quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Antologia Poética 2 - José Guilherme de Araújo Jorge


Luta de classes em uma cena


Querer subir
chegar ao altiplano capitalista da liberdade.

Desamarrar os punhos, os tornozelos, respirar como um homem
embora sem coragem de olhar para baixo
para não sofrer, para não apiedar-se de si próprio,
para não sentir remorsos,
evitando o olhar do seu semelhante.

Querer viver, realizar-se plenamente, sem transigências,
tocar corneta, fazer sorvete, dirigir bonde, lançar a ponte
pintar o quadro, compor o hino,
arrancar a lei, da necessidade evidente,
arrancar o dente,
perguntar pela urina, olhar a língua suja,
salvar a alma ou a esperança,
se este for o destino.

E então sentir que o trabalho é um canto
que a vida é música
e o destino, uma direção nítida e pura.
..........................................................................................................

Querer libertar-se, e sentir dia a dia mais emaranhados os pés
mais pesadas as mãos, mais nublados os olhos.
As crianças não cantam, as crianças são sombras
que amassam os ombros.

E ir transigindo lentamente, e descobrir que vai descendo
sem tocar corneta, sem lançar a ponte, sem arrancar o dente,
sem pintar o quadro, sem compor o hino
para não trancar o futuro aos que virão depois e esperam melhor destino.

Perceber então que nunca existiu realmente, que apenas vai seguindo
a colher o necessário, sem direito à palavra
sem direito a escolher.

E um dia, num surdo desespero, perceber que já é tarde
e que os filhos ficarão de pés emaranhados,
as mãos pesadas caídas, os olhos cegos abertos,
tal como ele, num destino que não muda
diante da mesma escalada,
- sem um degrau de ajuda...


Maquis

(Aos que ontem, e aos que hoje ainda, na França,

ou em qualquer parte do mundo lutam

contra as mais diversas formas de opressão)


Quando a morte chegou com seu hálito ardente
secando a terra, e enchendo a terra de terror
no recesso dos chãos, vigilante e impotente,
enterraste contigo o teu ódio criador!

Lá em cima, era o inimigo... o bárbaro invasor...
a massacrar teu poco impiedosamente!
E tu, vivo, a sofrer, como a raiz que sente
o golpe que mutila e mata a flor!

A flor da liberdade em mil golpes ferida
renascendo ao milagre da força e da vida
e a se multiplicar, - primavera de horror!

Desafiando imortal a fúria e a prepotência
a ensangüentar, florindo, os chãos da “resistência”
do “humus” do ódio gerando as árvores do amor!


Marcha fúnebre

(No dia em que Paris se
entregou sem luta - 1940)


O silêncio acusará... só o silêncio terá voz!

Em silêncio protestarão os bronzes das estátuas
de todos os heróis
- dos poetas, dos pensadores,
que impotentes assistirão á passagem triunfal
dos invasores!

E as ruas desertas... e as portas fechadas... e as casas
e as janelas cerradas
na mudez das fachadas;
e as cidades sem alma, ermas e frias,
e o olhar ausente das estátuas de órbitas vazias
- receberão o invasor
com o silêncio emocional da sua imensa dor
e das suas agonias!

E o ruído dos cascos nas pedras dos caminhos
violados
e nos campos abandonados,
e a algazarra triunfal,
- percutirão na alma da França como um dobre de finados
num funeral!

O negro asfalto do solo parecerá o luto
com que se cobrem as ruas e avenidas
humilhadas e ofendidas!

E a noite envolta em crepes, e a noite em luto intenso
não ostentará a feerie luminosa das estrelas distantes
nem os colares das luzes e os diademas brilhantes
dos letreiros iluminados!

E de luto estarão todos os olhos nublados
e sem esperança,
e os retratos velados
escondendo a visão de todos os gigantes
tombados pela França!

E de luto estarão as bandeiras em todos os mastros
e as árvores, e os pássaros, e os rios, e os astros,
e os mares, e as montanhas de granito
vestidas em densos véus,
- e os pirilampos na terra, e as estrelas no infinito
dos céus!

As hordas passarão... passarão... passarão...
E dias e noites, os ecos dos cascos, ecoarão... ecoarão... ecoarão...
nas solidões distantes...
- no silêncio sepulcral das cidades destruídas,
e nas almas, e nas feridas,
e nas ruínas fumegastes!

Que silêncio, meu Deus!... A França emudeceu!

No alto dos céus, o Sol estrangulado e exangue
num lago imenso de sangue,
tombou... e morreu!


Marinha nº. 1

Desmancha os meus cabelos, como fazes
quando estamos os dois calmos e em paz,
em vazio colóquio - quando estamos
como dois barcos quietos... junto ao cais...

Quando deixamos para trás o mar,
mar de impulsos, de sonhos e desejos,
quando o teu corpo é um barco ao meu comando
sacudido de ventos e de harpejos...

Já vencemos, os dois, cantos e vagas,
na aventura das horas dionisíacas,
deslumbrados com os próprios temporais...

Desmancha agora, amor, os meus cabelos,
como fazes nas horas de bonança,
quando somos dois barcos, junto ao cais...


Marinha nº. 2


Em teus braços, sou como um barco
desarvorado,
por roteiros perdidos...

E o meu desejo é este vento
que levanta procelas
em teus sentidos...

Ah! Morrer assim
como um marinheiro,
e mergulhar, e me afogar...
... e encontrar meu destino e meu fim
em teu corpo de mar...


Marinha nº. 3


Para mim, as ruas, as longas ruas,
são negros conveses imóveis
de um navio encalhado
num estagnado porto

Eu, sou um marinheiro morto.


Mascarados


Mascarados os dois. Eu, mascarado
na hipocrisia com que levo a vida,
tu, na aparência inútil e fingida
que usas na rua com o maior cuidado...

Passas por mim e segues ao meu lado
como outra qualquer desconhecida,
- quem há de imaginar nosso passado
e a intimidade entre nós dois perdida?...

Ninguém... Certo ninguém pensa e adivinha
porque eu não digo e porque tu não dizes
Que eu já fui teu... e que tu foste minha...

Mas, quantas vezes, amargurado penso
em como nos sentimos infelizes
no Carnaval do nosso orgulho imenso!


Meu céu interior

Se esses teus olhos, no meu livro, imersos,
encontrarem diversas emoções,
- não tentes decifrar... – mil corações
nós os temos num só, todos diversos...

Os meus poemas aqui, vivem dispersos,
como as estrelas... e as constelações...
- no céu das minhas íntimas visões,
no “meu céu interior...” cheio de versos.

Não procures o poeta compreender...
- Os versos que umas cousas nos desnudam,
Outras cousas, ocultam, sem querer...

Uns, são felizes... Outros, ao contrário...
- No rosário da vida, as contas mudam,
e os versos são contas de um rosário!...


Meu Mundo



Toda tarde digo para mim mesmo:
afinal, eis o meu mundo.

O mesmo beijo, o mesmo quarto claro, com seu assoalho brilhando
refletindo o meu passo;
as mesmas paredes brancas me envolvendo com afáveis gestos de paz;
o mesmo rádio silencioso, entre livros empilhados, a mesma estante fechada
que a um gesto meu descobre tesouros como velha mala de pirata.

