sábado, 5 de janeiro de 2008

Vinícius de Moraes IX

Elegia de Paris

Maintenant j'ai trop vu. Neste momento
Eu gostaria de esquecer as prostitutas de Amsterdam
Em seus mostruários, e os modelos
De Dior, comendo croque-monsieur com gestos
Japoneses, na terrasse do Hotel-des-Théâtres. O que
Eu gostaria agora era de ver-te surgir no claustro do meu sonho
Como uma tarde finda. Ah,
nsia de rever-te! ou de rever
O brilho de uma abotoadura de ouro – lembras-te? – caída no ralo da pia do velho.

St. Thomas d'Aquin... há quanto tempo?
Não sei mais! Entrementes
A morte fez-se extraordinariamente próxima e por vezes
Tão doce, tão…Tem uma face amiga –
É a tua face, amiga?


Em Montevidéu


De los aires límpidos
Sin prisa y sin miedo
Hoy vinieron verme
Mis querídos muertos.
En mi sala oscura
Con Ia radio abierta
Llegaron casuales
Como si en un cocktail
Haciendome adioses
Con manos ausentes
Por entre los rayos
De la luna verde.

D. Maria da Conceição de Mello Moraes



Vi minha avozinha
Entrar fragilmente
Com os cabelos brancos
E os punhos de renda.
E vir e tocar-me
Com dedos frementes
Mais frios que os raios
Do quarto crescente.

Meu pai, Clodoaldo Pereira da Silva de Mello Moraes.



Vi chegar meu pai
Esfregando as mãos
Geladas, por certo,
E logo, sem ver-me
Tomar providências
Desastradas, umas
Na forma de sempre.

Solene, ao seu lado
Nos seus novent'anos
Vi, sempre aprumado
Meu avô baiano
Vestido de alpaca
E cheirando a sândalo
Elegante paca
Um velhinho e tanto!

Augusto, o pescador da ilha.



Quase tomo um susto
Quando, de repente
Deparo com Augusto
Pela minha frente.
Debaixo do braço
Sempre o clarinete.

O "Coronel" Antônio Burlamaqui

dos Santos Cruz.



Meu avô Santos Cruz
Entrou ofegante

Arrastando o corpo
Doente e possante.

D, Celestina Wâmosi de Macedo Cruz.



Ao seu lado, linda
Com seu ar cigano
Minha avó Cestinha
Um tanto distante.

Juju Veiga, que me fazia línguas-de-gato.



Numa chaise-longue
Gravemente tísica
Tomando uma xícara
De ovomaltine
Dei com Juju Veiga
Morena e franzina
E a coisa mais meiga
Da rua Bambina.

Calípso Azambuja, de quem se contava [...]



Alegre, servindo-se
De uma sobremesa
A prima Calípso
De quem não me lembro
Deu-me um adeusinho
Num rápido aceno
Abrindo um sorriso
De rara beleza.

Plínio, o tio a devir que,
noivo e feliz, dando com
o revólver, suicidou-se



Plínio veio vindo
Do escuro infinito
Com o sorriso triste
Dos que se suicidam
Olhou-me um instante
De um calmo olhar fixo
E foi se sumindo
No céu de Pocitos.

E entra Viadimiy
Ilitch Lenine
Um velho cachecol
Sobre a pelerine
E vai e se senta
O ar meditativo
E fica pensando
Por horas perdidas.

Carole Lombard.



Bela e luminosa
E o rosto hialino
Vejo Carole Lombard
A artista de cine
Com manchas de sangue
No corpo divino
E um longo Abdoula
Na piteira em riste.

Súbito, pulando
Numa perna só
Eu vejo chegando
O poeta Rimbaud
De braço com ele
Bêbado e consorte
O poeta Verlaine
Já meio de porre.

E eis que, sem mais
Vejo Jayme Ovalle
Fazendo sinais
Para que me cale
E apontando acima
Com o dedo esticado
Coberto da cinza
Do próprio cigarro.

E num bate-papo
Dos mais amigáveis
Dou com Mário e Oswald
De Andrade - palavra!

Como se estivessem
Na melhor das pazes
Falando elogios.

A um canto, parado
Mexendo no rádio
Num trinque danado
Quem vejo? Zé Cláudio
Calça de flanela
Paletó esporte
E um ar de que estava
Contente da morte.

Perto, Portinari
Ultranatural
Fazendo safári
Com Lasar Segall
Enquanto Pancetti
Junto a Santa Rosa
Comia um croquete
Tirando uma prosa.

Com Graciliano
E Zé Lins do Rego
Vi Osório Borba
Já um pouco bêbado

Sóbrio, o velho Graça
Puxando fumaça
Zé Lins só no uísque
Borba, na cachaça.


Estudo

Meu sonho (o mais caro)
Seria, sem tema
Fazer um poema
Como um dia claro.

E vê-lo, fantástico
No papel pautado
Ser parte e teclado
Poético e plástico.

Com rima ou sem rima
Livre ou metrificado
– Contanto que exprima
O impropositado.

E que (o impossível
Talvez desejado)
Não fosse passível
De ser declamado.

Mas que o sonho fique
Na paz sine-die
Ça c'est la musique
Avant la poésie.


Eu creio na alma... (s/ título)

Eu creio na alma
Nau feita para as grandes travessias
Que vaga em qualquer mar e habita em qualquer porto
Eu creio na alma imensa
A alma dos grandes mistérios
A grande alma que em vão busquei sufocar
Eu creio na alma eterna
A alma boa, a alma pura, a alma singela
A alma que possui o espaço
A alma que não possui o tempo
A grande alma sozinha
Capaz de conter toda a humanidade
Senhor! Eu creio nela
Eu creio na minha alma extraordinária
Ela era como o templo
Onde os vendilhões mercadejavam
Ela expulsou os vendilhões, Senhor!
E os pássaros cantaram.
Eu creio na alma grande
Em busca dum élan que a lance sempre
Para o eterno movimento
A alma espelho das águas
Onde o céu reflete os pássaros que voam
Eu creio em ti, Senhor
Porque és a alma que é o céu onde os pássaros voam
E que se reflete no espelho das águas
Porque és a grande alma que paira
Eu creio em mim, Senhor
Porque sou alma feita à tua semelhante
Grande alma onipotente
Que no começo era o nada
O nada – vazio das almas
O nada cheio de treva e maldição
Mas o espírito erguia-se do caos
E a treva fez-se luz
A luz cheia de átomos de vida
A luz – a grande luz que sobe sempre.


Eu nasci marcado pela paixão

Eu nasci marcado pela Paixão, Pedro, meu filho...
E porque por ela nasci marcado, a ela me entreguei sem remissão desde

(menino, e o primeiro gesto que fiz foi buscar um seio de Mulher...


