quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Baú de espantos - Mario Quintana


Mario Quintana

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Orelhas do livro

Orelha esquerda:

Com Baú de espantos, publicado em 1986, Mario Quintana completa o

conjunto iniciado dez anos antes com Apontamentos de história

sobrenatural (1976) e integrado também por Esconderijos do tempo (1980).

Essas três obras reafirmam e acentuam certos traços dispersos em livros

anteriores: a tendência ao onírico, a reflexão sobre o poema, sobre a

morte e a densidade dramática de sua poesia lírica.

O vínculo com os livros precedentes é estabelecido desde a epígrafe de

dois versos do poema "Esconderijos do tempo", que intitulava a obra

imediatamente anterior, e se fortalece pela maneira peculiar de

recuperar a infância, os objetos perdidos e reencontrados, as velhas

casas e outros fatos da vida, nos quais o quotidiano ganha uma expressão

fantasmal, marcas de sua poesia desde os sonetos de A rua dos cataventos

(1940). Também aqui, o poeta acredita não só no que vê, mas no que

imagina.

Por isso dirá no poema

ESPANTOS

Neste mundo de tantos espantos,

Cheio das mágicas de Deus,

O que existe de mais sobrenatural

São os ateus

Tania Franco Carvalhal

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Orelha direita:

Esta nova edição das obras de Mario Quintana não se limita à mudança do

projeto gráfico. Coordenada por Tania Franco Carvalhal, uma das maiores

especialista na obra do poeta gaúcho, responsável também pela fixação do

texto, a presente reedição recupera a forma original dos primeiros

livros, na seqüência em que foram publicados.

O leitor tem em mãos, portanto, o mesmo Quintana que cativa leitores a

mais de sessenta anos, agora em versão definitiva.

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Coleção Mario Quintana

Organização, plano de edição,

fixação de texto, cronologia e bibliografia:

Tania Franco Carvalhal

A RUA DOS CATAVENTOS / CANÇÕES / SAPATO FLORIDO / O

APRENDIZ DE FEITICEIRO / ESPELHO MAGICO /

APONTAMENTOS DE HISTÓRIA SOBRENATURAL / ESCONDERIJOS DO

TEMPO / BAÚ DE ESPANTOS / A COR DO INVISIVEL /

CADERNO H / PORTA GIRATÓRIA / DA PREGUIÇA COMO

MÉTODO DE TRABALHO / A VACA E O HIPOGRIFO / O

BATALHÃO DAS LETRAS / PREPARATIVOS DE VIAGEM / VELÓRIO SEM

DEFUNTO / NOVA ANTOLOGIA POÉTICA / 80 ANos DE POESIA

EDITORA

GLOBO

Copyright © 1994 by Elena Quintana

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra

pode ser utilizada OU reproduzida - em qualquer meio ou

forma, seja mecânico ou eletrônico, por fotocópia, gravação

etc. - nem apropriada ou estocada em sistemas de bancos de

dados sem a expressa autorização da editora.

Revisão: Maria Sylvia Corréa e Valquíria Della Pozza

Capa: Isabel Carballo

Projeto Gráfico: Crayon Editorial

Foto da capa: Stock Photos

Foto da quarta-capa: Arquivo Agência Estado

2ª edição, 2006

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Quintana, Mario, 1906-1994.

Baú de espantos / Mario Quintana organização,

plano de edição, fixação de texto, cronologia e

bibliografia Tania Franco Carvalhal - São Paulo

Globo, 2006.

Centenário Mario Quintana 1906-2006

ISBN 85-250-4093-2

1. Poesia brasileira 2. Quintana, Mário, 1906-1994 -

Critica e Interpretação I. Carvalhal, Tania Franco. II. Título.

05-0540 CDD-869.9 1

Indices para catálogo sistemático:

1. Poesia Literatura brasileira 869-91

Direitos da edição em língua portuguesa

adquiridos por

EDITORA GLOBO S.A.

Av. Jaguaré, 1485 - 05346-902, São Paulo, SP

www.globolivros.com.br

Sumário

O instante, matéria-prima da poesia - 9

Tempestade noturna - 25

Matinal - 26

Quinta coluna - 27

Poema transitório - 28

O homem do botão - 30

Era um lugar - 31

Sei que choveu à noite - 32

O segundo mandamento - 33

O descobridor - 34

A casa fantasma - 35

Maria - 36

O pobre poema - 37

O visitante noturno - 38

Os poemas - 39

Magias - 40

Torre azul - 41

Os arroios - 42

Noturno I - 43

De longe para longe - 44

Deixa-me seguir para o mar - 46

Espantos - 47

Anti-canção número um - 48

Noturno da viação férrea - 49

Querias que eu falasse de "poesia" - 50

Parece um sonho... - 51

Manhã - 52

Família desencontrada - 53

O deixador - 55

Invitation au voyage - 56

Segundo poema de abril: o navegador - 57

- 58

Noturno II - 59

O poema adormecido - 60

O último crime da mala - 61

Conversa fiada - 62

Viagem - 64

Os ceguinhos - 65

A sesta - 66

Tângolo-mango - 67

Passeio suburbano - 68

Verde - 69

A nossa canção de roda - 70

A voz subterrânea - 71

A missa dos inocentes - 72

Os degraus - 73

Pequeno poema de após chuva - 74

Noturno III - 75

Pé ante pé - 76

Metamorfoses do vento - 77

Estranhas aventuras da infância - 78

Os duros - 79

Um nome na vidraça - 80

Alma errada - 82

Esperança - 83

Soneto azul - 84

Uma historinha mágica - 85

Bilhete atirado no fundo do tempo - 86

Viver - 87

Poema desenhado - 88

Soneto - 89

- 90

O olhar - 91

Noturno IV - 92

A mensagem - 93

A rua - 94

Poema ouvindo o noticioso - 95

O peregrino - 96

Meu bonde passa pelo mercado - 97

Data e dedicatória - 98

Janelinha de trem - 99

O fatal convívio - 100

Três poemas que me roubaram . - 102

Da fatalidade histórica - 103

O velho poeta - 104

A ciranda . - 105

As meninazinhas - 106

O encontro - 107

Louca - 108

O poema apesar de tudo - 109

Havia - 110

Convite - 111

Epístola aos novos bárbaros - 112

Poema esperando a vez no dentista - 113

Os ventos camoneanos - 114

Um soneto para Manhã - 115

Reincidência 116

Soneto póstumo - 117

Uma alegria para sempre - 118

Astrologia - 119

Poeminha dos setenta anos - 120

Um céu comum - 121

Tutuzinho de feijão - 122

O colegial 123

O anjo - 124

Esses eternos deuses... - 125

Bilhete com endereço 126

A árvore dos poemas - 127

Projeto de prefácio - 128

O vento e a canção - 129

Bibliografia - 131

Cronologia 140

O instante,

matéria-prima da poesia

Antonio Hohlfeldt

o maravilhoso espanto de viver por um só instante

(In Apontamentos de História Natural, 1976)

em sua pobre eternidade, os deuses

desconhecem o preço único do instante...

(In Baú de espantos, 1986)

Já registrei, há alguns anos, o quase silêncio da

crítica literária brasileira sobre a poesia de Mario

Quintana e, por conseguinte, a quase inexistencia de

estudos e ensaios mais alentados sobre o seu

trabalho.1 Nesse sentido, e em boa hora, a reedição do

alegretense, por ocasião dos festejos do centenário de

seu nascimento, permite que diferentes pesquisadores

possam registrar impressoes e analises sobre essa

obra que parece apresentar-se, ainda hoje, um pouco

como a ameaça que, jocosamente, o próprio poeta

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1. HOHLFELDT, Antonio. A poesia do todo em Mario Quintana, in

Caderno de Sábado, Porto Alegre, Correio do Povo. 23- 10- 1976, vol.

XVII. Ano VIII, n. 438, ps. 8 e 9.

_ 9

registrava em um dos poemas presentes neste volume:

Eis que me surge, aqui, neste terceto, a Esfinge/

Devora-me ou decifro-te/ E ela ringe.2

Tive a oportunidade, nos quase vinte anos em que

trabalhei no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, de

conviver com o poeta Mario Quintana. Nossas mesas

de trabalho, na redação, ficavam vis-a-vis. Chegando à

tarde, depois de tomar um cafezinho no bar do jornal,

o poeta punha-se a ler sua própria poesia.

Invariavelmente. Lá pelo final da tarde, pegava do lápis (às

vezes da caneta esferográfica) e começava a rabiscar

naquele antigo papel de jornal que nos era oferecido

pela redação, antigas resmas de composição, então já

reduzidas a toalhas para secar as mãos. Enfim, o poeta,

ao final da jornada, às vezes já no início da noite,

usava sua imensa máquina de escrever Olivetti 88 e

punha-se a digitar (literalmente, porque Mario escrevia

com não mais do que quatro dedos, dois de cada mão),

com vagar, e eu diria, com método, o novo poema,

qual fênix, renascido de outros tantos que o mesmo

poeta escrevera e ali deglutira, antropofagicamente.

É como se Mario Quintana conversasse

permanentemente consigo mesmo, numa espécie de solilóquio

continuado, sobre o qual igualmente ja tive a

oportunidade de escrever, em momento anterior.3 Aliás, para

___

2 QUINTANA, Mario. Baú de espantos, Rio de Janeiro, Globo, 1986.

3 HOHLFELDT, Antonio. "O encontro dos vários temas na poesia de

Quintana", in Caderno de Sábado, Porto Alegre, Correio do Povo,

10.11.1979, vol. LXXXIX, Ano VIII, n. 589, ps. 8-9.

_ 10

além do solilóquio, como processo de criação, pode-se

registrar o diálogo com o leitor, pressuposto no uso

significativo da 2a pessoa do singular, como

procedimento de recepção, antecipado pelo poeta, numa

espécie de escolha do leitor, como já o registrou

Umberto Eco.4

Não é de surpreender, assim, que se deva

reconhecer um continuum na criação poética de Quintana,

resultado dessa autoleitura, dessa constante reflexão

em que não apenas palavra puxa palavra, mas poema

puxa poema. Por vezes, um único texto pode sugerir

tantas outras coisas, que o poeta prefere suspender

aquelas potencialidades, interrompendo o verso pela

colocação das reticências... seria curioso, aliás,

estudar-se a relação entre essa pontuação gráfica, os

versos em que ela é usada, e o desdobramento que ela

permite desses versos em outros poemas... Mas para

isso é preciso paciência...

Os temas abordados por Quintana são variados,

mas quase sempre surgem em pares, cuja combinação

é constituída de opostos: o fim do mundo x a

presença da eternidade; Deus x Diabo; poeta x poesia;

velho x antigo; passagem do tempo x progresso;

anonimato x solidão etc. Os pares antônimos se

constroem também a partir de princípios ou conceitos:

___

4 ECO, Umberto. Lector in fabula: A cooperação interpretativa nos

textos narrativos, São Paulo, Perspectiva, 1986, e Seis passeios pelos

bosques da ficção, São Paulo, Cia. das Letras, 1994.

_ 11

ausencia física x presença pela memória; tempo que

corrói a vida x infinitude da morte etc A associação

de idéias é uma constante: a preocupação em

distinguir claramente os termos, também. Há enormes

sutilezas, nessas distinções, como em casos do

anonimato x solidão: o anonimato é voluntário, é saudável;

a solidão é indesejada, é negativa, O anonimato

permite o exercício da identidade, da personalidade, do

distanciar-se de si mesmo e assim ver-se de maneira

crítica; a solidão pode ocorrer até mesmo - e

sobretudo - em meio à massificação.

