quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Antologia Poética - José Guilherme de Araújo Jorge

Volume 1

(1978)



A geladeira



Os capitalistas, os donos do mundo
não conhecerão esta pura alegria.

Esperar a geladeira nova
e a geladeira nova chegar.

O caminhão que para, o vulto branco que desce,
o cuidado do homem rude que nunca a possuirá,
uma faísca de sol nos metais de fecho de abrir,
os meninos que param em roda do caminhão, assistindo,
e eu, de camarote, da sacada do apartamento
assistindo.

Os capitalistas não conhecerão esta pura alegria:
esperar a geladeira
a geladeira de sete pés, branca e iluminada
que afinal chegou.

Agora haverá coca-cola, crush, e água gelada pra visita
e pavê de chocolate, e quanta coisa gostosa
que o frio preservará com seu sopro imortal.

O dial da geladeira não faz jorrar música
mas fala inglês: “defrost, fast, freese, box”;

Gosto de abrir a geladeira, ela se acende toda quando eu a toco,
fica festiva, bela e alegre, na sua brancura imaculada
e nos seus metais rebrilhando.

Sinto o hálito frio que me envolve o rosto
me apanha as mãos,
e uma emoção primária de conforto me dissolve
quando ela se abre para mim, feliz e sortida
nas suas entranhas burguesas.

Esta pura alegria, esta higiênica alegria
não sentirão os capitalistas,
é privilégio dos que vem de baixo, escalando a vida como alpinistas,
para encontrar a neve e o frio das alturas
na sua geladeira branca e cheia de sol!


À Rodrigo
(Pergunta sem resposta ao Senhor)

À Gadelha e Magna


Parábola cortada
pela mão
de Deus.

Por que no instante da chegada
não o viva! a saudação,
mas, inexplicavelmente,
o adeus?

(Afinal, que mistério se encobre
na infinita Onisciência
que escapa à nossa pobre
e humana
contingência? )

Puro acalanto.
Cabia num ninho.
Tenra haste, sem botão
nem flor.
Por que levar seu canto?
Seu choro sem dor
enrolar seu caminho?


Quem adivinharia seu curso,
seu rumo
desfeito?
Do rio, contido na pedra,
as curvas do leito?

Por que, de repente,
antes da terra, da água no chão
a engatinhar,
a presença engolfante,
a imensidão
do mar?

Vejo-o,
asas fechadas
(parênteses guardando
sobre o peito
o gesto de um vôo
sem defeito).

Que razão – ninguém a previu –
fez do barro macio e forte
que apenas se formara
o fluido evanescente
que o vento esvaiu
na manhã clara?

Súbito, sumiu
tão cedo,
antes de tudo - do sofrimento, da tristeza,
do pensamento
da beleza
tão pequenino,
sem medo,
apenas menino,
desarvorado astronauta
do Destino.

Esperança.
Guardei seu semblante
vidente,
o olhar percuciente
adulto,
em seus olhos de criança,
mas sem ondas a escolhos...

Por isso na amargura de meus olhos
- mar de sombras e abrolhos -
essa lembrança constante:
como um barquinho balouçante
a vela do seu vulto.

Ah, os anjos são crianças
neste feio mundo
sem bonanças
(não sabem dizer adeus).
Entretanto, cintilou um segundo
como se não fora esse o seu mundo
pura estrela cadente
recolhida por Deus.

Asteróide
a levar seu segredo
não para a noite, que amanhecia,
(e tentar entender será tentativa
incrível,
vã )
em verdade, quem diria?
fez-se luz, invisível
na luz da manha.

E fica a pergunta sem resposta
do coração que não aceita
o pesadelo medonho:

Que enigma, Senhor, se encerra afinal,
impenetrável
em sua partida,
antes que o Sonho
imensurável
se tornasse Vida ?


Angústia


Há uma estranha beleza na noite!... Há uma estranha beleza...
Oh, a transcendente poesia
que verso algum traduz...
- A via-látea inteiramente acesa
parece a fotografia
de um tufão de luz!

(Quem seria,
quem seria
que pregou lá no céu aquela imensa cruz?!)

Que infinita serenidade!... Que infinita serenidade
misteriosa,
nesse infinito azul dos céus e em tudo mais:
- nos telhados, nas ruas, na cidade...
(Só os gatos gritam na noite silenciosa
sensualíssimos ais!)

Meu Deus, que noite calma! E aquela trepadeira
feminina e ligeira
veio abrir bem na minha janela
uma flor, - como uma boca rubra e bela
que eu não terei,
- e ainda sinto nos lábios um travo nauseante
do amor, que, faz bem pouco, há apenas um instante,
paguei...

E o céu azul assim!... E essa serenidade!
Silêncio. A noite, o luar tão claro o luar lá fora...
Juraria que há alguém não sei onde que chora...

Ob, a angústia invencível que me prostra,
invade
e me devora...


As duas mãos...


À noite, sob os lençóis, nossas mãos cegas se encontram
e um diálogo de ternura e de silêncio
independe de nós.

Mãos insones, que surpreendemos ainda juntas, num diálogo
de ternura e silêncio,
quando a manhã nos expulsa do sonho...

Como Deus expulsou Adão e Eva
do Paraíso...


Balada aos teus encantos


Há no teu corpo coleios
de serpente pelo chão...
Quem sabe, pois, se os teus seios
são serpentes enroscadas,
em sensuais emboscadas,
- escondidos como estão?

São tão belos os teus seios,
redondos, vivos e cheios,
cheios, como luas cheias
e brancos como as areias,
- irrequietos como o mar...
As vezes, quando te agitas,
palpitam trêmulos no ar,
- são duas aves aflitas
presas de ânsias infinitas
mas que não podem voar...

São duas aves esquivas
irrequietas e lascivas
que quando escapam do ninho
erguem seus bicos ao céu;
- aves sem asas, cativas,
em posições agressivas
crescendo em tua nudez,
- nos bicos cor de uva e mel
têm duas gotas de vinho,
de um doce vinho, de um vinho
de uma infinita embriaguez.

Sentinelas avançadas
de tuas formas ousadas,
não se rendem com certeza
guardando a tua beleza,
e embora caia o teu corpo
e entregues tua alma até,
- teus seios, esses teus seios,
redondos, belos e cheios,
erguem-se mais, sem receios!
- ainda estão vivos, de pé!

Quando se atiram no ataque
enfrento-os com o meu desejo!
- não há forca que os aplaque,
não há carícia, nem beijo,
se os tento em vão dominar...
Que eles assim me entontecem:
- sou como o vento! E eles crescem:
- são como as ondas do mar!
Roubaste ao mar duas ondas
são duas ondas redondas.
que ostentam pérolas raras,
pérolas cor de cereja
que o meu desejo deseja
no teu corpo de águas claras...

- são duas ondas redondas
que espraiam contra o meu peito
quando em teu corpo perfeito
- no oceano - que é o nosso leito,
sou como um barco no mar...

Roubaste ao mar duas ondas
são duas ondas redondas
onde me vou naufragar...


Balada da chuva


A tarde se embaça: - um pingo, outro pingo
respinga um respingo de encontro à vidraça;
um pingo, outro pingo, e a chuva aumentando
e eu nada distingo,- respinga um respingo
tinindo, cantando de encontro à vidraça

A noite esta baça e a chuva enervante
batendo, batendo, constante, cantante
de encontro à vidraça

A terra se alaga o céu se nevoa,
e a chuva é uma vaga fininha, descendo,
parece garoa!
parece fumaça!
- e as águas subindo e as poças subindo
e a chuva descendo e a chuva não passa!

O dia surgindo, manhã turva e baça.
A chuva fininha miudinha, miudinha,
parece farinha lá fora caindo,
através da vidraça.