Afinal, eis o meu mundo.
A mesma insubstitutível companhia, a mesma presença até quando longe dos olhos,
a mesma voz perguntando, a mesma voz respondendo,
o mesmo odor suave da janta, do tempero cozinhando,
a mesma impressão de quem chega de ombros nus e veste ajudado
um macio agasalho.

Afinal, eis o meu mundo.
Como o pescador solitário, diante do primeiro ramo:
- afinal, eis a terra!


Naufrágio


Estou burguês, estou cansado, estou aflito,
vou morrendo sem socorro, inconsciente
como um marinho bêbedo.

Miserável regime que no primeiro porto
Me fez levar minh'alma ao mercado e a oferecer
em troca de uma passagem de volta.


Noite


Há na expressão do céu um mágico esplendor
e em êxtase sensual, a terra está vencida...
- deixa enlaçar-te toda... A sombra nos convida,
e uma noite como esta é feita para o amor...

Assim... - Fica em meus braços, trêmula e esquecida,
e dá-me do teu corpo esse estranho calor,
- ao pólen que dá vida, em fruto faz-se a flor,
e o teu corpo é uma flor que não conhece a vida...

Há sussurros pelo ar... Há sombras nos caminhos...
E à indiscrição da Lua, em seu alto mirante,
encolhem-se aos casais, os pássaros nos ninhos...

Astros fogem no céu... ninguém mais pode vê-los...
procuram, para amar, a noite mais distante,
e eu, para amar, procuro a noite em teus cabelos!...


O Sábio
(1939)


Em meio da algazarra atordoante das partidas,
e a zoeira das alegrias
dos risos
dos foguetes,
dos trens transbordantes de quepes,
dos navios com canhões e mastros embandeirados,

ele conteve nos olhos uma lágrima grande
e brilhante...

Se perguntassem ao homem sozinho porque estava chorando
ele havia de dizer:
- estes que riem e cantam ainda estão partindo!
Eu... já estou voltando...


Oh! Não será isto a alegria?


Numa hora calma, sentar-se a sós, tomar um livro de páginas fechadas
cujo conteúdo pressentimos, pelo autor, nosso velho conhecido,
e abrirmos página por página, levantando aqui e ali
sem nos contermos, curiosos, uma palavra, como um véu sobre a beleza ignorada,
a beleza que desponta, como o sol que irradia.

Oh! não será isto a alegria?

Receber uma carta, uma carta simples, de uma desconhecida

num, domingo de manhã, e antes do jornal, abri-la conjecturando,
e encontrar uma alma irmã, ardente e solitária
que nos faz confidências e amplia nossos limites
numa imprevista harmonia.

Oh! não será isto a alegria?

Esperar alguma noite, um amigo que não perturbará a nossa intimidade
que beberá conosco o mesmo vinho, ouvirá a mesma música
cuja cadeira o destino colocou ao nosso lado na mesma mesa do passado
com quem partilharemos nossos planos e nossas esperanças
e a quem gostaríamos de chamar de irmão
numa hora de Paz ou de agonia...

Oh! não será isto a alegria?

Despertar sobressaltado, voltar o rosto e encontrar
ao seu lado, sereno e confiante, o rosto da companheira que dorme,
pousar nossa mão sobre a sua, e adormecer sem remorsos
numa profunda poesia..

Oh! não será isto a alegria?

Trazer o corpo vencido, os nervos doídos, exaustos,
e aberta a porta, encontrar as coisas nos mesmos lugares:
nossa cama, a nossa mesa, os nossos livros, a nossa companheira,
tudo no mesmo lugar, em paz, fielmente à nossa espera
todo dia...

Oh! não será isto a alegria?

Manhã clara de primavera, calção de banho, o sol no peito,
sem dívidas e pecados, invejas ou remorsos,
encher de ar os pulmões diante da praia iluminada,
e atirarmo-nos de encontro às ondas e nadar contra o horizonte
de um novo dia. . .

Oh! não será isto a alegria?


Oito Poemetos

Alegria

Há um canto de pássaros no raio de luz
que pousou na janela.


Brinde


Sirvamos na taça
a palavra e a música


Canto


Um pássaro pousou na palavra e deu asas
ao coração...


Carícia


Foram tuas mãos... ou apenas o sol que saiu de uma nuvem
para tocar-me...


Esperança


A face impassível e lúcida do espelho
ainda se turva...


Inquietação


Não são as ondas, não são os ventos...
Nos rios subterrâneos de meu sangue
há velas brancas, desesperadas...


Pessimismo


Há estrelas no céu, há vermes na terra,
há algas no mar...
Só eu nasci homem...


Sensual


Eram dois bicos, como dois bicos de aves,
só que tremiam sob o teu vestido...


Orgulho e renúncia


Não penses que a mentira me consola:
parte em silêncio, será bem melhor...
Se tudo terminou a tua esmola
meu sofrimento ainda fará maior...

Não te condeno nem te recrimino
ninguém tem culpa do que aconteceu...
Nem posso contrariar o meu destino
nem tu podias contrariar o teu!

Sofro, que importa? mas não te censuro,
o inevitável quando chega é assim,
- se esse amor não devia Ter futuro
foi bem melhor precipitar seu fim...

Não te condeno nem te recrimino
tinha que ser! Tudo passou, morreu!
Cada qual traz do berço seu destino
e esse afinal, bem doloroso, é o meu!

Estranho, é que a afeição quando se acabe
traga inútil consolo ao nosso fim
quando penso que ainda ontem, - quem o sabe?
tenha sentido algum amor por mim...

Não procures mentir. Compreendo tudo.
Tudo por si justificado está:
- não tens culpa se te amo... se me iludo,
se a vida para mim é que foi má...

Vês? Meus olhos chorando estão contentes!
Não fales nada. Vai! Ninguém te obriga
a dizeres aquilo que não sentes,
nem eu preciso disto minha amiga...

Parte. E que nunca sofrer alguém te faça
o que sofri com o teu ingênuo amor;
- pensa que tudo morre, tudo passa,
que hei de esquecer-te, seja como for...

Pensa que tudo foi uma tolice...
Só mais tarde, bem sei, - compreenderás
as palavras de dor que não te disse
e outras, de amor... que não direi jamais!