Pode-se afirmar, por isso, que o principal

procedimento criativo de Mario Quintana é a reflexão sobre

o próprio fazer poético. Para o escritor, o poema é

como que a ponta de um iceberg, não apenas da poesia

que o poeta contém dentro de si, mas de toda a

poesia. O poema é, ao mesmo tempo, um disfarce do

poeta: ele parece falar de alguma coisa (aparente)

mas, na verdade, está a tocar em um tema bem mais

profundo e serto.

A poesia, por seu lado, é um encantamento: o

poeta se vale de palavras como fórmulas mágicas,

criando uma atmosfera que desvela/revela o mundo,

produzindo o que poderíamos denominar de

enobrecimento do cotidiano. Sendo a poesia irredutível,

ela se constitui na invenção da verdade, a partir de

um procedimento fundamental: a indagação.

A importância dada por Mario Quintana à infância

não é nenhum saudosismo ou nostalgia. E, isso sim, a

_ 12

possibilidade de retornar a um momento em que,

metodologicamente, o ser humano está disponível

para perguntar, descobrir e espantar-se com as suas

descobertas. O poeta, desse modo, enquanto uma

criança ingênua, é capaz de surpreender a vida em

todas as suas possibilidades, valendo-se justamente da

dúvida enquanto procedimento de conhecimento - e

o poema, enquanto procedimento de socialização

desse conhecimento/descoberta.5

O cerne da obra de Mario Quintana se apóia

exatamente nisso: o espanto da descoberta, colocando-se o

interesse do poeta menos na realidade do entorno em

si mesma e muito mais nas mudanças que ela sofre.

com o passar do tempo, A poesia, por conseguinte,

concretizada na forma do poema, é como um pacote

que deve ser aberto: a leitura do poema é a revelação

da surpresa que ele contém, a própria poesia, mas que

não é delegável a ninguém mais, senão ao leitor

mesmo. Daí a afirmação que encontramos em certa

passagem de Na volta da esquina:6 Os verdadeiros poetas

lêem os pequenos anúncios de jornais, ou seja, é a

partir da realidade mesma, a realidade anônima e

cotidiana, que se concretiza a poesia, por aproximação.

Baú de espantos não foge a essas perspectivas.

___

5 HOHLFELDT, Antonio. A poesia segundo Mario Quintana, in

Caderno de Sábado, Porto Alegre, Correio do Povo, 24.11.1979, vol.

XCI, Ano VIII, n. 591, ps. 11-15.

6 QUINTANA. Mario. Na volta da esquina (antologia). Porto Alegre,

Globo-RBS. 1979. p. 50.

_ 13

Comecemos pelo título do livro: o baú é um objeto

em geral hermeticamente fechado, contendo COISaS

velhas e antigas. Nesse caso específico, o baú contém

espantos, espantos surgidos a partir da convivência

com a realidade. Os espantos são uma espécie de

revelação. um procedimento que ocorre

repentinamente, por uma como que iluminação (ainda que

perseguida constantemente pelo poeta) e que poderá

ser captada e recriada (ou não) pelo leitor, durante a

prática do poema.

Os objetos, aqui, surgem enquanto monstros pré-

históricos. e o poeta se quer como um navegante

descobridor, como aqueles dos séculos XV e XVI,

atualizando-se, assim, um tema clássico da poesia

portuguesa:

Quanto eu acordar amanhã, livre e liberto como

[uma asa

vou rezar a São Jerônimo

vou rezar a Santa Bárbara

por este nosso fim de século - pobre Nau perdida

[no nevoeiro -

que em vão busca o rumo

das eternas, das misteriosas Américas ainda

[por descobrir!

Em Baú de espantos, o tema da viagem está

extremamente presente: resultado da própria composição

_ 14

do volume, em que o poeta viajou por dentro de sua

obra pregressa, resgatando antigos poemas (que

cuida em datar), combinando-os com outros mais

recentes. De qualquer modo, o tema da viagem (por

dentro de si mesmo) não é novo na literatura

contemporânea: ao contrário, é marca da modernidade e

traduz, por certo, a busca da identidade.

A morte e sua significação, bem como o jogo

escatológico que anima toda a existência humana,

persistem nesse volume, e por certo não haveria razão

para desaparecerem justamente aqui, quando o poeta

se (nos) indaga a respeito do que é (somos):

(...) Dizem que os deuses morreram?

Um deus sempre está sepulto

para depois ressuscitar...

................................

(Homens, sementes ocultas

cujo sonho é germinar...)

ou, então, este "O poema adormecido":

De vez em quando

do fundo do sono

surgem os periscópios dos ouvidos;

parece que além, nas margens,

estão acontecendo misérias...

(Os dinossauros mergulham, desinteressados...)

_ 15

E ainda:

Quem nunca quis morrer

Não sabe o que é viver

Não sabe que viver é abrir uma janela

Epássaros pássaros sairão por ela

E hipocampos fosforescentes

Medusas translúcidas

Radiadas

Eçtrelas-do-mar... (..,)

O próprio poema vive esse constante morrer

aparente, para renascer logo em seguida:

Teus poemas, não os dates nunca... Um poema

Não pertence ao Tempo...

Melhor que todos, contudo, é o poema intitulado

"Um nome na vidraça", que traduz, à perfeição, o

processo de criação/transformação/recriação da poesia:

A guriazinha

desenha as letras do seu nome na vidraça

- encantadoramente malfeitas -

as letras escorrem...

Enquanto isto,

umas pessoas morrem,

outras nascem...

.....................

_ 16

A verdade, minha filha,

é que eu não sei como parar este poema:

nos dias de chuva sobem do fundo do mar

os navios fantasmas,

sobem ruas, casas, cidades inteiras,

e procissões, manifestações, os primeiros

e os ultimos encontros, o padre-cura e o boticário

discutindo política na esquina...

(A guriazinha

apaga as letras lacrimejantes da vidraça.

E recomeça...)

Aqui temos, com clareza, o processo de

continuum antes mencionado: a poesia é, pois, uma

virtualidade que precisa ser constantemente atualizada. É

isso que, claramente, o poeta expressa, ao menos em

duas passagens dos últimos trabalhos desse livro:

(...) Um poema não é também quando paras

[nO fim,

porque um verdadeiro poema continua sempre...,

idéia logo reiterada no poema seguinte:

Só o vento é que sabe versejar

............................

E só um segredo ele vem te dizer:

- é que o vôo do poema não pode parar.

_ 17

Essa virtualidade, que é a poesia, transmutada no

poema, depende, contudo, da ação (do olhar) do

poeta. aproximado ao olhar de um condenado à morte:

(...) O olhar do poeta é como o olhar de um

[condenado...

COmo o olhar de Deus...

A responsabilidade do poeta é terrível. Pode, por

isso, ser comparada com a dos próprios deuses, na

medida em que o poeta chega mesmo a ultrapassá-los,

tornando-se um hiperonisciente:

Jamais compreendereis a terrível simplicidade das

minhas palavras

porque elas não são palavras: são rios, pássaros,

[naves...

no rumo de vossas almas bárbaras.

...................

E eu na verdade não vos trago a mensagem de

[nenhum deus.

Nem a minha...

Vim sacudir o que estava dormindo há tanto

[tempo dentro de cada um de vós

a limpar-vos de vossas tatuagens.

Quase trágico, por iSso, é o sentimento que

perpassa A árvore dos poemas, que traduz a morte da

inspiração poética:

_ 18

Quando a árvore dos poemas não dá poemas,

Seus galhos se contorcem todos como mãos de

enterrados vivos,

Os galhos desnudos, ressecos, sem o perdão de

[Deus!

............................................

Maldita a geração sem poetas que deixa as almas

seguirem.

Quando a árvore dos poemas não dá poemas,

Qual será o destino das almas?

Por tudo isso, esse Baú de espantos é um livro

importante. Produzido nos últimos momentos de

Mario Quintana, não é, contudo, um conjunto

aleatoriamente constituído. Não se tratou de reunir alguns

poemas (exatos 99 - por que não 100?) para um

volume qualquer. Há método nessa seleção, há unidade

nesse novo trabalho, unidade claramente traduzida

pelo seu título, que aprofunda uma perspectiva

sempre presente e que traduz, com fidelidade, uma das

principais características do poeta e de sua poesia: a

capacidade de se surpreender e de se espantar.

_ 19

_ 20

Baú de espantos

_ 21

_ 22

... quantas coisas perdidas e esquecidas

no teu baú de espantos...

(Esconderijos do tempo)

_ 23

_ 24

Tempestade noturna

Noite alta,

na soçobrante Nau exposta aos quatro ventos,

em pleno céu sulcado de relâmpagos,

os marinheiros mortos trovejam palavrões.

Ó velhos marinheiros meus avos...

para eles ainda não terminou a espantosa Era dos

Descobrimentos!

Santa Bárbara

e São Jerônimo,

transidos de divino amor,

escutam suas pragas como orações.

Quando eu acordar amanhã, livre e liberto como uma

[asa - vou rezar a São jeronimo

vou rezar a Santa Bárbara

por este nosso fim de século pobre Nau perdida no

por este nosso fim de século pobre Nau perdida no

[nevoeiro

que em vão busca o rumo

das eternas, das misteriosas Américas ainda por

[descobrir!

_ 25

Matinal

O tigre da manhã espreita pelas venezianas.

O Vento fareja tudo.

Nos cais, os guindastes domesticados dinossauros -

erguem a carga do dia.

_ 26

Quinta coluna

Te lembras dos tempos em que se falava na Quinta

[Coluna?

Felizes tempos aqueles porque eram tempos de

[guerra

E a gente pensava que tudo ia melhorar depois...

Mas quando?!

Apenas restou, entre nós a Quinta Coluna dos Poetas.

Sim! Nós é que somos os verdadeiros visitantes do

[Futuro

- não esses que os ingênuos autores de FC andaram

[espalhando por aí...

E temos agora tantas, tantas coisas que denunciar

[neste mundo louco...

- Mas a quem?!

_ 27

Poema transitório

Eu que nasci na Era da Fumaça: - trenzinho

vagaroso com vagarosas

paradas

em cada estaçãozinha pobre

para comprar

pastéis

pés-de-moleque

sonhos

principalmente sonhos!

porque as moças da cidade vinham olhar o trem passar:

elas suspirando maravilhosas viagens

e a gente com um desejo súbito de ali ficar morando

sempre... Nisto,

o apito da locomotiva

e o trem se afastando

e o trem arquejando

é preciso partir

é preciso chegar

é preciso partir é preciso chegar... Ah, como esta vida é

[urgente!

no entanto

eu gostava era mesmo de partir...

e - até hoje - quando acaso embarco

para alguma parte

acomodo-me no meu lugar

fecho os olhos e sonho:

viajar, viajar

mas para parte nenhuma...

viajar indefinidamente...

como uma nave espacial perdida entre as estrelas.

_ 28/29

O homem do botão

Quando esta velha nave espacial do mundo for um

[dia a pique

Não haverá iceberg nenhum que o explique... Apenas

Um de nós, em desespero

como quem se livra de terrível dor de cabeça - com

[uma bala rápida no ouvido -

Vai apertar primeiro o botão:

Clic!

Tão simples... E os mais espertos venderão,

A preços populares. arquibancadas na Lua

Ou carissimoS camarotes de luxo

Para que possam todos assistir à nossa ULTIMA

[FUNÇÃO.

O perigo

É que a arquibancada desabe

Ou que a propria Lua venha a cair no caldeirão

[fervente

Enquanto isso, Deus, que afinal é clemente,

Põe-se a cogitar na criação. em outro mundo,

De uma nova humanidade

- sem livre-arbítrio -

Principalmente sem livre-arbítrio...

Mas com esse puro instinto animal

Que o homem do botão atribuía apenas às espécies

[inferiores.

_ 30

Era um lugar

Era um lugar em que Deus ainda acreditava na gente...

Verdade

que se ia à missa quase só para namorar

mas tão inocentemente

que não passava de um jeito, um tanto diferente,

de rezar

enquanto, do púlpito, o padre clamava possesso

[contra pecados enormes.