A tarde está escura, a noite está baça,
e as brumas de um tédio
de um tédio sem cura
talvez sem remédio
minha alma esfumaça:

- um dia, outro dia e os dias passando
em lenta agonia segunda a domingo;
um pingo, outro pingo, respinga um respingo,
batendo, cantando, mil dedos tocando
de encontro à vidraça...
- que chuva! que chuva!
e a chuva não passa!

Constante, cantante caindo distante
nas folhas molhadas,
nas poças paradas despidas e nuas,
e murmurejante rolando nas ruas;
- um pingo, outro pingo
na lata cantando goteira se abrindo
pingando, pingando
batendo, batendo
tinindo, tinindo

parece um tinido, de taça com taça,
e a chuva chovendo
e a chuva não passa!

O vento nas folhas de leve perpassa,
e as gotas nos fios rolando, escorrendo
lá fora estou vendo através da vidraça,
- que dias sem alma!
- que noites um graça!
e a chuva, que calma!
chovendo, chovendo
não passa! não passa!

A terra está envolta nas brumas de um véu,
de um véu de viúva que o dia escurece,
e a noite enfumaça.
- E' a chuva que chove, e do alto se solta

descendo, descendo, rolando, escorrendo
nos olhos do céu...
Nos olhos do céu e no olhar da vidraça!

- que chuva! que chuva! parece um dilúvio,
quem sabe? - parece que a chuva não passa!


Balada embalando Maria...

Odor de folhas verdes perturbando,
punhais de luz ferindo a ramaria...
- é o teu corpo cheiroso me estonteando!
- são teu olhos, Maria!

Rumor na mata de água inquieta e fria,
bicos de ave no ninho quente e brando...
- é a tua voz feliz cantarolando
- são teus seios, Maria!

Sombra de noite que vai baixando
caju mostrando a polpa cor do dia...
- são teus cabelos me chamando
- são tem lábios, Maria!

Fruto maduro abrindo a mataria,
gestos de gaivotas no ar bailando...
- é o teu riso medroso me tentando!
- são tuas mãos, Maria!

Vento que sopra leve, acariciando,
Mel que canta na boca e que inebria...
- é o teu carinho morno me prostrando!
- são teus beijos, Maria!

Raio de sol dançando de alegria,
cipós que ao meu redor se vão fechando
- é a tua alma de criança madrugando!
- são teus braços, Maria!

Rima que eu quis rimar com fantasia,
trecho de céu que ao longe vai clareando...
- é o teu nome que eu vivo soletrando!
- são teus sonhos, Maria!

Girassol sempre a luz acompanhando,
levada aos ventos, erradia...
É o meu amor por ti, louco, sonhando!
É o teu amor, Maria!


Bandeira do Brasil

(Aos que a hastearam vitoriosa na
Itália na luta contra o fascismo)


Bandeira do Brasil, colorida e festiva,
alegre como a Paz, vibrante como um hino.
Desfraldada nos céus, mais pareces um “viva!”
erguido em saudação à Pátria e ao seu destino!

Bandeira do Brasil! Simbolizas a terra,
a terra e o mar, o sol e o céu, a história e o povo!
Alegre e juvenil teu colorido encerra
a beleza e a expressão de um continente novo!

Outra não sei que seja assim tão viva e bela,
atraente ao olhar e ao coração mais nobre;
teu amarelo é sol, e teu azul se estrela
tal como o céu azul sereno que nos cobre.

Bandeira do Brasil! Irmã de outras bandeiras.
Tua alma para mim tem somente uma cor:
mesmo sobrepairando as lutas e as trincheiras
és branca como a Paz e pura como o Amor!

Bandeira do Brasil, - alma de todos nós!
Hino de cores no ar saudando a humanidade!
Que depois de enxugar o sangue dos heróis
possas secar em paz ao sol da liberdade!


Bandeira

Hei de sustentar a palavra como uma bandeira
a cada novo dia,
disposta a ir na frente, mesmo sem companhia.

Os que nasceram prendados, nunca compreenderão
os que estão soterrados, presos até os ombros
numa revolta inconsciente, numa angústia muda,
sem movimentos, sem braços
de olhos turvos e baços
sem um gesto de ajuda.

Os que nasceram confortáveis, nunca compreenderão
os que pisam pedras, asperezas, e trazem o destino
do próprio chão:
ser pisado,
e dar flores e frutos, sempre ignorado!

Os que nasceram felizes, nunca compreenderão
o sofrimento de milhões de seres conscientes
escravos das galés, as mãos remando incansáveis
até a exaustão,
sem, verem o mar., sem verem a terra,
- a terra da promissão!

Hei de sustentar a palavra como uma bandeira
a acenar novo dia,
disposta a ir na frente, mesmo sem companhia.

Ver um homem morrer todos os dias dentro de si mesmo
sem meios, aniquilado,
vê-lo debater-se como náufrago, sem um socorro sequer,
com um coração que canta, nervos que criam, forças que elevam,
enquanto tantos inúteis jogam e se divertem,
ao seu lado...


Ver um homem morrer sem armas para lutar
ser esbofeteado, manietado dos pés à cabeça;
desejar, quando o desejo é um privilégio fora de seu alcance,
querer ser, e reconhecer inútil e impotente
que não é nem será – por quantas gerações?
- por mais que lute, e se canse...

A consciência desta injustiça às vezes me sufoca.
Que hei de fazer senão içar a palavra como uma bandeira
e ir à frente, até chegar, até cair exangue,
diante da flor de ouro indiferente e provocadora


Besouro


Bato as asas, quero fugir como um besouro
estonteado de luz,
à procura do céu incendiado de ouro
que o seduz!

Esvoaço, tonteio, em vão... Em vão minha alma esvoaça!
Ouço um zumbido surdo, atordoante, crescendo,
das minhas asas sôfregas batendo
numa invisível vidraça!

Lá fora é tudo tão verde! Lá fora a terra é tão bela!
Tudo chama e convida
para a vida,
- e nem uma alma bondoso e distraída
vem abrir a janela!


Bom dia, amigo Sol!


Bom dia, amigo Sol! A casa é tua!
As bandas da janela abre e escancara,
- deixa que entre a manhã sonora e clara
que anda lá fora alegre pela rua!

Entre! Vem surpreendê-la quase nua,
doura-lhe as formas de beleza rara...
Na intimidade em que a deixei, repara
Que a sua carne é branca como a Lua!

Bom dia, amigo Sol! É esse o meu ninho...
Que não repares no seu desalinho
nem no ar cheio de sombras, de cansaços...

Entra! Só tu possuis esse direito,
- de surpreendê-la, quente dos meus braços,
no aconchego feliz do nosso leito!...


Cabocla


Cabocla, em teus olhos há estranhos desejos,
mistérios de noite,
clarões de luar...

Tua boca, é uma fruta madura, vermelha,
madura de beijos, de beijos maduros que eu quero apanhar!
Tua boca é uma fruta gostosa, será
assim como um bago branquinho,
branquinho,
e doce de ingá!

Teu riso, Cabocla, é tão fresco, tão bom,
que há nele um murmúrio de fontes, e o som
das águas rolando na mata fechada...
Teu riso, Cabocla, parece a alvorada,
parece na sombra o clarão do caminho,
- teu riso parece esse sulco branquinho
que se abre na pele macia e corada
de um doce caju!

E eu penso em teu corpo, molhado, cheiroso,
(Meu deus, se te apanho!)
- teu corpo tão fresco, tão bom
tão gostoso,
saindo do banho
teu corpo ainda nu!

Teu corpo dengoso, roliço, moreno,
de carne tão rija, tão cheia de vida,
é assim como a flor que tem mel e veneno
por entre as ramagens tentando, escondida!

Teus seios, nem sei... os teus seios redondos
rompendo o decote sem medo nenhum,
já trazem dois alvos pros lábios da gente
nas pontas ousadas da cor do urucum!