Orgulho

(A Sócrates Dinis - 1944 )


Quando todos começarmos do chão como as sementes
como as árvores fortes, como as árvores úteis,
e não houver parasitos dos ramos alheios;

quando a terra pertencer aos homens, como aos rios
que a fecundam sem ver cercados nem fronteiras;
e tudo o que existir e o que for encontrado,
a água pura, o petróleo, o ouro, o fruto agreste,
não tiver donos também, como as auroras e os crepúsculos,
como as estrelas e a noite, como as nuvens e o sol;
quando houver sempre um teto sobre todas as cabeças
resguardando-as das chuvas, protegendo-as dos ventos,
como há sempre sobre nós o côncavo dos céus:

quando todos tiverem jardins, flores e pássaros,
ou crianças barulhentas, sadias e tagarelas,
e tiverem a horas certas, na mesa branca, o pão,
e a horas incertas, no leito, o remédio necessário;

quando o trabalho for leve alegre como a música
nas horas de prazer e despreocupação,
e em verdade, for a alegria e a música da vida;

quando a boca que se abre pela primeira vez
tiver um seio farto e o cuidado da ciência;
e a infância, liberdade, brinquedos e recreios,
e a juventude, livros, planos e companheiras,
e os homens todos, os mesmos meios de conquista,
e já não existir medo do mundo nem da vida
porque a vida e o mundo estarão ao nosso alcance;

quando a velhice não tiver mais receio do tempo
porque o tempo a levará em segurança ao fim;
quando já não houver trabalhos dignos e indignos
porque todas as parcelas estarão na mesma soma,
e o sábio e o operário, o artista e o camponês,
seguirem, paralelamente, os seus caminhos,
sem nunca se encontrar, mas sem humilhações;

quando as gramáticas e as raças não separarem os homens
porque todos se entenderão sem raças nem gramáticas,
e verão que mais além das cores e dos idiomas está o Homem,
- e só por isso, somos iguais e irmãos;

quando nossos filhos crescerem sem a angústia do futuro
e nós vivermos em paz sem as incertezas do presente,
e já não restar vestígios do ódio perdido no passado;

quando todos os templos erguerem sobre a terra
suas torres minaretes, cruzes ou abóbadas,
e sobre eles mais alto o céu se desdobrar
para que todos os olhos se encontrem e se compreendam;
quando todos começarmos do chão como as sementes
embora os galhos se elevem às mais várias alturas
e façam sobre o solo as sombras mais diversas;
e todos forem donos de seus próprios pés
e todos forem donos de suas próprias mãos,
e do seu pensamento, e do seu coração;

quando enfim, nos tornarmos Senhores de nós mesmos,
e não houver falsas leis servindo aos poderosos
e a justiça socorrer, na rua, aos homens todos;

quando chegar o momento em que a força será inútil
porque todos seremos fortes e nada nos vencerá,
e não houver grades nos olhos, e não houver ferros nos pulsos,
nem morais absurdas que nos deformem e domem:

- então, sim, bendirei o instante em que nasci
e sentirei o orgulho imenso de ser homem!


Os versos que te dou



Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
- eu farei versos...e serei feliz...

E hei de faze-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei depois
relembrar o passado de nós dois...
- esse passado que começa agora...

Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás de escuta-los - sem ninguém que
possa perturbar vossa ventura...
......................................................................................
Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia mais tarde, revive-los nas
lembranças que a vida não desfez...

E ao lê-los...com saudade em tua dor...
- hás de rever, chorando, o nosso amor,
- hás de lembrar, também, de quem os fez...

Se nesse tempo eu já tiver partido e
outros versos quiseres - teu pedido deixa
ao lado da cruz para onde eu vou...

Quando lá, novamente, então tu fores,
pode colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou!...


Palavras ao homem cético


(A Monteiro Lobato - 1943)



Não troques (tu que realmente tão pouco tens de teu,
tu que não tens nada além do ar que respiras,
do sol que te aquece, das estrelas do céu,)
- não troques por nada deste mundo
oh! meu irmão,
o teu direito de sofrer, de lutar e de morrer,
pelo teu pensamento
e pela tua convicção!

Por em verdade te digo, que nada vale mais
do que esse sofrimento amplo e profundo,
que nada vale mais que a tua liberdade
não importa que esteja sujeita aos rigores da vida
ou à intempérie do mundo!

Vive por ela, sofre por ela, morre por ela,
e terás para a tua vida, ou para a tua morte
a mais sublime razão,
e por pior que a tua vida tenha sido,
terá sido uma Vida, e terás sido um Homem! oh! meu irmão!

Não troques jamais os percalços e os sofrimentos,
as incertezas e os perigos
da tua independência,
nem tolhas a ousadia da tua consciência
e as ânsias do teu coração,
- por esse bem-estar da subserviência
ou pelo comodismo humilhante e bastardo
de qualquer escravidão!

Que te bastem, se preciso, o ar, o sol, as estrelas,
as alvoradas e os crepúsculos, o mar e o céu,
que não são de ninguém,
mas não vendas tua alma por um pouco de ouro
nem troques teu destino por uma migalha
que ao te matar a fome
te destrói também!

Que te bastem, se preciso, os caminhos do mundo
que nunca tiveram dono
desde a mais remota idade,
e que num mundo a seguir, em rebanhos, tocado,
pejas tu, o animal indócil, desgarrado!
- da liberdade!


Não traias teu ideal por fraqueza e impaciência,
antes vela o silêncio digno, e atento, aguarda
o instante em que terás de lutar por aquilo
que é de todos os homens, e portanto, é teu!
Que, às vezes, como o sol, a liberdade tarda
mas como o sol também, ela não falha nunca ,
e será tanto mais bela
quanto mais negra a noite que a antecedeu!
.......................................................................................................

e mil vezes bendito serás, na tua espera ansiosa, na tua revolta,
e no teu viril insubordinamento,
porque então compreendeste o silêncio da nossa dor
e a beleza heróica
do nosso sofrimento!


Paraíso perdido



Penso isto: penso que devemos fugir para nos mesmos.

Não são apenas os amigos que nos levam sem reação,
são os cinemas, os teatros, as horas que perdemos nas ruas
quando nosso quarto se fecha silencioso, sem tempo
e esperanças.

Não são apenas as horas que o trabalho me rouba
inapelavelmente, e que não me serão devolvidas.

É a nossa vida, feita sem tempo e de desencontros,
sem pausa para a criação, sem paz para o recolhimento,
sem silêncio para o pensamento, sempre ininterrupta,
passando por nós, enquanto nos deixamos ficar sem alcançá-la...

Penso isto : só a fuga para nos mesmos seria a salvação.
Conheço um amigo pintor que se encontrou em Itatiaia
e ouve o canto dos pássaros e das águas junto às Agulhas Negras.

Meu amor: sinto que vamos chegando à hora em que
devemos voltar ao Paraíso,
ou jamais o reconquistaremos.


Pausa


Tinha vontade de nesta curva, parar um pouco e te dizer:
vamos olhar para trás, vamos ver a paisagem que possuímos,
o caminho que fugiu de nossos pés
e na pausa, retocar o quadro que parece se esvair
se não lhe dermos novas tintas com as nossas lembranças.

Temos andado demais, despercebidos de nos mesmos e de tudo,
desprezamos as emoções que já, encheram tantas horas
e uma sensação de vazio nos vai tomando pelas mãos
e vai chegando ao coração
como um hálito frio.

Vamos para de conversar. Tenho certeza de que
ao falarmos sobre nós mesmos
revolveremos o calor que permanece e reencontraremos
o prazer
que nos tem abandonado, neste mundo tão cheio de gente
desnecessária e prejudicial ao nosso sonho.

Quem como nós tanto andou e de tão longe vem
repartindo o mesmo sonho
traz certamente no coração o destino da eternidade.