Meu Deus. até o Diabo envergonhava-se.

Afinal de contas, não se estava em nenhuma

[Babilônia...

Era, tão só, uma cidade pequena,

com seus pequenos vícios e suas pequenas virtudes:

um verdadeiro descanso para a milícia dos Anjos com

suas espadas de fogo.

- um amor!

Agora, aquela antiga cidadezinha está dormindo para

[sempre

em sua redoma azul, em um dos museus do Céu.

_ 31

Sei que choveu à noite

Sei que choveu à noite. Em cada poça há um brilho

[azul e nítido.

Sobre as telhas. os diabinhos invisiveis do vento

[escorregam num louco tobogã.

Um mesmo frêmito agita as roupas nos varais e os

[brincos nas orelhas...

Ó ânsia aventureira! Parece que surgem bandeirolas

[nos dedos mágicos dos inspetores do tráfego... Ah,

[que vontade de desobedecer os sinais!

E mesmo as escolas, onde agora está presa a

[meninada, nunca essas escolas rimaram tão bem

[com opressivas gaiolas...

Só deveria haver escolas para meninos-poetas, onde

[cada um estudasse com todo o gosto e vontade

o que traz na cabeça e não o que está escrito nos

[manuais.

E, se duvidares muito, daqui a pouco sairão voando

[todas as gravatas-borboletas, enquanto os seus

[donos atônitos aguardam o sinal verde nas esquinas.

[Decerto elas foram em busca de novos ares...

Mas sossega, coração inquieto. Não vês? Sob o azul

[cada vez mais azul, a cidade lentamente está zarpando

[para um porto fantástico do Oriente.

_ 32

O segundo mandamento

Bem sei que não se deve dizer o Seu Santo nome em

[Vãu.

Mas, agora,

o seu nome é apenas uma interjeição

COMO acontece com Minha Nossa Senhora!’

este belíssimo grito tão certamente errado

como o faz tanta vez o povo em suas descobertas.

A voz do POVo é um Livro de ReveLações.

Só tem que o tempo as foi sedimentando em sucessivas

[camadas

E elas agora nos dizem tanto COMO uma pedra.

Agora restam-nos apenas as palavras técnicas

pertencentes ao vocabulário inerte dos robôs.

Porém um dia as pedras se iluminarão milagrosamente

[por dentro.

porque só termina para todo o sempre o que foi

[artificialmente construído...

Um dia,

um dia as pedras gritarão!

_ 33

O descobridor

Ah, essa gente que me encomenda

um poema

com tema...

Como eu vou saber, pobre arqueólogo do futuro,

o que inquietamente procuro

em minhas escavações do ar?

Nesse futuro,

tão imperfeito,

vão dar,

desde o mais inocente nascituro,

suntuosas princesas mortas há milênios,

palavras desconhecidas mas com todas as letras

[misteriosamente acesas

palavras quotidianas

enfim libertas de qualquer objeto

E os objetos...

Os atônitos objetos que não sabem mais o que são

no terror delicioso

da Transfiguração!

_ 34

A casa fantasma

A casa está morta?

Não: a casa é um fantasma,

um fantasma que sonha

com a sua porta de pesada aldrava,

com os seus intermináveis corredores

que saíam a explorar no escuro oS mistérios da noite

e que as luas, por vezes,

enchiam de um lívido assombro...

Sim!

agora

a casa está sonhando

com o seu pátio de meninos pássaros.

A casa escuta... Meu Deus! a casa está louca, ela não

[sabe

que em seu lugar se ergue um monstro de cimento e

[aço:

há sempre uma cidade dentro de outra

e esse eterno desentendido entre o Espaço e o Tempo.

Casa que teimas em existir

a coitadinha da velha casa!

Eu também não consegui nunca afugentar meus

[pássaros.

_ 35

Maria

Que Linda estavas no dia

Da Primeira Comunhão.

Toda de branco, Maria,

Com rosas brancas na mão.

Nossa Senhora esquecia

Ao ver-te, a sua aflição,

E eu, contrito que heresia! -

Te rezava uma oração.

Pois quando te vi, de joelhos,

Pousar os lábios vermelhos

Nos pés do Cristo, supus

Que eras Santa Teresinha,

A mais linda e mais novinha

Das esposas de jesus!

(1923)

_ 36

O pobre poema

Eu escrevi um poema horrível!

É claro que ele queria dizer alguma coisa...

Mas o quê?

Estaria engasgado?

Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura

mansa como a que se vê nos olhos de uma criança

doente, uma precoce, incompreensível gravidade

de quem, sem ler os jornais,

soubesse dos seqüestros

dos que morrem sem culpa

dos que se desviam porque todos os caminhos estão

[tomados...

Poema, menininho condenado,

bem se via que ele não era deste mundo

nem para este mundo...

Tomado, então, de um ódio insensato,

esse ódio que enlouquece os homens ante a

[insuportável

verdade, dilacerei-o em mil pedaços.

E respirei...

Também! quem mandou ter ele nascido no mundo

[errado?

_ 37

O visitante noturno

Enquanto dormes, teu Cuidado espera-te.

Despertas... e ei-lo sentado, ali, aos pés do leito.

Mas um dia darás um jeito nisso tudo...

Um dia, não despertas... Nunca mais!

Que fará ele, então, o teu Cuidado,

Da sua odienta fidelidade canina?

Do seu feroz silêncio? Do seu rosto sem cara?

_ 38

Os poemas

Poemas nas pontas dos pés.

que nem os sente o papel...

Poemas de assombração

sumindo

pelos desvãos da alma...

Poemas que dançam,

rindo

que nem crianças...

Poemas de pé de pilão,

um baque

no coração.

E aqueles que desmoronam

- lentamente -

sobre um caixão!

_ 39

Magias

Conheço uma cidade azul.

Conheço uma cidade cor de ferrugem.

Na primeira, há helicópteros pairando...

Na segunda, espiam de seus esconderijos os olhos das

[ratazanas...

No entanto

é a mesma cidade

e,

onde a gente estiver,

será sempre uma alma extraviada em labirintos

[escusos

ou, então,

uma alma perdida de amor...

Sim! por ser habitado por almas

é que este nosso mundo é um mundo mágico...

onde cada coisa - a cada passo que se der

vai mudando de aspecto...

de forma...

de cor...

Vai mudando de alma!

_ 40

Torre azul

É preciso construir uma torre

- uma torre azul para os suicidas.

Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,

qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.

É preciso construir-lhes um túnel

- um túnel sem fim e sem saída

e onde um trem viajasse eternamente

como uma nave em alto mar perdida.

É preciso construir uma torre...

É preciso construir um túnel...

É preciso morrer de puro,

puro amor!

_ 41

Os arroios

Os arroios são rios guris...

Vão pulando e cantando dentre as pedras.

Fazem borbulhas dágua no caminho: bonito!

Dão vau aos burricos,

às belas morenas,

curiosos das pernas das belas morenas.

E às vezes vão tão devagar

que conhecem o cheiro e a cor das flores

que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam

e onde parece quererem sestear.

As vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção

como a nossa se recebêssemos o miraculoso

[encontrão de um Anjo...

Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso.

Os rios tresandam óleo e alcatrão

e refletem, em vez de estrelas,

os letreiros das firmas que transportam utilidades.

Que pena me dão os arroios,

os inocentes arroios...

_ 42

Noturno I

O corpo adormeceu no leito.

A alma baixou às cavernas.

Da alta lucerna, o espírito

vidente e astrólogo, espreita.

E a alma descobria estrelas

do mar, velhas escadas, caracóis de cabelos,

coisas estranhas no tempo perdidas

e tantas - que pareciam, elas,

naufrágios de mil e uma

vidas...

Porém

o corpo

antes que o Dia o recomponha

na sua Humana e Divina Trindade.

o corpo - que não vigia e não sonha

curte a sua animalidade!

_ 43

De longe para longe

Embora as vejas daqui,

dentro deste mesmo ar,

as velhas catedrais

estão no fundo do mar,

cantando...

Vozes de sinos ou de preces

- é da tua alma que elas,

às vezes, surgem à tona...

E esses velhos caminhos,

embora os vejas daqui

sabes aonde irão dar?

Caminhos são mais antigos

que a redondeza da terra.

Eles não descem os horizontes...

seguem, sozinhos, no ar.

(E ai dos caminhos que levam

de volta ao mesmo lugar!)

Dizem que os deuses morreram?

Um deus sempre está sepulto

para depois ressuscitar...

Viemos do fundo do mar.

no entanto, estamos na Lua...

Mas como se há de parar?

(Homens, sementes ocultas

cujo sonho é germinar...)

E àquele que um dia foi

do antigo Jardim expulso

ofertaremos os frutos

da Grande Árvore Estelar.

_ 44/45

Deixa-me seguir para o mar

Tenta esquecer-me... Ser lembrado é como

evocar-se um fantasma... Deixa-me ser

o que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo...

Em vão, em minhas margens cantarão as horas,

me recamarei de estrelas como um manto real,

me bordarei de nuvens e de asas,

às vezes virão em mim as crianças banhar-se...

Um espelho não guarda as coisas refletidas!

E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar,

as imagens perdendo no caminho...

Deixa-me fluir, passar. cantar...

toda a tristeza dos rios

é não poderem parar!

_ 46

Espantos

Neste mundo de tantos espantos,

cheio das mágicas de Deus,

O que existe de mais sobrenatural

São os ateus...

_ 47

Anti-canção número um

Passam as belas na passarela:

é tudo pura ventarolagem, vês?

Mas o pensamento traça no ar

isentas elaboraçoes geométricas... Poeta, é preciso

[escolher

entre o sopro e a construção.

E, no espaço liberto liberto do tempo,

assenta, pedra a pedra, a tua pirâmide:

O resto é canção... Canção é feita de vento.

Do vento que faz o tempo, lento devorador de

[pirâmides...

Mas só se pode construir cantando! E então?

Passam as belas na passarela.

Cantam as belas na passarela,

com seus vestidos da cor do tempo!

_ 48

Noturno da viação férrea

Ora, os fantasmas são viajantes noturnos.

Se aboletam nos carros vazios e ficam

(por que será que os fantasmas não fumam?)

a olhar o mundo que desliza...

Mas sucede que as máquinas estavam manobrando

[apenas.

E depois veio a luz crescente, a luz cruel,

situando e ambientando as coisas.

É quando surgem, cabalísticos, os primeiros letreiros:

Hotel Savóia, Ao Pente de Ouro, Saúde da Mulher,

os fantasmas, puídos de claridade,

soltam um suspiro e se desvanecem.

_ 49

Querias que eu falasse de "poesia"

Querias que eu falasse de "poesia" um pouco

mais... e desprezasse o quotidiano atroz...

querias... era ouvir o som da minha voz

e não um eco - apenas - deste mundo louco!

Mas que te dar, pobre criança, em troco

de tudo que esperavas, ai de nós:

é que eu sou oco... oco... oco...

como o Homem de Lata do "Mágico de Oz"!

Tu o lembras, bem sei... ah! o seu horror

imenso às lágrimas... Porque decerto se enferrujaria...

E tu... Como um lírio do pântano tu me querias,

como uma chuva de ouro a te cobrir devagarinho,

um pássaro de luz... Mas, haverá maior poesia

do que este meu desesperar-me eterno da poesia?!

_ 50

Parece um sonho...

"Parece um sonho que ela tenha morrido!"

diziam todos... Sua viva imagem

tinha carne!... E ouvia-se, na aragem,

passar o frêmito do seu vestido...

E era como se ela houvesse partido

e logo fosse regressar da viagem...

- até que em nosso coração dorido

a Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora

menos dos olhos, mais do coração.

Nossa saudade te sorri: não chora...

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.