Eu venho te trazer esta mulher... (s/ título)

Eu venho te trazer esta mulher – é louca!... tem olhar de céu mas o céu é

(morto nos seus olhos
Toma, é tua! – é bela, eu a vi nua... seus seios são fortes e ingênuos mas não

(são seios... – sua face
É límpida como a face da Lua mas não é uma face – é bela mas não é a (beleza... Eu a encontrei vagando
Na rua e ela dizia: Quem eu sou? onde estou? para onde vou? milhares e

(milhares de vezes...
Eu venho te trazer esta criança porque sei que és bom, que não a recusas – ai

(de mim, eu estou no fim das forças
Em vão a banhei, a perfumei, a alimentei, a deflorei e a repousei sobre a mais

(tépida das camas
E mostrei-lhe livros de história – talvez a infância... – e uma nódoa de sangue

(de uma velha pústula – talvez a juventude...
Quem eu sou? onde estou? para onde vou? – nada! apenas os gestos, longos

(gestos finitos de quem semeia
Tu talvez que és indolente, que nada fazes senão poemas que não te

(sustentam a família


E que não são o suor do teu corpo...

"São o suor da minha alma!"


Extremamente circunspecta... (s/ título)

Extremamente circunspecta
Jazia a perna. Digo-vos que extremamente circunspecta e pálida
Jazia a perna. Digo-vos que extremamente circunspecta, pálida e ambígua
Jazia a perna. Digo-vos que extremamente circunspecta, pálida, ambígua e

(superveniente
Jazia a perna. Uma perna jazia extremamente
Entre aparatos. Calçada de sapatos e de meias. Só não trazia
Ligas, nem a parte superior, a que saindo do joelho
Aprofunda-se como coluna até onde o ser se duplica
………………………………………………………………………

Pois uma perna é uma estrutura interna
De músculos sangrentos e ossos brancos
Os quais, rompida a pele, saltam bruscos
Como as molas partidas de uma cama
Entrando em coma, mas privadamente
Sem consciência, talvez, mas com malícia
A ejacular o plasma em ondas furtivas
E com a vinda específica da morte
Da perna, debatendo-se e eriçando-se
À maneira de fios retorcidos
Arrancados à força a um aparato.



Gostaria de dar-te, namorada... (s/ título)

Gostaria de dar-te, namorada
Nos teus vinte e cinco anos de beleza
Tudo o que há de melhor na natureza
Entre o que anda, voa, corre e nada.

Gostaria de dar-te de presente
A madrugada em que nasci, e o instante
Em que senti presente.
Tanto mais minha quanto mais ausente.


Himeneu

Na cama, onde a aurora deixa
Seu mais suave palor
Dorme ninando uma gueixa
A dona do meu amor.

De pijama aberto, flui
Um seio redondo e escuro
Que como, lasso, possui
O segredo de ser puro.

E de uma colcha, uma coxa
Morena, na sombra frouxa
Irrompe, em repouso morno

Enquanto eu, desperto, a vê-la
Mesmo sendo o homem dela
Me morro de dor-de-corno.


História de alma

Meia-noite. Frio. Frio em tudo
E
mais frio que em tudo, frio na Alma
A Noite grande e aberta... a Alma grande e aberta...
Infinitamente frias...

No alto a noite má seguia a Alma que vagava
Enregelada e nua entre todas as almas
Seguia a Alma presa
Presa por todos os lados
A Alma caminhava e a noite caminhava com ela
A Alma fugia e a noite perseguia a Alma
E a Alma parava. Então a noite também parava
E mandava um frio mais frio do que a Alma

E a Alma já fria tornava a caminhar
E a noite vinha e perseguia a Alma
E a Alma parava... e a Alma parava...
E chorando ajoelhada pedia perdão...


História do samba

Gosto de um samba chulado
Porque é samba de cadência
No corrido sou danado
Mostro a minha independência
Mas o meu samba adorado
Onde perco a consciência
– É o samba de influência, ô maninha

Da polca nasceu o maxixe
Havanera concorreu
Mas foi o negro de piche
Quem mais ritmos lhe deu
Do maxixe veio o samba
Que ficou universal
– Negro é bamba, ô maninha
Negro é que é o tal!



Itaoca

Serenamente pousada
Sobre a montanha elevada
Como um ninho de poesia,
A casa branca e pequena
É como a mansão serena
Da luz, da paz, da alegria!

Ó viajante fatigado
Se no teu passo cansado
Aqui vieres pousar,
Tu voltarás satisfeito
Com risos claros no peito
E calmas santas no olhar!


Jogo de empurra

Os escravos de Gê
Gostavam de jogar
Ponto, banca
Quem jogou em 30, dá
Parceiro com parceiro
Pif, pif, pif, paf!

Os escravos de Gê
Gostavam de roubar
Tira, pega
Vamos deixar como está
Cartola com cartola
Zigue, zigue, zigue, zá!

Os escravos de Gê
Gostavam de matar
Tira, tira,
Tira pronto pra atirar
Meganha com meganha
Puque, puque, puque, pá!

Os escravos de Gê
Gostavam de ficar
Tira, bota
Pega tudo pra capar
Guerreiro com guerreiro
Zigue, zigue, zigue, zá!


Jogos e folguedos: Maria Mulata

Aos coros infantis
Sempre preferia
Os jogos de Maria
Mexendo os quadris.

– Maria, levanta a saia
Maria, suspende o braço
Maria, me dá um cheirinho
Do capim do teu sovaco.

Maria sempre tinha
Dó de mim.

– Bento-que-o-bento-frade
– Frade!

Na boca do forno
De manhãzinha
Eu e Maria.

– Tá quente, Maria...
(Maria estava sempre quente)

– Pique, Maria...
(E a luta arfante, úmida, silenciosa)

Dou-lhe uma
Dou-lhe duas
Dou-lhe três...


José

Se coubessem mil coisas num só dia
E se ele não fosse um só, mas fosse mil
Pelo Faux monnaieurs!!! Não haveria
Quem fizesse mais coisas no Brasil

Um romance, um besigue, um pensamento
Um cigarro, um cachorro, uma piada
Outro besigue, Gide, namorada
Resultado final: – padecimento!

O mundo muda e ele vai seguindo
Abafando os concursos que vêm vindo
Trabalhar! Trabalhar nunca foi bom...

Antes ir os cinemas percorrendo
Namorando, sofrendo, andando e lendo
Colocado entre Deus e entre Mammon.


Lembrete

A nunca esquecer: as manhãs
Da infância, os pães alemães

A sala escura

Na casa da rua Voluntários
Da Pátria, lar de funcionários

Da prefeitura.

A nunca esquecer: minha avó
Prosternada (Deus e ela) só

Pele e ossos

A tatalar silêncio e paz
Nas consoantes labiais

Dos padre-nossos.

A nunca esquecer: a carne negra
O cheiro agreste, a pele íntegra

Nua na cama

Nas justaposições mais pródigas
Que menino não ama as nádegas

De sua ama?

A nunca esquecer: as gavetas
Velhas, à luz; as rendas pretas

As caixinhas

E as sublimes fotografadas
Mortas, mas ainda enamoradas

Ó tias minhas!

A nunca esquecer: certa mulher
Cuja face não posso mais ver

Em certo quarto

A mergulhar minha cabeça
Por entre a escuridão espessa

Do ventre farto.