Cabocla,
minha alma está doida, está louca,
daria a minha alma ao diabo, Cabocla,
nas noites de lua
pra ter-te em meus braços, despir o teu corpo,
- assim como o sol entreabrindo um botão...

Mordendo os teus lábios, sentindo-te nua,
matando os teus beijos brotando na boca
vivendo em teu corpo plantado no chão!

Cabocla! Cabocla! eu me mato, eu me acabo!
Mulher do diabo!
Mulher tentação!


Cântico dos Cânticos - I


Senhor!

A minha alma é pagã e eu sou ateu!
Sou aquele no entanto que te compreendeu
no sentido profundo dos ensinamentos
que espalhaste no mundo.

Eu prego os sentimentos
por que um dia morreste entre ladrões na cruz!

Falo de paz e amor, de pensamento e luz,
e a palavra que escrevo em seu âmago encerra
um protesto à violência, ao despotismo, à guerra,
e aos vis e sempre vis mercadores do templo!
O teu vulto sereno e esplendido contemplo
com o mesmo olhar consciente, simples e sincero,
com que leio Platão, com que admiro Homero,
com esse olhar que demoro sempre sobre o vulto
De um Sócrates ou um Nietzsche!

É eterno este meu culto
pelos que têm luz própria, e são astros, são sóis,
e dão rumos na sombra tal como os faróis;
pelos que foram grandes, pelos que são grandes,
os que marcam na história os relevos dos Andes
sobre as planícies chãs, os desertos vazios;

pelos que, gigantescos como os grandes rios,
passam por muitas terras sem olhar fronteiras
e unem povos e raças sem erguer bandeiras;
pelos que, como os céus infinitos, profundos,
na imensidão do azul contêm todos os mundos,
e os que afinal criaram para os pigmeus
o cabresto da fé e o chicote de um deus!

E é por esta razão, Senhor, e só por isto
que não creio em Jesus mas falo em Jesus Cristo!


Cântico dos Cânticos - II


Não preciso pensar em punições supremas
para que seja um bom, nem ponho entre dilemas
a minha ação moral; faço o bem pelo bem,
sem recear a deuses, sem temer ninguém,
porque tanto a esse Deus dos visionários temo
como ao fogo do inferno e às caretas de um demo!

Sem esperar por prêmios ou temer castigos
vou praticando o bem; chamo aos homens de amigos,
e se a razão que tenho é certa e não me engana
afirmo que é excelente a natureza humana
e é para a sua fonte.

Essa água da nascente
é a água milagrosa que está em nós latente,
- nela fui encontrar a origem da moral.
Bebendo-a, é que instintivamente vejo o mal
e o bem. Por isso prego sem temer, não minto:
mais moral do que um deus é a pureza do Instinto!

Um deus se abastardiza, um deus pode afinal
render-se ao poderio louro do metal
quando aqueles que são os apóstolos bons
vão mudando de timbre as suas pregações
na sociedade de hoje onde tudo se vende!
O Instinto, não! O instinto puro não se rende.
Dentro do homem mais torpe, vil e corrompido,
se retrai; em si mesmo se fecha, escondido,
mas vive sempre, e pode afinal, de repente,
como a flor que rompeu de invisível semente
vir abrir suas pétalas brancas e puras
sobre a lama, - que é lama o ser dessas criaturas!

Creio e este há de ser talvez nosso trabalho,
colher por entre a lama, as pedras e o cascalho,
- as almas (porque uma alma, tal como um diamante,
precisa ser polida para ser brilhante),
e depois descobrir essa oculta pureza
que é o cristal interior de nossa natureza!
Livrando assim da ganga mística e lodosa
os Seres, e polindo-os todos, afinal,
- havemos de encontrar muita pedra preciosa
guardando na aparência bruta e desgraciosa
quanta cintilação sonora de cristal!


Cântico dos Cânticos - III


Senhor!

Eu sou aquele que não reconhece
no homem que hoje a teus pés ergue uma falsa prece
um discípulo teu!... Conheço a tua história;
sei que tu fostes pobre, e para a tua glória
não nasceste em palácios cravejados de ouro
como nascem os reis!

O teu grande tesouro
trouxeste-o no teu peito como nós, e os lábios
ao balbucio humilde e suave dos teus lábios
quedavam-se em silêncio... E se história não falha,
o teu berço, Jesus, era feito de palha,
e descerraste o olhar na tosca manjedoura
que aumenta a tua glória e que em nada desdoura
o teu grande destino!... Os pobres, os pequenos,
tiveram sempre a luz dos teus olhos serenos
e ouvindo a tua voz tão cheia de conforto
propagaram até que deste vida a um morto,
- e assim ficou na história o Lázaro da lenda!

E desde então, Senhor, há essa eterna contenda
entre os que vêm em ti um sonhador humano
deixando-se morrer no estóico desengano
de um Sócrates, que ergueu a taça de cicuta
e sem tremer morreu; e os que, na tua face,
serena ante a impiedade hostil da força bruta
(como se nela um halo de luz se estampasse)
chamaram-te de Deus!
Não importa, Senhor,
importa é que morreste pelo nosso amor!


Cântico dos Cânticos - IV


As eras que em sua ânsia incontida consomem
vidas, seres e coisas, como um deus ou um homem,
hão de sempre guardar aquela trajetória
que os teus passos marcaram na alma e na memória
do mundo, - na ascensão do Calvário e da Dor!

Não sei se tu me escutas ou me vês, Senhor!
Minha voz é pagã, meu coração é ateu,
no entanto ela te exalta, e ele te compreendeu!

Não entro nem visito a imensa catedral
que não é sua casa! - E nem comungo o mal
dos judas que hoje ainda rondam tua mesa
e querem te trair!

Nasceste num presepe
e essa cruz que se ostenta eu vesti-a de crepe,
- para mim já morreu!

Já não diz da beleza
da obra que tu pregaste e da grande verdade
dessa filosofia eterna de igualdade
que fizeste brotar do coração humano!

Compreendi-te, Jesus, por isso não me engano
com os que trazem teu nome à boca, - todos são
os judas em que em teu templo vendem a oração
que ontem por entre os pobres, como um lenitivo,
davas o coração mais morto do que vivo
sem cobrar um ceitil...

Senhor! A água da fonte,
que tão pura nasceu entre as pedras do monte
pequenina e escondida, e que era clara e doce,
hoje é turva e pesada, é amarga e envenenou-se!


Cântico dos Cânticos - V


Eu não creio, Senhor, mas se é verdade e é certo
que tu ressuscitaste, e com o teu peito aberto
pelas lanças romanas te elevaste aos céus,
ouve o aviso que solto nestes versos meus:

- que não te lembres nunca de voltar aqui,
porque o que hoje te adora, o que fala de ti,
diante da exprobração do teu desgosto imenso
sobre uma nova cruz deixar-te-ia suspenso
e da tua palavra ainda faria pouco!

E outros te chamariam de demente e louco
e outros te chamariam comunista e ateu!

Se ao entrares na igreja dos vitrais, como eu
apontasses o luxo, a riqueza, o exagero;
se sentisses profundo e amargo desespero
ouvindo citações em teu nome; se enfim
voltasses a este mundo, ao encontrá-lo assim
tu não compreenderias mais o teu idioma
nem mandarias Pedro retornar a Roma!

Cobririas teu rosto, e ante a trágica idéia
de espalhares a luz; talvez, como em Pompéia,
atirasses também o fogo, e o próprio mundo
sepultasses aos pés de um vulcão num segundo!

Ou quem sabe, Senhor, se em silêncio choravas
e ao invés de jogares sobre os homens, lavas,
com a grandeza infinita do teu coração
ofertasses ainda um último perdão,

- e ante a inutilidade do teu sacrifício
rolasses do Calvário para um precipício!?