E ao relembrar-te a gente diz, então:

"Parece um sonho que ela tenha vivido!"

(1953)

_ 51

Manhã

Esta noite eu sonhei que era Jackie Coogan.

Me acordei

- Bom dia, Senhor Sol, quanta luz! -

Todo iluminado por dentro de alegria.

Na janela,

A fresca manhã sírria!

(Os coqueirais crespos cutucavam ela...)

(1926)

_ 52

Família desencontrada

PARA LIANA PEREIRA MILANEZ

O Verão é um senhor gordo, sentado na varanda,

[suando em bicas e reclamando cerveja.

O Outono é um tio solteirão que mora lá em cima no

[sótão e a toda hora protesta aos gritos: Que

[barulho é esse na escada?!

O Inverno é o vovozinho trêmulo, com a boina

[enterrada

[até os olhos, a manta enrolada nos queixos

[e sempre resmungando: Eu não passo deste agosto.

[eu não passo deste agosto...

A Primavera, em contrapartida

[- é ela quem salva a honra da família!

[é uma menininha pulando na corda cabelos ao

[vento

pulando e cantando debaixo da chuva

curtindo o frescor da chuva que desce do céu

o cheiro de terra que sobe do chão

o tapa do vento cara molhada!

Oh! a alegria do vento desgrenhando as árvores

revirando os pobres guarda-chuvas

erguendo saias!

A alegria da chuva a cantar nas vidraças

sob as vaias do vento...

Enquanto

- desafiando o vento, a chuva, desafiando tudo -

no meio da praça a menininha canta

a alegria da vida

a alegria da vida!

_ 53/54

O deixador

Eu tenho mania de deixar tudo para depois...

Depois a contagem das cartas a responder...

Depois a arrumação das coisas...

Depois, Adalgisa... Ah,

Me lembrar mais uma vez de romper definitivamente

[com Adalgisa!

Depois, tanta, tanta coisa...

Depois o testamento as últimas vontades a morte.

Só porque vai sempre deixando tudo para depois

É que Deus é eterno

E o mundo incompleto

Inquieto...

Só é verdadeiramente vida a que tem um inquieto

[depois!

_ 55

Invitation au voyage

Se cada um de vós, ó vós outros da televisão

- vós que viajais inertes

como defuntos num caixão -

Se cada um de vós abrisse um livro de poemas...

Faria uma verdadeira viagem...

Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo

[mesmo!

- inclusive o amor e outras novidades.

_ 56

Segundo poema de abril: o navegador

Vem vindo o Abril, tão belo em sua barca de ouro!

Vou contando os teus dedos...

um...

dois...

três...

quatro...

Cinco!

Mas até onde, me diz,

Até onde irá dar esta veiazinha. aqui?!

Amor, eu quero navegar-te!

Toda.., de norte a sul...

Enquanto

Sentado à proa

Vestido de arlequim

Abril pontela, bem devagarinho,

Com um dedo só — seu bandolim azul.

_ 57

***

PARA VERA FEDRIZZI

Tu te abres como uma flor...

E

depois

o nosso olhar é límpido como as águas de um regato...

E distanciadamente falamos do mundo com todos os

[seus inclusives:

conflagrações, boatos, ataques, surpresas,

[compromissos...

E todas essas coisas atrozes são poemas a nossos

[ouvidos.

_ 58

Noturno II

Pensam que estou dormindo. Mas, do meu velívolo,

eu avisto a cidade.

Em cada janela acesa (umas poucas)

um poeta, noite alta, poetando...

Tu dirás que imagino coisas loucas!

Mas era assim que eram as coisas

nos tempos da primeira mocidade... Pouso

lá na torre da igreja.

Imobilizo-me.

Vês?

(ou estarei apenas sonhando

que faço um poema?)

_ 59

O poema adormecido

De vez em quando

do fundo do sono

surgem os periscópios dos ouvidos:

parece que além, nas margens,

estão acontecendo misérias...

(Os dinossauros mergulham, desinteressados...)

_ 60

O último crime da mala

Na mala que nem o Anjo da Guarda

nem o Delegado do Distrito,

nem eu mesmo consigo encontrar,

está a minha imagem única, fechada a chave

- e a chave caída no fundo do mar!

Não adianta chamar escafandros,

nem homens-rãs,

nem a sereia mais querida,

nem os atenciosos hipocampos, - de que adianta?!

Não existem vestígios de mim...

_ 61

Conversa fiada

Eu gosto de fazer poemas de um único verso.

Até meSmo de uma única palavra

Como quando escrevo o teu nome no meio da página

E fico pensando mais ou menos em ti

Porque penso, também, em tantas coisas... em ninhos

Não sei por que vazios em meio de uma estrada

Deserta...

Penso em súbitos cometas anunciadores de um

[Mundo Novo

E imagina! -

Penso em meus primeiros exercícios de álgebra,

Eu que tanto, tanto os odiava...

Eu que naquele tempo vivia dopando-me em cores,

[flores, amores,

Nos olhos-flores das menininhas - isso mesmo! O

[mundo

Era um livro de figuras

Oh! os meus paladinos. as minhas princesas

[prisioneiras em suas altas torres,

Os meus dragões

Horrendos

Mas tão coloridos...

E - já então - o trovoar dos versos de Camões:

"Que o menor mal de todos seja a morte!"

A!, prometo àqueles meus professores desiludidos que

[na próxima vida eu vou ser um grande matemático

Porque a matemática é o único pensamento sem dor...

Prometo, prometo, sim... Estou mentindo? Estou!

Tão bom morrer de amor! e continuar vivendo...

_ 62/63

Viagem

O sono é uma viagem noturna:

o corpo horizontal no escuro

e no silêncio do trem, avança,

imperceptivelmente avança... Apenas

o relógio picota a passagem do tempo.

Sonha a alma deitada no seu ataúde:

lá longe

lá fora

no fundo do túnel,

há uma estação de chegada

(anunciam-na os galos agora)

há uma estação de chegada com a sua tabuleta ainda

[toda orvalhada...

Há uma estação chamada...

AURORA!

_ 64

Os ceguinhos

Um dia, um ceguinho de nascença...

- pois bem, para ser mais explícito e para conservar

por mais algum tempo a sua passageira imagem

neste mundo

um dia

numa daquelas nossas conversas de bar,

o sanfonista Artur Eisner me confessou:

"Bem sei que, para vocês, eu, teoricamente, estou nas

[trevas.

Teoricamente?! - pensei. num comovido espanto.

Talvez no mesmo silencioso espanto com que os anjos

[escutam

as palavras que digo

dentro da minha treva iluminada.

_ 65

A sesta

O vento cheio de idéias vãs

põe-se a pensar em outras coisas...

O cão que ao mormaço repousa

fareja o ar morno. As venezianas

listram o silêncio. enquanto em torno

o frescor das jarras e das louças

espera... enquanto, da parede, olha-me

o gelo do relógio

e um cheiro insistente de maçãs

convida-me

como se eu não estivesse deliciosamente morto e de

[sapatos sobre

os arabescos da colcha.

_ 66

Tângolo-mango

PARA ERICO VERISSIMO

Tudo como na história dos dez negrinhos:

e não ficaram senão quatro...

e não ficaram senão três...

Só que, na nossa história,

Os negrinhos éramos muito mais de dez.

Não. não vou começar a conta-los pelos dedos!

Que adianta? Outros serão os seus twdados, outros OS

[seus segredos

Agora...

Outras serão as suas aventuras,

De que ciumentamente me sinto afastado.

E como, na verdade, dizer-lhes

Toda a falta que me fazem

Quando o que eu sinto neles é a falta de mim?!

E depois nem é bem como no caso dos dez negrinhos:

Um dia não haverá ninguém dentre nós,

Ninguém no mundo

Para lembrar que não sobrou nenhum!

_ 67

Passeio suburbano

Encontrei uma menina

que me perguntou se era verdade que iam demolir

[aquele belíssimo pé de figueira.

Não, ela não disse belíssimo...

Foi por uma questão de ritmo que acrescentei aqui

[esse adjetivo inútil.

Feliz de quem vive ainda no mundo dos substantivos:

o resto é literatura...

Sorri-lhe cumplicemente

(e tristemente)

porque me lembro que em meio ao quintal lá de casa

havia uma paineira enorme

(ultrapassava em altura o primeiro andar de meu

[quarto)

Quando florescia, era uma glória!

Talvez fosse ela que impediu que meus sonhos de

[menino solitário

tenham sido todos em preto-e-branco.

Uma glória... Até que um dia

foi posta abaixo

simplesmente

porque prejudicava o desenvolvimento das árvores

[frutíferas.

Ora, as árvores frutíferas!

Bem sabes, meninazinha, que os nossos olhos também

[precisam de alimento

_ 68

Verde

Cactos, as tropicais colorações violentas

E o veludoso tom que nas grutas sombrias

O chão verdoengo alfombra... As verdes pedrarias,

Verdes químicos, mar revolto, as reverberações

Das caudas das sereias... e o verde heróico das

[tormentas!

Verde o sonho, o propício repouso...

Em cujo seio entanto enroscam-se as paixões...

Bórgia da cor, verde violento e venenoso.

Verde - que sensações

Estranhas: terras! várzeas! a luz! cantigas! alaridos!

E esses homens de mãos cruzadas, estendidos

No verde das sutis, lentas putrefaçoes...

_ 69

A nossa canção de roda

A nossa canção de roda

tinha nada e tinha tudo

como a voz dos passarinhos

- mas que será que dizia?

A nossa canção de roda

era boba como a lua.

Mas a roda dispersou-se

cada qual perdeu seu par...

Agora,

nossos fantasmas meninos

talvez a cantem na lua...

talvez que junto a algum leito

a morte a esteja a cantar

como quem nana um filhinho...

A nossa canção de roda

tinha nada e tinha tudo:

era

uma girândola de vozes

chispando

mais lindas do que as estrelas

era uma fogueira acesa

para enganar o medo, o grande medo

que a Noite sentia

da sua própria escuridão.

_ 70

A voz subterrânea

Às vezes ouvia-se um canto surdo,

que parecia vir debaixo da terra.

Até que os homens da superfície,

para desvendar o mistério,

puseram-se a fazer escavações.

Sim! eram os homens das minas

que um desabamento ali havia aprisionado.

E ninguém suspeitava da sua existência,

porque já haviam passado três ou quatro gerações!

Mas a luz forte das lanternas não os ofuscou:

eles estavam cegos

- todos, homens, mulheres, crianças.

Eles estavam cegos... e cantavam!

_ 71

A missa dos inocentes

Se não fora abusar da paciência divina

Eu mandaria rezar missa pelos meus poemas que não

[conseguiram ir além da terceira ou quarta linha,

Vítimas dessa mortalidade infantil que, por ignorância

[dos pais,

Dizima as mais inocentes criaturinhas, as pobres

Que tinham tanto azul nos olhos,

Tanto que dar ao mundo!

Eu mandaria rezar o réquiem mais profundo

Não só pelos meus

Mas por todos os poemas inválidos que se arrastam

[pelo mundo

E cuja comovedora beleza ultrapassa a dos outros

Porque está, antes e depois de tudo,

No seu inatingível anseio de beleza!

_ 72

Os degraus

Não desças os degraus do sonho

Para não despertar os monstros.

Não subas aos sótãos - onde

Os deuses, por trás das suas máscaras,

Ocultam o próprio enigma.

Não desças. não subas, fica.

O mistério está é na tua vida!

E é um sonho louco este nosso mundo...

_ 73

Pequeno poema de após chuva

Frescor agradecido de capim molhado

Como alguém que chorou

E depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada

[alegria

Por ter a vida

continuado...

_ 74

Noturno III

Um cartaz luminoso ri no ar

E mais outro... e mais!... Ó Noite, ó minha nega

Toda acesa

De letreiros,

Já pensaste como ainda serias mais linda

Muito mais

Se nós, os poetas, não soubéssemos ler?