A nunca esquecer: o caso Sacco
E Vanzetti nem Michel Zevaco

(Que o avô me deu!)

Que este seria o quixotismo
A arrebatar-me de ismo em ismo

A um: como o meu.



Lisboa tem terremoto... (s/ título)

Lisboa tem terremoto
Porém, em compensação
Tem
muitas cores no céu
Muitos amores no chão
Tem, numa casa pequena
O poeta Alexandre O'Neill
E a bela Karla morena
Na embaixada do Brasil
Aymé! o mote repete
Lisboa tem terremoto
Mas tem o Nuno Calvet
Para lhe fazer cada foto!
É, eu sei – retruca o mote
Que não me deixa mentir
Lisboa tem terremoto
Não deve nada a Agadir
Mas, já que estamos nos sismos
Capazes de destruir
Tem o ator Nicolau Breynes
Pra gente morrer... de rir
Tem David, irmão de Jayme
E Jayme, irmão de David
Não fossem os Mourão Ferreira
E eu nunca estaria aqui.
Pois é, o mote reclama
Lisboa tem terremoto
Mas tem o fato da Alfama
Tem o sapato do Otto
(Sapato, claro, é maneira
Carinhosa de dizer
Pois fosse o Otto sapato
Eu também queria ser)
E o Otto tem sua Helena
E Helena, seu broto em flor
A
nena Helena Cristina
(Ou Maria-Pão-de- Queijo)
De quem eu sou cantador.
Em matéria de Cristinas
Só temos saldo a favor!
Mas, alto! me grita o mote
Mote-mote, mote-moto
Deixe de tanto fricote
Lisboa tem terremoto!
E você? Parta-o um raio!
Terremoto… é natural
Mas e a Terezinha Amayo
E a Laurinha Soveral
E essa coisa pequenina
De quem todo mundo gosta
A sempre altiva menina
Que se chama Beatriz Costa?
E Amália, a grande, a divina
Que é de Portugal a voz
Ela também quando cisma
Não faz tremer todos nós?
E está tudo bem, meu velho
És de Lisboa um devoto
Mas pergunta do Antonio Aurélio
Que é arquiteto e tem teto
Lisboa tem terremoto!
Mas tem, em contrapartida
O Antônio
[…] da Câmara
Pra lhe contar outra história
Um bom amigo, que em vida
Soube
conquistar a glória.
E a Glória tem Terezinha
E tem Wandinha que é um amor
Quem teve brotinhos assim
Não tem medo do tremor.
E tem o Raul Solnado
Que eu acho um senhor ator
Quem tem atores assim
Não tem medo de tremor.

– Lisboa tem terremoto
Geme o mote, ao expirar
– Faz figa! Faz figa, Otto!
Terremoto? Sai, azar!


Lopes Quintas

(A rua onde nasci)

A minha rua é longa e silenciosa como um caminho que foge
E tem casas baixas que ficam me espiando de noite
Quando a minha angústia passa olhando o alto...
A minha rua tem avenidas escuras e feias
De onde saem papéis velhos correndo com medo do vento
E gemidos de pessoas que estão eternamente à morte.
A minha rua tem gatos que não fogem e cães que não ladram
Na capela há sempre uma voz murmurando louvemos
Sem medo das costas que a vaga penumbra apunhala.
A minha rua tem um lampião apagado
Em frente à casa onde a filha matou o pai...
No escuro da entrada só brilha uma placa gritando quarenta!

É a rua da gata louca que mia buscando

os filhinhos nas portas das casas...

É uma rua como tantas outras
Com o mesmo ar feliz de dia e o mesmo desencontro de noite
A rua onde eu nasci.


Madrigal

Nem os ruídos do mar, nem os do céu, nem as modulações frescas
Da campina; nem os ermos da noite sussurrando sossegos na sombra, nem os cantos votivos da morte, nem as palavras de amor lentas, perdidas; nem as vozes, os músicos nem o eco patético das lamentações; nenhum som, nada
É como o doce, inefável ruído que meu ouvido ouve quando se pousa em carícia, ó minha amiga, sobre a carne tenra da tua barriguinha.


Mário

Entre meditabundo e solonento
Sobre a fofa delícia da almofada
Ele vai perseguindo na jornada
Através o Ottocento e o Novecento

Não o tires dali que dá pancada
Todo o resto pra ele é sofrimento
Vai colhendo da flor do pensamento
Toda a filosofia desejada

Só abandona voluntário o élan
Para o banho de poço da manhã
"Mens sana..." disse François Leblon

E às vezes, Carnaval, cai na folia
E passeia porrado pela orgia
Sob o signo pagão do deus Mammon.


Meu coração se perde de carinho... (s/ título)

Meu coração se perde de carinho
Por ti, ó pássaro oculto na noite!
Tua voz pressaga é também uma elegia
Sem mistérío; a morte de todas as coisas.

Vive no teu soluço de amor, mas o teu canto
É na realidade consolo e contentamento.

As palavras que antes escutei
Eram apenas música e traziam esquecimento
Tu me levas à poesia, ave pousada na treva.


Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos manchados

de terra... (s/ título)

Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos manchados de terra
Dá-me o teu antigo paletó sujo de ventos e de chuvas
Dá-me o imemorial chapéu com que cobrias a tua paciência
E os misteriosos papéis em que teus versos inscreveste.

Meu pai, dá-me a tua pequena chave das grandes portas
Dá-me a tua lamparina de rolha, estranha bailarina das insônias
Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos.



Meus caros, volta-se porque se tem saudade... (s/ título)

Meus caros, volta-se porque se tem saudade
Porque se foi feliz intimamente
Volta-se porque se tocou num inocente
E porque se encontrou tranqüilidade

A despeito da vida que acorrente
Volta-se, volta-se para a sinceridade
Volta-se sempre, tarde ou de repente
Na alegria ou na infelicidade.

E nada como esse apelo da lembrança
Para se transfigurar numa esperança
Essa desolação que uma alma leve

Assim é que, partindo, eu vou levando
Toda a desolação de um até-quando
Num ardente desejo de até-breve.


Minha cabeça pesada balança,... (s/ título)

Minha cabeça pesada balança, rola, e sai vagando pela casa como um astro

(penado
E a sinto examinando os velhos quadros familiares com um olhar que eu

(desconheço na sua fisionomia
Aqui, longe de tudo, meus dedos palpam o poema imenso das vozes da noite

(– eu o recolherei, talvez na madrugada do último dia
Agora é o cansaço sem remédio dos tempos sobre-humanos, das caravanas

(miraculosas, das religiões perdidas…
O ar está passando sobre meu tronco decepado e em breve passará sobre o

(meu pescoço como um plano de cristal iluminado
E se repousará da longa viagem dos espaços e ressoará para mim as

(harmonias dos coros angelicais
É voltado o tempo da imobilidade – nenhum movimento será feito para que

(nenhum acento seja perdido
As pastoras e os camponeses, os cafres e os negros, as bailarinas e os gênios

(deixarão a alma da dança estendida sobre a lucidez do grande campo
E algum dia, quando eu despertar, tudo será belo e nada haverá de mais

(profundo na minha poesia que a minha poesia ela mesma em sua

(nudez maravilhosa.