Cântico dos Cânticos - V


Eu não creio, Senhor, mas se é verdade e é certo
que tu ressuscitaste, e com o teu peito aberto
pelas lanças romanas te elevaste aos céus,
ouve o aviso que solto nestes versos meus:

- que não te lembres nunca de voltar aqui,
porque o que hoje te adora, o que fala de ti,
diante da exprobração do teu desgosto imenso
sobre uma nova cruz deixar-te-ia suspenso
e da tua palavra ainda faria pouco!

E outros te chamariam de demente e louco
e outros te chamariam comunista e ateu!

Se ao entrares na igreja dos vitrais, como eu
apontasses o luxo, a riqueza, o exagero;
se sentisses profundo e amargo desespero
ouvindo citações em teu nome; se enfim
voltasses a este mundo, ao encontrá-lo assim
tu não compreenderias mais o teu idioma
nem mandarias Pedro retornar a Roma!

Cobririas teu rosto, e ante a trágica idéia
de espalhares a luz; talvez, como em Pompéia,
atirasses também o fogo, e o próprio mundo
sepultasses aos pés de um vulcão num segundo!

Ou quem sabe, Senhor, se em silêncio choravas
e ao invés de jogares sobre os homens, lavas,
com a grandeza infinita do teu coração
ofertasses ainda um último perdão,

- e ante a inutilidade do teu sacrifício
rolasses do Calvário para um precipício!?


Cântico dos Cânticos - VII

Dos jornais: “Os sinos das igrejas romanas repicaram em festa, por ordem
do Papa, à vitória de Mussolini sobre a Abissínia.”



Senhor!
A tua história que ficou no meio
leio-a com tal ardor e convicção, que odeio
os que com a tua efígie esplêndida e sublime
perpetram e repetem pela Terra o crime
que Roma se imputou - .

E é por isso talvez
que combato o romano eu se fez burguês,
e para que afinal o mundo me ouça e veja
quebro as imagens falsas de uma falsa igreja!

Não entôo com eles cânticos ou hinos,
renego as suas cruzes, desconheço os sinos
que hoje soltam no espaço o metal dos seus sons!
os sinos que aplaudindo o ensangüentar das terras
entusiasmam servis para o pasto das guerras
e se fundem depois no bronze dos canhões!

Que dirias, Senhor, se visses a epopéia
daquela multidão de negros da Eritréia,
indefesos e nus como os cristãos de outrora,
dando carne às metralhas famintas de agora
e em contorções morrendo inflamados ao gás?!

Que dirias, Senhor, se ao longe, por detrás
deste quadros de sangue (onde a Roma de Nero
ressurgiu com mais tinto esplendor, mais esmero
na maldade feroz) ouvisses como um bando
de loucos, os teus sinos soltos, badalando,
no alto das catedrais que ostentam tua cruz?!

Acredito, Senhor, - por consolo supus
que num rasgo de dor dilacerante e intenso,
dissesses para o mundo o que eu sinto e o que eu penso,
e arrancando um por um os sinos que bateram,
e fechando os portões das ricas catedrais
gritasses:

estes sinos todos já morreram!
- e estas igrejas todas já não vivem mais!


Cântico dos Cânticos - VIII


Que dirias, Senhor, se a tua fé sublime,
a que te fez sofrer e ainda hoje nos redime,
encontrasses assim deturpada em seus fins?

O teu templo de outrora é a casa dos festins
onde a atua figura, em púrpuras vestida,
sem sentido e sem alma, e aos poucos pervertida
fala uma língua morta a um mundo fariseu,
- porque a tua palavra há mil anos morreu!

Um dia tu quiseste igualar os destinos
dos homens, e chamaste os pobres pequeninos,
crianças que sem ninguém te cercavam nas ruas...
Que dirias, Senhor, se hoje as igrejas tuas
inacabadas sempre por fora, e por dentro
vestidas de outro, apenas servissem de centro
aos que vendem no altar os teus restos finais,
entre baixos sermões e enormes castiçais?

Senhor, ouso indagar-te: - que dirias, tu,
morto sem teres nada, o corpo quase nu,
se te visses envolto nessa liturgia
que um Midas ambicioso certo não teria?!
Acredito que entrasses mesmo, sem notar
que essa era tua casa... e aquele, o teu altar!


Cântico dos Cânticos - IX


A minha alma é pagã, Senhor, e eu sou ateu!

Sou aquele no entanto que te compreendeu,
e propaga as belezas dos ensinamentos
por cujos sãos princípios tantos sofrimentos
tivestes que curtir; sou aquele que ainda hoje
muito embora da vida e dos homens se enoje
continua na crença de que cedo ou tarde
chegaremos a ti...

É que no mundo ainda arde
a chama que acendeste, - a chama rubra e ardente,
que em muitos corações crepita intimamente!

Não é minha nem tua, a falsa religião
das sacras barbarias de uma Inquisição,
que se antepondo à ciência inutiliza as ânsias
do progresso, a embuçá-la em sombras e ignorâncias;

e ainda aplaude a nação senil que os filhos seus
incita ao ódio e o crime em nome de algum deus!

Tu disseste, Senhor: “Não matarás!...” Parece
que escuto a tua voz como um rumor de prece
e penetro o sentido do teu misticismo!

Hoje, tu lutarias contra o imperialismo
que reduz certos povos como os de outras eras,
às condições de vida em que vivem as feras!

Teu gesto se ergueria contra a prepotência,
pelo direito ao lar, ao pão, pela existência,
e pelo bem maior que encontramos na vida:
- a nossa liberdade... E a tua voz perdida
seria igual à minha, a falar para o caos,
ao silêncio dos vis, e à incompreensão dos maus!


Cântico dos Cânticos - X


Tenho um ódio de morte a qualquer tirania!
Amo a terra, amo o sol, amo o clarão do dia
que ilumina e que aquece os homens em comum
sem preterir ninguém, sem desprezar nenhum!

Afirmo que é sagrada a liberdade humana;
a justiça, imortal; e eterna, e soberana,
a razão que elucida o cérebro fecundo
dos que vêm de longe construindo o mundo!

Tenho um ódio de morte a césares e reis,
que esquecem no poder a força ideal das leis
e cegos, - na expansão de ambições sangüinárias
exploram sem piedade o trabalho dos párias,
e ao toque de clarins e em bárbaros festejos
satisfazem a ferro e fogo os seus desejos!

Tenho um ódio de morte aos homens das boléias
que atrelam aos seus carros multidões plebéias
e de chicote em punho, a açoitar os seus povos,
arrastam, com a mentira, a impaciência dos novos!

Aos déspotas sem lei, aos tiranos e os vis,
aos que armam sobre a força hedionda dos fuzis
os palanques vistosos de um poder nefasto
e preparam com a morte o sangüíneo repasto
que não lhes mata a fome de domínio!... Odeio
os que para seus fins engendram qualquer meio,
e jogam contra o fogo, e à ceifa da metralha
(tal como se atirassem vãos montões de palha),
nações inteiras, povos jovens e felizes,
enchendo-lhes o peito e a alma de cicatrizes!


Cântico dos Cânticos - XI


Eu não sei porque vim e não sei por que falo,
sei que não tenha à fronte, a aureolar-me , um halo
de luz, para iludir, com retoques grosseiros
os que são meus irmãos, irmãos e companheiros...
Minha palavra é clara e nua, desconhece
os cicios suspeitos que se dizem prece,
não a digo entre falsos clarins e trombetas
dos que falam grifando a voz com as baionetas!

Falo de Paz, sem crer no entanto em Utopias,
porque creio na Paz e creio em novos dias.
A humanidade sofre (eis a verdade atroz)
da indigestão de deuses e ilusões de heróis:
obedece a fantasmas e adora visões,
confunde cores, formas, e mistura sons,
e folheia de bronze as imagens tacanhas
dando a montes de barro o nome de montanhas!