_ 75

Pé ante pé

Vêm todos caminhando na ponta dos pés.

Alguém morreu? Não. É mais fundo o mistério...

Chegam todos, agora, na ponta dos pés,

Para vê-lo dormir o primeiro soninho!

_ 76

Metamorfoses do vento

Pterodáctilo, serpente sinuosa, manada

De potros, monstro

Arquejante e cravado de bandeirolas

Pelos Anjos que limpam as vidraças do Céu,

Préstito

De espantalhos aos pulos,

Ululos

De loucos, cicios

De freiras, o vento

Tem todas as formas... O triste

É que ninguém consegue vê-las...

Ah, se um dia

Nós e todo o universo

Ficássemos de súbito invisíveis

Aí, então,

O vento

Seria

Senhor do Mundo, Imperador dos Poetas!

_ 77

Estranhas aventuras da infância

Era um caminho tão pequenino

Que nem sabia aonde ia,

Por entre uns morros se perdia

Que ele pensava que eram montanhas...

Enquanto a tarde, lenta, caia,

Aflitamente o procuramos.

Sozinho assim, aonde iria?

Porém, deixamos para um outro dia...

Perdido e só, nós o deixamos!

E quando, enfim, ali voltamos

Já nada havia, só ervas mas...

Tão vasto e triste sentiste o mundo

Que te achegaste, desamparada...

E foi bem juntos que regressamos,

Ombro com ombro, a mão na mão,

Enquanto, lenta, caía a tarde

E nos espiava a bruxa negra...

E nos seguia a bruxa negra

Que hoje se chama Solidão!

_ 78

Os duros

Os únicos que sabiam morrer de verdade eram os

[soldadinhos de chumbo.

Não os assaltavam, nem antes nem na hora extrema,

[pensamentos espúrios:

namoradas, mães, pátria amada idolatrada, nada disso...

Era a guerra em toda a sua pureza, a pura poesia da

[ação!

_ 79

Um nome na vidraça

A guriazinha

desenha as letras do seu nome na vidraça

- encantadoramente mal feitas -

as letras escorrem...

Enquanto isto,

umas pessoas morrem,

outras nascem...

Entre umas e outras,

viro mais uma página

desta novela policial.

E exatamente à página 293, verifico,

quando o herói vai torcendo cautelosamente o trinco

[da porta,

interrompo

a leitura

e ele e todos os outros personagens ficam parados.

Eu sou o Deus catastrófico: não ligo.

olho agora a litografia da parede

- um trigal muito louro e acima dele apenas uma asa

contra o céu azul.

É como se eu abrisse uma janela na frustração da

[chuva!

Bem, neste momento as pessoas já devem ter morrido

[ou nascido

A verdade, minha filha,

é que eu não sei como parar este poema:

nos dias de chuva sobem do fundo do mar os navios

[fantasmas

sobem ruas, casas, cidades inteiras,

e procissões, manifestações, os primeiros

e os últimos encontros, o padre-cura e o boticário

discutindo política na esquina...

(A guriazinha

apaga as letras lacrimejantes da vidraça.

E recomeça...)

_ 80/81

Alma errada

Há coisas que a minha alma, já tão mortificada, não

[admite:

assistir novelas de TV

ouvir música Pop

um filme apenas de corridas de automóvel

uma corrida de automóvel num filme

um livro de páginas ligadas

porque, sendo bom, a gente abre sofregamente a dedo:

espátulas não há... e quem é que hoje faz questão de

[virgindades...

E quando minha alma estraçalhada a todo instante

[pelos telefones

fugir desesperada

me deixará aqui,

ouvindo o que todos ouvem, bebendo o que todos

[bebem,

comendo o que todos comem.

A estes, a falta de alma não incomoda. (Desconfio até

que minha pobre alma fora destinada ao habitante

[de outro mundo)

E ligarei o rádio a todo o volume,

gritarei como um possesso nas partidas de futebol.

seguirei, irresistivelmente, o desfilar das grandes

[paradas do Exército.

E apenas sentirei, uma vez que outra,

a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido...

_ 82

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

vive uma louca chamada Esperança

e ela pensa que quando todas as sirenas

todas as buzinas

todos os reco-recos tocarem,

atira se

e

- o delicioso vôo -

será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

outra vez criança...

E em torno dela indagará o povo:

- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá, então,

(é preciso explicar-lhes tudo de novo!),

ela lhes dirá, bem devagarinho. para que não

[esqueçam nunca:

- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

_ 83

Soneto azul

Quando desperto mansamente agora

é toda um sonho azul minha janela

e nela ficam presos estes olhos,

amando-te no céu que faz lá fora.

Tu me sorris em tudo, misteriosa...

e a rua que - tal como outrora - desço,

a velha rua, eu mal a reconheço

em sua graça de menina-moça...

Riso na boca e vento no cabelo,

delas vem vindo um bando... E ao vê-lo

por um acaso olha-me a mais bela.

Sabes, eu amo-te a perder de vista...

e bebo então, com uma saudade louca,

teu grande olhar azul nos olhos dela!

_ 84

Uma historinha mágica

PARA LILI

Era um burrinho azul, vindo do céu

Via-o de madrugada no meu sonho...

E eu sempre lhe servia, em meu chapéu,

bolas-de-inhaque feitas de arco-íris!

Nunca as achei por isso nos bazares

quando a cidade despertava, exata,

e só restava da Cidade Oculta

um passo leve de menina-flor...

E era um menino preguiçoso e triste

e quando ele sorria por acaso

ninguém lhe fosse perguntar por quê!

Ele sabia histórias sem enredo

pois não queria que acabassem nunca

- Era um burrinho... uma menina... e...

_ 85

Bilhete atirado no fundo do tempo

Meu Deus, Catarina... ou eras Conceição... ou

[Marianinha...

Mas aquelas tuas tranças

que eu sou capaz de jurar que tinham vida própria...

uma vez uma delas quase se incendiou - de louca! -

na chama de um lampião. Minha boa menina...

[minha pobre senhora, talvez ainda tenhas contigo

[aquele velho lampião familiar.

Vai buscá-lo, as coisas duram tanto, duram mais do

[que a gente. mais do que as almas até...

Vai, traze-o de novo para a mesa.

E pode ser que te lembres, pode ser que me lembres.

Mas são coisas antigas, antigas...

Perdoa, eu nem sei como fui escrever-te...

São coisas tão antigas

que decerto já deves estar morta!

_ 86

Viver

Quem nunca quis morrer

Não sabe o que é viver

Não sabe que viver é abrir uma janela

E pássaros pássaros sairão por ela

E hipocampos fosforescentes

Medusas translúcidas

Radiadas

Estrelas-do-mar... Ah,

Viver é sair de repente

Do fundo do mar

E voar...

e voar,

cada vez para mais alto

Como depois de se morrer!

_ 87

Poema desenhado

PARA MARA CILAINE

No meio da página escrevo ao acaso a palavra MENINA

e, à sua magia, um caminho abre-se

para ela andar.

E como houvesse brotado a seus pés um arroio espiador,

uma ponte estendeu-se

para ela atravessar.

Mas a menina

agora parou

e do meio da ponte namora encantadamente nas águas

a graça inacabada do seu pequenino rosto feito às

[pressaS

As pressas...

(nem tive tempo de lhe dar um nome)

A vida é assim,

meninazinha sem nome...

A vida nem dá tempo para a Vida!

_ 88

Soneto

PARA SANDRA RITZEL

A morte escolhe com gentil cuidado

e não às cegas, no dizer das gentes.

Quantas já vi no seu caixão doirado

com seus lindos perfis adolescentes...

Pareciam voltar a um internato

depois de haverem terminado as férias...

Mas lá seguiam todas, muito sérias,

- as mais pequenas para um orfanato.

Hoje, porém, são tantos os cuidados

se custa a morrer na flor dos anos...

Mas que mundo, que sonhos, que esperanças

se houvesse apenas jovens e crianças,

e os Poetas... que não têm nenhuma idade

e inauguram o mundo a cada instante!

_ 89

** * ** * * * *

Num país de nostálgicos nevoeiros

de paisagens em lenta mutação,

largarei de repente o meu bordão...

E hão de pasmar os outros caminheiros!

E andando como a lua nos outeiros

ao encontro da lenta procissão,

pousarias a mão na minha mão...

enamorados sempre... e sempre companheiros!

E diante de tão doces aparências

quem diria que em duas existências

nos separara o mundo - anos inteiros!

E, sentados à sombra de uns olmeiros,

trocaríamos falsas confidencias...

cheias de sentimentos verdadeiros!

_ 90

O olhar

O último olhar do condenado não é nublado

[sentimentalmente por lágrimas

nem iludido por visões quiméricas.

O último olhar do condenado é nítido como uma

[fotografia:

vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude

[braço do verdugo,

vê o frêmito da última folha no alto daquela árvore,

[além...

Ao olhar do condenado nada escapa, como ao olhar

[de Deus

- um porque é eterno,

o outro porque vai morrer.

O olhar do poeta é como o olhar de um condenado...

como o olhar de Deus...

_ 91

Noturno IV

Os grandes animais invisíveis e silenciosos da insônia

Vigilam meu corpo para me devassarem.

Adivinho que são felinos por sua incansável paciência.

Enfaixo-me de medo como um faraó em seus panos

[mortuários.

Inúteis conchas acústicas

Os meus ouvidos têm no escuro a angustiosa forma de

[um ponto-de-interrogação,

Mas ainda escuto. Até o grande relógio-de-pêndulo

[parou.

O tempo está morto de pé dentro dele como um chefe

[asteca.

Tento imaginar-lhe o rosto cheio de rugas como o solo

[gretado de um deserto.

Os felinos farejam-me...

Antes eu estivesse morto e não sentiria nada...

Mas

A primeira coisa que um morto faz depois de enterrado

É abrir novamente os olhos...

Como é que eu sei disso, meu Deus?!

Tão fácil acender a luz... Estendo a mão

Para a lâmpada de cabeceira e toco

Uma parede fria

Úmida

Musgosa...

_ 92

A mensagem

Esse oval do seu rosto, aquelas tranças

tranqüilas, o seu lábio triste e ardente,

luz de vela a tremer em um quarto de doente,

tantos anos depois, eu os vi novamente

numa imagem de altar... Tão linda, parecia

uma Nossa Senhora adolescente

antes da Anunciação, quando era - simplesmente -

Maria!

Em instantes de angústia, esta fugaz imagem

de alguém que há muito já se foi - pobre criança! -

timidamente a alma me ilumina...

Dize, que foste tu contar do mundo ao Paraíso?

Por que só podes dar tua mensagem

com a luz silenciosa de um sorriso...

_ 93

A rua

A rua é um rio de passos e de vozes,

um rio terrível que me vai levando,

mas estou só, como se está na infância...

ou quando a morte vai se aproximando...

No ar, agora, que distante aroma?

Decerto eu sem saber pensei em ti...

E um vôo de andorinha na distância

é a minha saudade que eu te mando.

Mas tudo, nesse tumultuoso rio,

não fica nunca ao fundo da lembrança

como no seio azul de uma redoma...

Tudo se afasta nessa correnteza

onde uma flor, às vezes, fica presa

e um claro riso sobre as águas dança!

_ 94

Poema ouvindo o noticioso

Os acontecimentos tombam como moscas sobre a

[minha mesa

z...z...z...z...z...z...z...z...

De junto a mim

- len-ta-men-te -

a Presença Invisível afasta-se

deixando

um rastro

de silêncio...

A página aguarda

O Poeta aguarda, mudo...

Em vão!

(O limite do poema é uma página em branco).