Penitência


Às vezes, me envergonho
de alguma ajuda recebida
quando sei que há tantos homens mais necessitados,
sem um gesto de apoio ou de acolhida.

Me envergonho de gozar meu reduzido conforto
quando sei que há tantos homens inteiramente desabrigados,
sem destino nem porto...

Me envergonho de meu egoísmo a se chamar de altruísmo
quando dou uma esmola e continuo para a minha sessão de cinema.

Me envergonho do pouco que afinal tenho conseguido
(embora eu bem reconheça meu esforço e resistência),
quando sei que há tantos homens inteiramente exaustos,
sem uma recompensa nas mãos asperamente feridas.

Me envergonho de meu nome, - única herança recebida,
do meu plano, - conquistado lentamente do chão,
mas enfim, conquistado,
quando sei que há tantos homens surgindo do anonimato
vindos de profundezas abaixo do nível do mar
num esforço desesperado!

Me envergonho de meu otimismo transparente em meu canto
de cada dia,
quando sei que tantas vidas serão humilhadas com isto
e tantos ouvidos serão afrontados pela minha alegria.

Me envergonho de minha saúde tão bem protegida, ostensiva,
quando sei que há tantos homens se arrastando vencidos
e tantas crianças que nem mesmo hão de chegar a ser homens.

Me envergonho do meu prazer, do meu entusiasmo de posse
do meu orgulho inútil,
quando sei que há tantos homens tristes, aniquilados,
e há outros tantos, superiores, que se entusiasmam na renúncia.

Às vezes, me envergonho de mim mesmo, nessa impressão
de que devia saber ser mais útil, mais humano,
como fazer alguma coisa, de algum modo que deve existir,
para que todos sejamos melhores e para que nada nos envergonhe.


Pequeno canto do dia burguês

No apartamento pequeno que comprei com o meu trabalho,
(Oh! A angústia das letras que se venciam inexoravelmente
cobrando juros de mora)
- olho uma nesga de mar.

Acompanho atrás dos altos edifícios retalhos de sol-posto
e largos pedaços de sombra vão caindo nas ruas.

Lá embaixo, por entre as árvores imóveis
passam banhistas retardatários e ouço seus risos despreocupados.

Sentei-me aqui, esqueço o corpo, enquanto a tarde envolve as coisas
tecendo véus imponderáveis.
Na parede, nos vasos vermelhos, dois ramos pequenos
timidamente ensaiam suas folhas verdes em decoração.

Oh! O egoísmo desse momento da volta, dessa paz burguesa
sem remorsos
explicando-se em compensações,
quando os limites do mundo cabem num pequeno apartamento
nesta varanda, nestas cadeiras, neste jarro da mesa,
neste momento de abandono.

Ainda sinto no corpo a ducha forte do chuveiro.
Meu pijama leve não me deixa pensar senão coisas leves,
e tenho os pés livres, puros e primitivos, como pés gregos
em sandálias olímpicas.

Longe ficaram agora a algazarra da cidade, o esforço despendido,
o trabalho inútil que rende, que cansou e venceu...

Sentar-se e respirar... Sentar-se um pouco, em silêncio
sem ligar o rádio, sem abrir o jornal, sem pronunciar uma palavra.
- para que mais?


Poema nº 12
(Mãos cosmopolitas)



Minhas mãos
cosmopolitas,
minhas mãos aflitas,
acenam sempre lenços brancos de adeus
invisíveis
para invisíveis cais;
- meus pés
vagabundos,
nostálgicos dos caminhos
de todos os mundos,
recalcam fugas impossíveis
e querem seguir mais
sempre mais,
aonde os levem meus desejos;
meus olhos querem partir
à procura de sonhos!
- meus lábios querem se abrir
à procura de beijos!


Poema nº 13
(Alma Poliglota)



Minha alma desejaria ser a maleta poliglota, cuja epiderme ficou tatuada
com os prospectos dos mais distantes hotéis,
dos mais diversos lugares...
- oh, o tédio de não conhecer azáfama das malas que se fecham,
que sempre se fecham na antevisão de itinerários
extraordinários,
por céus, por terras e mares...

Minha alma desejaria ser o desabrigado convés das torres de comando
e dos mirantes
no alto dos mastros,
onde cantam os ventos de todos os quadrantes
e onde batem todos os sóis,
- para sondar, lá do alto, os mistérios dos horizontes distantes,
e as estrelas, e os astros,
e sentir-se em colóquio infinito com o mar
inteiramente a sós!


Poema nº 15

A vida
Já está nos nossos olhos refletida
desde o primeiro instante em que os abrimos,
- é essa paisagem que encontramos
e penduramos
na parede do quarto onde dormimos...

A vida
vive escondida sob um véu,
no meu olhar de sonho ardente e vago...
- é um mesmo trecho de céu
no fundo de um mesmo lago...


Poema Nº 16
(Pobre Alma Triste)


Quero abrir a minha alma inteiramente ao sol,
(pobre alma triste e encardida)
- para ver se ela perde esse cheiro de mofo
que se impregnou em minha vida ...

Alma ao sol, para quarar,
- alma ao sol-
como ao sopro do vento à beira de um caminho
a acenar, numa corda, estendido e seguro,
um branco lençol
de linho,
alvinitente e puro!


Poema do Cotidiano


Ouço a moça que estuda piano no apartamento defronte
e outra que há um ano sobe e desce intermináveis escalas.

Ouço o choro de quatro meses da criança que brotou ao lado
num tempo ainda virgem, sem relógios.

Ouço o pregão dos garrafeiros,
a algazarra dos meninos na rua,
a mãe que chama o filho há milênios
e continuará chamando pelos séculos afora.

Ouço a buzina - sinal, do carro último tipo, elegante
que parou à espera do último pedaço de novela.

Ouço um chiado de frigideira, um rumor de água batendo
uma voz que faz pão de trigo e música.

Acima de tudo, ouço pela madrugada
esse canto do mar que transfigura as coisas, enche a noite, e leva
sobre as vagas, imagens, como restos de um naufrágio.


Poema para a mulher que passou...


Quando ela passou por mim, indiferente
e distraída,
surpreendi-me a pensar, sem querer, de repente
em minha vida ...

Fiquei a imaginar que se lhe acompanhasse
os passos,
num lindo dia como o de hoje,
cheio de sugestões para os nossos desejos,
- talvez ela acabasse por me olhar, sorrindo,
e mais tarde talvez me desse as suas mãos,
e algum dia ficasse abrigada em meus braços
e quisesse os meus beijos...

Se eu a seguisse, ela que nunca me viu,
[e passou distraída
como se eu nem a visse,
se eu a seguisse
pela rua
em meio a tanta gente,
- talvez se transformasse toda a minha vida,
e ao encontro da sua,
minha estrada tomasse um rumo diferente...

No entanto ela se foi... E enquanto eu me deixava
a pensar,
quem sabe se não levou a metade dessa alma
que seria talvez a única metade
capaz de me completar?