Minha mãe, diz a santa Teresa que quando

eu morrer... (s/ título)

Minha mãe, diz a santa Teresa que quando eu morrer
Eu quero ir para o céu.
Fala com são Francisco também, providencia
Conta minha infância, quando como o tempo
Em que você falava com a gente uma porção de histórias
São Francisco é meu amigo, ele compreende
Santa Teresa é boazinha, ela sabe
Diz a eles que eu cantava antes de falar, que eu mentia
Que tinha visto Nossa Senhora para os garotos da Ilha e eles acreditavam
Para são Francisco você adota o tom simples
Para santa Teresa você adota o tom franco
Vai logo dizendo, fala que eu já li o Inferno de Dante
Que eu já sei como é e como já sei não preciso mais ir
Eles compreendem, eles são bonzinhos
Eles sabem que você está exagerando mas dão o desconto
Para são Francisco diz que eu sei cantar e que eu sou poeta
Para santa Teresa diz que eu sei umas anedotas de padre
Que a gente pode ficar conversando os três
Dando miolo de pão aos passarinhos
Fazendo improviso e graça com são Tomás de Aquino
Se for preciso diz francamente que eu não presto
Mas que eu quero ir pro céu
Que o purgatório é muito úmido, e o inferno
Tem Lucrécia e uma porção de mulheres para mexer comigo
Diz que eu rne comporto, que eu só quero
É estar com eles falando poesia
Discutindo Rimbaud e tocando violão em noite de lua cheia
Não diz que eu sou formado, nem que eu sou laureado
Nem que vim pra Oxford, nem que trabalhei para o governo
Diz só que eu não quero perder minha poesia nem minha tristeza
QLie eu quero ver meu amigo Rainer Maria Rilke
Que eu quero ficar deitado pensando enquanto eles rezam.


Morro de sede! a minha ânsia... (s/ título)

Morro de sede! a minha ânsia
Não pode mais
Dêem-me água fria, dêem-me leite
Dêem-me morangos verdes, verdes
Dêem-me a boquinha de Yayá.
Meu corpo todo sente a falta.

Sinto sede, quero me embebedar de cerveja gelada
Quero que chova, eu sentado num bar galego... e as raparigas
Estou cáustico, meus pulrnões estertoram, […] meu estômago
Se contrai como um corvo, ardendo do verde absinto.
Ah, quero a plenitude fria, mulheres gordas de nádegas abaixo, de seios.
Preciso dos banhos de bica, das sensatas intermináveis dores do coração
Dêem-me cigarros fortes, salada de batata e um pouco de gelo para eu chupar.
Sinto sede! quero dormir na língua de Marian Anderson ouvindo cantos.
Quero acampamentos.



Natureza humana

Cheguei. Sinto de novo a natureza
Longe do pandemônio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela múrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada. Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir-me embora
E a tremenda vontade de ficar.


No momento que a morte me viu... (s/ título)

No momento que a morte me viu
E a cidade enorme calou um segundo para assistir ao último transe da minha

(agonia
Alguém me deu a mão na rua
E eu me voltando vi meu amigo Rainer Maria Rilke que polidamente me sorria
Que parecia muito triste comigo
E que antes de partir me deixou entre os dedos alguma coisa.

O corpo da amiga na sombra é um mistério de Deus...

(s/ título)

O corpo da amiga na sombra é um mistério de Deus
É teu corpo, amada? são teus seios, é tua clara clara risada
Na sombra? não fujas... és um... um nenúfar
Aberto à água mansa.


Noturnamente – se me lembro!... (s/ título)

Noturnamente – se me lembro! como que a estranha carga se diluía de meus

(ombros ante as irradiações esplêndidas
E desembaraçado eu seguia através as cidades se abrindo ao sésamo

(misterioso do meu sangue batendo
E chegava mesmo a perseguir as belas éguas cuja pele branca avultava na

(claridade mágica
E fugiam balançando os peitos e o flanco rasgado onde a fecundidade eu via.
Mas quando chegava a satisfazer o ímpeto que me arrastava como um

(desesperado pelas ruas
E voltava vazio como se tivesse matado a alma nos estrangulamentos da carne

(rígida
Subitamente sentia de novo a carga me fazendo vergar o rosto para a terra
E o chicote me cortava as faces e o espírito esporeado galopava éguas na treva.
Pelos dias eu vou – e a minha sombra fareja o caminho – mas quando meu

(pensamento chega a minha alma já está
Um momento eu bebo o instante certo de que será para sempre – ó os campos

(onde estarei sozinho!
No entanto obrigam-me a andar – ai de mim, é demais! porque eu sei que

(aquele pio de ave é o grito dos sertões desaparecidos
E aquela pedra de forma estranha é a montanha escancarada e aquele torrão

(de terra é a sede nas fontes.
Às vezes um ruído me assalta e eu paro e escuto - um fraco farfalhar de folhas

(– tremo
Temo os dolorosos ecos das grotas, os luares e as águas que escorrem ocultas

(e eternas
Sei que entre os líríos das encostas há víboras que espreitam e sei que é frágil

(a margem dos precipícios
Mas o pior castigo é ter que seguir pelo solo seguro e infinito do meio das

(estradas
Porque há muito tempo eu sou a alimária de um anjo cuja missão eu

( desconheço
Um anjo de grande sombra informe que se confunde com a treva da minha

(caminhada
E cujo riso fúnebre me apavora quando a garra da luxúria me amargura os

(membros
E cuja ira me condena ao castigo de um arrependimento solitário e eterno.


O corta-jaca

Rattus rattus rattus
(Pelas sarjetas de Ipanema e do Leblon)
Rattus rattus rattus
(Estupefatos gatos fogem de pavor)
Rattus rattus rattus
A tua louca simetria
Rói a raiz dos próprios fatos
Rattus rattus
E acaba roendo a poesia.

Rattus rattus rattus
(Foi o mesmo Deus que fez o lírio quem te fez?)
Rattus rattus rattus
(Tu multiplicas dois por quatro igual a dez)
Rattus rattus rattus
Impessoal procriador
Não chegues junto aos meus sapatos
Rattus rattus
Porque eu te mato, ó roedor.

É o rato é o rato
É o rato criança
Cujo artesanato
Lhe vem da lembrança
Do rato rapaz
Que guarda o retrato
Risonho e roaz
Do rato do rato
Do rato já velho
Que fuma charuto
Se olhando no espelho
E de quem os atos
Que a cifra amplifica
Um bando de ratos
Sempre ratifica.
Um rato de preto
E um rato de branco
Um rato de frente
E um rato de flanco;
Um rato de púrpura
E um rato de cáqui
Um rato de feltro
E um rato de fraque;
Um rato de imprensa
Que tem que viver
É um rato que pensa
Um rato abstrato
Que rói por roer;
Um rato esquisito
Que vive em Paris
É um rato erudito
Um rato de giz;
E além desses ratos
Os ratos da terra
Que servem a outros ratos
Que não são da terra
Tem dona Ratona
E os rato-ratinhos
Tão engraçadinhos
Brincando de guerra
Rattus rattus rattus etc...