_ 95

O peregrino

Eu já, eu já andei por Babilônia,

Onde, como sabeis, vivem os demônios de chifres

[doirados,

De belos lábios vermelhos,

Cujas palavras embriagam como o vinho...

Depois segui, indiferente, o meu caminho,

Pensando em como o Diabo subestima a gente!

Meu Deus, como são fúteis as promessas do Diabo!

Para mim que, de todas as minhas andanças,

[nada aqui vos trago,

É muito mais honroso o silêncio de Deus.

_ 96

Meu bonde passa pelo mercado

Meu bonde passa pelo Mercado

Mas o que há de bom mesmo não está à venda

O que há de bom não custa nada.

Este momento de euforia é a flor da eternidade.

E essa minha alegria inclui também minha tristeza

- a nossa tristeza...

Tu não sabias, meu companheiro de viagem?

Todos os bondes vão para o infinito!

_ 97

Data e dedicatória

Teus poemas, não os dates nunca... Um poema

Não pertence ao Tempo... Em seu país estranho,

Se existe hora, é sempre a hora extrema

Quando o Anjo Azrael nos estende ao sedento

Lábio o cálice inextinguível...

Um poema é de sempre, Poeta:

O que tu fazes hoje é o mesmo poema

Que fizeste em menino,

É o mesmo que,

Depois que tu te fores,

Alguém lerá baixinho e comovidamente,

A vivê-lo de novo...

A esse alguém,

Que talvez nem tenha ainda nascido,

Dedica, pois, teus poemas.

Não os dates, porém:

As almas não entendem disso...

_ 98

Janelinha de trem

Desejo de um dia ficar repousando

Sob uma dessas cruzes de volta de estrada

Que parecem também estar viajando...

_ 99

O fatal convívio

Que esquisita conversa não hão de ter, nesses

[Dicionários Biográficos,

Os que se encontram espantosamente juntos por uma

[injunção da ordem alfabética,

Como se entenderão, meu Deus, mas como se

[entenderão,

Para apenas citar-vos um inquietante exemplo,

Nahucodonosor e Napoleão!

O Pequeno Corso

Antes de tudo

Terá dificuldades com o nome sesquipedal do outro,

O qual, como se não bastasse,

Além de rei, ainda fora lobisomem...

Mas este, desconhecedor enciclopédico da História

[vindoura,

Diria

Para maior escândalo do Conquistador:

"Ora, não gaguejes, bom homem...

Chama-me Bubu, simplesmente.

Pois era assim que me chamava o povo... ah, o povo...!"

Porém,

Eu estou lembrando agora é dos amantes separados

[para sempre

Na prisão perpétua do seu próprio tomo...

De Paolo e Francesca

(Mais felizes no Inferno...)

E da pobre,

Ai, da pobre Marília OUvindo as máximas

Do inefável Marquês de Maricá!

_ 100/101

Três poemas que me roubaram

Lá pelas tantas menos um quarto eu suspirei num

[poema:

"Vontade de escrever Sagesse de Verlaine...

Mas o que eu tenho vontade mesmo

é de haver escrito a Pedra no Meio do Caminho

a Balada & Canha, a Estrela da Manhã,

- ó Musa infiel,

não te houvessem possuído antes

Carlos, Augusto e Manuel!...

_ 102

Da fatalidade histórica

A bolinha que saiu na loteria

não saiu porque deveria sair precisamente ela

mas sim porque uma delas teria de sair

não podia deixar de sair!

Moral da História:

uma coisa - só por ter acontecido -

não quer dizer que seja lá essas coisas...

_ 103

O velho poeta

Um dia o meu cavalo voltará sozinho

E assumindo

Sem saber

A minha própria imagem e semelhança

Ele virá ler

Como sempre

Neste mesmo café

O nosso jornal de cada dia

inteiramente alheio ao murmurar das gentes...

_ 104

A ciranda

Meninazinha bonita dos olhos ingênuos e grandes,

uma vez na ciranda eu perdi tua mão...

Sinto ainda fugir-me à flor da pele, aflita,

sua desesperada e última pressão!

E a vida continuou, ora em lenta pavana.

ora numa quadrilha, em tonta confusão.

Quantas vezes julguei, mas foi sempre ilusão,

viver aquela hora, entre as horas bendita,

que uniu palma com palma e alma contra alma...

Mas que busco afinal, que miragem acalma

tão inquieta procura em um mundo já findo?

Porém, o mundo não é só o que se ve.

Talvez um dia eu morrerei sorrindo,

e só os anjos saberão por quê!

_ 105

As meninazinhas

Queridas unhinhas róseas... bocas

de úmida, fresca avidez

de onde todas as notas, loucas,

querem fugir de uma só vez...

Olhinhos de água tão pura

que nada há que os espante...

Sensível narina aflante...

Inquieta mão que procura...

Indeciso quadril, mas já

com aquele femíneo encanto...

Sobrancelhinhas: um veludo...

Orelhas, dedinhos... Ah,

nem queiras saber tudo quanto

elas prometem à vida...

_ 106

O encontro

Subitamente

na esquina do poema, duas rimas

olham-se, atônitas, comovidas,

como duas irmãs desconhecidas...

_ 107

Louca

Súbito

Em meio àquele escuro quarteirão fabril

Das minhas mãos se escapou um pássaro maravilhoso

E eu te amei como quem solta um grito,

Ó Lua enorme

Incompreensível...

Por que sempre me espantas e me assustas, Louca,

Como se eu te visse sempre pela primeira vez?!

_ 108

O poema apesar de tudo

PARA CECY BARTH

Às vezes faço poemas de um equilíbrio instável...

Cai, cai, balão!

(As prateleiras da estante estão olhando de dentes

[arreganhados, compridos dentes de todas as cores

[festivamente arreganhados)

Ah, o trabalho do poeta! Nem queiras saber...

É muito pior do que armar meticulosamente um

[castelo de cartas,

ou uma Torre Eiffel com pauzinhos de fósforos ante a

[janela aberta

(lá fora sorri sadicamente o Anjo das Tempestades).

E pensar que ainda há gente por aí que acha tão fácil

[o milagre da Ascensão...

Mas ele não caiu

O poema desta vez não caiu...

Olha! o poema chispa como um sputnik!

O poema é a lua na amplidão!

_ 109

Havia

Havia naquele tempo tanta coisa,

tanta coisa que subiria depois como um balão azul

quando eu precisasse de um pretexto urgente para

[não me matar...

Havia

a que passava cuidadosamente os meus poemas a

[ferro

(e nisso vejo agora a maior poesia deles...)

Havia a que sabia fingir que me escutava,

que parecia beber até, com seus grandes olhos,

os meus solilóquios

(eram tão chatos que só podiam ser solilóquios

[mesmo...)

e havia, entre todas,

a Eleita,

a que cortava as unhas da minha mão direita

(agora tenho de recorrer a profissionais...)

e havia, entre as demais,

a que ficou não sei onde esquecida...

_ 110

Convite

Basta de poemas para depois...

Ô Vida, e se nós dois

Vivêssemos juntos?

_ 111

Epístola aos novos bárbaros

Jamais compreendereis a terrível simplicidade das

[minhas palavras

porque elas não são palavras: são rios, pássaros,

[naves...

no rumo de vossas almas bárbaras.

Sim, vós tendes as vossas almas supersticiosamente

[pintadas.

e não apenas a cara e o corpo como os verdadeiros

[selvagens.

Sabeis somente dar ouvido a palavras que não

[compreendeis,

e todos os vossos deuses são nascidos do medo.

E eu na verdade não vos trago a mensagem de

[nenhum deus.

Nem a minha...

Vim sacudir o que estava dormindo há tanto dentro de

[cada um de vós

a limpar-vos de vossas tatuagens.

E o frêmito que sentireis, então, nas almas transfiguradas

não será do revôo dos anjos... Mas apenas

o beijo amoroso e invisível do vento

sobre a pele nua.

_ 112

Poeta esperando a vez no dentista

A minha vida, sempre e sempre, é esta sala de espera:

na mesinha arqueológicas revistas,

na parede, as gravuras mais previstas,

umas e outras do Tempo da Era...

Este soneto está quebrado... (ou alquebrado?) Espera,

poeta. é melhor que tu desistas...

(E conto, aflito, nos meus dedos de imagista,

as elisões, as sílabas de espera!)

Eis que me surge, aqui, neste terceto, a Esfinge!

"Devora-me ou decifro-te!" E ela ringe.

(Só para rimar) os dentes... Ah, Camões, quem me

dera

[.............................

.........]

tuas construções de ferro, esses teus dentes brutos...

Um só, um só dos teus anacolutos!

(22.8.65)

_ 113

Os ventos camoneanos

Bóreas, Aquilào, todos os ventos camoneanos

fizeram enormes estragos nos telhados,

Bóreas, Aquilào, o Noto, o diabo,

esgoelaram as cordas da chuva, abordaram a casa

[rangente

bramaram palavrões belíssimos no fragor do assalto

Bóreas... e os outros marinheiros bêbados

agora estão todos eles caídos no convés da madrugada...

Afinal a coisa parece que não foi assim tão bruta:

as minhas cortinas agitam-se festivamente, enfunam-se

[como velas pandas

Apenas,

em todas as varandas,

as açucenas estão degoladas.

Talvez sejam em última análise manjericões.

E agora esse ventinho metido a Fígaro

parece que está me fazendo a barba.

O céu está deslavadamente claro.

Lá embaixo, na calçada

- último

resquício

clássico

Cupido, o pobre garoto,

choraminga na lata de lixo.

_ 114

Um soneto para Marília

A MANEIRA DE DIRCEU

Eis que um dia na mata se banhava

Cupido... e estava nu, inteiramente,

Pois que deixara à margem da corrente

O arco terrível e a repleta aljava.

Marília que, às ocultas, o espreitava

Só aguarda ocasião... E, de repente

As armas furta sorrateiramente.

Enquanto o deus as costas lhe voltava.

Surgem então as fauces escarninhas

Dos silvanos e sátiros astutos.

Põem-se a vaiar o Amor, sem mais cautelas

- Ah! Temíeis as frechas quando minhas!

(E o deus sorri) Vereis agora, ó brutos.

O que Marília há de fazer com elas!

(1942)

_ 115

Reincidência

Não, não pude mais com essas cantigas

que nos davam um mórbido prazer!

Cansei-me de cantá-las - bom que o diga -

para a minha Princesa adormecer...

Me cansei de guardar cartas antigas

que só faziam amarelecer...

E as palavras tão doces, tão amigas,

numa bela fogueira as fiz arder.

À sua voz fechei os meus ouvidos.

Mas esqueci-me de fechar os olhos...

E assim, não eram dias decorridos,

comecei a servir outros sete anos

e a plantar, entre cardos e entre abrolhos,

mais um lindo jardim de desenganos!

_ 116

Soneto póstumo

- Boa tarde... - Boa tarde! - E a doce amiga

E eu, de novo, lado a lado vamos!

Mas há um não sei quê, que nos intriga:

Parece que um ao outro procuramos...

E, por piedade ou gratidão, tentamos

Representar de novo a história antiga.

Mas vem-me a idéia... nem sei como a diga...

Que fomos outros que nos encontramos!

Não há remédio: é separar-nos, pois.

E as nossas mãos amigas se estenderam:

- Até breve! - Até breve! - E, com espanto

Ficamos a pensar nos outros dois.

Aqueles dois que há tanto já morreram...

E que, um dia, se quiseram tanto!

(junho 1952)

_ 117

Uma alegria para sempre

PARA ELENA QUINTANA

As coisas que não conseguem ser

olvidadas continuam acontecendo.

Sentimo-las como da primeira vez,

sentimo-las fora do tempo,

nesse mundo do sempre onde as

datas não datam. Só no mundo do nunca

existem lápides... Que importa se -

depois de tudo - tenha ela partido,

casado, mudado, sumido, esquecido,

enganado, ou que quer que te haja

feito, em suma? Tiveste uma parte da

sua vida que foi só tua e, esta, ela

jamais a podera passar de ti para ninguém.

