quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Mário Quintana - ANTOLOGIA


ANTOLOGIA

Do Caderno HEu Ouço MúsicaSe Eu Fosse um PadreO Auto-RetratoA Verdadeira Arte de ViajarTrágico Acidente de LeituraAlgumas do Mário Quintana

Do Caderno H

A Arte de Ler

O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.

A Carta

Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto-e-vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida.

A Coisa

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

As Indagações

A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.

A Voz

Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.

Ars Longa

Um poema só termina por acidente de publicação ou de morte do autor.

Arte Poética

Esquece todos os poemas que fizeste. Que cada poema seja o número um.

Biografia

Era um grande nome — ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua... E continuaram a pisar em cima dele.

Cartaz para uma feira do livro

Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.

Citação

De um autor inglês do saudoso século XIX: "O verdadeiro gentleman compra sempre três exemplares de cada livro: um para ler, outro para guardar na estante e o último para dar de presente."

Citação 2

E melhor se poderia dizer dos poetas o que disse dos ventos Machado de Assis: "A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância."

Contradições

... mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.

E por isso, é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, como toda a sinceridade, as coisas mais opostas.

Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.

Cuidado

A poesia não se entrega a quem a define.

Das Escolas

Pertencer a uma escola poética é o mesmo que ser condenado à prisão perpétua.

Destino Atroz

Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando ele os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.

Do Estilo

O estilo é uma dificuldade de expressão.

Dos Leitores

Há leitores que acham bom o que a gente escreve. Há outros que sempre acham que poderia ser melhor. Mas, na verdade, até hoje não pude saber qual das duas espécies irrita mais.

Dos Livros

Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.

Dupla Delícia

O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.

Educação

O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.

Fatalidade

O que mais enfurece o vento são esses poetas invertebrados que o fazem rimar com lamento.

Feira de Livro

O que os poetas escrevem agrada ao espírito, embeleza a cútis e prolonga a existência.

Leitura

Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.

Leitura 2

Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.

Leituras

— Você ainda não leu O Significado do Significado? Não? Assim você nunca fica em dia.

— Mas eu estou só esperando que apareça. O Significado do Significado do Significado.

Leituras 2

Não, não te recomendo a leitura de Joaquim Manuel de Macedo ou de José de Alencar . Que idéia foi essa do teu professor?

Para que havias tu de os ler, se tua avozinha já os leu? E todas as lágrimas que ela chorou, quando era moça como tu, pelos amores de Ceci e da Moreninha, ficaram fazendo parte do teu ser, para sempre.

Como vês, minha filha, a hereditariedade nos poupa muito trabalho.

Lógica & Linguagem

Alguém já se lembrou de fazer um estudo sobre a estatística dos provérbios? Este, por exemplo: "Quem cospe para o céu, na cara lhe cai". Tal desarranjo sintático faria a antiga análise lógica perder de súbito a razão.

O Assunto

E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.

O Poema

O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.

O Trágico Dilema

Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

Palavra Escrita

Por vezes, quando estou escrevendo este cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.

Poema

Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos...

Poesia & Lenço

E essa que enxugam as lágrimas em nossos poemas com defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!

Poesia & Peito

Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas.

Refinamentos

Escrever o palavrão pelo palavrão é a modalidade atual da antiga arte pela arte.

Ressalva

Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.

Sinônimos

Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.

Sonho

Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.

Tempo

Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.

Veneração

Ah, esses livros que nos vêm às mãos, na Biblioteca Pública e que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. A poeira das bibliotecas é a verdadeira poeira dos séculos.

Vida

Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.

Texto extraído do livro "Do Caderno H", Editora Globo, 1973.

EU OUÇO MÚSICA

Eu ouço música como quem apanha chuva:

resignado

e triste

de saber que existe um mundo

do Outro Mundo...

Eu ouço música como quem está morto

e sente

um profundo desconforto

de me verem ainda neste mundo de cá...

Perdoai,

maestros,

meu estranho ar!

Eu ouço música como um anjo doente

que não pode voar.

SE EU FOSSE UM PADRE

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,

não falaria em Deus nem no Pecado

- muito menos no Anjo Rebelado

e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:

nada das suas celestiais promessas

ou das suas terríveis maldições...

Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,

desses que desde a infância me embalaram

e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma

... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -

um belo poema sempre leva a Deus!

O AUTO-RETRATO

No retrato que me faço

- traço a traço -

às vezes me pinto nuvem,

às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas

de que nem há mais lembrança...

ou coisas que não existem

mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco

- pouco a pouco -

minha eterna semelhança,

no final, que restará?

Um desenho de criança...

Terminado por um louco!

A VERDADEIRA ARTE DE VIAJAR

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,

Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.

Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...

Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

Trágico Acidente de Leitura

Tão comodamente que eu estava lendo, como quem viaja num raio de lua, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, enfocando-me: ABSCÔNDITO. Que momento passei!... O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se posta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano preto, como um duplo monstro misterioso e corcunda...terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: Fogo!

Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética", Editora Globo, 1998.

Algumas do Mário Quintana

Às vezes a gente pensa que está dizendo bobagens e está fazendo poesia.

Todos estes que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!

O que mais me comove em música

São estas notas soltas

-- pobres notas únicas --

Que do teclado arranca o afinador de pianos.

Quem fica viúvo é o defunto...

Por que este não casa mais.

Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer.

Respostas a uma entrevista:

- Qual o maior poeta brasileiro atual?

- Deixa disso. Nenhum poeta é cavalo de corrida para ser obrigado a chegar em primeiro lugar.

Cada pessoa pensa como pode ...

Já que existe uma "semana inglesa" aos sábados à tarde, bem poderia haver uma "segunda brasileira de manhã" para a gente curar a ressaca do domingo...

As sereias usam fecho ecler.

Essas distâncias astronômicas não são tão grandes assim:

basta estenderes o braço e tocar no ombro do teu vizinho.

Rezar é uma falta de fé: Nosso Senhor bem sabe o que está fazendo.

Tenho pena da morte - cadela faminta - a que deixamos a carne doente e finalmente os ossos, miseráveis que somos... O resto é indevorável.

A gente deve apertar uma campainha com tanta delicadeza como se aperta o umbigo da dona da casa.

Despertador é bom para a gente se virar para o outro lado e dormir de novo.

Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?

- Por que você nunca se casou?

- Por uma simples questão de estatística: há no mundo muito mais viúvas do que viúvos.

Por causa tua, quantas más ações deixei de cometer.

A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão.

O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.

O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.

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