O maestro Villa-Lobos fixa-se na eternidade

Na verdade, Mestre, não morreste.
A morte apenas abriu para o teu vulto
O seu nicho de treva, de modo a que melhor pudesses
Brilhar em tua glória. Não precisavas
Da morte para nada.


O mal de Nava

Meu Deus, que tédio
Que me devora
Não sei se fique
Se vá me embora
Morrer? Se morro
Quem me dá vida?
Chorar? Se choro
Quem me consola?

Sinto fantasmas
No seu silêncio
Me sopram cinzas
No coração
Cinzas? quem dera.

Pressentimento

Deixa dormir na tua porta o sono, poeta apascentado pela Lua
Seus seios bebem teu sangue para alimentar os anjos
Ouve as flores, sente como as suas minúsculas tetas de perfume
Palpitam cheias de vinho para as pequeninas ovelhas do céu
Fica em calma, enche teus olhos do verde negror da noite
E quando muito recita um pouco de poesia à toa para as estrelas
Porque nada tens a fazer, nada! e os passarinhos continuam soltos por aí...

O Morro do Castelo

(A lira que não escreveu Gonzaga)

Numa qualquer madrugada
De uma qualquer quarta-feira
O homem de pouca fé
Faz uma barba ligeira
(Que coisa estranha é ter barba... )
Toma um rápido café
E depois, ali na esquina
De Voluntários da Pátria
Pega o Largo dos Leões
E salta na Galeria
Bem em frente a São José.

– Irei de boa vontade...
Uma vez na encruzilhada
De São José com a Avenida
Vai seguindo toda a vida
Contra a viração do mar
Verás, fechados, uns bares
Como umas portas de luar
Mas segue; um pouco adiante
A um golpe de atiradeira
Fica a Cruz dos Militares
Pouco antes dobra à direita
Verás então a colina
E na colina, a ladeira...

– Não tem mais. Puseram abaixo
Tem sim. Ainda posso vê-Ia
Subindo em paralelepípedos
E
no alto, luzindo, a estrela
À beira do precipício...
Tem sim! Tem sim! Lá está ela
Parada... e eis-me aqui, Vinicius
Menino, com meu velho avô
E minha branca avozinha
Que com um beijo me acordou...

– É inútil. Teu avô morreu...
Não morreu! Mentira tua!
Meu avô é um velho lindo
Com um olhar sempre altaneiro
E que anda sempre de alpaca
Ainda agora posso vê-lo
À luz da aurora imediata
Subindo, sempre subindo
Pelo morro do Castelo
Em demanda do mosteiro...

– Que Castelo? Já acabou!
Já acabou? Mas que absurdo!
Me lembro tão bem da entrada
Da água benta, do som surdo
E envolvente dos harmônios
A me expulsar os demônios
Da carne sempre acordada...
Me lembro tão bem da bênção
Dos turíbulos de incenso
Balançando, do passar
Dos sacristães reverentes
E os farfalhares ardentes
Da seda ritual, os dísticos
Bíblicos, a via-sacra
O misterioso soar
Das campainhas litúrgicas
O branco tecido místico
Das orações... Tudo calmo
Tudo alto... Tudo imenso...

– Deus morreu, pobre menino...
Deus não morreu. Que blasfêmia!
Deus é o pai da criação
Deus nos criou, macho e fêmea
Para nos sacrificarmos
Pela nossa salvação
Deus fez Adão, e fez Eva
De uma costela de Adão
Deus é Deus, o Pai Eterno
o caminho e a redenção...
Não digas... que Ele te leva
Para as profundas do inferno
O inferno sem remição...

– Deus morreu, pobre criança
Há muito que Deus morreu
Situa a tua esperança
No homem que em ti nasceu.
Deus é o teu medo da vida
E do que a vida te deu
Luta por um paraíso
Cá na terra, e não no céu
Que o inferno é aqui nesta terra
Inventado por teu Deus.
Esquece o mundo passado
No que não te esclareceu
Olha a miséria a teu lado
Que se a fez Deus, obrigado!
Podes ficar com o teu Deus!
Luta por teu semelhante
Pobre, e que Deus esqueceu
Que se por eles não lutas
Tampouco se importa Deus.
Cria a vida de ti mesmo
E não de um Deus insensível
Um bem preguiçoso Deus.
Não digo que tu esqueças
Dos desaparecidos teus
Mas não vivas sobre a morte
Que esta última consorte
É forte, e a prova de Deus
Pois se não crês e não crias
Ao fim dos teus poucos dias
Dela nem te salva Deus!

Otávio

Torce a boca, olha as coisas abstrato
Percorre da varanda os quatro cantos
E tirando do corpo um carrapato
Imagina o romance mil e tantos...

Logo após olha o mundo e o vê morrendo
Sob a opressão tirânica do mal
E como um passarinho, vai correndo...
Escrever um tratado social

É amigo de um "braço" na poesia
E de um outro que é só filosofia
E de um terceiro, romancista: veja

Quanto livro a escrever ainda teria
O ditador Otávio de Faria
Sob o signo cristão da nova Igreja...

O namorado das ruas

Eu sou doido por Alice
Mas confesso que a meiguice
De Conceição me alucina.
Lucília não me dá folga
Porém que amor é Bambina!
Por Olga já fiz miséria
Perdi dinheiro e saúde
Mas quando Maria Quitéria
Apareceu, eu não pude...
Mais tarde, dona Florinda
Quase me pega: que uva!
Depois foi a viúva Dantas:
Nunca vi coisa mais linda
Do que o morro da Viúva.
Em seguida foram tantas
Que já nem estou mais lembrado
Foi Tereza Guimarães
Foi Carolina Machado.
Hilda tinha tanto fogo
Que eu, fraco, sem poder mais
Mudei para Botafogo
Meus casos sentimentais.
Minha dona Mariana
Que saudades da senhora...
Como foi bom seu convívio
Depois que deixei Aurora!
Foi por essa ocasião
Que eu, numa questão de dias
Namorei tantas Marias
Quantas encontrei à mão.
Primeiro, Maria Amália
E logo Maria Angélica
Que larguei por Marieta
Por achá-la um tanto bélica.
Maria do Carmo deu-me
Momentos a não esquecer
E a bela Maria Paula...
Morei nela de morrer.
Estela... de minha vida
Nunca vi coisa mais nua
Nem mais ardente; foi ela
Quem mostrou-me o olho da rua.
Em Ana Teles perdi
Os meus versos mais profundos
Depois passei-me para Alcina:
Como adorava os baldios
Que existiam nos seus fundos!
E Irene... como era triste!
No entanto, tão bem calçada...
Nela gastei muito alpiste
Para a sua passarada.
Mas se me disserem: poeta
Qual o nome mais amado
Das ruas que conheceu?
Eu tanto tempo passado
Ó minha Joana Angélica
Iria dizer o teu.