Cântico dos Cânticos - XII


Imagem do infinito e do eterno - resumo
da própria humanidade, e invisível rumo
que preside o destino dos homens na terra,
- quanta humilde beleza a tua história encerra!
Que importa se violentam teus ensinamentos
e se atiram pelo ar, e se soltam aos ventos
os conselhos que deste há mil anos, em vão?
No vazio dos céus puseste um coração !

Antes de Ti a terra, era terra sem céu,
como a flor era flor, sem perfume e sem mel,
e a vida, a luta esteril que afinal reduz
a alma a um gesto de sombra sem ideal nem luz !
Tu puzeste calor e luz na selva bruta
do humano coração, escuro coo a gruta
onde o ar rarefeaz e onde não chega o sol.
Em verdade, deixaste a cruz sobre um paiol


Cântico dos Cânticos XIII



Eles querem que eu cale, Senhor, é o receio
pela voz que se eleva e desconhece freio
de qualquer interesse, e arranca a hipocrisia
que cheira a bastidos de altar, a sacristia,
e diz alto, e dizendo bem alto de tudo,
dá-lhes certo a impressão de quem ficou desnudo
ante um olhar estranho... Odeiam-me por isso
Pouco importa! Sou livre e não nasci submisso!

E se um pouco afinal a mim mesmo conheço,
sei que não trago ao peito pendurado um preço
nem nunca o meu ideal joguei no lixo; quem dá mais;
nem vendo a minha fé, e nem serei capaz
de ergue-la em meu sentir sobre o alicerce indigno
da exploração alheia!
É em vão! Não me resigno
ao silêncio! E talvez, imprevidente e incauto,
cada grito que solto é cada vez mais alto!

E se me ouves, Senhor, se escutas este grito
lá da distância azul, na ilusão do Infinito,
tu que encarnaste um dia a perfeição e o Todo
e sentiste o maligno efervescer do lodo
da incógnita criação, - por certo não te assombras
- pois matou-te esse horror que tem a luz as sombras!

Caminho; sigo à frente, - e me embaraço e perco,
tonto da odor que sobe do estagnado esterco,
mas ainda encontro forças, ao fitar tranqüilo,
o sol rompendo a nuvem que tentou encobri-lo
e apagá-lo dos céus.

O sol que, triunfante
desaparece aqui para surgir adiante!

Sigo à frente, Senhor, e hei de avançar assim
já que sinto esta chama acesa dentro de mim,
e se tal como tu, for vencido na luta,
com pena da planície onde há sangue e onde há pus,
erguerei sem tremer a taça de cicuta
ou buscarei eu mesmo os braços de uma cruz!...


Canto de ontem



Vamos, põe teu braço no meu braço, vamos recordar
os velhos tempos
do nosso amor.
Passeávamos assim, e que frias eram as tuas mãos
no momento do encontro,
e que dóceis teus lábios depois da rendição.

Muitas vezes perdi-me em teus lábios e não soube voltar.

Que era o mundo senão um punhado de perspectivas
que saíam do ponto coração
e se perdiam nos teus olhos?

Tanta cousa esperamos e alguma cousa colhemos
mas que triste, amor, este todo-o-dia matando
o que esperávamos jamais ser tocado pelo tempo.

Tu me queres ainda, eu sei que te aninhas, por habito ou por frio
junto ao meu corpo, e esperas.

E eu te quero ainda, muito mais pelo que deixaste
nas raízes mergulhadas
e pelo que representas nas nuvens que se acumulam
do que pelo momento de tédio e ternura, elementos
do nosso coquetel cotidiano...

Vamos, põe teu braço no meu braço, como antigamente,
entrega-me docilmente os teus lábios, e pensa
que eu te beijo há mil anos, num tempo em que seremos
sempre os mesmos
e o nosso amor imortal.


Canto do amor sem tempo


“Porque nunca te estreitei contra mim

é que nunca te afastas.”
(Apontamentos de Malte Laurids Brigge.
Rainer Maria Rilke.)


Cresces no pensamento quanto mais te afastas,
nunca te afastas, nunca, se afinal ressurges
em cada vivo instante - ó flor sem estações,
numa árvore que tem mil profundas raízes!

Para mim, és aquela intangível presença
que construí com o meu louco desejo impossível.
Se não posso tocar-te, hás de acenar-me sempre:
loura estrela que a mão não apaga dos olhos.

Mais alem do desejo - essa fera em tocaia -,
da ternura - esse dote veneno que embriaga -,
paira o amor, e eis o amor, longe de nossas forças,
fruto de ouro da lenda que criamos juntos.

Ah! pudesse eu tocar-te e talvez esboroasses
como um gesto de areia ao abraço das vagas...
Ah! pudesses ser minha, e talvez percebesses
que então, já nunca mais poderias ser minha!

Ah! o amor, como nós o afastamos, no instante
em que julgamos, tontos, loucos, celebrá-lo.
Só depois que o possuímos é que compreendemos
que possui-lo é afinal parti-lo e mutila-lo.

Quem diria? A conquista é o “requiem” do amor,
e o que devera ser eterno e indivisível,
vai sendo mutilado toda vez que um golpe
de prazer, fere e atinge a substancia do sonho.

Só - como estas, assim, estou sempre ao teu lado,
sempre comigo estas -, assim só, como estou.
Que faríamos nós para salvar o amor
se eu pudesse planta-lo em teu corpo, a enraizar-me?

Ah! os braços são alças do esquife imprevisto,
colhem flor sem raiz, colhem astros sem céu.
o meu amor, só tu cintilas em meu sonho
porque enquanto me buscas eu jamais to alcanço!

O destino do eterno atraiçoou nossos planos.
Nossa conspiração frustrada nos endeusa.
E esse amor, que eu quisera estrangular de beijos
sobe como uma chama angelizada no ar!


Canto integral do amor



Cegos os olhos, continuarias de qualquer forma, presente,
surdos os ouvidos, e tua voz seria ainda a minha música,
e eu mudo, ainda assim, seriam tuas as minhas palavras.

Sem pés, te alcançaria a arrastar-me como as águas,
sem braços, te envolveria invisível, como a aragem,
sem sentidos, te sentiria recolhida ao coração
como o rumor do oceano nas grutas e nas conchas.

Sem coração, circularias como a cor em meu sangue,
e sem corpo, estarias nas formas do pensamento
como o perfume no ar.

E eu morto, ainda assim por certo te encontrarias
no arbusto que tivesse suas raízes em meu ser,
- e a flor que desabrochasse murmuraria teu nome.


Capitalização


É preciso juntar, irmão
para que sobrenades...
Não converteremos o mundo, não chegaremos ao governo,
não salvaremos o povo...

Aderimos
ao nosso modo.

É preciso juntar, irmão
pedra com pedra, mesmo que seja pedrinha,
fazer sua própria trincheira
ou lá que nome queiras das
- até mesmo alicerces...

Nada esperes da piedade, esta chantagista
que não vacila em humilhar
desde que haja fotógrafos,
nada esperes do mundo, dos governos, nem de ti mesmo
parcela ínfima de povo,
nada esperes de ninguém...

Não há dúvida de que viraram do avesso a palavra de Cristo
e douraram a dialética de Marx,
nada esperes, irmão...

É preciso juntar, juntar de qualquer forma,
chamemos assim,
e inventa tua vingança se e sentires capaz...


Carta cinzenta


As palavras amargas que te escrevo
são aquelas que pensas mas não dizes,
e esta, - é a carta cinzenta onde me atrevo
a despertar o nosso falso enlevo
e a confessar que somos infelizes...

Esta é a carta cinzenta que põe termo
ao sofrimento que te suplicia...
Meu amor, pobre amor! - vacila enfermo...
Teu amor, falso amor! - já nasceu ermo
como uma noite longa de invertia...