Há bens inalienáveis, há certos momentos que,

au contrário do que pensas,

fazem parte da tua vida presente

e não do teu passado. E abrem-se no teu

sorriso mesmo quando, deslembrado deles,

estiveres sorrindo a outras coisas.

Ah, nem queiras saber o quanto

deves à ingrata criatura...

A thing of beauty is a joy for ever

- disse, há cento e muitos anos, um poeta

inglês que não conseguiu morrer.

_ 118

Astrologia

Minha estrela não é a de Belém:

A que, parada, aguarda o peregrino.

Sem importar-se com qualquer destino

A minha estrela vai seguindo além...

- Meu Deus, o que é que esse menino tem?

já suspeitavam desde eu pequenino.

O que eu tenho? É uma estrela em desatino...

E nos desentendemos muito bem!

E quando tudo parecia a esmo

E nesses descaminhos me perdia

Encontrei muitas vezes a mim mesmo...

Eu temo é uma traição do instinto

Que me liberte, por acaso, um dia

Deste velho e encantado Labirinto.

_ 119

Poeminha dos setenta anos

As tantas horas vividas,

lindas horas minhas viúvas,

dizem, de riso perdidas:

"Tira o cavalo da chuva!"

Da chuva tirei-o, pois,

e, como o bom senso manda,

ficamos a sós os dois

vendo a chuva da varanda.

"Ai cavalo, ai cavalinho

não me comas essa flor

que abria nesse vasinho

onde estava escrito AMOR"!

_ 120

Um céu comum

No Céu vou ser recebido

com uma banda de musica.

Tocarão um dobradinho

daqueles que nós sabemos

- pois nada mais celestial

do que a música que um dia ouvimos

no coreto municipal

de nossa cidadezinha...

Não haverá cítaras nem liras

- quem pensam vocês que eu sou?

E os anjinhos estarão vestidos

no uniforme da banda,

com os sovacos bem suados

e os sapatos apertando.

Depois, irei tratar da vida

como eles tratam da sua...

_ 121

Tutuzinho de feijão

LETRA PARA UMA MARCHINHA DE CARNAVAL

Ai o meu brotinho preto

Tutuzinho de feijão

Com pimenta pra xuxu

Remexido como quê!

Quem me deixa desse jeito

Desse jeito

Batucando o coração?

Tu, tu, tu,

Tutuzinho de feijão!

Quem tem a boca rasgada?

Os óio que é um patacão?

O que é que é bem pretinho

Bem pretinho

Quentinho como um fogão?

Tu, tu, tu,

Tutuzinho de feijão!

Ai o meu hrotinho preto

Não me deixa assim na mão...

Tu, tu, tu,

Tutuzinho de feijão!

_ 122

O colegial

O vento passa lá fora

e eu, no quadro negro, imóvel

- ó muro de fuzilamento!

Morro sem dizer palavra.

O professor parece triste,

talvez por outros motivos.

Manda sentar-me

e eu carrego

ó almazinha assustada,

um zero, como uma auréola...

Rezai, rezai pelas alminhas

dos meninos fuzilados!

Por que é que nos ensinam

tanta coisa?

Eu queria saber contar

só com os dedos da mão!

O resto é complicação,

um nunca mais acabar.

Eu queria mesmo era poder estudar

teu corpo todo com a mão

até sabê-lo de cor

como um ceguinho.

E o vento passa lá fora

com a sua memória em branco.

O que ele viu, nem recorda...

e eu nada vi: só adivinho!

_ 123

O anjo

PARA ELOI CALLAGE

O meu Anjo da Guarda de asas negras

tem uns olhos tão verdes como os teus.

E a mesma pele mate e... benza-o Deus!...

também teus mesmos lábios dolorosos...

Como o prendeste assim num sortilégio,

para ficares - sempre - junto a mim?!

Ou fui eu que inventei tua aparência,

nesta longa loucura sem remédio...

Pois não só neste como no outro mundo

o quanto eu vejo se transforma em ti.

Sei lá se o Anjo entende uns tais mistérios...

Só sei que certa noite o pressenti...

Mas baixei os meus olhos incestuosos

e os meus lábios sacrílegos mordi!

_ 124

Esses eternos deuses...

PARA LIANE DOS SANTOS

Os deuses não sabem apanhar o momento esvoaçante

como quem aprisiona um besouro na mão,

não sabem o contacto delicioso, inquietante

do que - só uma vez! - os dedos reterão...

Em sua pobre eternidade, os deuses

desconhecem o preço único do instante...

e esse despertar, ainda palpitante,

de quem cortasse em meio um sonho vão.

No entanto a vida não é sonho... Não:

aberta numa flor ou na polpa de um fruto,

a vida aí está, eterna: nossa mão

é que dispõe apenas de um minuto.

E todos os encontros são adeuses...

(Como riem, meu pobre amor... Como riem, de nós,

[esses eternos deuses!)

_ 125

Bilhete com endereço

Mas onde já se ouviu falar

Num amor a distância,

Num (tele-amor)?!

Num amor de longe...

Eu sonho é um amor pertinho

Um amor juntinho...

E, depois,

Esse calor humano é uma coisa

Que todos - até os executivos - têm.

É algo que acaba se perdendo no ar,

No vento

No frio que agora faz...

Escuta!

O que eu quero,

O que eu amo,

O que desejo em ti

É O teu calor animal!...

_ 126

A árvore dos poemas

Quando a árvore dos poemas não dá poemas,

Seus galhos se contorcem todos como mãos de

[enterrados vivos.

Os galhos desnudos, ressecos, sem o perdão de Deus!

E, depois, meu Deus, essa lenta procissão de almas

[retirantes...

De vez em quando uma tomba, exausta a beira do

[caminho,

Porque ninguém lhe chega ao lábio o frescor de

[cântaro, a doçura de fruto que poderia haver num

[poema.

Maldita a geração sem poetas que deixa as almas

[seguirem, seguirem como animais em estupida

[migração!

Quando a árvore dos poemas não dá poemas,

Qual será o destino das almas?

_ 127

Projeto de prefácio

Sábias agudezas... refinamentos...

- não!

Nada disso encontrarás aqui.

Um poema não é para te distraíres

como com essas imagens mutantes dos caleidoscópios.

Um poema não é quando te deténs para apreciar um

[detalhe

Um poema não é também quando paras no fim

porque um verdadeiro poema continua sempre...

Um poema que não te ajude a viver e não saiba

[preparar-te para a morte

não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!

_ 128

O vento e a canção

PARA TANIA CARVALHAL

Só o vento é que sabe versejar:

Tem um verso a fluir que é como um rio de ar.

E onde a qualquer momento podes embarcar:

O que ele está cantando é sempre o teu cantar.

Seu grito é o grito que querias dar,

É ele a dança que ias tu dançar

E, se acaso quisesses te matar,

Te ensinava cantigas de esquecer

Te ensinava cantigas de embalar...

E só um segredo ele vem te dizer:

- é que o vôo do poema não pode parar.

_ 129

BIBLIOGRAFIA DO AUTOR

OBRAS PUBLICADAS

A rua dos cataventos. Porto Alegre: Globo, 1940.

canções. Porto Alegre: Globo, 1946.

Sapato florido. Porto Alegre: Globo, 1948.

O batalhão das letras (infantil). Porto Alegre: Globo, 1948.

O aprendiz de feiticeiro. Porto Alegre: Fronteira, 1950.

Espelho mágico. Porto Alegre: Globo, 1951.

Inéditos e esparsos. Alegrete: Cadernos do Extremo Sul,

1953.

Poesias. Porto Alegre: Globo, 1962.

Antologia poética. [seleção de Rubem Braga e Paulo Mendes

Campos]. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1966.

Caderno H. Porto Alegre Globo 1973.

Pé de pilão (infantil). Porto Alegre: Garatuja, 1975.

Apontamentos de história sobrenatural. Porto Alegre: Globo

& IEL, 1976.

Quintanares. Porto Alegre. L&PM, 1976.

A vaca e o hipogrifo. Porto Alegre. Garatuja, 1977.

Prosa e verso (antologia). Porto Alegre: Globo, 1978.

Na volta da esquina (antologia). Porto Alegre: Globo, 1979.

Esconderijos do tempo. Porto Alegre: L&PM, 1980.

Nova antologia poética. Rio de Janeiro: Codecri, 1981.

Lili inventa o mundo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983.

Mario Quintana. Coleção melhores poemas. [seleção e

introdução de Fausto Cunha], São Paulo: Global, 1983.

_ 130/131

Nariz de vidro, seleção Mery Weiss. São Paulo: Moderna,

1984.

O sapo amarelo, seleção Mery Weiss. Porto Alegre: Mercado

Aberto, 1984.

Primavera cruza o rio. (paradidático). org. Maria da Glória

Bordini. Porto Alegre: Globo, 1985.

Diário poético. Porto Alegre: Globo, 1985.

Nova antologia poética. Porto Alegre: Globo, 1985.

Baú de espantos. Porto Alegre: Globo, 1986.

80 anos de poesia. (antologia). org. e estudo introdutório de

Tania Franco Carvalhal. Porto Alegre: Globo, 1986.

Da preguiça como método de trabalho. Rio de Janeiro:

Globo, 1987.

Preparativos de viagem. Rio de Janeiro: Globo, 1987.

Porta giratória. Rio de Janeiro: Globo, 1988.

A cor do invisível. Rio de Janeiro: Globo, 1989.

Antologia poética de Mario Quintana. seleção e

apresentação de Walmir Ayala. Rio de Janeiro: Ediouro, 1989.

Velório sem defunto. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990.

Sapato furado. (infantil). São Paulo: FTD, 1994.

Anotações poéticas. Mario Quintana. São Paulo: Globo,

1996.

Antologia poética. [Seleção de Sérgio Faraco]. Porto Alegre:

L&PM, 1997.

Água. Os últimos textos de Mario Quintana. Porto Alegre:

Artes e Ofícios, 2001.

OBRAS PUBLICADAS NO EXTERIOR

Objetos perdidos y outros poemas: antologia bilingüe. Estúdio

introductorio, notas y selección de Santiago Kovadloff.

Tradução de Estela dos Santos. Buenos Aires: Calicanto,

1979.

Mario Quintana. Poemas. Tradução de César Calvo,

Prólogo de Peter Elmore. Lima, Peru: Centro de Estudios

Brasileños, 1984.

OBRA TRADUZIDA

Ghew me up slowly. Tradução de Maria da Glória Bordini e

Diane Grosklaus. Porto Alegre: Globo/Riocell, 1978.

PUBLICAçÔES EM ANTOLOGIAS (BRASIL)

AYALA, Walrnir & BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas

brasileiros. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967.

BANDEIRA, Manuel. Obras primas da lírica portuguesa.

São Paulo: Martins Ed., 1943.

CRISTALDO, Janer. Assim escrevem os gaúchos: autores

editados. São Paulo: Alfa-Omega, 1976.

Dicionário antológico das literaturas portuguesa e

brasileira. São Paulo: Formar, 1971.

FACHINELLI, Nelson da Lenita. Trovadores do Rio Grande

do Sul. Porto Alegre: Sulina, 1972.

HOHFELDT, Antonio. Antologia da literatura rio-gran dense

contemporânea. Porto Alegre: L&PM, 1979.

KRANZ, Patrícia & HENRIQUES NETO, Afonso. Te quero

verde: poesia e consciência ecológica. Rio de Janeiro, 1982.

KOPKE, Carlos Burlamaqui. Antologia da poesia brasileira

moderna: 1922-194 7. São Paulo: Clube de Poesia de

São Paulo, 1953.