Naquele segundo, - pressentimento estranho,
intuição fugaz,
- quis correr, ir buscá-la...
Corri! ... Fui procurá-la
e era tarde demais...

Acaso já pensaste, na grandeza trágica desse segundo
irremediavelmente perdido?
Quem há de nos dizer se ele encerrava um mundo,
esse mundo por nós sonhado há tanto tempo
e há tanto tempo esperado
e querido?

Quem há de nos dizer algum dia, se ele era
a única oportunidade,
que o Destino avarento e impiedoso nos dera
para a felicidade?

Ninguém! ... E ele passou!... Pensa um momento na grandeza
desse segundo atroz,
e terás a intuição dolorosa, a certeza
de que é precisamente num segundo desses
que a felicidade
passa por nós!

Queres correr, é em vão!
Hoje estou certo
que nessa angústia eterna ficarás talvez,
- porque a felicidade que passou tão perto
da tua mão
só passa uma vez!


Posição



Se chegares a um pais estranho, e encontrares
a mocidade e o povo nas ruas,
os políticos discutindo, os generais
em reunião...

Se quiseres saber com quem está a verdade
pergunta: - de que lado estão os trabalhadores
e os estudantes,
de que lado eles estão?


Precipitação

(1943)


Não, não te julgues superior ao mundo
porque há alguém que te estende humildemente
a mão,
e porque podes chamar de vagabundo
a um teu longínquo irmão...

Pára um momento e pensa, - pensa no que tu és:
tu tens coberta a cabeça, ele, tem nus os pés...
- pensa no que teria sido aquele vagabundo
se lhe dessem os mesmos meios que tiveste
para enfrentar o mundo

Pensa, e verás,
que os papéis se inverteriam de repente:
- ele, estaria onde estás,
e tu, estenderias tua mão vazia
a toda gente...
..................................................................................................

Não, não te julgues superior, com precipitação, -
pode ser ignorância, ou talvez inconsciência, meu irmão...


Prédica inútil

(A Lima Brandão- 1944)


E porque os homens falaram do céu
e esqueceram a terra
falaram em vão...

E porque os homens quiseram santos e deuses
em lugar de homens,
não tiveram nem santos, nem deuses, nem homens...

Em cima há o céu
mas em baixo há a terra;
o essencial é que em baixo há a terra ,
a terra que tudo dá, a terra que tudo encerra,
a riqueza e a poesia, -
- a terra onde há pés e arados, onde há rios e árvores,
a terra de onde viemos e para onde voltaremos
um dia ...

O essencial é que os nossos passos estão na terra,
e na terra é que corre a água do céu, e da terra é que sobe
a água do céu;
e da terra é que sobe a ave do céu, e na terra é que pousa
a ave do céu;
e da terra é que crescem as sementes, os galhos, as flores
e os frutos;
e na terra é que se ergue o teto; na terra é que oscilam os berços
e os ninhos;
e da terra é que sobe o fumo! - porque tudo é a terra
porque tudo é da terra,
e porque nela se perdem todos os caminhos...

E porque os homens falam do céu
há quase dois mil anos
e esquecem a terra
- não atingiram o céu
nem conquistaram a terra...

Lembrai-vos, oh meus irmãos, de que se esquecerdes a terra,
a terra que tudo dá,
- ela que é boa e farta - há de ser sempre amarga
há de ser sempre ma, -
os homens, famintos, comerão todos os deuses
e nada restará...


Procura



Vou seguindo meu caminho
a procurar-me.

Estarei na estrela? Na vaga do mar?
Atrás da montanha? Na água que corre
estarei?

Na rua, no avião, no pássaro livre
no gesto do galho, na gota de chuva,
na rosa vermelha, no canto da criança
estarei?

Difícil é achar-me
disperso me encontro
na face das coisas
que chegam, que passam

Um olho no rio, um pé no caminho,
o sangue na aurora, as mãos pelo mar,
quem sabe onde estou?

Talvez passe junto a mim mesmo, quem sabe?
Me olho nos olhos, me toco nas mãos,
me falo e respondo
não me reconheço.

Vou seguindo meu caminho
a procurar-me.


Pureza


Vinde, ó mulheres puras!
Trazei a vossa beleza cheia de gestos ingênuos, ternuras
e recatos,
e vossa carne adolescente que desconhece contatos,
e vossos lábios cerrados que não provaram beijos
e vossos olhos claros nunca turvados pela sombra dos desejos!

Trazei-vos a vós mesmas, afinal,
nos vossos corpos virgens, nos vossos braços,
para a tatuagem sentimental
dos meus desejos
e dos meus abraços!

Trazei as vossas formas desconhecidas, para a curiosidade e as loucuras
das minhas mãos,
e os livros de páginas fechadas dos vossos corpos inéditos
para os meus olhos que se cansaram de relidas
e estragadas
brochuras,
- vinde! trazei as vossas ânsias irreveladas
e as vossas vidas,
ó mulheres puras!

Trazei à noite dos meus sentidos perdidos em brumas
a alegria dos vossos contornos cheios de ondas e espumas
e das vossas carnes mornas e enluaradas...
- vossos olhos serão estrelas num trecho azul da noite
entre nuvens serenas,
e eu já não seguirei entre sombras apenas
e lampiões de olheiras roxas e viciadas!

Deixai que eu me purifique em vossos braços
e mergulhe a cabeça em vossos seios
e desmanche com as mãos vossos cabelos!
Ensinai-me orações, pra que eu as possa dizer
aos vossos ouvidos,
orações de amor puro, feitas de anseios
e desvelos!

- deixai que purifique os meus sentidos
encardidos!

Que eu quero a pureza,
quero a beleza,
quero a luz,
quero o sol,
quero o calor!
- dos vossos lábios puros,
dos vossos corpos nus,
do vosso imenso amor!
......................................................

Vinde! E as minhas mãos despertarão em vossos sentidos
as melodias ignoradas dos vossos instintos,
e acenderão em vossas carnes adolescentes
lampejos
ardentes,
E os vossos lábios sangrarão retintos
aos meus desejos,
e os vossos seios florirão aos meus lábios famintos
de beijos!

As minhas mãos “virtuosas”, onde tumultuam tantos sentimentos
e tantos seres
acordarão em vossas formas suaves
cheias de gestos de aves,
e em vossa carnes rijas e macias
as alegrias do amor, as supremas alegrias
de todos os prazeres!

Acordarão em vossos corpos todas as indizíveis delícias,
e meus dedos nervosos saberão compor
“prelúdios” de carícias
e “noturnos” de amor!


Vinde! E eu improvisarei sobre o teclado branco desses instrumentos,
nos mais delirantes momentos,
os mais delirantes motivos
de amor,
e ficará ressoando nos infinitos mundos
obscuros
dos vossos ventres fecundos
e puros
a melodia imortal do meu sêmen criador!


Quando


Quando o pano das pálpebras cair
sobre o palco fechado das retinas
que já não podem ver,
e onde passaram todos os bonecos
e fantoches, que em vida me ajudaram
na pantomima estranha do meu Ser...