Ode a maio

Maio dançarino! abre tuas asas diáfanas
Sobre as corolas nascituras; limpa os céus
De azul; aclara e alegra as águas do mundo
Jovem, doce Maio! enxota as frutas
Com teu bafo de cristal; amadurece-as
Com teu Sol outonal e vem aos vales dançar
Entre as adolescências da campina...

Maio

Maio em flor! quem te criará para mim
Em flor?

O poeta em trânsito ou o filho pródigo

Acordarei as aves que, noturnas
Por medo à treva calam-se nos galhos
E aguardam insones o romper da aurora.
Despertarei os bêbados nos pórticos
Os cães sonâmbulos e os gerais mistérios
Que envolvem a noite. Pedirei gritando
Ao mar que mate e ao vento que violente
As jovens praias de pudor tão branco.
Quebrarei com ressacas e risadas
O silêncio habitual de Deus na noite
A intimidar os homens. Que a cidade
Ponha o xale da lua sobre a fronte
E saia a receber o seu poeta
Com ramos de jasmim e outras saudades.
A hora é de beleza. Em cada pedra
Em cada casa, em cada rua, em cada
Árvore, vive ainda uma carícia
Feita por mim, por mim que fui amante
Urbano, e mais que urbano, sobre-humano
Na noturna cidade desvairada.
Provavelmente não virei montado
Em cavalo nenhum, como soía
Nem de armadura, que essa, a poesia
Mais que nenhuma me defenderia
Numa cota de malhas de silêncio.
É bem possível até que chegue bêbado
E se em janeiro, de camisa esporte.
O importante é chegar, ser a unidade
Entre a cidade e eu, eu e a cidade
Ouvir de novo o mar se estilhaçando
Nas rochas, ou bramindo no oceano
Sozinho como um deus........
............................................
............................................

Ó bem-amada
Rio! como mulher petrificada
Em nádegas e seios e joelhos
De rocha milenar, e verdejante
Púbis e axilas e os cabelos soltos
De clorofila fresca e perfumada!
Eu te amo, mulher adormecida
Junto ao mar! eu te amo em tua absoluta
Nudez ao sol e placidez ao luar.
Junto de ti me sinto, tua luz
Não fere o meu silêncio. O meu silêncio
Te pertence. Eu sei que resguardada
Dos seres que se movem entre teus braços
Teus olhos têm visões de outros espaços
Passados e futuros...

Como às vezes
Sobre a lunar estrada Niemeyer
Entre o clamor das ondas fustigadas
Meditam as montanhas. Que silêncio
Se escuta ali pousar, que gravidade
Da natureza! Eu sei, é bem verdade
Que sob o sol o Rio é muito claro
Muito claro demais, e sem mistério.
Eu sei que ao revérbero de janeiro
Morrem segredos como morrem as aves
Contentes de morrer. Eu sei tudo isso.
Já vi com esses meus olhos incansáveis
Idéias explodirem como flores
Entre réstias de sol já vi castelos
Matemáticos ruírem como cartas
Sistemas filosóficos perderem
A lógica do dia para a noite
Obras de arte nascentes desviarem-se
Do rumo da criação ante uma axila
Suada, e muitos santos se danarem
Sob a ação salutar do ultravioleta.
Mas pra quem tem o hábito da noite
Quem vive em intimidade com o silêncio
Quem sabe ouvir a música da treva
Quando na treva reproduz-se a vida
Para esse, a cidade se oferece
Num clima universal de eternidade
No contraponto do mover do mar
E no mutismo milenar da pedra
Em sua infinidade de infinitos
Para esse os Dois Irmãos contam uma história
Fantástica, de forças irrompendo
Da terra e se dispondo em formas súbitas
Viúva! Pão de Açúcar! Corcovado!
E mais ao sul, sarcófago do sol
A mesa imensa onde esse pode ver
Se acaso souber ver, no fim do dia
A silhueta do homem primitivo
(A mesma que ainda hoje, transformada
Passa sobre o mosaico da Avenida)
E até quem sabe, natural torcida
Assistindo de sua arquibancada
As serpentes do mar em luta ignara
Movendo maremotos, à porfia
No estádio natural da Guanabara.


Patético

Está ausente. Ausente como as vozes da minha infância
E muda – eu lhe dou adeus de todos os espaços
Grito o seu nome em todas as ruas - e os trens passam deixando a distância

(nas casas que dormem
Mas está muda e ausente – e os trens passam e eu grito o seu nome…

Ah, meu amor! por que a saudade está me chamando para a noite?
Sou eu, sou eu! aquele cuja alma se estende sobre a vida
Aquele cujo espírito é imenso e cujo coração é trágico
Eu, eu... E logo nada mais serei que memória e dolorosa lembrança

Teus gestos e teus olhares de profunda inocência, onde estão?
Nada se move... – há uma luz, um leito e uma lua lá longe...
Talvez eu esteja prisioneiro de um destino atroz – socorre-me!
Talvez eu esteja sofrendo um instante atroz – liberta-me!

Quero a calma, a pureza, a serenidade do teu mundo
Quero as manhãs nascendo e as tardes se pondo docemente
Não quero o horror! as convulsões, os desânimos, as lágrimas, a cólera
Quero as tuas mãos - e não as encontro no ar, no mar, no luar, no caminhar

Adormece e vem – eu sei que sou forte e belo para a vida
Sei que há um gênio inquieto na minha palavra que um dia será ouvida
Mas nesse momento quero apenas que seja tu a que sabe e a que recebe
Onde estás? – no país distante que fica ao poente ou no país presente que fica

(ao levante?…

Ausente – muda e ausente! crianças que sonham trazei-me o seu sono
Estrelas que dormem trazei-me o seu sonho. – Mas quem bateu na minha janela?
– Foi o grito dos trens partindo da tristeza de uns para a alegria de outros
– Foi o grito do além pedindo o orvalho das madrugadas para a carne dos

(infelizes…


Pensée de Desespoir

Pousa docemente a cabeça
Sobre a brancura do teu leito
Pensa-te imóvel e perfeito
Antes que a grande noite desça

Diz-te que a morte será breve
Sem música e sem poesia
E quando venha, após, o dia
Deixa que a vida assim te leve.