Onde o antigo calor do teu carinho?
Onde o esplendor dos teus olhos castanhos?
Segues só, ao meu lado... Eu, vou sozinho...
- como dois vultos por um só caminho
um do outro perto, e totalmente estranhos...

Não aceito o teu tolo sacrifício
que eu não nasci para inspirar piedade.
Essa carta cinzenta é o precipício
onde atiro esse amor... E marca o início
da tua mais completa liberdade!

Não deve haver passado entre nós dois...
Esquece o que já fui e o que te digo,
o Destino entre nós tudo interpôs
e assim, pelo que fui... nunca depois
por consolo me chames teu amigo!

Se eu cruzar o teu passo, volta o rosto!
Devo ser menos que um desconhecido,
- se eu era o teu Senhor e fui deposto
que no exílio final do meu desgosto
guarde a ilusão de ao menos já haver sido!

Juro por esse deus em quem não creio
em quem tu crês, - que em minha dor imensa
só desejo ficar de tudo alheio,
- não receio por mim, eu só receio
que ainda me negues tua indiferença!

E que um dia, quem sabe? não compreendas
as palavras de fel que hoje te digo,
- receio que mais tarde não me atendas
e queiras debruar talvez de rendas
o desespero que guardei comigo!

Uma coisa, no entanto, me conforta
depois que por teu bem tudo desfiz,
- é que enfim minha vida já está morta,
e, afinal, minha vida pouco importa
quando se trata de te ver feliz!
.......................................................................

Bem. Paremos aqui. Daqui por diante
seguirás o teu rumo e eu sigo o meu...
Hás de ser mais feliz se mais constante,
e que ao menos te lembres, certo instante,
de quem nunca um instante te esqueceu...

É o fim... Mas sem lamúrias nem piedade.
Guarda a piedade, - eu já fiquei com a dor... -
Quem pode mais do que a fatalidade?
Se o Destino assim quis, fique a saudade
florindo triste sobre o nosso amor!...


Cigarra morta


Vês... É uma cigarra morta, assas douradas
completamente roídas e estragadas,
levada pelas formigas...

Olhaste-me e eu te pude compreender...

Não diga nada, meu irmão, não digas,
- os poetas... as cigarras
não deviam morrer...


Confissão


O que me impede de ser comunista
é essa alegria festiva, irreprimível
de qualquer posse.

São meus desejos, - quem sabe se meu egoísmo?
É esse prazer ingênuo de pensar que é meu
este pedaço de terra,
sem mesmo me lembrar de meus filhos
ou de meus inimigos.

É esse inútil pensamento de supor que tenho direito
de escolher meu destino
e até de não escolher nenhum.

A impressão de que talvez seja mais tolerável um mundo
onde subsiste a miséria, apesar de nossa luta,
do que um outro onde não subsista a liberdade
nem se possa lutar por ela.


Convalescença



Toda vez que escrevo convalesço, estou nascendo
outra vez dentro de mim.

Convalescença
de uma longa enfermidade em que fiquei paralítico
dentro de mim mesmo.

E de repente, posso andar, posso sair, - que misterioso médico –
indicou-me a liberdade e reconciliou-me com a claridade da manhã
e os caminhos que são sinuosos convites acenando?


Estou descendo invisíveis degraus de uma branca escadaria
que dá para um grande parque onde as árvores e os homens dialogam
e brincam como as crianças,
e fazem roda em torno das heras de velhos poetas
escondendo faunos
nas pupilas de bronze.


A criação é uma convalescença, uma janela de hospital que se abre,
dois braços que respiram abarcando o espaço
e dois olhos que começam a cantar como os pássaros


Estes cantos são apenas o ritmo elementar da respiração desopressa
o latejar do sangue nas veias, que arremeda
as águas que estão rolando em algum lugar do mistério.

Fora da arte e da poesia
a vida é uma longa enfermidade, um tédio branco
de hospital, sem esperança.


Dedicatória 1

Este meu livro é todo teu, repara
que ele traduz em sua humilde glória
verso por verso, a estranha trajetória
desta nossa afeição ciumenta e rara!

Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
tanta cousa afinal na nossa história...
E este verso – é a feliz dedicatória...
onde a minha alma inteira se declara...


Abre este livro... E encontrarás então
teu coração, de amor, rindo e cantando,
cantando e rindo com o meu coração...

E se o leres mais alto, quando a sós,
é como se estivesses me escutando
falar de amor com a tua própria voz!


Dedicatória...
(1944)



Dedico este livro aos irmãos da América e do Mundo,
não importa que cruzem as pernas nos “pagodes” exóticos
ou sigam a palavra de Confúcio no templo de papel e de bambu;
que subam aos minaretes, se curvem beijando a terra,
ou simplesmente se ajoelhem no palácio de vitrais e incensos;
que dispam a palavra de Cristo de púrpuras e de ouros,
ou que sigam sem Deus, a procurá-lo nos livros...

Dedico este meu livro a todos os irmãos da América e do Mundo,
negros ou brancos, amarelos ou vermelhos, azuis ou roxos,
altos ou baixos, gordos ou magros, louros ou castanhos;
nos que ainda não morreram e aos que ainda poderão vir;
aos das planícies e dos campos, aos das florestas e das montanhas,
aos dos gelos e dos desertos,
aos das aldeias e das cidades,
aos dos faróis e aos da solidão,
aos dos navios, dos aviões ou dos subterrâneos,
a todos os homens, sem a menor distinção,
basta que creiam ainda na Vida e em nós mesmos.

Por isso escrevi este livro
como se abrisse uma veia, para o sangue aliviar o coração;
como se colhesse um fruto para o desejo inábil;
como se trouxesse água na mão, para a boca sedenta e empoeirada;
como se escrevesse sem palavras, e pudesse chegar a todos os ouvidos
e a todas as consciências
sem tradução...
Por isso escrevi este livro. Como quem acende uma lanterna
para descobrir que não está perdido...

Não se admirem irmãos, se as suas letras tiverem a cor do meu sangue,
porque elas são o meu sangue que vos ofereço,
são uma doação que faço aos que ainda crêem que vivem,
mesmo aos que não poderão se refazer,
porque nunca sabemos os que resistirão...

Que este livro, pois, possa ao menos ser útil como o sangue,
como o ar, ou como o pão,
e possa prolongar algumas esperanças
confortar alguns momentos finais
e salvar alguns desesperos...

Que ao menos, chegue a tempo, para alguns...


Desejos... na manhã de Sol


Na manhã de sol
bela e serena,
depois de um dia de chuva
depois que à noite ventou,
- tive desejos de apanhar aquela mulher morena
que passou...

Devia ter na boca rubra
um gosto de uva
um gosto bom de vinho,
e quando ela me olhou,
- pensei na fruta madura que o vento da noite derrubou
à margem do caminho...

Ah! o garoto que fui! Ah! o garoto que sou!
Na inquietação da minha vida,
nas voltas do meu caminho,
sempre a vontade incontida
de desejar as frutas do quintal vizinho!

Na manhã de sol
bela e serena,
- depois de um dia de chuva,
- ah! o garoto que sou!
tive desejos de apanhar aquela mulher morena
que passou!


Duas máquinas


Altas horas, no silêncio da minha rua sem ônibus
sem bondes,
ouço distante uma máquina que escreve.

Será sofrimento, será alegria, será apenas trabalho
esta música que vem de dentro da noite
de um apartamento, em que andar?

Paro de escrever e escuto, e escuto o seu bater nervoso
telegrafando ao meu pensamento.,
como se respondesse, num misterioso código, às minhas mensagens.

Que coisas dirão aquelas teclas batendo, batendo ininterruptamente
como um coração assustado?
A quem se dirigirão, nessa ansiedade estranha de S. O. Ss. emitidos
para vazio mar, sem resposta e esperança?