Quando as últimas luzes se extinguirem
após os derradeiros obstáculos,
e ficarem vazias minhas órbitas
como os grandes anfiteatros silenciosos
depois dos espetáculos...

Quando sobre o meu peito as minhas mãos de cera
gélidas se entrelaçarem
já sem vida,
como que se despedindo mutuamente
na última despedida...

Quando dentro da rocha do meu peito
o coração morrer... não pulsar mais,
e ficar enterrado no meu corpo
como os diamantes no interior da terra,
- trocando a sua vida humana e triste
pela vida feliz dos minerais...

Quando sobre os meus lábios entreabertos
ficar sorrindo um último sorriso,
- esse mesmo sorriso das estátuas
e dos corpos que uma alma já não tem...

Que ninguém chore ao meu redor!... Ninguém!

Mais razões haveria para o pranto
no instante em que no mundo despertei!...
E quem chorou? Ninguém chorou!
- no entanto
que ridículas festas me fizeram,
até parece que nascia um rei!

Que ao vir portanto o derradeiro dia,
o fim do meu penoso despertar,
- que haja música, risos e alegria
e que eu, apenas eu, tenha o direito
de, ao deixá-los na vida, interiormente
no meu sorriso à morte,
soluçar...


Relance



Seus cabelos enchendo o vento de ritmos e reflexos
no ônibus em disparada
era poesia.

E um pensamento: quem beijará o seu pescoço branco?
Quem colherá os seus cabelos, quem?


Resposta ao Poeta Itabirano

(De um pronunciamento na Câmara dos Deputados por ocasião do 50.º aniversário de sua atividade literária)

À Carlos Drummond de Andrade



Sim, triste, orgulhoso, de ferro,
em sua poesia; entre tímido e terno
em seu próprio embaraço;
mas ferro que não enferruja
que o tempo desafia com um brilho eterno
de aço.

É triste, mas com uma tristeza mansa,
contida,
sem razão,
que envolve como uma nuvem, um xale, uma lembrança
querida
e torna menos frio o nosso mundo
e menos só a nossa solidão.

É orgulhoso, talvez, um orgulho guardado
humilde, com medo de se mostrar,
mas que todo se derrama em palavras, tornando
poesia,
e desabrocha puro - que alegria!
como uma flor no ar.

O resto, Poeta, é o tempo, impassível moinho
que em sua mó (parece mentira)
tudo mói!

E diante dela, a vida, uma outra fotografia de
Itabira
na parede.
Tem razão:
como dói!


Retrato da infância (dez anos)


(Em Rio Branco, no Acre)



O “velho” pigarreando
de chinela, de pijama,
despacha papéis na sala.
O anspeçada no alpendre,
o milharal com penachos
as saúvas carregando
como fardos, grãos de milho;
arma o tempo, baixa o tempo,
barrica cheia entornando
cantando em baixo da calha.

Que bom o banho na chuva!
Chuva boa, chuva forte,
veio andando na floresta
fazendo que nem besouro,
abriu cacimba na rua
que virou igarapé;
o milharal se sacode
como galinha no pó,
sacode as folhas molhadas,
cada espiga, - que indecência!
sai da braguilha do pé
potente, como órgão macho.

Junta de boi arrastando
madeira pra serraria,
moleque trepa nos toros
como garça, rio abaixo
no tronco da castanheira;
o carro de boi passando
rodas, gingam, rodas gemem,
tocando harmônica triste
que nem aquela da venda
quando a solidão entorna
saudade no seu Manuel.

O “velho”, sem ordenança,
afunda na rede, ronca,
os punhos rangem nos ganchos
as franjas sujam no chão.
Só bem mais tarde, à tardinha,
os amigos vão chegando:
o promotor, o juiz,
o comandante da força,
seqüência, trinca, risada,
janta chegou à cozinha
café quente queima a língua,
gargalhada, palavrão.
- “cuidado que a D. Zilda
está na sala de jantar.”

-”Menino corre no Juca
(uf! que calor danado!)
traz “pega pinto” pra todos
faz bem aos rins, sim,senhor!”
O rio verde engordou
com o repiquete que desce,
parece cobra jibóia
entupida com o repasto.
A cobra foi beber leite
a vaca morreu inchada
bezerro ficou mugindo
noite toda no curral,

O carneiro branco, forte,
(presente de aniversário)
leva o Guilherme a passear,
tem cabresto, arreios, tudo,
de repente dá marrada
no carneirinho do Chico.

Tempo bom! Engenho rude,
boi rodando, boi rodando,
- que pena no olhar do boi!
Moenda geme sozinha,
garapa sempre escorrendo
tachada de mel virando
rapadura se fazendo,
cana raspada prontinha,
“alfim” branquinho, puro
que nem o sonho de Eudóxia.

Festa no Grupo Escolar:
eu apache, ela duquesa,
pulseirinha feito cobra
que o preso fez na cadeia
- tem meu nome, o nome dela;
coloco no braço dela,
- primeira algema de amor.
Santinho passado na aula
castigo da professora,
coisas que a gente não diz
atrás do pano do palco.

Caruso estica o pescoço
no gramofone da escola,
canta, canta, toda a vida
a voz não toma xarope.

Sanhaçu voa na mata
baladeira estica, estica,
pedra parte não vem mais.
Banho no rio, barulho
de cascavel chocalhando,
a roupa ficou perdida
na canarana da beira,
- correia enrola na carne
molhadinha, como dói!

Friagem entra na noite
arrepia o rio todo
como corpo de caboclo
que impaludismo pegou,
treme a noite, sua frio
na cobertura de zinco,
soalho fica molhado
goteira pinga na sombra.

Manhã. No alpendre vazio
caiu passarinho morto.

Luz da Usina, candieiro,
o mosquiteiro parece
pano de circo esticado,
carapanã vai e vem.
Nova sessão no “Casino”
fumaceira, gargalhada,
o Distrito Federal fica
a dois meses dali.

Bicho do pé, mucuim,
melão S. João Caetano,
cajazeiro leva pedra
manhã cedo na floresta,
cajá salpicou de ouro
o chão molhado, da noite.
Bago de ingá desafiando
queda na cerca de arame,
sangue na perna, - que susto
na cara de D. Zilda
antes da surra chegar.

Lição de coisas: o touro
e a vaca pastam no campo;
o cavalo e a égua cruzam
nos terrenos da Intendência
à vista de D. Zefa
e do padre Bernardeli.
A molecada faz roda
seu padre faz que não vê.

Manhã cedo no Mercado
o saco de açúcar preto
boca aberta, rindo, rindo;
paneiro, farinha d'água,
e vem o filho do chefe:
mão mexendo, corre, pula,
ninguém prende, ninguém toca,
- “molecada descarada!”

Em cada rua um quintal
mangueiras pesadas, cheias
de sombras, -frutos vermelhos,
manga espada, manga rosa,
manguita doce, tão doce,
como o alfinim da engenhoca;
cajueiro carregado
D. Zilda faz saquinho,
- surpresa do passarinho,-
voou pro quintal do lado.

Bandeirinha de papel
coreto armado na rua,
a banda passa tocando
sargento Zeca, - que pose!
a garotada, - lá vai!