LISBOA, Henriqueta. Antologia poética para a infância e a

juventude. Rio de Janeiro: INL, 1961.

LOANDA, Fernando de. Antologia da moderna poesia

brasileira. Rio de Janeiro: Orpheu, 1967.

MACHADO, Antônio Carlos. coletânea de poetas

sul-riograndenses. Rio de Janeiro: Minerva, 1952.

NOGUEIRA, Julio. Poesia nossa. Rio de Janeiro: Grãf

Laemmert, 1954.

MEIRELES, Cecilia et alii. Para gostar de ler. São Paulo:

Ática, 1980.

Porto Alegre ontem e hoje. Porto Alegre: Movimento, 1971.

RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia moderna. São

Paulo: Melhoramentos, 1976.

_ 132/133

PUBLICAÇOES EM ANTOLOGIAS (EXTERIOR)

ANTOLOGIA DE LA POESIA BRASILEÑA: Cuadernillos de

poesia. Buenos Aires: Nuestra América, 1959.

CRESPO, Angel. Antología de la poesia brasileña: desde el

Romanticismo a la Generación del cuarenta y Cinco.

Barcelona: Seix Barral, 1973.

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CRONOLOGIA*

1906 Nasce Mario Quintana, no dia 30 de julho, na cidade

de Alegrete (RS), filho do farmacêutico Celso de

Oliveira Quintana e Virgínia de Miranda Quintana. O avô

materno, Eduardo Jorge de Miranda, e o avô paterno,

Cândido Marioel de Oliveira Quintana, eram médicos.

1914 Freqüenta a Escola Elementar mista de d. Mimi

Coutinho.

1915 Freqüenta a escola do professor português Antônio

Cabral Beirão, concluindo o curso primário.

1919 É matriculado no Colégio Militar de Porto Alegre, em

regime de internato.

1924 Emprega-se na Livraria do Globo, trabalhando com

Mansueto Bernardi durante três meses.

1925 Retorna a Alegrete, onde trabalha como prático na

farmácia de seu pai.

___

* Elaborada a partir de KANTER, Suzana. Cronologia da vida e da obra

de Mario Quintana. In: Mario Quintana. Autores Gaúchos, n. 6. Porto

Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1997, e de Pedro Villas-Boas, in:

Mario Quintana, vida e obra, de Nelson Fachinefli, Porto Alegre:

Bels, 1976.

___

1926 Falece sua mãe. É premiado em um concurso de

contos do jornal Diário de Notícias com o trabalho "A

sétima personagem".

1927 Falece seu pai. Um poema seu é publicado por Álvaro

Moreyra na revista Para Todos, do Rio de Janeiro.

1929 Ingressa na redação do jornal O Estado do Rio

Grande, dirigido por Raul Pilla, em Porto Alegre.

1930 Colabora com a Revista do Globo, de Porto Alegre. Em

outubro, alista-se como voluntário no Sétimo Batalhão

de Caçadores e vai para o Rio de Janeiro, onde

permanece seis meses.

1934 Sua primeira tradução, do livro Palavras e sangue, de

Giovanni Papini, é publicada pela Editora Globo,

de Porto Alegre. Traduz ainda, entre outros autores,

Marcel Proust, Guy de Maupassant, Virginia Woolf,

Aldous Huxley, Somerset Maughan e Joseph Conrad.

1940 Publica A rua dos cataventos, livro de sonetos, pela

Editora Globo, de Porto Alegre.

1943 Inicia a publicação Do caderno H na Revista

Provincia de São Pedro.

1944 Publica Canções, poemas, pela Editora Globo de Porto

Alegre.

1948 Publica Sapato florido, poesia e prosa, pela Editora

Globo, de Porto Alegre. A mesma editora publica O

batalhão das letras.

_ 140/141

1950 Publica O aprendiz de feiticeiro, poemas, pela

Editora Fronteira, de Porto Alegre.

1951 Publica Espelho mágico, coleção de quartetos, pela

Editora Globo, de Porto Alegre, com apresentação de

Monteiro Lobato.

1953 Publica Inéditos e esparsos pela Editora Cadernos do

Extremo Sul, de Alegrete.

Começa a trabalhar no jornal Correio do Povo, onde

publica Do caderno H.

1962 Publica Poesias, volume que reúne seus cinco livros

anteriores editados pela Editora Globo e Divisão de

Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do Rio

Grande do Sul.

1965 Lançamento de um disco com poemas interpretados

pelo autor.

1966 Publica Antologia poética, organizada por Rubem

Braga e Paulo Mendes Campos pela Editora do Autor, do

Rio de Janeiro. Em dezembro recebe o Prêmio

Fernando Chinaglia para o melhor livro do ano, por esta

Antologia.

No dia 30 de julho completa 60 anos.

No dia 25 de agosto é saudado na Sessão da

Academia Brasileira de Letras por Augusto Mever e Manuel

Bandeira.

1967 Recebe o titulo de Cidadão Honorário de Porto Alegre,

conferido pela Câmara de Vereadores.

Começa a publicar a seção Do caderno H no

suplemento literário Caderno de Sábado do jornal Correio

do Povo. A colaboração se estenderá até 1980.

1968 É homenageado pela Prefeitura de Alegrete com uma

placa em bronze onde estão inscritas suas palavras:

"Um engano em bronze é um engano eterno".

Falece seu irmão mais velho, Milton.

1973 Publica o livro Caderno H, com textos em prosa

selecionados pelo autor para a Editora Globo.

1975 Publica Pé de pilão, poesia infanto-juvenil, co-edição

do Instituto Estadual do Livro/DAC/SEC com a Editora

Garatuja e introdução de Erico Verissimo.

1976 Recebe a medalha "Negrinho do Pastoreio" do

Governo do Estado do Rio Grande do Sul quando completa

70 anos.

Publica Apontamentos de história sobrenatural,

poesia, pelo Instituto Estadual do Livro/DAE/SEC e

Editora Globo.

Publica Quintanares, edição-brinde de poesias,

distribuída pela MPM Propaganda.

1977 Publica A vaca e o hipogrifo pela Editora Garatuja, de

Porto Alegre.

Recebe o prêmio Pen Clube de Poesia Brasileira por

seu livro Apontamentos de história sobrenatural.

1978 Publica Prosa & verso, antologia paradidática, pela

Editora Globo.

Publica Chew me up slowly, tradução do Caderno H

por Maria da Glória Bordini e Diane Grosklaus, pela

Editora Globo e Riocell.

Falece sua irmã Marietta Quintana Leães.

1979 Publica Na volta da esquina, antologia, na coleção

RBS-Editora Globo.

_ 142/143

Em Buenos Aires, publica Objetos perdidos y otros

poemas, tradução de Estela dos Santos, organizado por

Santiago Kovadloff.

1980 Publica Esconderijos do tempo, pela L&PM Editores.

Recebe o prêmio Machado de Assis, da Academia

Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra

literária, no dia 17 de julho.

Com Cecília Meireles, Vinicius de Moraes e Henriqueta

Lisboa, integra o sexto volume da coleção didática

Para gostar de ler, da Editora Ática, de São Paulo.

1981 Publica Nova antologia poética, pela Codrecri, do Rio

de Janeiro.

Retoma a publicação dos textos Do caderno H, no

suplemento literário "Letras & Livros", do Correio do

Povo até 1984, quando o jornal encerra

temporariamente suas atividades.

1982 Em 29 de outubro, recebe o título de Doutor Honoris

Causa, concedido pela Universidade Federal do Rio

Grande do Sul.

1983 Publica Lili inventa o mundo, seleção de textos por

Mery Weiss, pela Editora Mercado Aberto, de Porto

Alegre.

Na coleção Os melhores poemas, da Global Editora, de

São Paulo, é publicada uma antologia com

organização de Fausto Cunha.

Na III Festa Nacional do Disco, em Canela (RS), e

lançado o álbum duplo Antologia poética de Mario

Quintana, pela Gravadora Polygram.

O prédio do Hotel Majestic, tombado como

patrimônio histórico do Estado em 1982, torna-se Casa de

Cultura Mario Quintana por meio de lei promulgada em

8 de julho de 1983. Nesse hotel o poeta viveu de 1968

a 1980.

1984 Publica Nariz de vidro, seleção de textos de Mery

Weiss, pela Editora Moderna, de São Paulo.

O batalhão das letras sai em 2ª edição, pela Editora

Globo.

Lança O sapo amarelo, pela Editora Mercado Aberto,

na XXXª Feira do Livro de Porto Alegre.

Publicação de Mario Quintana. Poemas, tradução de

César Calvo, em Lima, Peru, pelo Centro de Estudios

Brasileños.

1985 Publicação do álbum Quintana dos 8 aos 80,

Relatório da Diretoria SAMRIG 1985, com texto analítico e

pesquisa de Tania Franco Carvalhal, fotografia de

Liane Neves, ilustraçôes de Liana Timm e projeto

gráfico de Manilena Gonçalves. Lança a antologia

paradidática Primavera cruza o rio, organização de Maria

da Glória Bordini, Porto Alegre, Globo. Lança

igualmente pela mesma editora Diário Poético e Nova

Antologia Poética.

1986 Patrono da XXXI Feira do Livro de Porto Alegre, em

25 de outubro, é saudado por Tania Franco Carvalhal.

Lançamento da antologia 80 anos de poesia,

organizada por Tania Franco Carvalhal para a Editora Globo

(agora adquirida pelas Organizações Globo), nos 80

anos do poeta.

Publica Baú de espantos, pela Editora Globo, reunião

de 99 poemas inéditos (1982-86).

Recebe os títulos de Doutor Honoris Causa da

Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e da

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

(PUCRS).

_ 144/145

1987 Publica Da preguiça como método de trabalho, pela

Editora Globo, coletânea de crônicas da seção Do

caderno H, do jornal Correio do Povo.

Publica Preparativos de viagem, pela Editora Globo.

1988 Publica Porta giratória, pela Editora Globo, reunião

de escritos em prosa.

1989 Publica A cor do invisível, pela Editora Globo, e

Antologia Poética de Mario Quintana, seleção de Walmir

Ayala, Rio de Janeiro, Ediouro.

Recebe os títulos de Doutor Honoris Causa da

Universidade de Campinas (Unicamp) e da Universidade

Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

É eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, entre

escritores de todo o país, em promoção (la Academia

Nilopolitana de Letras, Centro de Memórias e Dados de

Nilópolis e o jornal A Voz dos Municípios Fluminenses.

É o quinto poeta a receber esse título. Seus

antecessores: Olavo Bilac, Alberto Oliveira, Olegário Mariano e

Guilherme de Almeida.

Treze de seus poemas são musicados pelo maestro

Gil de Rocca Sales.

1990 Publica Velório sem defunto, poemas inéditos, pela

Mercado Aberto, Porto Alegre.

1992 Lançamento, em edição comemorativa, de A rua dos

cataventos, pela Editora da UFRGS.

1993 Poemas inéditos publicados na Revista Poesia Sempre,

da Fundação Biblioteca Nacional/Departamento

Nacional do Livro.

Integra a antologia bilíngüe Marco Sul Sur-Poesia,

publicada pela Editora Tchê!.

Seu texto Lili inventa o mundo recebe montagem

para teatro infantil de Dilmar Messias.

1994 Publicação de Sapato furado, pela Editora FTD -

antologia infanto-juvenil de poemas e prosa poética,

com pósfacio de Sergio Faraco.

Publicação de textos no número 211 da revista

literária Liberté, editada em Montreal, Quebec,

Canadá.

Publicação pelo Instituto Estadual do Livro (RS) de

Cantando o imaginário do poeta, espetáculo musical

constituído de poemas musicados pelo maestro

Adroaldo Cauduro e apresentado no teatro Bruno

Kiefer pelo Coral da Casa de Cultura Mario Quintana.

Falece no dia 5 de maio.

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