No silêncio da noite, altas horas, bato as teclas da minha máquina,
como quem responde a alguma mensagem,
como quem dá esperança a um apelo ignorado.

No mistério deste diálogo sem palavras, inarticulado,
- fiandeiras misteriosas estão tecendo poesia as duas máquinas,
estão semeando, estão enchendo à noite de sugestões,
estão vivendo.

Que importa se seus S. O. Ss. se perderão na noite alta e vazia,
onde navegam como cargueiros, pesados sonos burgueses.
Que importa? se elas fazem poesia.


Enquanto


Enquanto olhares para a companheira que te ajuda na luta
e a morte te amedrontar, mais pelo destino dela
que pelo teu próprio.

Enquanto vires teus filhos brincando e te lembrares que o seu futuro
depende do cada dia do teu esforço
e que se fraquejares
talvez não cheguem mesmo a ser homens.

Enquanto temeres a doença como um espantalho, e vires no remédio
um pedaço de pão a menos em tua mesa;
e sentires a segurança do teu trabalho muitas vezes
condicionada à renúncia de tua própria personalidade.

Enquanto tiveres por distração as amargas preocupações
de tua vida cotidiana, entre o choro de um filho
e o aumento do feijão.

Enquanto não perceberes teu presente, renegares teu passado
e receares teu futuro
como quem recomeça a vida a cada dia;
enquanto não puderes chegar mais tarde ao teu trabalho
até com justificado motivo
sem que te humilhe o olhar do chefe ou a palavra do patrão,

- não é tua a tua vida, não é teu, o teu destino,
ou por outras palavras: não és livre, irmão.


Esperança


Ainda resta afinal intacto o coração
e puro o sonho que como a flor singular e misteriosa
fizeste nascer da pedra lisa.

E ainda podemos como os marinheiros nos mirantes
colocar a mão sobre os olhos para atingir a distancia maior
dos horizontes.

Quando há coração e há caminhos
ainda resta a esperança para o amor.


Essa


Essa, que hoje se entrega aos meus braços escrava
olhos tontos de amor que aos poucos me farto,
ontem... era a mulher ideal que eu procurava
que enchia a minha insônia a rondar meu quarto...

Essa, que ao meu olhar parado e indiferente
há pouco se despiu - divinamente nua -,
já me ouviu murmurar em êxtase fremente:
- Sou teu!... E já me disse, a delirar: - Sou tua!

Essa, que encheu meus sonhos, meus receios vãos,
num tempo que eram vãos meus sonhos, meus receios,
já transbordou de vida a ânsia das minhas mãos
com a beleza estonteante e morna de seus seios!

Essa, que se vestiu... que saiu dos meus braços
e se foi... - para vir, quem sabe? uma outra vez,
- segui-a... e eu era a sombra de seus próprios passos...
amei-a... e eu era um louco quando a amei talvez...

Hoje, seu corpo é um livro aberto aos meus sentido
já não guarda as surpresas de antes para mim...
( não importa se há livros muitas vezes relidos
importa... que afinal, todos eles tem fim)

Essa, a que julguei ter tanta afeição sincera
e hoje não enche mais a minha solidão,
simboliza a mulher que sempre a gente espera...
mas que chega e se vai como todas se vão


Estranho remorso...


Às vezes, quando escrevo feliz uma poesia,
me assalta um estranho remorso, incompreensível
que não sei de onde vem:
“Quem sabe? pode ser que esse meu canto de alegria
faça mal a alguém...”

Meu irmão triste, meu irmão doente,
perdoem-me a cantiga frívola e contente,
que me fugiu dos lábios na manhã alvissareira
de verão
Ela brotou sem querer da minha felicidade!
- é que eu trago uma cigarra cantadeira
e imprudente
dentro do coração!

Não é por mal, não é por mal...

Quem pode condenar a alegria da cigarra
em seu sonho
estival ?
- a estridular distraída e tagarela
e a dizer que a vida é bela,
- na árvore verde que há no pátio tristonho
do hospital ?


Estudo N.º 8



Olho a plantinha verde no vaso, tão infeliz,
no seu trágico destino decorativo.

Olho as árvores, longe, no moro, desenvoltas,
assustadas com a cidade, ainda livres.

Vou colocar no vaso flores de papel.


Eu... e Arvers


Hás de ler estes versos algum dia
e mais ou menos pensarás assim:

“- ele ainda sofre muito, e esta poesia
escreveu-a, bem sei, pensando em mim...
Sou a mulher que a inspira e que a anima,
pensava em mim no instante em que compôs,
e na incógnita sutil de cada rima
há um pedaço da história de nós dois...
Sinto-me em cada verso, em cada frase,
e as palavras que leio são as minhas...
- Sou eu essa mulher!... Vejo-me quase
na expressiva mudez das entrelinhas...”

E sorrirás... Eu sei que sorrirás
ante a certeza do meu sofrimento,
- é o teu prazer, sorrir desse tormento
que me causaste... e que não finda mais...

Ah! Feliz foi Arvers, bem mais do que eu!
Ao menos, essa a quem ele escrevia,
perguntou certa vez depois que o leu:
- “que mulher será essa...”

E não sorria...


Exaltação ao amor


Sofro, bem sei... Mas se preciso for
sofrer mais, mal maior, extraordinário,
sofrerei tudo o quanto necessário
para a estrela alcançar... colher a flor...

Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco, talvez, ou um visionário
hei de alcançar o amor... com o meu Amor!

Nada me impedirá que seja meu,
se é fogo que em meu peito se acendeu,
e lavra, e cresce, e me consome o Ser...

Deus o pôs... Ninguém mais há de dispor...
Se esse amor não puder ser meu viver,
há de ser meu para eu morrer de Amor!


Fácil, a gente ter mãe


Fácil, a gente ter mãe,
nem se percebe que tem,
mas só saber que ela existe,
que podemos encontrá-la
à hora que desejarmos,
que seus olhos sorrirão,
cheios de amor e bondade,
ao ver a nossa aflição;
que a seu lado - ela que é fraca-
nos sentimos tão fortes
confiantes no futuro,

o coração tão seguro
e o mundo todo tão bom,
como se fosse verdade,
só isto vale ter mãe,
e é uma felicidade.

Fácil, a gente ter mãe
- quase todo mundo tem -
mãe é uma coisa tão bela!
Pena é ver que há pela vida
os que só sabem que há mãe
porque ouviram falar nela,
só a conhecem de nome,
às vezes mesmo, nem isto.
Mãe é uma simples palavra
como uma nuvem ao vento,
um vazio pensamento.

Fácil, a gente ter mãe,
nem se percebe que tem
no todo dia a seu lado
quando se tem a certeza
e se sabe onde ela está,
pra dividirmos com ela
uma alegria, um revés,
que basta só querer vê-la.
Assim, é fácil ter mãe.

Difícil, sim, é perdê-la,
é ter que aceitar a idéia
de que no lugar de sempre
ela não se encontra mais.
Não adianta abrir a porta;
não passeia na varanda,

a cadeira está vazia,
na cama não tem ninguém.
E aquela voz que conforta,
que nos dava tanta paz,
que era um bem que não tem preço,
que era o nosso maior bem;
não ouviremos, calou-se,
é que ela agora mudou-se
pra um lugar sem endereço
onde Deus mora, no Além.

Ah, difícil é perdê-la,
nunca mais poder achá-la,
nos sentarmos a seu lado,
passearmos na varanda,
vê-la no quarto ou na sala,
que partiu, sem ter mais volta,
que pra nós nunca mais vem!
e, indefesos e sozinhos,
termos que aceitar a sorte
por desolados caminhos,
inconformados com a morte,
todos perdidos também.