Sino tocando, tocando,
foguete no ar estalando,
vestido novo de seda,
“chata” trouxe de Manaus;
cara pintada, cabelo
com fita grande, parece
que borboleta pousou
na cabeça da Nininha.

Roupa branca, meia branca.
camisa branca, sapato
branco, tudo branco,
parece até comunhão.
mas não é, - é festa só

Catraias brincam no rio
“gaiola” apita, regata,
barranco vermelho, cheio
com a sarna da roupa branca.
- pessoal enfarpelado.

Olho d'água bem debaixo
da casa de meu avô.

Meu Deus, quanta coisa, quanta
coisa mesmo se passou.
Será que isto tudo é meu
ou foi alguém que contou?


Revelação



Meço a profundidade infinita dos céus
quando encontro o seu olhar azul
no meu olhar...

... e sinto o peso morto de meu próprio corpo
como as velas abertas devem sentir o peso
dos barcos sobre o mar...


Se...


Se eu pudesse parar a minha vida
e dar eternidade a um só momento,
se eu não tivesse o meu destino preso
ao destino das coisas nos espaços...

Se eu pudesse destruir todas as leis
e dentro do Universo que se move
para meu mundo:

havia de escolher esse segundo
em que Você estivesse nos meus braços!


Silenciosamente


Seguimos assim, juntos, felizes,
Juntos, felizes, pela vida a fora...
- Tu, no silêncio em que mais coisas dizes!
- Eu, no silêncio em que me encontro agora!

Meu passo há de seguir por onde pises!
E a tua mão, que em minha mão demora,
há de, com o tempo, até criar raízes,
unindo vida a vida, hora por hora...

Seguiremos assim, como bem poucos,
bendizendo na nossa trajetória
os que souberam como nós ser loucos...

Loucos de amor, ébrios de amor - seguindo
para um mundo de sonhos, para a glória
do silêncio que vamos repartindo!


Sobre a alegria


(Deliciosa ironia!
Acaso alguma vez também já te espantaste
quando riste?)

Pois bem, minha alegria
é às vezes exótica maneira
de ser triste!


Tédio...



Vontade preguiçosa de apanhar meus nervos
e fazer uma rede para me deitar...

e fechar os meus olhos, como que cansado
de olhar...

e dormir, mas dormir esse sono das pedra
que não podem sonhar...

ser folha, folha morta, caindo
embalada pelo ar...

barco solto, sem leme, sem velas, sem nada
ao sabor inconstante do mar
a boiar...

Vontade preguiçosa de encostar a vida
num canto,
para descansar... .

E soltar-me em mim mesmo, e soltar-me, e cair
e deixar-me ficar,
sem ter vontade ao menos para bocejar...

Ah!...
Vontade preguiçosa de não terminar
estes versos morrendo em ar... em ar... em ar


Tragédia


Deveríamos ter dito - há quantos anos?
- agora que nos amamos, podemos separar-nos
para que subsista o amor.

Mas não poderíamos adivinhar que fracionaríamos o amor
toda vez que nossas mãos se encontrassem,
e que o mutilaríamos, ao juntar nossas bocas,
e realmente o abateríamos a pouco e pouco, a cada síncope de prazer
no delírio da posse.

Deveríamos ter dito um ao outro - há quantos anos?
- agora que encontramos o amor, permaneçamos em solidão
anjos da guarda de nosso sonho -
e que ninguém o toque, nem nós mesmos, pois nossos desejos perdulários
e nossas ânsias dionisíacas
o levarão à perdição.

Tivemos um Paraíso - há quantos anos?
Hoje caminhamos indecisos, com um gosto amargo nos lábios,
- acidulou-se o fruto que era mel -
E a solução talvez seja um canto e um balaio gregos
em que o amor será uma oferenda, imolado
aos deuses
por nossas próprias mãos!


Triste


Eu hoje acordei triste, - há certos dias
em que sinto esta mesma sensação...
E não sei explicar, qual a razão
porque as mãos com que escrevo estão tão frias...

E pergunto a mim mesmo: - tu não rias
ainda ontem tão feliz... diz-me então
por que sentes pulsar teu coração
destoando das humanas alegrias?...

E, nem eu sei dizer por que estou triste...
Quem me olha não calcula com certeza,
o imenso caos que no meu peito existe...

A tristeza que eu sinto ninguém vê...
- E a maior das tristezas é a tristeza
que a gente sente sem saber por quê!...


Uma resposta...


Não sabes a alegria em que fiquei
ao ler o que escreveste - o teu cartão
veio um pouco aquecer meu coração,
que de há muito na sombra sepultei...

A tristeza tornou-se-me uma lei
neste estranho pais da solidão...
- já nem sei como vais, nem como vão
aqueles que há mil anos já deixei...

Não penses mais em mim... Sou como um monge,
- não voltarei jamais para a cidade
e o tempo em que me falas vai bem longe...

Fizeste bem em não me acompanhar...
Tinhas toda razão... Felicidade
só eu mesmo encontrei neste lugar!...


Variações sobre o Mangue
(1941)



Mangue, navio encalhado
de altos mastros para o céu,
- os mastros, são as palmeiras
mastros de tantas bandeiras
que até parece que o mangue
quarda em seu bojo os destroços
de uma torre de Babel...

Desaguadouro da sífilis,
oh! purgatório da raça,
porto cristão da desgraça,
onde se confraternizam
francesas, russas, polacas,
e mulatas nacionais...
Niveladouro dos homens,
vazante de mil desejos
do oceano das multidões,
Democracia do sexo
no subsolo da vida,
sepulcro anônimo e triste
de infinitas gerações,
todos ali são iguais,
marinheiros ou sargentos,
choferes ou condutores,
mulatos, pretos ou brancos,
comerciantes ou caixeiros,
estudantes ou doutores,
todos ali são iguais...
Todos se amam, ninguém ama,
é mal que ninguém reclama
Mangue - és apenas a cama,
o pasto ralo, sem grama,
dos instintos nacionais!

Mangue, navio encalhado
já sem destino nem porto,
encalhado num “mar-morto”
com penachos de palmeiras
que são círios ou bandeiras
em festas ou funerais...
Desaguadouro da sífilis
cano de esgoto da raça,
vergonha da juventude
por ti quanta gente passa
e diz que não lembra mais,
- pedaço sujo de praia
no fundo de uma enseada
onde as ondas levam restos
que os próprios peixes não comem,
(e, entretanto, são restos
que alimentam muito homem... )

De quanta gente se sabe
que a sua vida constrói
à beira da praia suja
onde as ondas levam restos
que o próprio mas não destrói,
restos jogados às vagas
por mil navios diversos
de mil países talvez:
dois seios murchos, polacos,
dois olhos russos, doentes,
e adiante, um ventre francês!

De quanta gente se diz
que vive à beira da praia
onde os restos vão boiar,
onde restos jogados ao mar
por um navio feliz
ou, quem sabe se infeliz?
que seguiu a viajar
pro seu distante país...
Mangue, enseada de restos
de restos que vêm da praia,
de restos que vêm do mar,
país de restos perdidos
que entre si se entredevoram
para outros restos deixar...