Perdoai-me, meus amigos,... (s/ título)

Perdoai-me, meus amigos, a minha súbita vontade de chorar em vosso mágico

(convívio
Eu tenho vontade de chorar sobre a minha súbita inocência. Tenho também

(eu vos confesso)
Vontade de chorar sobre a bandeja de asa de borboleta
Sobre os olhos do menino morto de avitaminose em Ouro Preto, Mariana
E o pudor de quando na hora do almoço reparei nos seus seios adolescentes.
É tarde hoje na noite. A ti, poeta
Meu irmão desde Jesus, tu que acordaste
Os ecos gerais da minha poesia; a ti
Que primeiro sentiste o amor absoluto, o mar absoluto, o luar absoluto, o

(despojamento total
Da minha inútil poesia; a ti
Que, desde sempre, foste o esperado, o inesperado, o desesperado amigo
Sem passado nem futuro; a ti que uma manhã
Bateste na porta do banheiro do Hotel Montaigne (Ex-des-Théâtres), 5, avenue

Montaigne, Paris 8ème
E me disseste: C’est Jean-Georges Rueff (e eu não soube de quem se tratava
Porque a carta que me escreveste para Los Angeles pedindo-me permissão para traduzir minhas elegias datadas de quatro anos antes e eu, além disso, não tenho o hábito de lembrar de ninguém que não conheço, e estava muito apaixonado demais por minha mulher palra poder lembrar de alguém que tivesse a coragem de bater na minha porta num banheiro em Paris)



Poema de Ano-Novo

É preciso que nos encontremos diante do amor como as árvores fêmeas cuja

(raiz é a mesma e se perde na terra profana
É preciso... a tristeza está no fundo de todos os sentimentos como a lágrima

(no fundo de todos os olhos
Sejamos graves e prodigiosos, ó minha amada, e sejamos também irmãos e

(amigos.
É preciso que levemos diante de nós o retrato das nossas almas como se

(fôssemos a um tempo a Verônica e o Crucificado
Eu sou o eterno homem e hoje que a dor fecunda o tempo eu sinto mais que

(nunca a vontade de fechar os braços sobre a minha miséria.
Fiquemos como duas crianças pensativas sentadas numa escada – todos serão

(os peregrinos e apenas nós os contemplados.

Praia do Pinto

Ao pé da praia do Pinto
Existe uma favelinha
Levantada em lama e zinco.
Foi lá que, junto à Lagoa
Num falado amanhecer
Se encontraram dois malandros
Com muita entrada em xadrez
Ambos
valentes da zona
Querendo a mesma mulher.

Poema na morte de meu compadre Carlos Echenique

Compadre
Você morreu
Você morreu de sua morte simples e dolorosa
Sonda na barriga
(Minha comadre que me perdoe de lembrar essas coisas)
Vômitos, e mais sonda na bexiga
E mais sonda barriga e mais vômitos
De vez em quando uma voltinha até o Veloso
Para tomar umas e outras.
Meu compadre querido, companheiro de tantas angústias
Dois ou três dois depois de você Hemingway morreu
Hemingway que gostava de touradas
Que gostava de caçar leões na África
Que gostava de tudo o que um homem que não é homem não gosta.
Meu compadrinho, você que foi tão macho diante da morte
Você que morreu de seu diabetes feito um homem que morre
Meu compadre
Que diferença entre a sua morte e a morte de Hemingway
Hemingway que sempre quis ser o bacano
Que gostava de ver homens matar touros
(E que isto que eu estou dizendo sirva de qualquer coisa para meu amigo

(João Cabral de Melo)
Hemingway que não tinha medo de avião e gostava de matar bichos na África
E você no entanto, meu compadre Carlos Echenique
Uma semana antes da sua morte
Andou providenciando para a Iracema
Minha querida Iracema, flor negra do meu Brasil
Minha outrora empregada, atualmente empregada de Rubem Braga
Iracema que queria tanto um salão para alisar o cabelo de crioula
De cabelo de crioula feito o seu, minha boa Iracema
Minha irmãzinha de cor, de cor muito mais bonita que a de Hemingway
Iracema, crioula do Brasil, figura mais anti-Hemingway que o meu próprio

(compadre Carlos Echenique
Que morreu de seu diabetes, e na hora que deram oxigênio para ele
Disse ai que arzinho tão bom, e cuja morte tão direita
Não tern nada a ver com a morte bacana de Hemingway, muito pelo contrário
Cuja morte tem a ver com meu amigo Jayme Ovalle, na fotografia tirada por

(meus primos os irmãos Franceschi
E com a canção de João Gilberto, e o violão de Baden Powell, e a tristeza de

(Antonio Carlos Jobim
E o sacrificio de santa Luzia que tinha olhos tão lindos que os sacrificou à

(luxúria dos homens numa pequena salva de estanho.


Provavelmente não virei montado... (s/ título)

Provavelmente não virei montado
Em cavalo nenhum, como soía
Nem de armadura, que essa, trago vestida
Feita do aço da vida
Sobre a cota de malha do silêncio.
É possível até que chegue bêbado
E se em janeiro, de camisa esporte.
O importante é chegar, ser a unidade
Ser a cidade e eu, eu e a cidade
Ouvir de novo o mar se estilhaçando
Nas rochas ou bramindo no oceano
Sozinho como um Deus. Ou no verão
No verão, quando o sol, embora oculto
Queima a cera da Lua
Ver – ó visão! Vênus morrer nas ondas
A pura, a louca, a grande suicida
Cuja morte restitui os homens à vida
Na ilusão do tempo. Oh bem-amada
Cidade! como mulher petrificada
Em nádegas e seios e joelhos
De rocha milenar, e verdejante
Púbis e doces axilas e cabeleira
Vegetal
Mulher adormecida junto ao mar
Eu te amo em teu sol e teu luar
Junto de ti me sinto, tua luz
Não fere o meu silêncio. O meu silêncio
Te pertence. Eu sei que, resguardada
De seres que se movem entre teus braços
Teus olhos têm visões de outros espaços
Passados e futuros.

***

Esta é a cidade em que te vi passando
Esta é a cidade que me viu sofrendo
Esta é a cidade que trilhei fugindo
Metrópole fatal, hosana! hosana!
Esta é Copacabana, ampla laguna
Curva e horizonte, arco de amor vibrando
Suas setas de luz contra o infinito.
Aqui meus olhos desnudaram estrelas
Aqui meus braços discursaram à Lua
Desabrochavam tigres dos meus passos
E as sereias por mim se consumiam.
Copacabana! praia de memórias
Quantos êxtases, quantas madrugadas
Em teu colo marítimo! esta é a areia
Que tanto enlamacei com minhas lágrimas
Aquele é o bar que freqüentei. Vês tu
Aquele escuro ali? É um monumento
Cone de sombra erguido pela noite
Para marcar por toda a eternidade
O local onde, um dia, fui perjuro
Ao teu amor. Ali beijei-te ansiado
Como se a vida fosse terminar
Naquele louco embate. Ali cantei
Ali menti, ali me silenciei
Para gozo da aurora pervertida.
Sobre o banco de pedra que ali está
Nasceu uma poesia. Ali jurei
Um dia me matar. Ali fui mártir
Fui covarde, fui bárbaro, fui santo.


Que hei de fazer de mim,... (s/ título)

Que hei de fazer de mim, neste quarto sozinho
Apavorado, lancinado, corrompido
A solidão ardendo em meu corpo despido
E em volta apenas trevas e a imagem do carinho!

Defendido, a me encher como um rio contido
E eu só, e eu sempre só! ó miséria, ó pudor!
Vem, deita comigo, branco e rápido amor
Risca de estrelas cruéis meu céu perdido!

