegado o cume mais atrevido e frio
meu coração termina como uma flor noturna.


Poema 16
(Paráfrase a R. Tagore)
Em meu céu o crepúsculo é como uma nuvem
e tua cor e forma são como eu as quero
É minha, é minha, mulher de lábios doces
e vivem em tua vida meus infinitos sonhos.
A lâmpada de minha alma te ilumina os pés,
o agro vinho meu é mais doce em teus lábios:
oh segadeira de minha canção de entardecer,
como te sentem meus os sonhos solitários!
É minha, é minha, vou gritando entre a brisa
da tarde, e o vento arrasta minha voz luminária.
Caçadora do fundo de meus olhos, teu roubo
estanca como a água tua perspectiva noturna.
Na rede de minha música está presa, amor meu,
e minhas redes de música são extensa como o céu.
Minha alma nasce à beira de teus olhos de luto.
Em teus olhos de luto começam no país do sonho.


Poema 19
Filha morena e ágil, o sol que nasce das frutas,
e que dá essência aos trigos, e que torce as algas,
filho teu corpo alegre, teus luminosos olhos
e tua boca que tem o sorriso da água.
O sol negro e ansioso te enrola nos raios
de negros fios, quando esticas os braços.
Tu jogas com o sol como um esteiro
e ele te põem em teus olhos dois escuros remansos.
Filha morena e ágil, nada havia que ti me ajunta-se.
Tudo de ti me afasta, como o meio dia.
É a delirante juventude da abelha,
a embriaguez das ondas, a força da espiga.
Meu coração sombrio te busca, sem embargo,
e amo teu corpo alegre, tua voz solta e delgada.
Mariposa morena doce e definitiva,
como o trigal e o sol, a ampola e água.


A canção desesperada
Aparece tua recordação da noite em que estou.
O rio reúne-se ao mar seu lamento obstinado.
Abandonado como o impulso das auroras.
É a hora de partir, oh abandonado!
Sobre meu coração chovem frias corolas.
Oh sentina de escombros, feroz cova de náufragos!
Em ti se ajuntaram as guerras e os vôos.
De ti alcançaram as asas dos pássaros do canto.
Tudo que o bebeste, como a distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!
Era a alegre hora do assalto e o beijo.
A hora do estupor que ardia como um faro.
Ansiedade de piloto, fúria de um búzio cego
túrgida embriaguez de amor, Tudo em ti foi naufrágio!
Na infância de nevoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!
Tu senti-se a dor e te agarraste ao desejo.
Caiu-te uma tristeza, Tudo em ti foi naufrágio!
Fiz retroceder a muralha de sombra.
andei mais adiante do desejo e do ato.


Oh carne, carne minha, mulher que amei e perdi,
e em ti nesta hora úmida, evoco e faço o canto.
Como um vaso guardando a infinita ternura,
e o infinito olvido te quebrou como a um vaso.
Era a negra, negra solidão das ilhas,
e ali, mulher do amor, me acolheram os seus braços.
Era a sede e a fome, e tu foste à fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.
Ah mulher, não sei como pode me conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!
Meu desejo por ti foi o mais terrível e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais tirante e ávido.
Cemitério de beijos,existe fogo em tuas tumbas,
e os racimos ainda ardem picotados pelos pássaros.
Oh a boca mordida, oh os beijados membros,
oh os famintos dentes, oh os corpos traçados.
Oh a cópula louca da esperança e esforço
em que nos ajuntamos e nos desesperamos.
E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra apenas começada nos lábios.
Esse foi meu destino e nele navegou o meu anseio,
y nele caiu meu anseio, Tudo em ti foi naufrágio!
Oh imundice dos escombros, que em ti tudo caía,
que a dor não exprimia, que ondas não te afogaram.


De tombo em tombo inda chamas-te e cantas-te
de pé como um marinheiro na proa de um barco.
Ainda floris-te em cantos, ainda rompes-te nas
correntes.
Oh sentina dos escombros, poço aberto e amargo.
Pálido búzio cego, desventurado desgraçado,
descobridor perdido, Tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
que a noite sujeita a todos seus horários.
O cinturão ruidoso do mar da cidade da costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.
Abandonado como o impulso das auroras.
Somente a sombra tremula se retorce em minhas mãos.
Ah mais além de tudo. Ah mais além de tudo.
É a hora de partir. Oh abandonado.
****************


Eric Ponty
É poeta, escritor e ensaísta. Nasceu em abril de 1968. É
membro da Academia de Letras Sanjoanense na cadeira
do Poeta José Severiano de Rezende um dos precursores
do Modernismo.
Foi elogiado pelos poetas Ferreira Gullar, Ivo Barroso,
Ivan Junqueira, Augusto Massi, entre outros pelo seu
poema ainda inédito Pompas de Abril.
Lançou os seguintes livros de poesia Homo-Imagens
(esgotado), Livro Sobre Tudo (Elogiado pelo Poeta
Ferreira Gullar), traduziu O Cemitério Marinho de Paul
Valéry, e O Anjo de David este de literatura infanto-
juvenil e os livros de ensaios Breviário do Tempo e A
Contemplação do belo Adormecido todos publicados pela
A Voz do Lenheiro Editora. O SACERDÓCIO DA POESIA,
Uma introdução à poesia de José Severiano de Resende.
Integra o projeto A Voz do Poeta que consiste na gra-
vação de um Cd individual onde se registra a leitura pes-
soal de seus poemas. Com coordenação de Ivo Barroso
(Trad. Do Pêndulo de Focault e Razão e Sensibilidade). É
colaborador da Dimensão Revista Internacional de Poesia
e da revista Xilo e Orion Revista de Poesia do Mundo de


Língua Portuguesa. Poesia para Todos. Colabora nas re-
vistas On-line Agulha e Tanto entre outras. Está incluído
na Antologia Mineira do Século XX do prof. e crítico Assis
Brasil editado pela Imago (RJ) em 1998 que já se encon-
tra esgotado.
Com toda a sua atividade performática e multimídia, Eric
Ponty estreou com livro de poesia, Homo-imagens, de
1996, para no ano seguinte lançar Livro sobre tudo,
talvez uma resposta ao Livro sobre Nada de Manoel de
Barros. os livros de poesia inéditos são vários, em
destaque Melancolia
de uma tarde de domingo e
Inautagónico. Do primeiro, damos uma amostra nesta
Antologia.
Como muitos poetas de sua geração, Eric Ponty se diz
devedor dos movimentos poéticos das décadas de 60/
70, mas com a referência da tradição modernista de um
Manuel Bandeira, e mais Murilo Mendes e Dante Milano.
Coroando a sua performance literária, pelo menos na sua
cidade natal, Eric Ponty eleito membro da Academia de
Letras de São João del-Rei, cadeira cujo patrono é o
poeta José Severiano de Resende.
A POESIA MINEIRA NO SÉCULO XX - ORGANIZAÇÃO E
NOTAS ASSIS BRASIL - Coleção Poesia Brasileira -
Imago Rio de Janeiro 1998 Brasil
Para corresponder com Eric Ponty escreva:
ericponty@intermega.com.br


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