Mangue, Utopia ao avesso
humanismo na desgraça
reverso da obra sonhada
com destroços erigida
no cristianismo da dor.
Mangue, um símbolo que passa,
refúgio de órfãos do sexo
dos que sofrem sem carinho
num mundo injusto e perverso,
dos que vivem sem amor...

Trecho da Bíblia arrancado
sem permissão do Senhor...
Quando o teu lodo secar
Mangue velho, velho Mangue,
do teu chão há de se abrir
a flor mais bela e mais pura
que um dia o céu vai cobrir...
Flor livre do amor, sem peias,
de alvas pétalas tão brancas
como o clarão das areias
cheias de sol e de luz,
flor livre do amor humano
sem correntes, sem tirano,
sem sacrifício, sem cruz...

E só então redimida
a tua vida de agora
a gente te esquecerá
na vergonha do que foste
num mundo como hoje está!
.........................................................................................

País de restos perdidos
que ficam boiando n´água
com as marés que vão e vem
num eterno leva-e-traz,
- rude país, deletério,
presídio de imenso império,
“selva selvagem” dos homens,
- menos homens, que animais...

Velho Mangue, cemitério
dos instintos nacionais.


Vergonha


Num mundo em que há migalhas e desperdícios
pratos cheios de restos enfastiados
e bocas a salivar sem ter pão;

e em que há crianças tristes, maltrapilhas,
que não terão nem livros nem recreios
nem mesmo infância no seu coração,

num mundo onde os enfermos são tratados
com a caridade irônica dos homens
proprietários dos próprios hospitais;

onde alguns já nasceram infelizes
e hão de viver sem segurança e paz
sem meios de lutar, abandonados;
e outros, trazem do berço as regalias
que hão de inutilizar, despreocupados;

num mundo onde há mãos cheias, trasbordantes,
e há mendigando, pobres mãos vazias;
onde há mãos duras, ásperas , cansadas,
e suaves mãos, inúteis e macias;

onde uns tem casa grande, com jardins,
e outros, quartos estreitos, sem paisagem;

num mundo onde os artistas, prisioneiros,
fazem “roda” nos mesmos quarteirões
sonhando sempre uma impossível viagem;
e há homens displicentes nos navios
carregando kodaks distraídas
que tem mais alma que seus olhos frios;
num mundo, onde os que podem, não tem filhos,
e os que tem filhos, quase sempre lutam
porque não podem construir um lar;

num mundo onde o mais leve olhar humano
vê-se que não há nada em seu lugar,
e onde no entanto fala-se em Direito,
em Justiça, em Razão, em Liberdade;

num mundo, onde os que plantam, pouco colhem,
e os que colhem, não sabem, na verdade,
de onde vem as colheitas que consomem;

num mundo, onde uns jejuam muitos dias
e outros, por vício, muitas vezes comem...

- sinto a angústia fatal de ter nascido
e a suprema vergonha de ser homem!


Versos a um canhão


Em meio às baionetas rebrilhantes, nuas,
aos toques de tambor, ao fremir das cornetas,
e à algazarra febril que se espalha nas ruas
arrastam-te em silêncio, em pesadas carretas

Ao seguires assim, pensativo e calado,
em meio à multidão que ansiosa se comprime,
lembras, a passo lento, um pobre condenado
levado ao cadafalso onde expiar seu crime!

Talvez tenhas noção do crime que praticas
se o perpetras distante, onde não chegue o olhar,
- atiras teu projétil, num rompante! e ficas
de joelhos como um monge em penitência, a orar...

Tanto remorso há em ti. talvez, dai culpas tuas,
e do mal que na terra entre os homens, espalhas,
que após cada estampido, assombrado recues
e ouves da retaguarda os gritos das batalhas!

Lá adiante, os homens lutam loucos e inconscientes,
e de vê-lo a lutar não te sentes capaz,
- como que te acovarda o entrechoque das “frentes”,
e te deixas ficar sozinho, para trás!

Gerou-te a desumana perversão da ciência
ninguém pode sentar-te no banco dos réus!
Tens “alma”, - mas ter alma não é ter consciência
e teu dedo para o ar, é uma apóstrofe aos céus!

Deus sem templo e sem fé, a castigar as terras,
teu culto tem mais fiéis que o de outro qualquer deus,
- vives para o esplendor litúrgico das guerras
e dos vis interesses de cristãos e ateus!

Bem outro poderia ser o teu destino:
- uma estátua, talvez, a um sábio consagrada;
mais humano serias continuando um sino
ou mais nobre, talvez, se apenas uma enxada!


Modelaram-te inteiro, - o corpo e a alma de aço -
que culpa então terás, se o próprio coração,
ao lançares no azul como a buscar o espaço
em ruínas faz o mundo ao deflagrar no chão?!

Defendo-te por isso, - tu, que após o estrondo
tens reflexos de horror ouvindo o próprio grito!
Pareces confessar tão alto o crime hediondo
na esperança falaz de acordar o infinito!

Te arrependes talvez... mas sempre muito tarde,
- e se chego a perdoar-te a inconsciência fatal
não perdoarei o engenho pérfido e covarde
daquele que te fez como um gênio do mal!

Bradas! Em vão têm sido os rudes brados teus!
E quem sabe se inúteis sempre o não serão?
E hás de ficar na terra, a apontar para Deus
numa paradoxal e ousada acusação!

Moderno Prometeu! No teu suplício atroz
no teu gesto impotente inteiro te redimes,
- que ao falares, é em vão! ninguém te escuta a voz!
nem sei de juiz capaz de bem julgar teus crimes!

Deus escravo aos cordéis da tragédia da guerra
os homens que te movem, seguir-te-ão também,
para depois com as mãos sujas de sangue e terra
recuarem como tu... tarde demais, porém!

.....................................................................................

Melhor fosses a estátua ou a pena de um poeta,
a ferramenta humilde de um trabalhador,
o sino de um colégio, o dardo de um atleta,
ou um símbolo qualquer de paz, trabalho e amor!


Vício...


Tu nunca bates no meu pensamento à hora de entrar.
Chegas de repente, invade tudo, e é impossível te expulsar
por que já sou eu que te procuro.

Não escolhes momento. É na hora séria ou na hora triste,
na hora romântica, ou na hora de tédio
por mais que me encontres fechado em mim mesmo
entras pelo pensamento, - clara fresta, vulnerável
às lembranças do teu desejo.

E quando chegas assim, estremeço até regiões ignoradas
e me levanto, e saio, sonâmbulo, a te buscar
e a caminhar a esmo...

Chegas - como uma crise a um asmático, - e então
preciso de ti
como preciso de ar,
e tenho a impressão de que se não te alcanço, se não
te encontro,
vou morrer, miserável, como um transeunte nas ruas,
antes que o socorro chegue para salvá-lo...

Depois que consegues atingir meu pensamento
tua posse é uma obsessão,
alcançar-te é um suplício...
Teu amor para mim - é humilhante a confissão.
não é amor, é vício...

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