Lança uma virgem, se lança, sobre este quarto
Fá-la que monte no teu sórdido inimigo
E que o asfixie sob o seu púbis farto

Mas que prazer é o teu, pobre alma vazia
Que a um tempo ordenhas lágrimas contigo
E outras enxugas, fiéis lágrimas de agonia!


Quem, quem depois... (s/ título)

Quem, quem depois
Abrirá as portas sobre o imensurável?
Quem compreenderá a aurora
Em seu mais íntimo e elementar silêncio?
Quem descerá as pontes levadiças
Do Sol sobre as cidades possuídas
Pela morte?


Redondilhas a Laranjeiras

Laranjeiras pequenina
Carregadinha de flor
Eu também estou dando pássaros
Eu também estou dando flores
Eu também estou dando frutos
Eu também estou dando amor.


Redondilhas para Tati

Sem ti vivo triste e só
(Bastasse o que já sofri... )
Sem ti sou ermo, sou pó
Sou tristeza por aí...
Sem ti... ah, dizer-te a ti!
Mas se me cerra o gogó
Como se tivesse aqui
Um naco de pão-de-ló!
Sem ti sou pena de Jó
Sou ovo de juriti
Sem ti sou carandaí
Tamandaré, Mossoró
Sem ti sou um qüiproquó
Um oh, um charivari
Sem ti, sou de fazer dó
Sou de fazer dó-ré-mi
Meu benzinho de totó
Meu amor de tatuí.
Mas sou forte não reclamo
Sou bravo como Peri
– Não, mulher, já não te amo!
(É brincadeira, hem, Tati... )
Tati, Tatuca, Tatica
Onde ficou minha tática
Perdi toda a velha prática...
Esta vida é uma titica.
Ah, garota, francamente
Nem sei mais o que pensar
És tu que estás tão presente
Ou eu que fui me casar?
Não posso, Tati, te juro
Não posso viver sem ti
Tu és meu cantinho escuro
Meu verso por descobrir
És meu eterno oxalá
Em terra de alibibi
És meu trecho de Zola
Repassado por Delly
És Totonha, Tatiana
Tereza, e nunca Tati
És extrato de lavanda
Rotulado por Coty
Beatriz?... mas quem és tu
Para Dante abandonar?
Sereis um merci bocu
De praga de pai Exu
Para cima de moá?

Não! Tu és como o penedo
E eu... como a onda do mar
És a sombra do arvoredo
E eu... pastor a descansar
Sou o ouvido, és o segredo
És a luta, eu sou a paz
És Beatriz Azevedo
E eu Vinicius de Moraes.


Retrato de Maria Lúcia (II)

Talvez de uma campina
Onde a tarde rupestre
Incendiasse o sílex
Do caminho agreste

Na antiga Palestina
Ou ao longo do Nilo
Princesa ou campesina
Silenciosa e presta

Cruzando quem sabe
Jesus itinerante
…………………….

De longe, de longe
Do fundo dos tempos
Tu vens para mim.


Salta como um fauno puro ou um sapo... (s/ título)

Salta como um fauno puro ou um sapo miraculoso por entre os raios do sol

(frenético
Distribuindo alegres e bem-soantes palavrões para protestantes e católicos
Urina sobre as escadarias dos templos porque ali os mendigos se sentam
E cospe sobre todos os que se proclamaram miseráveis.

Canta, canta demais! Nada há como o amor para matar a vida
Amor que é bem o amor da inocência primeira.
Canta! O coração da Donzela restado da carne ficará queimando eternamente

(a amiga morta
Para o horror dos monges, dos cortesãos, dos caftens, das prostitutas e dos

(pederastas.

Transforma-te por um segundo num mosquito gigantesco e passeia sobre as

(grandes cidades
Espalhando o terror por toda a parte onde pousem as tuas impalpáveis

(antenas
Lega aos cínicos o cinismo, aos covardes a covardia, aos avaros a avareza
E injeta-os de pureza para que eles apodreçam como porcos mordidos por

[serpentes.

E com toda essa lama faz um poema puro - faz e deixa-o
Como o velho de Sindbad ele há de saltar às custas dos que foram passando

Há de estrangulá-los, vencê-los, aniquilá-los misteriosamente
Como o branco fantasma da sua podridão e da sua mentira.
Canta! Canta porque cantar é a missão do poeta
E dança porque dançar é o destino da pureza
Para os cemitérios e os lares faz o teu gesto obsceno
Carne morta na carne viva, basta! falo eu que sou um.


Santa Maria tem terras... (s/ título)

Santa Maria tem terras
Como outras iguais não há
Tem pastagens, tem florestas
Onde canta o sabiá

Deus permita que, voltando
Muito mais tempo eu lá fique
"Gozando" a couve mineira
E o Ford do Vanderlique

Que lugar, Santa Maria!
Que fazendeiros seus donos!
Que fome, meu Deus, de dia!
De noite, Deus meu, que sono!

Tão pertinho de Resende
(Onde impera o falatório...)
A fazenda é como um céu
Ao lado de um purgatório

E como em todos os céus
Que têm a sua rainha
Lá reina, cheia de graça
Nossa Senhora... Francinha

Como é bom, de tarde, ver-se
Junto de seu Robiches
O Carlos pintar o sete
Murmurando o seu dê-dê!

Como é gostoso de andar-se
Por trás das "casuarinas"
Entre o correr dos meninos
E a falação das meninas!

Ó terra de mil primores
Cheia de doce beleza
Muito melhor que os Sabóia
Sem igual na redondeza

Nossas vacas têm mais leite
Nossos paióis têm mais milho
Nossos currais, mais fartura
E nossas éguas mais filho.

Deus não permita que eu morra
Sem que possa lá voltar
Para ver todos os dias
O Miguel tratando o Zar

Para assistir bem de longe
As belas éguas de pólo
Que me deram um belo susto
E deram com o Zé no solo

Dia virá, com certeza
Que me verá por aqui
Saudando tanta beleza
Com o grande gesto do Guy

Brincando com Gilda e Bumba
Junto com a Zuleica e o Zé
Fazendo meus mexericos
No terreiro de café

Tocando minha viola
Para a Lili e a Bebê
Bebendo a cerveja preta
Que me dá, seu Rabiches

Passando o dia na flauta
Andando de cá para lá
Correndo pelas campinas
Atrás de maracujá

Sinto-me só como um seixo de praia

Sinto-me só como um seixo de praia
Vivendo à busca no cristal das ondas,
Não sei se sou o que não sou. Pressinto
Que a maré vai morar no fundo d'alma.

Calo-me sempre se te escuto vindo
Marulho de incerteza e de agonia;
Há crenças deslizando nos meus traços,
Molhando a estátua do meu sonho antigo.

Declino-me nas frases dos rochedos
Nas pérolas de som do inesquecer
Na incrível sombra da montanha adulta.

E ao me curvar ao peso da memória,
Descubro meu reflexo obscuro
Num soneto de espumas inexatas.

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