Fácil, é a gente ter mãe,
mãe é assim como uma estrela,
estrela-guia que a gente
traz dentro de nós guardada ;
difícil, sim, é perdê-la
como uma estrela cadente
que de repente se apaga...

E, oh, meu Deus, eu a perdi.

Brasília, Dia das Mães, 11 de maio de 1975


Fidelidade


Eu sou a tua sombra
a que pisas todos os dias sem sentir,
e acompanha os teus passos sempre
revelada na luz
ou na sombra retraída...

Não me olhas, não me vez, não sabes que te sigo,
andas ébrio da vida,
e invisíveis clarins transbordam teus ouvidos
com os acordes de um hino,
- e a luz que alboreja o céu e de longe te acena
é o ímã que escraviza teus olhos atônitos
e traça o teu destino!

Corre!... Tonto com a luz que o fósforo da Vida
acendeu na substância abstrata dos teus sonhos,
e em mim não pensarás...
Eu sou a sombra humilde, a tua própria sombra,
que te acompanha os passos em silêncio,
e segue- e que eram apenas janelas,
atrás....

E como hás de seguir sempre buscando a luz
nunca me encontrarás...
.................................................................................

No entanto, no último dia, quando a luz fugir
até dos teus próprios olhos, e ficares sozinho,
e desceres sozinho ao derradeiro abrigo,
- Quando a Vida te abandonar, sou eu que te seguirei
e em teu corpo gelado me recolherei
e irei contigo...


Filosofando


Interessante!... Aquele passarinho
que pelo espaço imenso, incerto, adeja
não tem nada
porque nada deseja,
e no entanto tem tudo:

a terra verde é sua...
o céu azul é seu...
............................................................................

Interessante!... Aquele passarinho
tem muito mais que eu!


Fim...


Nem foi mesmo preciso que você falasse,
era um pressentimento antigo dentro de mim,
há muito, na expressão que havia em sua face
via que o nosso amor ia chegando ao fim...

Hoje, para encontrá-la, eu quase que não vim...
Era o medo covarde deste desenlace...
E tudo terminou... e foi melhor assim
talvez, para você, que tudo terminasse...

Nosso amor, - e ninguém há de saber por que,
morreu (bem que o sentimos pelo nosso olhar),
e não somos culpados nem eu, nem você...

E o que é estranho afinal é que tudo acabasse,
sem que nenhum de nós falasse em terminar,
- e assim como se tudo ainda continuasse...


Fracasso



Compreendo irmão, teu desespero sem limites,
na hora da trágica e inadiável compreensão...

A eterna expectativa, a oportunidade que deveria chegar
e se transferiu indefinidamente, a cada nova etapa,
a cada passo ansioso
na irrealidade...

Os dias que eram dias se passando, os meses que eram meses,
os anos que eram anos,
e a tua se consumindo, encurtando, atirando-te
contra ti mesmo
sem nenhuma revelação.

Os planos transferidos, amanhã, talvez mais tarde, algum dia,
mas quando?
mas quando, se tuas forças vão fugindo, se teus filhos cresceram,
se tua cabeça pendeu
se tua mulher te olha da sala com o mesmo peso nos olhos....

Tudo seria leve um dia, alto, leve e alto, estarias lá
no país dos homens felizes, confortáveis,
teus filhos iriam de automóvel para a escolar, e estudariam
sem responsabilidades
esperando a tua herança;
tua mulher poderia mesmo ler romances,
se preocupar com o destino dos humildes
nos fotogênicos chás de caridade;

usarias smoking, às vezes, e farias discursos, muitos discursos,
conhecerias apenas de nome a grande família da fome do infortúnio
prolífico e irremediável casal...

Compreendo irmão, teu desespero sem limites:
perceber de repente que já seguiu o bastante
para que não haja muito,
e sem nada ter gasto e sem nada ter vivido
ter vazia mão, a casa, os bolsos, a cabeça,
vazio o coração...


Gata Angorá


Sobre a almofada rica e em veludo estofada
caprichosa e indolente como uma odalisca
ela estira seu corpo de pelúcia, - e risca
um estranho bordado ao centro da almofada...

Mal eu chego, ela vem... (nunca a encontrei arisca)
- sempre essa ar de amorosa; a cauda abandonada
como uma pluma solta, pelo chão deixada,
e o olhar, feito uma brasa acesa que faísca!

Mal eu chego, ela vem... lânguida, preguiçosa,
Roçar pelos meus pés a pelúcia prata,
como a implorar carícias, tímida e medrosa...

E tem tal expressão, e um tal jeito qualquer,
- que às vezes, chego mesmo a pensar que essa gata
traz no corpo escondida uma alma de mulher!


Gotas


Na ponta de uma folha há uma gota indecisa,
vai crescendo, redonda, pequenina,
límpida e cristalina
como o esquife de um raio de luz...

De repente
a aragem tênue que passou
tremulou,
caiu...

E a gota pequenina sobre a terra fofa
desapareceu,
e o esquife de cristal partiu-se, e pelo espaço
livre, o raio de luz ressuscitou...
fugiu...
..............................................................................

Eu conheço outra gota parecida:
a vida...


Humanismo

(A Romain Rolland - 1939)


Fale ele italiano, russo ou japonês,
alemão
ou chinês,
se lhe estenderes franca e livremente a mão:
- será teu irmão!

Fale ele português, inglês ou castelhano,
tenha nascido na Ásia, África, Oceania
ou seja americano,
se ao seu lado estiveres na hora do perigo:
- será teu amigo!

Fale ele italiano, russo ou japonês,
francês
ou o idioma que for,
se a tomares nos braços e beijar-lhe a boca:
- será teu amor!

Mas... pode ele nascer até na tua casa,
ter teu sangue nas veias
morar mesmo contigo
partilhando uma herança ou disputando um bem:
será teu inimigo!
............................................................................................

Volta, pois, para o teu lar, para o teu campo,
teu escritório ou tua oficina,
e larga essa arma assassina
que te trará remorsos, ou quem sabe? - horror
- e vive em paz com o teu trabalho, com teus amigos,
com o teu amor!

E vê se agora não erras ...
Tens a chave que explica o segredo de todas
as guerras!


Improviso Nº 3


Os poetas são os eternos marinheiro
que do alto dos mastros
sondando os horizontes,
descobrem, antes que todos, os sinais primeiros
dos mundo novos:

pelas aves do céu, a posição dos astros,
pela cor dos oceanos,
- profetizam na vida os destinos humanos
- antevêem na história o destino dos povos!

Também tenho o meu posto e o meu lugar
no alto do mastro, de onde sonho os sem-fins
do mar...
E cada vez que componho um novo poema
e a vibrar termino,
é como se avistasse, ao longe, a despontar
o ponto pequenino
- da coma verde de uma ilha que o azul descerra!

E grito então lá do alto, para o meu Destino:
- Terra! Terra!


Liberdade

(A Galdino do Vale Filho - 1941)


A liberdade é o meu clarim de guerra
e eu sou, no meu viver amplo e sem véus,
- como os caminhos soltos pela terra!
- como os pássaros livres pelos céus.

Ela é o sol dos caminhos! Ela é o ar
que os enche os pulmões! É o movimento!
Traz num corpo irrequieto como o mar
uma alma errante e boêmia como o vento!

Minha crença, meu Deus, minha bandeira!
Razão mesma de ser do meu destino!
- Há de ser a palavra derradeira
que há de aflorar-me aos lábios como um hino!

Liberdade ! Alavanca de montanhas!
Aureolada de louros ou de espinhos
há de cingir-me a fronte nas campanhas!
- há de ferir-me os pés pelos caminhos!

Sinto-a viva em meu sangue palpitando
seja utopia ou seja ideal, - que importa?
- quero viver por esse ideal lutando!
- quero morrer, - se essa utopia é morta!

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